A ROSA CELTA

9 Capitulo 8 - POR AMOR...


Notas iniciais
♥ Obrigada, a todos pelo teu carinho. É sempre um presente e uma benção!! ♥ O poema que abre o capítulo é de Manuel Bandeira e eu fiquei extasiada em como casou bem com o casal. Espero que gostem do capítulo!!! XD

Teu corpo claro e perfeito,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...
Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado...

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...
Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Quem em antigas se derrama...
Volúpia da água e da chama...

A todo o momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

O ar da noite estava frio e o fogo da lareira havia se extinguido. Minos estava acordado sentindo Albafica junto a seu corpo, os dois, ainda nus, aquecendo um ao outro numa intimidade inédita que, no entanto, parecia tão certa.

Mantendo os dedos entre os cabelos longos do jovem druida que ainda dormia, o oficial observava a respiração suave que fazia subir e descer o peito de Albafica. A simples visão do movimento, acrescida da expressão relaxada do belo rosto, fez Minos sentir uma estranha ternura... Ele continuou admirando o corpo esguio que o levara à loucura e, afastando os fios que teimavam em cair sobre a face alva do jovem druida, sentiu-se perturbado pela intensidade de seus sentimentos.

Minos era um homem experiente. Em seus 29 anos, havia tido muitos amantes e desfrutado intensamente do sexo e da paixão. No entanto, jamais sentira algo semelhante ao que havia acontecido com Albafica. Era a primeira vez que sentia aquela conexão, inquietante e profunda, que abria um espaço dentro de si de um modo tão incisivamente subversivo.

Albafica se remexeu, murmurando algo. Minos percebeu um leve arrepio na pele alva e, para não soltá-lo, moveu a perna prendendo o cobertor com os dedos dos pés e puxando-o sobre ambos.

O jovem abriu os olhos devagar e, de repente, deu-se conta que tudo o que havia vivido fora real e não um sonho. Seus olhos sonolentos se fixaram nos de Minos que estavam alertas e fixos em si. Sua mão acariciou a face do oficial romano que fechou os olhos sentindo aquela carícia atingir o seu coração e, ao mesmo tempo, incendiar o seu corpo.

— Cheguei a pensar que estava sonhando... – murmurou Albafica.

— Não é um sonho, é real. Espero que não esteja arrependido. – disse Minos roçando os lábios na mão que o acariciara.

— Nunca. Jamais me arrependerei deste momento, mesmo que...

— Mesmo que...?

— Você sabe.

A linha entre as sobrancelhas de Minos formou um vinco.

— Não, não sei.

— Não há futuro para nós. – respondeu Alba fica tentando não demonstrar o quanto aquilo o afetava.

— Não sei nada sobre o futuro, mas sei sobre o aqui e o agora. – falou o oficial com uma expressão feroz, enquanto continuava a passar os lábios, agora em cada dedo da mão do jovem.

Albafica tentou articular uma resposta, porém, Minos não permitiu. Após fitar a curva do lábio inferior dele, o oficial mordiscou-o de leve, antes de invadir-lhe a boca de forma quente e lenta.

O jovem druida sentiu-se amolecer e cair, novamente, naquela voragem erótica que o fazia ansiar pelo corpo de Minos, seu cheiro, seu gosto, seu calor... Um gemido baixo escapou de seus lábios, enquanto se agarrava às costas musculosas e colava seu corpo ao dele.

Minos levou os lábios aos mamilos túrgidos de Albafica, arrancando dele mais um gemido. Depois, carinhosamente, afastou uma mecha de cabelos revoltos dos seus olhos e o fitou cheio de um desejo selvagem.

— Eu quero você e é isso que importa... – em seguida, beijou-o de um jeito sôfrego, desesperado e possessivo, semelhante ao sentimento que aquele homem lhe despertava.

Quase sem fôlego, Albafica entreabriu os lábios e murmurou:

— Também quero você...

