A ROSA CELTA

10 Capítulo 9 - TEMPERANÇA ANTES DO CAOS...


Notas iniciais
♥Olá, galerinha amada do bem!!!! Mais um capítulo e também mais agradecimentos pelo enorme carinho que eu recebo de vocês!! Sejam os comentários intensos, seja favoritando, seja a leitura silenciosa no celular. Tudo sempre é justo e perfeito e eu agradeço, sempre a presença especial de cada uma!!

Algol acordou. Tenso. Alerta. Pronto para um ataque. No entanto, a dor em seu braço o fez lembrar que estava ferido e escondido em um lugar nas montanhas. Ele ficou deitado sobre o catre de pele sem se mexer por um momento, ouvindo o som do vento na tenda, os passos no chão do lado de fora. Mesmo ferido, mantinha todos os sentidos em alerta, um hábito que tinha desde a infância e já salvara a sua vida muitas vezes.

Ele havia chegado. Aiacos sempre ficava ao seu lado e sempre trazia informações importantes. Surgia e partia com a rapidez e graciosidade de um felino. Podia reconhecer a suavidade do andar dele, que se assemelhava a Irusan de Knowth, o gato que vinha levar os humanos para o seu reino nas profundezas das raízes do Carvalho Dourado.

— Consegui um pouco de visco. – a voz enrouquecida confirmou a presença esperada.

O líder picto se esforçou para relaxar os músculos e Aiacos entrou trazendo uma sacola de couro, depositando-a ao lado do catre. Em seguida acendeu um pequeno braseiro e colocou uma tigela de água sobre as brasas. Assim que a água ferveu, verteu o visco em pó e fez uma pasta, colocando-a sobre uma tira de tecido limpo.

— Tomou cuidado ao vir? – perguntou Algol, franzindo o cenho.

Com um suspiro, Aiacos respondeu.

— É claro que sim. Acha que eu sou tolo para ser seguido? – falou o jovem, retirando o musgo colocado sobre o ferimento do picto.

Algol não respondeu, apenas posicionou-se de modo a dar acesso ao amante.

— O que vai fazer? – perguntou Algol, vendo Aiacos retirar um punhal de dentro das vestes e colocá-lo sobre as brasas, agora incandescentes.

— Está exalando um mau cheiro, vou ter que queimar o ferimento.Eu trouxe um pouco de vinho com ervas para ajudar com a dor.

O jovem picto encarou Aiacos e sentiu um misto de irritação e gratidão. Se, por um lado, sentia desejo pelo homem ao seu lado, por outro, não conseguia deixar de pensar em Albafica. Mesmo comprovando a traição do amigo de infância, ainda assim, ansiava em possuí-lo, quando devia querer matá-lo.

— Albafica lutou ao lado dos romanos. – deixou escapar.

Aiacos franziu o cenho, sorrindo por dentro.

— Eu disse que ele era um traidor.

— Agora eu tenho certeza e vou matá-lo.

— Então, aproveite e use o ódio para suportar a dor. – falou Aiacos, enquanto encostava a faca em brasa no ferimento de Algol.

O picto cerrou os dentes para não gritar e o conseguiu. Porém, seu estômago embrulhou de tal modo que ele teve de virar o rosto para vomitar. Aiacos estendeu-lhe o odre com vinho.

— Beba, enquanto eu costuro o ferimento e coloco o cataplasma.

Assentindo com a cabeça, Algol olhou para o rosto de Aiacos e um leve sorriso curvou seus lábios.

— Você devia ter sido um druida...

Aiacos também sorriu.

— Se eu fosse um, não seria de grande valia para você.

Algol fitou-o dentro dos olhos, sentindo uma emoção nova. Acreditou ser, apenas, o desejo se manifestando, mas a verdade era que Aiacos possuía uma força e energia que lhe fazia bem. Confiava nele, totalmente, algo raro em sua vida como líder de um clã cuja desconfiança era quase uma marca.

— Obrigado. – disse o líder picto e fechou os olhos.

Logo, Aiacos ouviu-o ressonar, o sono induzido pelo vinho. Afagou-lhe os cabelos fartos, limpando a camada fina de suor que brilhava na testa, agora relaxada.

— Durma, meu amado... – murmurou ele, beijando de leve os lábios entreabertos, enquanto deitava-se ao lado dele no catre estreito.

