A República do Chope
23 Capítulo 23 - Revelações
Notas iniciais
– Bem... porque eu já dei chance a outro. – Disse olhando para o moreno, fazendo todos assoviarem incrédulos e alguns até rirem dele. – Desculpe... – Em seu olhar, ele dizia que estava se vingando, apesar de lá no fundo, estar sentindo certa duvida do que estava fazendo agora. Mas não queria pensar nisso, então simplesmente deu as costas para um boquiaberto espanhol enquanto se aproximava do moreno também surpreso e depositava um beijo na boca dele, enquanto o puxava para longe dali, deixando Carlo para trás, sendo zoado pelos colegas. Ele sabia que ele seria humilhado agora e estava deliberadamente permitindo. Estava feita a sua vingança, apesar de não estar se sentindo tão bem quanto pensou que se sentiria.
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Aldebaran estava com seu carro e não levou muito tempo para chegar à república, mas ao invés de deixar Aioria em casa, simplesmente o arrastou para sua própria que dividia com a mãe, no segundo andar do bar. O leonino não entendeu, mas o efeito do álcool já atacava a sua mente de forma que se via incapaz de contrariar um homem daquele tamanho. Então, um pouco enjoado e tonto, se deixou levar até o quarto do grandão.
– Toma! Come isso aqui! – Deba falou enquanto jogava displicente nas mãos de Aioria uma pequena barra de chocolate ao leite.
– O que... o que está fazendo? – Ele perguntou confuso, dirigindo-se até a janela do quarto. Pôde ver a república dali e notou o sol se pondo. Lembrou-se de Mu, ele gostava de ver o pôr do sol. Comeu o chocolate com a imagem do ex em sua mente. Seu estômago reclamou um pouco pelo doce e ele fez uma careta involuntária, mas não teve maiores problemas.
– Você precisa comer açúcar pra aliviar sua bebedeira. Eu vou lá embaixo pegar um copo de água, espere aí. – Deba não esperou resposta e logo o deixou sozinho no quarto. Aioria suspirou. Não iria ficar ali para ver o que ele queria e então resolveu sair dali antes que ele voltasse. Arrastando-se e escorado pelas paredes, conseguiu chegar até as escadas, porém, para sua sorte, ou não, Deba percebeu o bêbado fugitivo e o arrastou novamente para o quarto.
– Mas o que você está querendo!? – Aioria reclamou quando foi jogado na cama.
– Nós vamos ter uma conversa! Mas antes, você precisa tirar esse tanto de álcool da cabeça. Eu não vou deixar o Mu te ver desse jeito... – Seu tom de voz era calmo, mas bem firme e autoritário. E logo depois entregou o copo com a água e mais uma barra de chocolate.
– Não me diga que se importa... – Aioria comentou irônico. Olhou desconfiado para a água e só então percebeu que realmente estava com sede, bebendo toda a água.
– Sim, eu me importo! – Ele disse e suspirou resignado. Entendia muito bem a razão de Aioria o tratar dessa forma, então somente pegou uma cadeira e a virou na direção onde Aioria estava, sentando perto dele. – Olha, eu posso não ter sido correto com você e com ele, mas sei o que é certo e o que é errado... E sei que o que eu fiz foi errado. – Ele disse olhando seriamente para Aioria. O leonino não soube muito bem o que dizer, então preferiu desviar o olhar em silêncio. Deba também se manteve em silêncio por um tempo, num silêncio constrangedor, até que Aioria decidiu e se pronunciou.
– Ainda bem que sabe...– Murmurou baixinho. – Era só isso? Queria assumir sua culpa e pedir desculpas? Agora é tarde! Vocês já fizeram a merda!– Rosnou.
– Não é só isso... Eu também queria dizer que a culpa é toda minha.– Assim que as palavras saíram de suas bocas Aioria riu cinicamente.
– Ah é mesmo?
– Sim, é mesmo. — Deba o interrompeu.– Eu... quando conheci o Mu vi em seus olhos uma verdade e uma pureza do qual não estou acostumado a ver. Eu trabalho num bar e eu não costumo ver muito isso... — Ele então se levantou, um pouco nervoso.– Eu sei que isso não justifica nada... mas é a verdade. Eu me encantei pela pureza dele e quis... quis tê-lo. Quis sentir de perto essa pureza. Não me leve a mal... mas eu estou sendo sincero com você. — Aldebaran estava de costas e não percebeu a expressão raivosa que se formou em Aioria. Sorte que ele estava bêbado ou aquela conversa terminara em mais uma briga.