O jovem druida sentiu a excitação incendiar seu corpo e, pela primeira vez tomou a iniciativa de tocar e roçar os lábios no dorso nu de Minos. Surpreso, o oficial gemeu de satisfação, seu membro ficou ainda mais túrgido. O jovem druida alisava a pele quente que revestia os músculos duros do peito e dos braços de Minos, deliciando-se com a sensação de tê-lo sobre si e pressionava sua nudez de encontro à dele fazendo-o sentir e saber que desejava ser dele...

Vagando com seus lábios e sua língua pelos mamilos túrgidos, sugando-os e mordendo-os com volúpia, Minos demonstrava entender a mensagem e continuava a exploração, totalmente transtornado, imerso na luxúria que o despertara de forma desesperada.

Enquanto beijava Albafica, Minos buscava as mãos do jovem druida e deslizava as suas sobre elas, até entrelaçar os dedos nos dele, estreitando o contato dos corpos, sentindo os fluidos do desejo gotejando, ao longo das sombras de suas coxas na penumbra...

Depois levou a mão de Albafica à boca, sugando seus dedos devagar, lambendo o dorso e a palma de sua mão, mordendo, acariciando, fazendo o jovem descobrir mais uma zona erógena em seu corpo. Sentia uma voracidade oral que o fazia desejar provar cada pedacinho do corpo de Albafica, deixando marcas avermelhadas, marcando-o com um prazer sublime e possessivo...

Albafica sentia pulsar dentro de si um instinto mais profundo que a razão e, de repente, todos os impedimentos que aquela relação traria evanesceram e só havia aquele momento... Suas mãos extasiavam-se em tocar as costas largas, em sentir a plenitude das coxas musculosas, em fundir-se na pulsação de um membro latejante roçando o seu...

— Quero você dentro de mim...

A visão de Albafica dizendo aquelas palavras excitou Minos de uma forma inédita e devastadora que misturava erotismo e aquele algo mais que ele não conseguia negar. Estar com Albafica era tão terno e, ao mesmo tempo tão selvagem que o levava a experimentar um deleite quase insuportável. Os sons, o gosto, a intimidade, era tudo diferente de outras relações e, ao mesmo tempo familiar, como se finalmente, tivesse encontrado parte de sua alma e preenchido um espaço que permanecera vazio por tanto tempo dentro de si.

Minos afastou as pernas de Albafica e se insinuou ainda mais entre elas, enquanto sua língua traçava círculos molhados lambendo e sugando a pele rente ao pescoço, a nuca, a curvatura dos ombros... Continuava explorando os lugares mais íntimos do corpo do amante, seus quadris se alinhando sobre os dele, as mãos deslizando para o meio de suas pernas para sentir-lhe o falo rígido e tocá-lo, arrancando gemidos ainda mais altos, enquanto sua língua escaldante continuava a morder e atormentá-lo com aquela torrente de erotismo que fazia a carne exultar e o sangue pulsar violento...

Então, quando ambos os corpos suplicavam para serem satisfeitos, Minos ergueu-se e puxou Albafica pelos quadris, penetrando-o lenta e profundamente. O jovem ergueu as pernas e entregou-se por completo, vendo o falo do oficial enterrar-se inteiro dentro de si, sentindo-se preenchido em meio à dor e ao êxtase...

Minos sentiu, mais uma vez, uma espiral de prazer abarcar seu membro. Albafica era quente, estreito e pressionava seu falo de um jeito que o alucinava. Estancou um pouco, olhando dentro dos olhos do amante, esperando passar a dor inicial e depois se moveu com força, sua virilidade intumescida arremetendo fundo dentro do corpo do jovem. Gemeu rouco, engolido pelas trevas voluptuosas que o apertavam, adentrando as paredes estreitas e ardentes e sendo devorado por suas profundezas famintas, fazendo-o vivenciar um prazer violento e insano dentro de si.