Com o braço dobrado sobre a cabeça, Aiacos se lembrava da primeira vez que estivera com Algol. O cheiro da pele, o coração acelerado, a forma como sentira prazer... Ele matara um soldado romano que o violentara e a gratidão que sentira, transformara-se em paixão. Seu corpo correspondera ao desejo do líder picto e, desde então, tornaram-se amantes. No entanto, sabia que Algol nutria um sentimento profundo por Albafica e isso precisava mudar... Ele precisa esquecer o druida, sou eu quem ele vai amar!

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Alanna, os servos e alguns líderes das aldeias próximas estavam na floresta dispostos em volta do carvalho antigo. Uma brisa fria balançava as folhas, enchendo o ar de aromas silvestres...

Vestindo uma túnica branca, Albafica enterrara as cinzas de Bridget junto das raízes da velha árvore, enquanto cada um dos presentes segurava um presente significativo. Sua mãe trazia um cordão de ouro, Dugald, uma sela de couro trabalhada, as crianças traziam coroas de flores e assim por adiante. Os objetos foram colocados em um baú de madeira e, em seguida, ele foi enterrado também. Os celtas acreditavam na jornada da alma em direção ao eterno e lhes forneciam aquilo que tinha significado, para que os carregassem. Não havia tristeza, nem lamentos, embora prateassem a perda, sabiam que era, apenas, uma passagem.

— Que possas alcançar o eterno, Bridget dos Brigantes, e, quando te banqueteares com os deuses, beba por todos nós!

Uma ovação se elevou, após a fala de Albafica e todos foram convidados para a ceia.

O jovem druida ainda ficou um pouco, refletindo sobre as mudanças radicais em sua vida, quando uma voz melodiosa irrompeu o ar. As folhas balançaram como se estivessem dançando, o ar tornou-se impregnado do perfume de rosas brancas e, no mesmo instante, uma águia majestosa cruzou os céus...

— No fim, ela se redimiu. – disse a jovem mulher, cujos cabelos ruivos caiam como uma cascata de fogo pelos ombros e costas.

Albafica fitou-a com um meio sorriso.

— Já faz muito tempo, Marin de Águia.

— A última vez, você era apenas um menino. Agora é um homem feito e quase um druida formado.

— E você nunca envelhece. – disse ele, agora com um sorriso aberto.

— Ser uma sacerdotisa tem as suas vantagens. Mas, não foi para isso que vim e sim para avisá-lo. Há uma sombra sobre nós. Bridget, apesar de tudo, vislumbrou a saída para o nosso povo em você, Albafica. E chegará a hora em que você terá de fazer uma difícil escolha para evitar um mal maior. Tome... – disse ela estendendo um broche de prata em formato de uma rosa. – No momento certo, invoque a proteção do seu sangue...

— Meu sangue?

Marin, apenas, sorriu e, de repente, uma bruma elevou-se do chão cobrindo-a, fazendo-a desaparecer tão rápido como havia surgido. O jovem druida piscou, estava sozinho, novamente, até uma voz forte se fazer ouvir.

— Parece que cheguei tarde demais.

Albafica virou-se lentamente, a emoção aninhando-se em suas entranhas. Era Minos e o fitava com a mesma intensidade de horas atrás, quando haviam ficado juntos.

— As nossas cerimônias são breves. – respondeu tentando não transparecer o quanto ele o perturbava.

Minos encarou-o e Albafica surpreendeu-se com o aumento da emoção. A beleza severa com uma estrutura óssea afiada como uma arma letal caracterizava aquele romano, porém os olhos eram ardentes e, quando o fitavam assim, intensos, o faziam esquecer de todo o resto. Era prazeroso, mas também aviltante se sentir assim!

— Vim avisá-lo que Públio não é mais um problema. Ele morreu hoje, vítima de um acidente fatal. Também fizemos uma cerimônia rápida e já mandamos avisar o imperador em Roma.

Albafica franziu o cenho.

— Como ele morreu?

— Bateu com a cabeça em uma coluna. Estava bêbado, como sempre.

O jovem apertou o broche de prata em sua mão.

— Você o matou?

— Por que diz isso? – questionou Minos surpreendendo-se com a perspicácia do jovem druida.

— Seus olhos... Eles expressam o que você não diz.