–Eu percebi... mas ele É MEU, você entendeu?– Aioria rosnou agressivamente fazendo Deba se virar para encará-lo. Os olhos resignados do grandão surpreendeu e desarmou o leonino, que não falou mais nada.
– Eu sei, ele mesmo me disse isso.– Aioria o encarou desconfiado, mas não falou nada. - Ele sempre deixou claro pra mim que estava com você e que não tinha a menor chance de ficarmos juntos. É por isso que eu te trouxe aqui Aioria... Queria fazer a coisa certa. Eu gosto dele de verdade, não quero que ele sofra e eu sei que ele vai sofrer se você terminar com ele. O que você viu foi uma grande burrada que eu fiz. — Deba riu de lado, conformado, colocando as mãos no bolso e olhando pela janela. — No fundo, eu tenho inveja de você, mas sei que não poderia dar o que ele merece, ele é um cara muito legal mesmo... você tem alguém muito especial... então... faça a coisa certa e... não desperdice uma boa chance de ficar com alguém legal só porque eu não consegui me conter... — A sinceridade de Aldebaran chocou Aioria e o deixou sem palavras. Ele não sabia o que dizer. Nem o que pensar.
– Eu... - Aioria tentou formular alguma coisa para dizer, mas estava atordoado demais com as palavras do outro.
– Eu vou lá pra baixo. Se quiser dorme um pouco, pense no que eu te disse... - Aldebaran, percebendo que havia conseguido balançar o leonino, resolveu se retirar, deixando Aioria pensativo em seu quarto. Não era a sua ideia ficar ali muito tempo, mas a verdade é que as palavras do outro mexeram muito com ele, deixando-o sem saber o que fazer e nem no que pensar. É claro que a hipótese de Deba ter agarrado a força o namorado o ocorreu diversas vezes, mas tinha medo de estar se iludindo. Agora, com tais palavras, as desconfianças sobre a fidelidade do ex se tornavam menos concretas e faziam do sono do leão um pouco mais tranquilos.
Enquanto isso o celular de Aioria tocava insistentemente. Era Milo, que ainda estava na choppada, não sabia o que tinha acontecido com o primo. Quando deu por si não encontrava mais Aioria na festa. Foi Aldebaran quem atendeu o celular, visto que Aioria a essa altura já dormia, e o tranquilizou. É claro que o loiro reclamou muito por Deba ter levado o primo sem lhe avisar, mas pelo menos ele estava seguro. Mais tranquilizado quanto ao primo, e com o sumiço de Afrodite depois daquele escândalo, que por sinal ele mal podia acreditar que tinha acontecido, Milo resolveu dedicar todas as suas atenções ao sobrinho de Camus.
Na verdade, ele não sabia bem o que fazer, mas também não queria deixar que o garoto sumisse da sua frente. Certamente Shaka saberia o que fazer, mas ele não. Talvez o ideal fosse ligar para o amigo, mas não podia fazer isso na frente do garoto ou ele poderia se assustar ou querer fugir ou algo assim. Foi difícil convencê-lo a ficar com ele na choppada, não poderia correr o risco de que ele fosse embora. Mas também não adiantava segurá-lo ali para nada. Tinha que fazer alguma coisa. Milo matutava todas as hipóteses tentando achar uma solução.
–Porque não atende logo esse celular?– Cris, o sobrinho misterioso de Camus, perguntou ao ouvir pela enésima vez o celular de Milo tocar sem que ele desse sinal de que iria atender.
– Não... – Milo suspirou entristecido. — É o seu tio que está me ligando, mas nós brigamos e eu não quero falar com ele agora. Quer dizer, não brigamos, mas estou chateado com ele porque... bem, eu queria outra coisa e acho que ele não está querendo o mesmo que eu. — Milo mordeu o lábio inferior abaixando a cabeça, constrangido. Cris deu de ombros.
– Eu nunca vi meu tio se envolver sério com alguém. Depois que ele ficou viúvo nunca mais levou ninguém a sério. – Disse displicente, deixando Milo chocado.
– Viúvo? Ele era casado?
– Foi casado por seis anos e teve um filho, o Hyoga, que agora deve ter uns três ou quatro anos. Ele não te contou?
– Não... — Milo praticamente murmurou.
– Pensei que soubesse... - Milo riu amargo.
– Não... ele não me contaria algo tão pessoal, ele me considera apenas uma diversão... nada sério. — Comentou triste.
– Eu não acho...
– Está falando isso só pra me agradar.
– Não estou não. Na verdade, o meu tio é um cara meio difícil, muito na dele. Não é de falar sobre seus lances, mas com você foi diferente. Ele fala de você pra gente e... bom, nem mesmo o Saga ele falava como fala de você, então, acho sim que ele gosta de você.