Albafica ofegava, a boca abrindo-se para puxar o ar, as pupilas dilatadas, o rosto em brasa, a cabeça jogando-se para trás ao sentir o amante aprofundado em seu corpo... Apertou o corpo de Minos segurando-o pelas nádegas, cravando os dedos nela de forma ardente, deliciando-se em ouvi-lo grunhir de prazer, enquanto se arremetia cada vez mais forte contra si...

Os quadris de ambos moviam-se, quase por conta própria, sincrônicos, intensos fazendo Minos arremeter cada vez mais rápido e Albafica acompanhar aquele bailado tresloucado. O ritmo cadenciado do entrar e sair do falo levando ambos, aos tremores que antecediam ao clímax...

O coração de Minos batia loucamente e o de Albafica também. Os movimentos intensos cobrindo a pele com uma febre erótica que se expandia por todos os nervos, poros e células de seus corpos. Minos imprimiu mais força, tocando as paredes da entrada estreita sem parar, atingindo um ponto profundo dentro de Albafica fazendo-o ofegar de prazer e projetar à pélvis de encontro a dele, sentindo mais uma vez aquela profunda conexão com tudo ao seu redor. O barulho dos insetos da noite, a fragrância almiscarada da terra úmida, o aroma do orvalho mesclado ao cheiro das peles...

Albafica se agarrou àquela conexão e sentiu Minos investir com mais intensidade, o falo entrando e saindo firme, túrgido, aquecido pela cavidade que o sugava, prendendo-o cada vez mais dentro de si. Então, sem suportar mais o crescente e selvagem ardor, Albafica arqueou o corpo e grunhiu, sentindo as contrações apoderando-se do falo que o penetrava e, em seguida, o orgasmo invadi-lo com fúria, fazendo-o derramar-se quente contra o abdome de Minos, enquanto ao mesmo tempo, ele estocava uma vez mais e gemendo alto, o preenchia com seu gozo.

Os corpos ficaram unidos num abraço cúmplice, com Minos deitado sobre o corpo de Albafica, até a respiração voltar a serenar e o coração parar de retumbar nos ouvidos. Ofegante, Minos voltou a sussurrar no ouvido de Albafica:

— É só isso que importa... Eu e você... agora.

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A escuridão parecia uma entidade viva e Alanna experimentava uma sensação de medo iminente, como se a qualquer hora, algo de ruim fosse acontecer. Ouvia passos e vozes, mas não havia ninguém ali. De repente, uma mão invisível agarrou-a pelos cabelos e atirou-a dentro de um enorme e profundo buraco. O som do baque produzido pelo seu corpo ecoou como se fosse um trovão e seus dedos crisparam-se na terra úmida... Entretanto, em meio à escuridão, o rosto de sua mãe surgiu murmurando... “Você é minha filha. Você é forte e parte de mim. Eu nunca disse, mas amo você”

A respiração acelerada acompanhou o seu despertar e Alanna sentou-se na cama com o coração disparado e a testa molhada de suor. No mesmo instante, uma serva entrou, avisando-a que havia um homem esperando para falar com ela.

Percebendo-lhe a palidez, a serva perguntou em um tom suave:

— Precisa de ajuda, senhora?

— Traga-me uma bacia com água, Ewing. Quem deseja falar comigo?

— Dugald do clã dos Carvécios, senhora.

Um suspiro escapou dos lábios delicados.

— Diga-lhe que o receberei assim que me aprontar.

— Sim, senhora.

Algum tempo depois, Alanna se esforçava para ficar firme no centro do salão. Suas pernas estavam enrijecidas, porém ela continuava altiva, enquanto as notícias sobre a morte de sua mãe lhe eram dadas por um homem corpulento, acompanhado por dois meninos.

— Sinto muito, ter-lhe trazido esta notícia, minha senhora. .

— Obrigada por vir me avisar, Dugald dos Carvécios. Pelo menos sei que meu filho está bem. – disse ela com a voz embargada.

O homem avaliou-lhe a expressão.

— Se precisar de alguma coisa, pode contar conosco.