Minos respirou fundo e olhou ao redor. Não conseguia ocultar a verdade sob aquele olhar.

— Quando chegamos, ele estava exultante. Havia violentado e batido em um escravo, um garoto. Em seguida, afirmou que reivindicaria o parentesco que tem com você e seria o seu guardião. Eu resolvi que já era hora de acabar com toda aquela merda. Públio estava acostumado à impunidade e, mesmo que me incomode dizer isso, você tem razão quanto à justiça romana fora de Roma. Somos conquistadores e, muitos de nós, não tem freios quanto ao que é certo ou errado.

— Fez isso... por mim?

O oficial deu um passo à frente e segurou-lhe a mão. O calor da mão forte e calejada espalhou-se para o restante do corpo do jovem e, quando Minos passou o polegar pelos seus lábios, Albafica prendeu a respiração.

— Enquanto eu viver, nada e nem ninguém vai machucá-lo.

O tom de voz dele desarmou o jovem druida, mas em seguida, Albafica reagiu. Não desejava que Minos atraísse a violência por sua causa. Já bastava que ele fosse um legionário, um homem cuja vida era dedicada à batalha e ao flerte com a morte.

Todas as emoções que redemoinhavam dentro de Albafica explodiram pedindo passagem. Ele precisava romper aquele vínculo que começava a se estreitar entre os dois ou esta paixão acabaria os fazendo sucumbir.

— Posso me defender e você sabe disso. Não quero que faça mais nada por mim. – disse Albafica se afastando.

Confuso, Minos segurou-o com força pelo braço.

— Não ouse me virar às costas... Não depois de tudo o que aconteceu entre nós.

Albafica sabia que não podia se deixar afetar pelo fato de ver no rosto de Minos uma expressão que preferia não ter causado. Decepção, dor, rejeição. No entanto, ao mergulhar naqueles olhos e perceber-lhe o desejo primitivo, a centelha da paixão guerreira que tornava o oficial romano tão especial, deixou-se aprisionar pelo que via, permitindo-se ceder. Tocou-lhe a face, a voz, agora carregada de sentimento.

— Ninguém jamais me tocou como você. Mas, temos que nos afastar, Minos, ou acabaremos nos destruindo. Você representa Roma e eu, agora, terei que reunir os clãs. Eu desejo a paz e, para que ela aconteça, não podemos...

Minos não deixou que ele terminasse. O beijo foi violento, profundo, os dentes alvos do romano roçaram os lábios delicados de Albafica, rompendo a pele fina. Quando as línguas se tocaram, o gosto metálico do sangue misturou-se à saliva e nenhum dos dois conseguiu se afastar por um longo tempo.

Que força misteriosa os levava de encontro com tal violência? Por que aquele homem tinha o poder de subverter tudo o que acreditava ser certo, despertando-o para sensações que tinham o poder de submetê-lo?Porque fui amar este homem? Albafica e Minos não conseguiam evitar o turbilhão de dúvidas que os enredava vertiginosamente. Quando o beijo terminou, ambos estavam ofegantes e Albafica se sentia trêmulo por dentro.

— Adeus, Minos... – disse ele com o rosto em brasa e sem ousar fitar-lhe os olhos.

O oficial romano retesou a musculatura, permanecendo rígido e imóvel. Deixou que Albafica se libertasse dos seus braços e seguisse em direção a casa, olhando-o até que sumisse. Seu orgulho despontou forte, frente mais aquele desafio, e o incitou a não insistir. De certo modo, sabia que o druida tinha razão, como conciliar o que sentiam um pelo outro com tantas arestas para aparar?

Inspirou fundo e olhou em volta. Aquele lugar lhe transmitia sensações estranhas, mas reconfortantes. A natureza luxuriante da Bretanha contrastava com o urbanismo romano no qual nascera e estava acostumado.

E, assim como tudo a sua volta, ele e Albafica contrastavam entre si. O único ponto de união entre os dois era aquele sentimento que o fazia questionar verdades que até então eram imutáveis... Roma, poder, destino. Até onde iria? Qual preço estaria disposto a pagar?

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Imerso em pensamentos e preocupações, Minos retornou para a casa de Radamanthys. De imediato, foi até seu quarto, onde teve uma surpresa desagradável.