– Você acha? — Milo não queria parecer um bobo iludido, mas não podia negar que as palavras dele o deixaram com mais esperanças.
– Eu acho... – Ele confirmou dando de ombros, mostrando que no fundo não se importava tanto e pegou mais uma cerveja. – Atende logo esse celular! – Na verdade ele estava ficando irritado com o barulhinho. Milo ficou olhando o telefone, vendo o nome de Camus no visor, indeciso se devia atender ou não. Olhou para o colega que bebia distraído a cerveja e tomou coragem.
– Alô? Milo? – A voz rouca e inconfundível de Camus entrou nos ouvidos de Milo e ele estremeceu imediatamente, acelerando seu coração, acabou fechando os olhos. Merda, estava completamente apaixonado por aquele ice berg!
*horas depois*
Aioria deve ter dormido por umas três horas, mas sentia como se tivesse dormido o dia inteiro. Levantou-se devagar e tentou ir ao banheiro e só depois se tocou que não estava em casa. Olhou em volta com uma vontade louca de fazer xixi, procurando o banheiro, mas não sabendo ao certo onde era. Ficou receoso de abrir uma porta, não queria encontrar Dona Gertrudes por lá, então mesmo com a bexiga quase estourando de tanta vontade, resolveu ir embora. A sua casa ficava do outro lado da rua, então era só apressar o passo. De fato levou menos de três minutos para chegar e logo de cara encontrou Shaka.
– Aioria... que cara é essa?! – Shaka perguntou enquanto enxugava as mãos com um pano de prato.
– Que cara?! – Ele perguntou levando às mãos ao rosto e esfregando.
– Essa aí... parece que foi atropelado por um trem!
– Ah... não é nada... eu só bebi um pouco demais. Eu preciso ir ao banheiro. — Fez menção de ir ao banheiro, mas logo Shaka o interrompeu.
– Espera... o Saga está lá. — Comentou simplesmente, sem maldade nenhuma em sua voz. Mas mesmo assim Aioria virou para encará-lo com olhar curioso.
– Professor Saga? O que ele veio fazer aqui?
– Ahh... Ele veio trazer uma pizza... – Shaka ficou desconcertado com a pergunta, mas tentou disfarçar.
– Só isso?
– É claro, o que mais seria? – Shaka perguntou dando de ombros. Aioria o encarou por um tempo mais, analisando, e depois sorriu, colocando as mãos no ombro do amigo.
– Shaka, meu amigo, você não precisa ficar sem graça. Não tem nada demais você sair com ele. — O loiro arregalou os olhos, mas logo se recompôs.
– Só que nós não estamos saindo. - Disse simplesmente.
– Ok. Mas você está doido pra isso. Ora, relaxa Shaka, aproveita e dá logo pra ele que todo já sabe que é o que você quer... - Aioria disse displicente, sem muitas pretensões. Só não esperava que Saga estivesse saindo do banheiro naquele exato momento e, claro, ouvido tudo. E a julgar pelo risinho mal contido no rosto, Shaka teve certeza que ele tinha ouvido a última frase, para seu total constrangimento.– Ops... - Murmurou baixinho. — Bom, eu vou ao banheiro. Com licença. — Se retirou sabendo que tinha feito merda e que ouviria muito mais tarde.
– Ele está bêbado. Não ligue para o que ele fala. - Shaka disse desviando os olhos para o pano de prato em suas mãos, completamente constrangido. Saga tentou disfarçar, mas estava achando muita graça do visível embaraço do loiro.
– Deve estar mesmo. Senti um cheiro leve de cerveja nele. - Concordou sorrindo enquanto voltava a sentar no sofá. Shaka achou aquilo estranho. Tudo bem que eles passaram a tarde toda e parte da noite comendo pizza, ora conversando, ora vendo filmes velhos na TV, e que achou tudo até divertido, mas será que já não estava na hora dele ir embora? Bom, seria educado e esperaria mais um pouco, mas se ele não fosse embora por vontade própria, ele mesmo pediria para ele ir.
Enquanto isso, Aioria tentava aliviar a expressão de quem tinha acabado de ser atropelado por um trem, principalmente por saber que a qualquer momento poderia encontrar com Mu e não é porque estavam separados que ele se deixaria ver naquele jeito. Depois de uma ducha rápida, começou a se sentir melhor, apesar de saber que nenhuma pasta de dente poderia aliviar o seu bafo agora. Não que estivesse deprimente, mas um beijo seria suficiente denunciar sua arte de mais cedo, mas e porque cargas d'águas estava pensando em beijos? Aioria conjecturava entre uma pose e outra frente ao espelho, até que tal atitude irritou o próprio que sem saber os motivos de estar agindo igual ao Afrodite quando se depara com um espelho, resolveu ir para o próprio quarto, sem se lembrar de que poderia encontrar o ex lá.