— Eu agradeço. – disse ela olhando paras as pequenas chamas na lareira recém-acesa. – Mas, antes de tudo, precisamos preparar os ritos de morte.

O homem saudou-a e retirou-se com as crianças. Um clima sombrio pareceu descer sobre o salão e Alanna abraçou o próprio corpo sentindo-se tomada de tristeza. Deixou o salão e foi até o pomar. Ali, escolheu um lugar reservado longe de todos e sentou-se junto ao tronco de uma macieira. Só então se permitiu chorar. Não era próxima de sua mãe e chegara a duvidar ter sido amada por ela. Mas, perdê-la desta forma criava um grande vácuo em seu coração. E ainda tinha o sonho... Pode sentir a presença de Bridget, as palavras amorosas nunca ditas, enquanto ela estava viva, mas tão claras no sonho tumultuado que lembrava até mesmo do timbre da voz.

— Mãe... Porque tivemos que chegar a isso? – murmurou baixo, enquanto as lágrimas escorriam pela face alva.

Um vento repentino levantou as folhas secas do chão, formando um pequeno redemoinho. Alanna fechou os olhos e ouviu, novamente, aquele sussurro, sentindo um toque suave na face. A presença forte foi breve e se foi junto com o vento que, assim como começara, logo terminou. As folhas tornaram a compor um tapete dourado sob os seus pés e um sorriso fraco brincou em seus lábios delicados... Mãe.

— Senhora?

O chamado da serva fez com que Alanna saísse do lugar onde estava e fosse até ela. Limpou o rosto com as costas da mão e ergueu a cabeça. Sua mãe não gostaria de vê-la abatida, após dar a vida para que ela pudesse alcançar Albafica. No fim, ela nos amou. Foi do seu jeito, mas nos amou...

— Sim?

— O governador está aí.

— O governador? – questionou Alanna sentindo um arrepio na nuca.

A serva fez que sim com a cabeça e Alanna apressou o passo com a mente cheia de dúvidas e medo.

— Salve, Alanna dos Brigantes. – Públio cumprimentou-a com um sorriso de raposa, enquanto os olhos ostentavam um brilho cruel e interesseiro.

— Salve, governador. – respondeu ela. – O que o traz a minha casa? – ousou perguntar sem rodeios.

Públio sorriu.

— Soube dos acontecimentos e venho prestar-lhe os meus pêsames e, também, dizer-lhe que decidi tornar-me o mentor de Albafica. Ele tem o meu sangue e...

— Vai reconhecê-lo perante as suas leis?

— Vou tornar-me seu guardião. Não posso mudar certas coisas. – respondeu ele pigarreando.

— Com o devido respeito, governador, Albafica já tem vinte e um anos. Em um ano ele se tornará um druida completo e será ele quem guiará o nosso clã. Ele não necessita de um guardião.

Com o cenho franzido, Públio encarou o rosto delicado e os olhos claros e implacáveis. Não contava com aquela resistência e isso o desagradava. Teria que usar de outra estratégia ou jamais teria Albafica perto de si.

— Sei que deve estar transtornada pela tragédia que sofreu. Vamos conversar em outro momento. Lembre-se que ser aliada de Roma poupará muitos sofrimentos ao seu clã. – falou enfatizando a ameaça velada.

Alanna nada disse, ficou ali parada fitando aquele homem que lhe dava arrepios, enquanto ele lhe dava as costas. Vá sonhando, romano... Não pense que porá as mãos no meu filho!

— Pode ter certeza que eu me lembrarei, governador. Agora, peço que me dê licença, tenho que me preparar para os ritos.

— É claro, minha cara. — disse ele, observando Alanna pelas costas e sorrindo, vitorioso, por dentro.

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Logo ao amanhecer, a tropa romana deixou a aldeia e, pela primeira vez na vida, Albafica sentia desconforto ao cavalgar. O trepidar incessante do cavalo, junto com as consequências de uma noite intensa de sexo o fazia sentir dor em certo lugar de seu corpo. Olhou para Minos que comandava a tropa de forma altiva e desviou o olhar. O simples fato de observá-lo, despertava em si, lembranças da boca, das mãos e do corpo dele no seu...

