A Retribuição
7 O Clube Diógenes
Notas iniciais
Londres, Inglaterra. 5 de Maio de 1900.
Clube Diógenes.
Sherlock Holmes fechou seus olhos.
Nada mais havia no Clube Diógenes que o silêncio. Ele conseguia ouvir o som do mover dos ponteiros do relógio da sala. Com um pouco de esforço, era capaz d e ouvir o seu também, ainda que discretamente. Ele ouvia também a respiração profunda de seu irmão, a cada inalada de tabaco. O som da rua também invadia seus ouvidos. Um jornaleiro, as carruagens que passavam sem parar, o trotar dos cavalos, algumas conversas aleatórias.
O ronco do estômago de Mycroft...
–Quieto, Mycroft. Eu estou tentando me concentrar.
–Não se pode nem demonstrar a fome em paz...
Holmes respondeu ao resmungo de seu irmão com outro resmungo. O silêncio retornou. Até que Holmes soltou uma exclamação repentina.
–Acho que sei o que fazer.
Os dedos de Holmes se moveram para a peça.
–Belo movimento. – disse Mycroft, analisando o tabuleiro de xadrez. Restavam ainda poupas peças, numa partida que se mostrava equilibrada. No entanto, Holmes acabou surpreendido por seu irmão mais velho, que capturou sua Torre. Holmes apenas grunhiu quando viu seu irmão mais velho tomando vantagem outra vez.
–E Esther, a propósito?
–Está bem. – disse Holmes, pensando em sua próxima jogada.
–Ainda tolerando de bom grado o tipo de relação que vocês possuem?
Holmes ergueu uma sobrancelha.
–Desde quando irritar o oponente com perguntas desnecessárias e impertinentes se tornou uma tática sua, Mycroft? Estou interessado em saber. – disse Holmes, movendo uma peça e capturando um Bispo de Mycroft.
–Desde que se passaram cinco anos que ainda vejo meu irmão vivendo a mesma vida estagnada e repleta de mentiras. – disse Mycroft, fazendo uma tática evasiva com a Rainha.
–Não deveria palpitar. Você pouco sabe sobre uma vida amorosa.
–Fala como se fosse um especialista.
Holmes resmungou. – Bom, eu tenho mais experiência.
Foi a vez de Mycroft rir. – Experiência, talvez. Mas não sabedoria. Holmes finalmente moveu sua peça. – Mesmo?
–Sim, pois do contrário, você teria dito a verdade a todos. E há muito tempo.
–O que quer que eu faça, então? Que publique uma nota pública? “Sherlock Holmes está casado com Sophie Sigerson”? Ou, já que vê tanta necessidade em revelar a verdade, eu posso também avisar ao mundo quanto a verdadeira identidade de Esther.
–Não é isso que quero dizer, Sherlock...
–Será que não percebe, mano Mycroft? Se eu revelar a verdade a Watson, no dia seguinte Londres inteira estará sabendo. Na semana seguinte, a Inglaterra. E em um mês, a Europa inteira.
–Você subestima seu próprio amigo, Holmes. Tenho certeza de que o Dr. Watson saberá ser discreto quanto ao assunto. – disse Mycroft, movendo um Peão. – Mas não é disso que você tem medo. Você teme perder a amizade dele, por mais que não admita.
–Não me faça rir, Mycroft... – disse Holmes, num tom zombeteiro, movend uma peça e depois retirando o Peão do irmão.
–Essa mulher mudou você, Sherlock. Por mais que não admita pra mim, eu sei que você sabe disso. O problema é que você não quer que os outros saibam também. Você está com medo de enfrentar as mudanças que um casamento irá provocar em sua vida.
Holmes riu.
–Eu já sou casado, Mycroft.
Mycroft observou, maliciosamente. – Você não vive necessariamente uma vida conjugal. Algumas horas de madrugada roubadas clandestinamente não faz de você um homem efetivamente casado. Você ainda vive toda a falta de obrigações de um homem solteiro, com os benefícios de um homem casado.
–E qual é o mau disso? – perguntou Holmes, balançando as mãos em rendição.
–Quão sujo e desonesto está sendo você, Sherlock! – disse Mycroft, levantando-se abruptamente. – Seu comportamento é deveras indecente! Não sei com quem aprendera a ser assim, tão... Vil e estúpido!
Holmes ficou chocado com a súbita explosão de seu irmão.
–Talvez seja hereditário. A canalhice, a falta de escrúpulos...
– Eu compartilho praticamente o mesmo sangue que você. Não ponha culpa naquele homem.
–Praticamente não é o mesmo. Você sabe disso melhor do que eu.
Essa insinuação só deixara Mycroft mais irritado.
