A ROSA CELTA

5 Capítulo 4 - OS ESPINHOS DA ROSA...


Notas iniciais
♥ Olá, amadas e amados!! Mais um capítulo escrito no feriado e um pouquinho maior que os outros, mas cortá-lo ficou meio impossível. Espero que gostem!! Bjs e bom findi!!

Albafica sentou-se em uma cadeira de espaldar alto, observando a quietude que reinava depois de toda a movimentação liderada por sua avó. Observou o filho de uma das servas que brincava com bonecos de madeira, os animais que buscavam restos de comida e toda a rotina que envolvia o ambiente doméstico.

Seu semblante era sereno, embora sentisse uma estranha agitação interna e vontade de saber como ficara o oficial Minos. Tentava convencer-se que esta necessidade fazia parte de suas atribuições como druida, pois, afinal, era sua responsabilidade certificar-se da restauração da saúde daqueles que tratava.

— Fico feliz que consiga manter a calma diante do furacão que é a sua avó. – disse Alanna se aproximando do filho, interrompendo os seus pensamentos.

— Irritar-me não muda a natureza dela. – disse o jovem com tranquilidade. – Seria, apenas, mais uma incomodação com a qual tenho de lidar.

— Você lida melhor com isso do que eu. Não consigo acompanhar o raciocínio de minha mãe.

— É simples, ela crê estar fazendo algo pelo clã, mas seus planos nada mais são que uma extensão de sua necessidade de poder e controle.

Alanna olhou para o filho. Albafica sempre fora observador e sensato, desde criança. Amava-o, mesmo ele sendo fruto de uma relação violenta da qual ela esperara muito mais. Albafica era uma parte sua que teria novas chances e desafios... Um filho representava a verdadeira imortalidade de uma mãe ou de um pai.

— Eu te amo, meu filho. – disse ela acariciando-lhe a face.

O jovem druida se permitiu relaxar e sorrir.

— Também te amo, minha mãe.

Assim que Alanna deixou o salão, uma serva anunciou a visita do oficial Minos. Albafica sentiu seu coração disparar. Ele levantou-se da cadeira, de imediato, sem saber direito como proceder. Minos? O que ele faz aqui? Perguntou-se.

Esquecendo-se de todos os protocolos, Minos entrou no salão de forma imponente. Estava recuperado, embora um olhar mais atento percebesse que a face alva estava um pouco mais pálida que de costume.

— Precisamos conversar. – disse ele encarando Albafica.

— Vejo que se recuperou bem, romano. – falou o druida, tentando não demonstrar o quanto a presença dele o afetava.

Minos retesou o corpo e seus olhos fitaram os de Albafica.

— Meu nome é Minos de Griffon. Pode me chamar de oficial, de Minos ou até mesmo Griffon, mas não me chame de romano. Não nesse tom e não com esse olhar de escárnio!

Albafica sentiu a irritação de Minos e a rispidez. Podia continuar afrontando-o, mas não seria educado destratá-lo.

— Muito bem, oficial Minos, o que o traz a minha casa?

Permanecendo imóvel e perscrutando Albafica com um olhar afiado, Minos pensou no que iria dizer. Deu-se conta do ato impulsivo de procurar o druida, simplesmente, porque necessitava vê-lo e também porque sentia algo estranho no interesse de Públio pelo druida.

— Vim para agradecer-lhe, pessoalmente, por ter salvado a minha vida. Sei que me considera um inimigo e, mesmo assim, impediu a minha morte.

A expressão de Albafica se manteve impassível. Internamente, estava contente em ver o oficial bem, mas, ao mesmo tempo, não queria demonstrar, nem admitir esse sentimento.

— Aprendemos desde cedo a valorizar a vida de qualquer ser.

Com um olhar feroz, Minos se aproximou do druida, o suficiente para que ele sentisse a respiração quente próximo ao rosto.

— Você está insinuando que eu sou um qualquer? Talvez, em sua opinião eu tenha o mesmo valor de um inseto, não?

O modo como falou e a aproximação de Minos fez o rubor espalhar-se pela face de Albafica.

— Não foi isso que eu quis dizer, eu...

Antes que o jovem druida continuasse, Minos segurou-lhe o rosto com as duas mãos e cobriu os lábios desenhados com os seus, demonstrando uma voracidade incontrolável e selvagem. Ele entreabriu os lábios de Albafica com a língua, tocando os dentes brancos antes de adentrar a boca trêmula em um beijo profundo...

Perplexo demais para reagir, Albafica experimentou uma estranha sensação que misturava medo e prazer, calor e arrepio... Sua língua sentia a de Minos e, de repente, as duas se tocavam, buscavam e sugavam, arrancando ofegos baixos de ambos.

Um barulho de algo caindo em algum lugar da casa irrompeu o ar e Minos afastou um pouco a boca com um sorrisinho vitorioso nos lábios ainda úmidos pelo beijo ardente. Foi o bastante para Albafica refutar as ondas de excitação que varriam seu corpo. Ofegante, ele empurrou Minos e cerrou os punhos.