Antes de deixarem a cama, permitira que o oficial o possuísse, mais uma vez e explorasse sua boca com a língua em beijos profundos e cálidos... Quando, enfim, os lábios se separaram, ele soube que amava aquele romano de corpo e alma.

— Albafica!

O som do seu nome pronunciado com veemência o fez interromper seus pensamentos e então, ele deu-se conta que já estavam perto das terras dos Brigantes, as suas terras.

— Sim?

— Você vai para casa cuidar dos ritos fúnebres da sua avó.

O jovem franziu o cenho.

— Está me libertando?

— Sim, estou. Eu me entendo com o governador.

— Minos...

O oficial sorriu de forma arrogante.

— Vá, druida.

Albafica retesou os músculos, angustiado. Por um lado, sabia que Minos gozava de certo status, porém desafiar um governador talvez fosse demais.

— Eu irei. Mas, assim que terminar os ritos, eu irei até Públio resolver a questão que tenho com ele.

Minos manobrou seu cavalo para ficar mais próximo de Albafica, ignorando os olhares dos soldados e de Radamanthys.

— A partir de agora, Públio é um problema meu, somente meu. Fui claro?

Os olhos azuis acinzentados encontraram o olhar firme do oficial romano. E ali, estava o soldado inflexível e dominador. Não havia o mínimo vestígio da ternura ou da paixão e sim da força e determinação de um homem acostumado a comandar.

— Já que está sendo claro, também o serei, oficial. Com a morte de minha avó, a aliança com Roma se estabelecerá em outros termos. Sou eu quem deve cuidar disso e é o que farei. Agradeço o seu apoio, mas como eu disse desde o início, os Brigantes sabem cuidar de si mesmos.

Minos inspirou fundo. A linha entre o amor e o ódio era muito tênue... Num momento perdia-se de paixão no corpo do jovem druida que se entregava sem reservas, mas agora, tinha vontade de sacudi-lo por ousar recusar sua proteção diante de todos... Definitivamente, não conseguia entender os sentimentos, principalmente os seus que, por mais que Albafica o irritasse, ainda assim o subjugavam diante do olhar e da fleuma daquele homem!

— Sei que podem, mas o assunto pendente entre você e o governador está sob a minha jurisdição. Não esqueça, druida, que a governabilidade dos clãs depende da aliança com Roma e eu a represento. Agora vá.

Albafica não retrucou, deixando que Minos desse a última palavra. Talvez ele estivesse certo e sua atitude, apenas refletisse o que ambos sabiam e, por alguns momentos se recusaram a admitir. Pertenciam a mundos diferentes e nem mesmo aquela paixão que os unia seria capaz de subverter esse fato.

Radamanthys percebeu a postura retesada do corpo do amigo e se aproximou.

— Pelo visto vocês se entenderam e... Desentenderam-se, novamente. – falou baixo.

— Albafica é orgulhoso demais e isso me exaspera!

Igualzinho a alguém que conheço...

Minos olhou feio para o tribuno.

— Vocês dois são muito semelhantes em vários aspectos. – continuou o tribuno, ignorando o olhar agressivo de Minos. — Pena que nasceram em culturas diferentes. Se bem que na cama isso não importa.

O oficial romano fez força para manter a calma e não soltar um xingamento. Por alguma razão que desconhecia, não desejava que sua relação com Albafica fosse vista como algo sórdido.

— Ele não é um prostituto, Radamanthys.

— E quem disse isso? Apenas comentei que a relação íntima de vocês prescinde do resto, até certo ponto.

Exasperado, Minos bateu com os calcanhares na barriga do cavalo e cavalgou em profundo silêncio. Sua mente dava voltas, a imagem de Albafica presente como uma obsessão e, em seu íntimo, as palavras do tribuno fazendo-o eco ao seu emocional conturbado.