— Onde está? Tenho certeza que não retirei daqui. – perguntou em voz alta ao vasculhar, novamente, seu alforje de couro.

O pergaminho havia sumido! A constatação do fato deixou o oficial irritado e o fez chamar os servos e escravos da casa. Houve alvoroço, alguns cuidavam dos afazeres domésticos e tiveram de abandoná-los de imediato.

— Alguém mexeu aqui e quero saber quem foi! – disse Minos com um tom autoritário.

Todos se entreolharam, alguns ficaram com uma expressão de medo, outros suaram frio temendo o castigo que, certamente viria se o artefato não fosse encontrado. Foi então que Lune se adiantou.

— Senhor, por acaso é isso que procura? – disse o jovem se adiantando à frente dos demais com o pergaminho nas mãos.

Os olhos violáceos de Minos se estreitaram.

— O que isto fazia com você?

O jovem enrubesceu.

— O- O governador disse ter encontrado este pergaminho e que ele continha algo desprezível e ofensivo aos deuses. Ele ordenou que eu desse um fim. Disse que era para eu queimar, mas... Mas, eu não o fiz.

Aquele cretino! Eu devia tê-lo matado antes! Pensou Minos, antes de perguntar:

— E porque não?

O jovem elevou os olhos, também violáceos, e encarou o oficial. Apesar de ser um escravo, Lune possuía uma altivez que o fazia destacar-se dos demais.

— Ele era um homem desprezível, mesmo sendo um nobre e estar em uma posição de autoridade. Achei que poderia estar tentando prejudicar o senhor Radamanthys ou até mesmo o senhor. Não sei ler, mas vi que tinham muitas palavras e... decidi desobedecer a ordem.

— Fez bem. – disse Minos, aliviado. – Creio que merece um prêmio por sua lealdade. Sabe cavalgar e manejar uma espada?

— S-Sim, senhor. – respondeu o jovem um tanto confuso com a pergunta.

— Pois bem, de hoje em diante, você não será mais um escravo. Comprarei a sua liberdade e você será um de meus soldados.

Lune arregalou os olhos e sorriu. Não podia crer que tudo aquilo era verdade.

— Obrigado, senhor. – disse ele.

Minos assentiu e o dispensou. Dirigiu-se até o frigidarium, ansiando pelas águas gélidas a fim de reavivar seu corpo cansado. Radamanthys chegou, logo em seguida e juntou-se a ele.

— Então, estamos livres daquele imbecil e você assumirá o governo de Coria. A vida pode ser perfeita, não? – falou o tribuno batendo os dentes de frio.

Os dois deixaram as águas frias e dirigiram-se para as termas. A piscina com água quente desprendendo vapor, enchendo o ar com umidade e calor.

— Quase que isso não acontece. Aquele canalha havia descoberto minha indicação e mandou que Lune se livrasse do pergaminho. – disse Minos, agora sentindo o prazer relaxante das águas quentes.

— Sério? E como tudo se resolveu? – perguntou o tribuno com uma expressão interessada, o vapor na superfície das águas tocando o seu rosto.

— Lune não obedeceu e guardou o pergaminho. Hoje, quando fui pegá-lo e não o achei, convoquei todos e ele confessou. Aliás, quero comprar a liberdade dele. Um homem assim é de grande valor em um exército.

— Que assim seja. E já que estamos em negociações, poderia ceder seu soldado Valentine para que faça parte da minha guarda pessoal, enquanto estiver aqui?

Minos franziu o cenho, encarando o amigo.

— Desde quando você precisa de guarda pessoal?

— Desde que meu amigo aqui descobriu um lugarzinho quente e aconchegante em uma boca deliciosa... – falou Radamanthys olhando para o membro entre as pernas.

Uma gargalhada sonora ecoou pela terma.

— Sabia que a sua intenção de deixar um herdeiro cairia por terra, logo, logo.

— Errado, meu bom amigo. Ainda tenho a intenção, mas enquanto isso não acontece, vou me permitir ser feliz. E você? O que pretende com o druida?

A alegria fugiu do rosto do oficial.

— Uma coisa de cada vez. Primeiro, vou capturar o picto, depois assumir Coria e só então veremos o que acontece.

— Albafica terá de liderar e, mesmo que seu clã seja aliado de Roma, os outros podem ver nisso a chance de unir forças e se rebelar. O imperador pode não ver isso com bons olhos...