–Por favor, Sherlock, pare de associar seus defeitos a Tery Cales – ou Moriarty, como prefere chama-lo. Acho que você pode ser melhor do que isso e assumir que isso vem de você mesmo, e mais ninguém. Você não costuma ter o mesmo comportamento quando exalta suas qualidades e virtudes.
Holmes riu.
–Será mesmo que essa “indecência”, como você mesmo definiu, não é algo hereditário? – ao ver Mycroft intrigado e se servindo de xerez, Holmes continuou. – Se você tivesse conhecido nossa irmã, Catherine, e sua obsessão por cometer incesto com o o próprio irmão, você me entenderia.
Mycroft suspirou.
–Você ainda não me perdoou pelo que aconteceu a Catherine, não é?
Holmes desviou seu olhar.
–Se você tivesse me dito que sabia que não encontraram corpo algum na época, que o enterro que eu presenciei era meramente simbólico, muita coisa poderia ter sido evitada. Mas você me atirou ao escuro, escondendo de mim informação valiosa.
–Você viu o caixão vazio, na madrugada antes do enterro. Eu não tenho culpa se seu cérebro foi fraco o bastante para rejeitar essa informação valiosa.
Ao perceber que foi insultado, Holmes resmungou. Entregando a Holmes uma pequena taça de xerez, Mycroft se aproximou da mesa.
–E com este movimento... – disse Mycroft, movendo uma peça. – Caímos em um impasse.
Holmes observou o tabuleiro com interesse. Sem dúvida, não havia mais o que se fazer. Aquela era uma clara situação de empate – pelo menos no xadrez.
–Foi bom jogar contigo, irmão. – disse Sherlock, bebericando do xerez. – Quando discutimos enquanto jogamos, o jogo sempre se torna mais interessante. Ainda mais porque á uma sobrevida a você, e raramente você perde para mim.
–Você está ficando muito atrevido, Mycroft. – disse Holmes, com um sorriso e se levantando. – Outro dia resolveremos este impasse, meu irmão. Aliás, se bem o conheço, sei que está na hora do seu chá. Creio que é hora de ir. Tenho ainda alguns assuntos a tratar.
O mais velho dos Holmes acenou um agradecimento, enquanto seu irmão ia embora, descendo as escadas do silencioso Clube Diógenes.
Colocando as peças no lugar, Mycroft ouviu a porta bater.
–Hum... Deve ser George com o chá e biscoitos...
Com um feroz apetite, Mycroft se dirigiu à porta, recepcionando não George, o conhecido garçom do Clube Diógenes, mas um estranho homem, acompanhado de Flint, o segurança. Este homem carregava uma maleta pesada de metal, e usava roupas de operário.
–Mr. Holmes, este é John. Ele está aqui para consertar a chave seletora do gás de sua sala.
–Oh, sim. – disse Mycroft,. – Há alguns dias eu estou tendo problemas para acender a lâmpada por causa dessa chave. Mas o curioso é que eu não me recordo de ter requisitado este serviço...
–Mr. Hamilton observou o mesmo problema, e chamou um técnico para averiguar. — afirmou prontamente o segurança.
–Entendo... — disse, Mycroft, franzindo a testa. — Bom. Esperem, eu vou mostrar a vocês onde fica esta chave. Venham comigo.
Enquanto conduzia os dois sujeitos para sua Sala de Estudos, Mycroft fez algumas observações.
–Então, “John”, ou seja lá qual for o seu nome, há quanto tempo você deixou a Rússia?
Ao ouvir aquela pergunta, John pareceu entrar em pânico. Quando prestes a formular uma pergunta, Mycroft o interrompeu, achando graça do assunto.
–Convivo com muitos estrangeiros. E sei reconhecer quando estou diante de um. Ainda mais alguém como você, que diria estar apenas há alguns meses aqui. Eu poderia dizer que o reconheci por suas vestes, que ainda são da sua terra natal, ou mesmo de sua postura de andar, mas não vou chateá-lo com tais pormenores. Pois bem, senhores, esta é a lâmpada. Podem consertá-la. Caso precisem de mim, estarei no andar de baixo. E lembrem-se de não fazer barulho, ou do contrário, serão expulsos.
Assim que a porta se fechou, o tal John se virou para o segurança.
–Você me disse que ele permaneceria aqui...
–E ele costuma permanecer, e neste horário. Creio que a visita do irmão dele o fez ficar um pouco fora da rotina. De qualquer modo, eu não garanti nada quando combinamos. Você está aqui dentro, não está? Portanto eu quero minha parte do combinado, ou eu...
E estes foram suas últimas palavras, antes de ter uma adaga a perfurar seu coração, fazendo o cair, já desfalecido, ao chão. John observava aquele corpo friamente.