Quando chegaram à cidade, passaram pelo gymnasium onde Régulos treinava a cavalaria. De imediato, todos pararam para saudar a tropa e alguns se ofereceram para ajudar os feridos.

— Salve, tribuno Radamanthys, oficial Minos. Pelo que vejo a contenda lhes foi favorável. – falou o mestre de armas.

— De certo modo, sim. Mas, Algol fugiu e teremos que caçá-lo o quanto antes. – respondeu o tribuno.

Régulos assentiu e Aiacos, que estava próximo, ficou com os ouvidos bem atentos à conversa.

O sol já estava se pondo quando Minos e Radamanthys chegaram à casa do tribuno. Havia um silêncio sepulcral pairando no ar, até um dos servos surgir com a cabeça baixa indo até os dois oficiais para ajudá-los com os elmos e os mantos.

— O que aconteceu Lune? – perguntou Radamanthys notando-lhe o lábio cortado e um arroxeado na face alva.

— N-Nada, senhor. – respondeu o jovem.

— Andou caindo? – insistiu Radamanthys.

— S-Sim, meu senhor, foi isso. – disse o jovem se apressando em deixar o aposento.

Assim que o jovem saiu, Públio surgiu com uma expressão satisfeita. Minos e Radamanthys notaram que ele estava afogueado e suado, parecendo ter a intenção de ir banhar-se nas termas.

— Vocês chegaram! Pelo visto foram bem-sucedidos. Onde está Albafica?

— Ele foi preparar os ritos fúnebres. Acho que já deve saber que a matriarca foi morta pelos pictos. – disse o tribuno.

— Oh, sim! Eu estive na casa da filha da matriarca. Foi algo lamentável, mas eu deixei claro que serei o guardião do rapaz até que ele possa liderar.

Minos encarou-o com o cenho franzido.

— Albafica não precisa de um guardião. Eu me comprometi com os Brigantes e vou manter a minha palavra. – comunicou categórico.

Públio fitou Minos com um brilho contestador nos olhos.

— Venha, precisamos ter uma conversa em particular. — ordenou o governador.

Os dois isolaram-se em um dos cantos do imenso salão, enquanto Radamanthys ia atrás do seu servo.

— O que significa isso, oficial? Como ousa contestar a minha palavra? – falou Públio furioso, os olhos esbugalhados e o rosto antes afogueado, agora ainda mais vermelho pela ira .

— Significa que sou capaz de tudo para defender Albafica. – respondeu Minos com um tom firme.

— Até mesmo enfrentar-me? Está louco? Acha que por ser condecorado, pode me enfrentar? Quando você engatinhava, eu já era um soldado, portanto me respeite!

— O que fez àquele escravo? – perguntou Minos desviando a conversa.

— O quê? Não estamos falando do escravo e sim da minha autoridade!

— Diga! O que fez àquele escravo? Você o estuprou, não é?

— O que isso tem a ver? Escravos são para isso, para dar prazer aos seus senhores.

— Você o fodeu contra a vontade e ainda bateu nele... O garoto não parece ter mais que dezesseis anos!

— Foi um corretivo. Ele quase me mordeu ao praticar o felatio e deve aprender a fazer direito. — respondeu Públio com arrogância.

Os olhos violáceos de Minos se estreitaram como os de uma fera selvagem.

— E você pensa que o deixarei chegar perto de Albafica sabendo da sua tara por ele e por qualquer jovem que se pareça com ele e que você possa dominar? Está enganado, governador.

— Quem você pensa que é?! Se eu quiser foder até me cansar, eu posso! Você pode ser o queridinho de Nero, mas eu sou o governador! Eu sou superior à você, seu soldado de merda! Albafica tem o meu sangue e eu faço com ele o que eu desejar!

Públio avançou sobre Minos, aos berros. A saliva saltando da boca, enquanto as veias do pescoço pulsavam sob a pele.