Ele pode até não ter se lembrado, mas foi exatamente o que aconteceu. E tal como aconteceu da outra vez, o encontrou e estancou o passo. Mu estava deitado na cama lendo um livro, parecia estar estudando. E ele parado na porta, com uma toalha branca enrolada na cintura, tentado a trancar a porta furtivamente como fez da outra vez, mas indeciso se devia.
– Oi... — Quem interrompeu o silêncio foi Mu, mesmo perdendo o fôlego com a imagem do namorado seminu.
– Oi... — Decidiu por fim manter a porta aberta. Ainda tinha muito que conversar com ele. Então apenas o cumprimentou e foi até seu pequeno armário para vestir-se, sem dizer mais nada. Mu acompanhava os passos do namorado pensando que agora ele parecia bem menos irritado.
– Eu estava te esperando. Onde você foi?– Resolveu sentar na cama, colocando o livro de lado.
– Fui com Milo na choppada. — Tentou responder o mais friamente possível enquanto escolhia algumas peças de roupas.– Você pode se virar? Eu quero me vestir. - Pediu.
– Ah... claro.– Ele não gostou muito, sentia-se triste pela forma como ele estava lhe tratando, era injusto, mas mesmo assim se virou e mesmo de costas, resolveu prosseguir. — Eu estava te esperando porque precisamos conversar. — Ouviu o moreno suspirar e abaixou a cabeça. Mas não recebeu resposta. — Aioria?
– Eu já sei o que vai dizer...
– Espera, deixa-me falar. O que aconteceu... eu não queria.– Ele ouviu o namorado deitar na cama e então se virou vendo-o colocar os braços sobre a cabeça. Ele colocou apenas uma bermuda clara.
– O Aldebaran já me falou... — Disse olhando para o teto. Mu arregalou os olhos.
– Como é?
– Ele estava na choppada e eu o encontrei. Ele estava com duas mulheres lá... e não era a namorada dele.– Disse e olhou para ele com um sorriso de escárnio no rosto. Depois voltou a olhar para o teto. — Nós conversamos e ele me trouxe para a casa dele, queria se desculpar pelo que fez, admitiu que te agarrou... enfim. Ele me contou tudo.– Deu de ombros. Mu permanecia incrédulo, sem saber o que dizer. Mas então isso significava que eles voltariam?
– E...?– Ele quis saber qual o peso disso para o namorado.
– Sinceramente? Não sei... – Ele foi sincero. Pensou bem e aquilo fazia sentido. Quer dizer, era óbvio que Deba era louco por ele, mas e Mu? O mais novo então pensou um pouco e depois sorriu, levantando-se e indo sentar na cama do namorado.
– Se ele disse que me beijou a força, que eu não queria, que eu tentei evitar e que eu nunca quis aquilo, então você pode acreditar porque é a verdade.– O ariano disse tentando ser o mais convincente possível, porém sabia que o orgulho ferido do namorado teimava em martelar em seu coração, fazendo-o retesar todo o corpo com a mínima aproximação.
– Só de me lembrar... eu... eu sinto uma raiva tão grande! – Ele disse entre os dentes, demonstrando que apesar de tudo ainda sentia muita raiva de tudo aquilo. Mu sentiu o coração apertar e acariciou o braço dele, chamando sua atenção, e quando conseguiu, pediu manhoso:
– Perdão... - No fundo Aioria já tinha perdoado. Em seu coração ele lutava para acabar logo com aquilo e agarrá-lo de uma vez e nunca mais soltar. Por outro lado, uma vozinha chata, a da insegurança, teimava em colocá-lo em dúvida sobre o que devia fazer. Suspirou e fechou os olhos, talvez assim tentando espantar seu medo.
O ariano sorriu timidamente e beijou delicadamente o braço dele, tentando chamar a sua atenção, mas nem assim conseguiu. Voltou a beijar-lhe, só que agora no peito, murmurando pedidos de perdão. Não ouviu resposta, mas sentiu que ele estremeceu então continuou passando pelo pescoço até a boca, distribuindo dois ou três selinhos, ainda murmurando pedidos de perdão. Quando se afastou lentamente, Aioria abriu os olhos e encontrou os de Mu sobre si, tão carinhosos e desejosos que sentiu como se todos os seus medos evaporassem. Alguns segundo mais de um diálogo silencioso e Aioria segurou carinhosamente a cabeça do loiro e se apossou de sua boca, num beijo saudoso, lento, molhado, íntimo, depositando naquela carícia todo o seu sentimento. Mu derramou uma lágrima de emoção, agora tinha certeza que tudo ficaria bem.