— Eu sei, por isso vou tratar de capturar aquele picto, fazê-lo de exemplo e depois estabelecerei as novas bases da aliança com os Brigantes.

— E... como ficaram as coisas entre você e Albafica.

— Um pouco complicado, mas vou resolver isso. Uma coisa de cada vez.

— Desejo-lhe sorte, meu amigo., muita sorte. – disse o tribuno mergulhando nas águas quentes.

Minos também mergulhou, tentando esquecer a inquietação e a falta que já começava a sentir do jovem druida.

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O cavalo negro forçou a cabeça para trás, mas o cavaleiro permaneceu ereto e olhou em volta. As construções de sapé e a fumaça nas chaminés indicavam atividade na pequena aldeia. Ao seu lado, a jovem com cabelos negros como a noite, observava alguns alvos de palha que, certamente, eram usados pelas crianças no treino para o combate.

— Pelo menos, esse lugar não é imundo e os aromas são até agradáveis. – disse ela para o cavaleiro.

O homem maduro e também com cabelos negros olhou-a, sem fazer nenhum comentário. Sentia fortes cãibras nas costas e nos quadris, efeito colateral de dez dias sobre uma sela dura. Mas, era um general, um veterano de guerra acostumado à severidade da carreira militar, fato que o tornara um dos mais ilustres legionários de Roma. Orgulhava-se da sua disciplina e da fama severa com que comandava suas tropas. Era considerado quase um deus e estar ali, fora uma decisão tomada com muita cautela, pois o pedido viera do próprio Nero. Quero que ponha fim em qualquer rebelião e convença seu filho em assumir o governo de Coria. Tive notícias um tanto perturbadoras do governador Públio, semanas atrás. Diz ele que os pictos estão cada vez mais fortes e que teme haver poucos romanos para cuidar deste assunto. Não acredito muito nele, mas também não posso ignorar certas coisas. Preciso de alguém forte e esse alguém é você.

Hades não via o filho há dezenove anos. A última vez em que falara com ele, fora o dia em que o levara para Esparta e lá o deixara aos cuidados de Leocades, um dos mais terríveis guerreiros espartanos e avô do menino. Com a instrução que fosse devolvido a Roma quando completasse doze anos, a idade certa para servir como soldado, Minos só retornou em seu aniversário para integrar a Décima Segunda Legião e, exatamente nove anos depois, tornar-se o mais jovem general a liderar a Fulminatta.

Sempre em campanha e chamado para guerrear na Espanha, África e Gália, Hades só ouvia falar dos feitos de seu filho e, de certa forma, preferia assim.

O fato de ter uma origem controversa, vindo a ser o fruto de um adultério entre um soldado espartano e uma nobre romana, permeara a vida de Hades e o fizera destacar-se acima de tudo e todos para sobrepujar o estigma. Entretanto, a mistura do sangue romano com o grego oportunizara que seu filho fosse treinado para o combate, antes mesmo de entrar para o exército. Minos tivera o mesmo treinamento pelo qual passara. Esparta era famosa pelo seu rigor e pelos seus guerreiros invencíveis. Seu pai dizia ter amado sua mãe e fizera questão de deixar-lhe um legado de força e determinação antes de retornar a sua terra natal. Se tiveres um varão, envia-o a mim e eu o transformarei em um soldado letal.

Aceitar sua herança guerreira e transmiti-la ao filho havia sido uma decisão da qual jamais se arrependera. E agora, quando o próprio imperador o incumbia de falar com Minos, tinha a oportunidade de conhecer o filho adulto.

— O que acha que Minos vai dizer sobre mim? – perguntou a jovem.

— Esta deve ser a menor das suas preocupações. – respondeu Hades, friamente.

A jovem sorriu. Tinha sido encontrada, ainda bebê, em um campo de batalha, junto da mãe morta. Ao invés de eliminá-la, Hades a recolhera e criara, permitindo que ela treinasse e se tornasse tão forte quanto um soldado de sua legião. No entanto, sua habilidade mais importante, era outra, ela era chamada de farejadora e possuía o talento de encontrar qualquer pista fosse o de uma pessoa ou animal. Diziam que ela herdara o poder de sua mãe e que a mulher devia ter sido uma feiticeira. Bobagens de pessoas supersticiosas! Falava Hades, cada vez que alguém mencionava o assunto.