— Como ousa?! Saia! – disse ele com o rosto em fogo.

O oficial continuou sorrindo. Havia divertimento nos olhos violáceos, mas acima disso, havia o desejo intenso, cru e bastante evidente. Ele continuou enfrentando o olhar de raiva e desconforto de Albafica, notando-lhe, também, a excitação sob a calça justa.

— Pode negar o quanto quiser, druida. Mas, você também me quer e ainda será meu. – disse Minos fazendo um movimento para deixar a casa.

— Não conte com isso, romano!

Ignorando a ira naqueles olhos azuis, como a água mais profunda na qual ele se afogaria com muito prazer, Minos encarou-o, agora sério.

— O governador está aqui e deseja conhecê-lo. Tome cuidado.

— Não é preciso que me previna, vocês romanos se orgulham tanto de sua civilidade, mas não passam de selvagens arrogantes! – gritou Albafica passando as costas da mão nos lábios vermelhos.

Minos olhou-o de cima a baixo, detendo-se na ereção ainda visível de Albafica. Então soltou uma gargalhada e saiu, deixando o jovem com o coração acelerado e um desconforto dolorido no baixo ventre.

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No dia seguinte, Minos dirigiu-se ao forte em Calatum, ao leste. Comandava uma tropa de cinquenta homens bem armados. Pretendia ter partido mais cedo para estar de volta quando do banquete em homenagem a Públio, porém, pesara contra o seu desejo o fato de ter ficado envolto em detalhes administrativos e militares, antes de dirigir-se ao seu destino. O convite de Bridget havia chegado cedo e ele queria estar presente para, enfim, saber o motivo do interesse de Públio em Albafica.

— Senhor! O tribuno Radamanthys pediu que o avisasse sobre a chegada de provisões no forte em Leicester. – falou o mensageiro que viera de última hora.

A notícia mudou o humor do oficial. Passar em Leicester o faria chegar em cima da hora para o banquete, isso se não o atrasasse. Praguejou, internamente e ordenou que seus homens cavalgassem mais rápido e sem parada para descanso.

O restante do dia arrastou-se em uma longa conferência de estratégias, provisões e estrutura de segurança do forte em Calatum. Os soldados saudaram Minos e seus soldados de forma efusiva, pois era uma honra receber o líder da Fulminatta e também aqueles sob o seu comando.

— Ficará para pernoitar conosco? – perguntou um dos centuriões mais velho.

— Gostaria muito, mas ainda preciso ir até Leicester verificar uma carga. O governador está na cidade e haverá um banquete, ainda esta noite, em sua homenagem. Preciso estar presente.

O centurião sorriu, mostrando a falta de vários dentes perdidos em combate.

— É claro, senhor! Mas, nos dê a honra de, ao menos, beber em sua companhia.

Minos assentiu, aceitando a taça com vinho e elevando um brinde àqueles homens corajosos, alguns dos quais ele já havia conhecido em campanha militar. O centurião que lhe sorria se chamava Vinícius e trazia gravado em seu corpo a história de muitas batalhas nas mais diversas cicatrizes que possuía.

Algumas horas mais tarde, após conferir as provisões, ouvir as queixas e ser homenageado, mais uma vez com vinho, pão, queijo e saudações, Minos deixou o forte e já estava próximo da floresta de pinheiros, quando algo o fez estancar. Costumava ser um líder pragmático, porém atento aos seus instintos. E, neste exato momento, seus instintos o alertavam sobre o extremo silêncio e a atmosfera densa que ele criava a sua volta. Nenhum pássaro piava, nenhum animal se movia e, até mesmo a brisa parecia ter se extinguido.

— Soldados, recuem! – ordenou obedecendo aos seus instintos de guerreiro.

Assim que a sua ordem começou a ser cumprida, gritos selvagens cortaram o ar e uma saraivada de flechas caiu sobre o grupo que, no entanto, prevenidos pelo ataque anterior carregavam escudos de defesa. Os soldados apararam as flechas, porém algumas atingiram alguns cavalos que empinaram.

Após o primeiro ataque, os inimigos saltaram do bosque como se fossem entidades sobrenaturais empunhando espadas e lanças para um feroz enfrentamento corpo a corpo.

Apesar da surpresa, a liderança de Minos manteve os soldados coesos e a reação deles mostrou a razão da legião ser chamada de Fulminatta. As espadas romanas, embora em menor número que os selvagens, cortaram e deceparam com incrível precisão. Ossos foram quebrados, ventres abertos, braços e pernas decepados...

No meio da batalha, dois nativos cercaram Minos e um deles saltou sobre o oficial, derrubando-o do cavalo. Agilmente, Minos recobrou-se da queda e cravou a espada no peito do homem que caiu sem emitir nenhum som. Assim que retirou a arma do corpo sem vida, outro o atacou e foi rasgado no ventre pela espada afiada.