Enquanto isso, na sala, Shaka e Saga permaneciam em silêncio olhando para a TV. Depois do constrangimento que Aioria os fez passar, ficou difícil para o geminiano retomar o clima gostoso que levou a tarde toda para conseguir. Olhou de soslaio para Shaka e percebeu o quão travado ele ficou. Aquilo se tornou ainda mais estranho, pois ele não deveria ter dado tanta importância para o que Aioria disse.
– Eu estava falando sério quando disse que queria te conhecer melhor.– Saga comentou, trazendo a atenção do loiro para si.
– Uhum... eu sei.
– Bom... eu vim aqui mais pra isso mesmo... pra conversar, queria saber mais de você. E desde que eu cheguei falamos de tudo menos de nós. Você é bem reservado!- Ele riu.
– Você tem razão, eu não gosto de falar da minha vida com quem eu ainda estou conhecendo, mas não é isso. É só que... não tenho muito que falar de mim, na verdade. Eu sou indiano, e estou fazendo intercambio aqui. Estudo filosofia... eu nasci na Índia, mas meus pais não, por isso sou loiro... não tenho nada demais para contar. — Shaka deu de ombros, era o que ele precisava saber.
– Não quero parecer intrometido... mas você não falou nada sobre outros romances. — Arriscou e sentiu que tinha algo ali, pois Shaka suspirou um tanto enfezado.– Eu falo isso porque antigas experiências podem mexer com o nosso jeito e o nosso modo de ver a vida.
– Está falando de você? — Shaka ficou curioso.
– Também. Comigo não foi diferente. — Eles ficaram um tempo calado, analisando a situação até que o indiano resolveu falar.
– Eu não tive muitas experiências. Só um ex-namorado, então... não acho que ele tenha influenciado tanto no meu comportamento.
– E como você o conheceu?
– Desde crianças...
– Ah sei... tipo primeiro amor, não é? – Saga não gostou muito, esse tipo de experiência costumava marcar demais.
– Mais ou menos, não sei se posso chamar assim. - Shaka mordeu o lábio inferior, mostrando sem querer uma fragilidade do qual Saga não estava acostumado a ver. mas achou uma graça esse novo loiro a sua frente.
– Então posso ficar despreocupado? — Gracejou. Eles riram e depois Shaka confirmou com a cabeça, um pouco sem graça.
– Nós terminamos porque ele era muito ciumento e não queria que eu viesse para cá. — Shaka não soube por que revelou isso a Saga, mas se eles viessem a ter alguma coisa, seria bom que ele soubesse o quanto ele detestava crises de ciúmes.
– Eu entendo, minha ex-mulher também era assim. - Saga revelou sem querer. Mas ele se identificou tanto com aquilo que Shaka disse que a frase saiu espontaneamente.
– Ex-mulher? Você era casado?
– Sim, fui casado. Mas graças a Deus me livrei dela. — Shaka o encarou interrogativamente e Saga sorriu sem graça.– Ela era uma piranha, me traiu com metade dos meus alunos e a outra metade dos meus colegas professores.
– Oh... eu... eu sinto muito por isso.
– Não se preocupe, você não tem culpa.
– Deve ter sido difícil.
– Foi sim. Principalmente porque eu a amava muito, me casei achando que seria para sempre... enfim. Mas até que foi bom, depois que tudo isso aconteceu eu me libertei, conheci pessoas novas...
– E se tornou um libertino como ela... — Shaka disse mais por estar analisando a situação do que para ofender, mas acabou ofendendo e percebeu isso pelo olhar que ele lhe lançou.
– Eu não me tornei um libertino, apenas dei o troco... – Ele disse um tanto magoado, mas depois relaxou. — Mas depois ela sumiu e eu sofri pra caralho, demorei pra esquecer aquela vadia. Camus me ajudou muito nessa. Ele foi um grande amigo e foi na mesma época que ele ficou viúvo, então nossa amizade se estreitou ainda mais. Pouco tempo depois descobri que ele também gostava de homens. Daí para uma amizade colorida foi um pulo... - Shaka ouvia atentamente, enquanto Saga sem perceber revelava a maioria dos seus segredos.
Continua...
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