Tudo bem. Não saiu como o combinado. No entanto, ele ainda tem chances de morrer. Eu não tenho dúvidas de que este andar virá todo abaixo, e que todo o resto entrará em colapso. Os prédios da Inglaterra podem ser mais fortes que os da Rússia, mas ainda assim, prédio é prédio. Isso servirá para dar conta do recado.
Porque, se não servir... Eu é que serei um homem morto.
Mesmo temendo por seu plano, John se dirigiu à instalação do gás, e começou a instalar alguns apetrechos.
Eu acho, Mr. Mycroft Holmes, que trarei um pouco de ruído ao seu estranho clube... Espero que não se incomode com isso...
OOOOOOOOOOOOOOOOO
–Mundo pequeno este, não?
Sherlock Holmes se virou, ao escutar a estranha frase, no meio da rua. Ele estava a apenas um quarteirão do Clube Diógenes, naquela tarde abafada, quando se virou para saber quem a proferiu.
Acabou encontrando o inspetor Edmund e Norah Reid.
–Inspetor-Chefe. – disse Holmes, deixando Reid orgulhoso. – Senhora.
Holmes estranhou o comportamento de Norah. Sempre expansiva e de personalidade, ele notou a senhora Reid praticamente se recolher em sua presença. Na verdade, ele ousaria pensar que ela tinha corado diante de si.
E não era um exagero. Norah era incapaz de disfarçar a estranheza da situação que acabara de saber. Diante do próprio Holmes em pessoa, bem diante de si, ela tentava imaginar o detetive com sua amiga. Algo impossível, até. Até pouco tempo atrás, Norah tinha quase certeza de que Holmes era efeminado. Não que isso fosse de todo ruim. Norah conhecia alguns homens efeminados, e nenhum deles era a “incorporação do mal e da devassidão”, como costumava dizer Edmund. A idéia de Holmes ser efeminado não era de todo descartável, uma vez que ele já tinha passado dos quarenta anos e permanecia solteiro e recluso. Após ler algumas histórias, e também ter tido algumas conversas com Reid a seu respeito, Norah começou a perceber que Holmes era apenas solitário, algo perfeitamente possível e até mesmo mais verossímil. No entanto, saber que ele levava um casamento secreto com sua melhor amiga há pelo menos cinco anos era algo que beirava ao inacreditável. Ela duvidaria, se tivesse escutado de outra pessoa, mesmo de Reid. Mas Sophie pareceu ter sido verdadeira durante essa revelação. Além disso, isso explicava a presença de Sophie naquela casa de subúrbio, quando Sherlock Holmes estava sendo caçado pela polícia e se encontrava bastante ferido. Pensando bem, até fazia sentido.
–Tendo muitos casos, Mr. Holmes?
–Alguns. No entanto, todos são medíocres e entediantes demais para a minha mente perspicaz. Desde a minha volta, não me deparei com nada muito desafiador. Creio que o tempo dos grandes desafios se cessou.
Norah rolou os olhos, para aquela observação que beirava à arrogância.
Céus, mas o que Sophie viu neste homem?
–O que não é de todo ruim. – observou Norah, tentando desafiar Holmes. – Sua falta de trabalho é sinal de que a sociedade está em bem-estar.
–Ou em ignorância. Crimes sempre irão existir, Mrs. Reid, afinal há muitos crimes que escapam do olhar do público. Crimes que ocorrem em lares aparentemente normais e saudáveis, em gabinetes e repartições públicas...
Norah pareceu concordar.
Hum... Pelo menos não parece ser um completo idiota.
–O silêncio parece sinal de calmaria, mas por vezes pode significar que...
A fala de Homes foi interrompida, entretanto, com uma explosão imensa, ocorrida em suas costas, a alguns metros de distância dali. O impacto foi tão grande que algumas pessoas na calçada, mais próximas dela, foram arremessadas. O próprio Sherlock Holmes cambaleou, se desiquilibrando e caindo no chão, tal como Reid e Norah. Em segundos, toda a rua foi envolta em fumaça espessa, que encobria a fuga desesperada dos pedestres, que sem entender o que tinha acontecido, limitavam-se a correr e gritar, em um tumulto generalizado.
–Mas que diabos foi isso?! – exclamou Reid, tentando proteger Norah, mas sem se esquecer de sacar o seu revólver.
–Parece que foi uma explosão! – disse Norah, observando Holmes estar em estado de choque. – Mr. Holmes?
–Mr. Holmes... – disse Reid, tentando retirá-lo do choque, sacudindo seu braço.
Após um breve momento de surpresa e pânico com a estranha situação, Holmes finalmente voltou a si.
–Aquele é o Clube Diógenes, Inspetor-Chefe. E meu irmão está lá!
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