— As coisas parecem calmas por aqui. – disse ela, quebrando o silêncio.

— As aparências enganam. – respondeu o general. – Vá na frente e veja quem é o líder desta aldeia.

Pandora obedeceu, batendo de leve com os calcanhares na barriga do cavalo. Avistou uma construção que se destacava das demais. Ali deveria viver alguém com uma posição dentro da comunidade. Galopou suavemente, até chegar à porta. Desmontou e bateu palmas. Logo, uma jovem ruiva surgiu, olhando-a com curiosidade.

— Sim?

— Gostaria de saber quem é o responsável por aqui. – disse Pandora notando o olhar curioso da jovem.

— Quem é a senhora?

Os olhos violáceos da guerreira brilharam de modo cruel.

— Alguém que acabará com a sua vida miserável se não responder a minha pergunta.

A jovem não demonstrou temer a ameaça. Quando pareceu que ela responderia, Albafica surgiu e a expressão de Pandora mudou. Ela olhou-o de cima a baixo, as narinas identificando um cheiro muito diferente, estranho, porém bom.

— Parece que é você quem manda, posso identificar pelo cheiro. – disse ela.

— Sou Albafica dos Brigantes. Em que posso ajudá-la?

— Eu sou Pandora e devo levar o líder daqui até o general Hades, comandante da Terceira Legião.

Albafica franziu o cenho, depois falou, calmamente.

— Diga-lhe que o receberei em minha casa.

Acostumada aos rigores da vida militar, Pandora imprimia a sua personalidade uma arrogância própria de quem estava sempre afirmando a sua autoridade e autossuficiência. No entanto, na presença daquele homem, ela se sentiu travar.

— Muito bem, levarei a sua mensagem. – disse ela.

Ao voltar para junto do general, Pandora transmitiu o recado e aguardou. Hades parecia uma esfinge, o olhar enigmático em um rosto cuja expressão era sempre indecifrável. Poucas vezes o vira perder a paciência, mas quando o fazia, sabia ser friamente cruel.

— As tropas já estão chegando para juntar-se a nós. Enquanto isso, vamos conhecer o inimigo. – disse ele.

— Inimigo? Mas, os Brigantes não fizeram uma aliança com Roma?

— Veremos. Minha experiência sempre diz para ficar alerta perante estes selvagens.

— O líder deles é bonito. E estranho, também. Tem algo nele que parece não ser deste mundo.

— Supersticiosa, agora? – questionou Hades fitando-a no fundo dos olhos.

— Não é nada disso. Só estou dizendo que ele é diferente.

— Deve ser um druida. É como esses selvagens chamam seus líderes espirituais. Nero os admira, embora creia eu, mais pelo exotismo que por qualquer outra razão.

Pandora assentiu e alinhou seu cavalo ao do general. Juntos, dirigiram-se até a casa de Albafica.

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A luz dourada do sol poente infiltrou-se pela janela, derramando-se sobre a mesa com vários pergaminhos. Os servos e escravos estavam em plena atividade, enquanto Valentine ousava tomar os lábios do tribuno nos seus. Por um instante, temeu que ele o repelisse, mas isso não aconteceu. Radamanthys se permitiu sentir o ardor do jovem soldado, fazia muito tempo que não sentia paixão em sua vida.

Beijaram-se com sofreguidão, bloqueando tudo mais, exceto a necessidade primitiva de extravasar toda aquela tensão.

Valentine sentiu seus pés serem erguidos do chão e gemeu quando as suas costas bateram com força na coluna de pedra. Preso, entre o áspero e o corpo largo e forte, o jovem soldado deixou-se despir da cintura para baixo, enquanto Radamanthys abria sua túnica, revelando uma ereção, extremamente, desperta e túrgida. Ele enroscou as pernas nos quadris do tribuno, colando o corpo, ainda mais ao dele, fazendo-o sentir que também estava excitado. O ato fez o corpo de Radamanthys arder e ele cobriu a boca de Valentine com a mão, penetrando-o com força e tão abrupto e profundo que o soldado levou a cabeça para trás e gritou...