Minos ouvia a tudo com uma expressão indecifrável. Entretanto, quando o governador mencionou Albafica, ele não pensou mais, nem se esforçou para manter o autocontrole. Aproveitou que o governador estava bem próximo de si e pegou-o pelo pescoço, batendo a cabeça dele com força e, em cheio, na sólida coluna dórica.

Públio era avantajado, mas Minos era mais forte e atlético. Desacostumado com exercícios físicos e entregue aos vícios e prazeres, o governador não teve tempo, nem força, para reagir...

O som dos ossos quebrando em meio ao sangue rubro causou uma satisfação sádica ao oficial romano. E, vê-lo desabar como se fosse um boneco de pano, com o rosto transformado em uma massa disforme e sangrenta foi mais prazeroso ainda. Esse verme nunca mais machucará alguém! Que apodreça no Inferno de Plutão! Pensou Minos sem um pingo de arrependimento.

Radamanthys entrou, no exato momento em que o som do baque propagou-se pelo mármore frio e o corpo de Públio exibia os últimos estertores antes da morte, em meio ao sangue. O tribuno arregalou os olhos e levou a mão aos cabelos revoltos.

Minos encarou o amigo.

— Eu sou responsável por isso e assumo meus atos. Não vou comprometê-lo, Radamanthys.

— E me deixar de fora de um ato em favor da humanidade? Esqueça. Vou chamar os escravos, pois houve um terrível acidente aqui. O governador bebeu demais e tropeçou, batendo com a cabeça na coluna... Que lástima!

O oficial sorriu, Radamanthys era mesmo um amigo fiel.

Lune e mais dois escravos vieram acudir o governador sob as orientações de Radamanthys. O jovem não deixou de sentir um enorme prazer em ver aquele homem terrível, incapacitado, permanentemente, de fazer mal a outra pessoa. Quando Radamanthys e Minos não estavam olhando, ele cuspiu sobre o corpo e murmurou baixinho: Que a terra coma o seu corpo e cuspa algo melhor!

Públio foi levado para o quarto. Lá, confirmado que ele estava morto, foi solicitado aos escravos que o lavassem e o preparassem para os ritos funerários ao estilo romano. Radamanthys ordenou que tudo fosse feito muito rápido e ninguém ousou questioná-lo.

Uma pira foi preparada para acolher o corpo de Públio e três moedas de ouro foram colocadas, uma em sua boca e as outras duas em seus olhos para pagar Caronte, o barqueiro. Carpideiras foram chamadas para chorar e mentir sobre os feitos heroicos do governador.

Minos e Radamanthys representaram, juntos, a autoridade de Roma e o tribuno fez um discurso curto sobre as virtudes do governador. Em seguida, a pira foi acesa e a cerimônia chegou ao fim.

— E agora? – perguntou Radamanthys.

Dada à lealdade do amigo, Minos sentiu-se na obrigação de compartilhar a informação que guardava a sete chaves.

— Recebi uma indicação de Nero para ser governador de Coria. Eu nunca desejei um cargo político, mas diante das circunstâncias, eu não tenho muita escolha.

Radamanthys sorriu.

— Você ama Albafica. Nunca pensei presenciar esse dia, você está de quatro por aquele druida.

Minos encarou o amigo e, diferente das outras vezes, em que se defendia com veemência, sua expressão agora era de uma incomum resignação.

— Sim, eu o amo e temo que isso seja a minha ruína. Mas, ao mesmo tempo, não consigo evitar.

Ao invés de tripudiar sobre as palavras do oficial, Radamanthys tocou-lhe o ombro com uma expressão grave.

— Como um poeta estrangeiro escreveu, meu caro amigo, “Amar é um deserto e seus temores!”

Notas finais
♥ Amadas e amados, valorizo muito o carinho de vocês!! Obrigada pelos comentários, pela presença e estímulo em minha vida! Boa semana! ♥“Amar é um deserto e seus temores!” frase da música Oceano do Djavan!! Perfeita!