Saindo de dentro do soldado, o tribuno ficou parado por um segundo, olhando Valentine nos olhos, absorvendo todas as expressões daquele rosto. Depois, mergulhou, estocando com força e Valentine gemeu quando bateu, novamente, com as costas na coluna sólida. Adorava aquela mistura de civilidade e selvageria, tudo o que queria era, sentir aquele falo quente invadindo-o com fúria. Prazer, furor e, até mesmo a dor rascante... Aquele homem o atraia como jamais sentira com outro.

— M-Mais forte... — gemeu no ouvido do tribuno, fazendo-o investir com mais ímpeto para dentro de si.

Radamanthys continha os gemidos e arremetia com violência, sentindo os dedos de Valentine ora, cravarem-se em suas costas, ora enroscarem-se, em seus cabelos desalinhados, puxando-os com desvario.

Valentine sentiu quando Radamanthys retesou-se, sentindo o orgasmo se aproximar, tentando controlar-se, mas não resistindo ao prazer de tomá-lo, profundamente. O jovem soldado exultou e, com um gemido rouco, provocou-o, ainda mais...

— V-Vem...M-Mais forte! Me faz...gozar.....!

Totalmente entregue ao calor e prazer de sentir-se engolfado por Valentine e pelas obscenidades excitantes que ele murmurava próximo ao seu ouvido, Radamanthys estocou mais forte e rápido, afundando-se mais, enchendo-o com o seu gozo tão profunda e desesperadamente quanto podia. De sua garganta saiu um grunhido abafado e ele sentiu seu tórax ser molhado pelo sêmen do soldado que também chegava ao orgasmo. Os dois tremeram, convulsos e se agarraram com força, as bocas se encontrando sem fôlego, o coração batendo violentamente por todos os poros.

O tribuno levantou a cabeça enfiada na curvatura do ombro de Valentine onde a pousara buscando recuperar o fôlego. Mexeu-se um pouco, sentindo a respiração ofegante e quente do jovem em seu pescoço. O afastou da parede e o pôs de pé, sentindo um tremor nas suas por ter fodido naquela posição.

— Fazia muito tempo... que eu não me sentia assim... – disse o tribuno, ainda ofegante.

Valentine sorriu.

— Eu também... Espero tê-lo deixado satisfeito, senhor. – disse o soldado com um tom de malícia na voz.

Radamanthys sorriu e passou a língua nos lábios umedecidos.

— Você pertence a minha guarda pessoal e vai poder cuidar da minha satisfação, mais tarde...

— Sempre que solicitar, senhor.

—Venha, acompanhe-me até as termas. – falou o tribuno.

Ainda sob o efeito do orgasmo intenso, Valentine sentiu algo escorrer por entre suas pernas. Acompanhou o tribuno, admirando-o em segredo e aproveitando todos aqueles momentos cheios de erotismo e prazer.

Mais tarde, após possuir Valentine, mais uma vez, um feliz Radamanthys adentrou a sala para ler suas correspondências no final da tarde. O selo do imperador chamou-lhe a atenção e ele praguejou por não tê-lo visto antes. Após abrir o pergaminho, um vinco profundo formou-se entre suas sobrancelhas.

— Ah, meu amigo... não desejava ter que dar-lhe esta notícia. – murmurou para si mesmo, após ler o conteúdo do pergaminho.

Uma tímida serva adentrou a sala, trazendo uma bandeja com vinho e pão fresco.

— O oficial Minos deixou-me alguma mensagem? – perguntou o tribuno.

— Apenas que estaria no forte ao leste, meu senhor.

— Mande um mensageiro levar-lhe isso. E diga-lhe que não pare até chegar e entregar este pergaminho em mãos. – disse Radamanthys entregando o objeto nas mãos da serva.

Assim que a jovem deixou o aposento, Radamanthys ficou pensativo. A presença de Hades ali mudava tudo. Públio já estava tramando algo, antes mesmo de ser eliminado e não saber a extensão desta conspiração trazia uma incerteza muito perigosa, principalmente, porque a presença do general da Terceira Legião significava varrer da face da terra todos aqueles que Roma considerava inimigos declarados ou em potencial. Hades não era um pacificador e sim, um ceifador da morte.

Notas finais
♥ Pois é, a situação se complica com a chegada do Ceifador... ♥Espero vocês no próximo capítulo!! Bjs, obrigada por me acompanhar e bom início de semana!!