O olhar do próximo atacante encontrou o do oficial e o contraste entre os dois se acentuou. Minos vestido, enquanto o selvagem estava completamente nu com a pele pintada de azul escuro. O homem atacou, mas também foi eliminado. Ele caiu e outros vieram substituí-lo como se pertencessem a um enxame de insetos.

Invocando a força de Marte, Minos se lançou sobre os inimigos como se fosse o próprio deus da guerra. Embora o ferimento recente em seu ombro ainda incomodasse, sua espada tornou-se uma extensão de seu braço e o chão ficou empapado de sangue. Por fim, cedendo à força dos soldados e seu líder, os selvagens recuaram, desaparecendo na escuridão da floresta fechada.

De volta ao forte, foi feito um breve inventário dos estragos e baixas. Um selvagem havia sido capturado e Minos foi interrogá-lo, mas antes que conseguisse as respostas, o homem mastigara algo que trazia na boca e, instantes depois, estava morto.

Veneno, senhor. – disse Vinícius.

A menção do fato fez Minos se lembrar de Albafica, da maciez daqueles lábios, do desejo que ele negava, mas que estava explícito e o excitava também. Então, constatou que não estaria presente no banquete e isso o deixou, profundamente, frustrado.

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O ambiente estava decorado com flores e ervas aromáticas, imprimindo um agradável aroma ao grande salão. Públio Escápula foi recebido por Bridget com uma reverência, assim como o tribuno Radamanthys.

— Salve, governador! Salve, tribuno!– disse ela sorridente e altiva.

— Salve, senhora. – cumprimentaram os dois, olhando em volta.

Seguido as saudações, todos os convidados foram conduzidos à enorme mesa do banquete, onde os lugares haviam sido determinados por Bridget. Sem esconder seu interesse em permanecer junto do governador, ela tivera o cuidado de colocá-lo ao seu lado direito, o tribuno à sua esquerda e Albafica entre o governador e Minos.

Envolvido pela conversa inteligente daquela mulher astuta, Públio deixou-se adular e servir das diversas iguarias à mesa. Entretanto, de vez em quando, ele olhava de soslaio na direção da porta central.

— E seu neto? – perguntou com visível interesse ao saborear o vinho.

— Ele já está vindo. – respondeu ela satisfeita em perceber que conseguira o seu intento, despertar a curiosidade e ansiedade do governador.

Após Alanna ter sido violentada, Bridget investigara sobre o soldado que o fizera e descobrira que ele era sobrinho de um importante patrício. Em um primeiro momento, soube que não teria como exigir reparação a um conquistador, mas os objetos que ele confiara a sua filha tinham um significado que ela compreendeu e guardou para si. Ao saber que o governador Públio viria a Bretanha, achou o destino certo para aqueles objetos malditos. Então, antes que ele chegasse, enviou-lhe uma mensagem secreta e ousada. Nela, enfatizava que seria muito interessante uma aliança política entre Roma e seu clã, já que, mesmo não sendo reconhecido, Albafica possuía sangue nobre, tanto dos celtas, quanto dos romanos. O soldado que violentara a sua filha era Lucius, sobrinho de Públio.

Ao receber a mensagem, Públio ficara intrigado e resolvera desvendar a veracidade de tal afirmação, já que a reputação de seu sobrinho era conhecida e suas ações em relação às mulheres eram sempre as mesmas, fosse em Roma ou fora dela. Antes de seduzir uma mulher, quase sempre uma virgem, Lucius oferecia a ela para que guardasse seus mais preciosos tesouros. A tática servia para que a mulher em questão confiasse nele, achando-se especial. Depois disso, ele as possuía por livre espontânea vontade ou até mesmo à força. Se fosse verdade que ele teria desonrado a filha da matriarca do clã dos Brigantes, ele teria algo com que se ocupar naquele lugar cheio de selvagens...

Assim que sua avó terminou de falar, Albafica entrou no salão. Trazia um pequeno baú nas mãos e, ao aproximar-se da mesa, saudou Públio, entregando-lhe o objeto.

— Seja bem-vindo a nossa casa, governador. Por favor, aceite uma prova da nossa estima. – falou o jovem sem muita convicção.

— Salve, Albafica dos Brigantes.— respondeu aceitando o presente.

Assim que abriu o baú, Públio suspirou e olhou para Bridget cujos olhos cintilavam. Somente os dois sabiam do que se tratava. O presente, nada mais era que um punhal com a insígnia da Sétima Legião gravado no cabo, junto de um anel de ouro e rubi com as letras OE em baixo relevo e que significava Ostório Escápula. Ambos compunham o tesouro usado pelo sobrinho como instrumento de sua perversa sedução. Tragicamente, após seduzir e violentar a jovem sacerdotisa, Lucius contraíra uma doença rara e mortal, não tendo tempo de retomar seus objetos.

Albafica cumprimentou Radamanthys e tomou seu lugar à mesa. Estava vestido como um nobre, desta vez. Usava um manto xadrez sobre a túnica verde com detalhes em ouro nas mangas e na bainha. A calça de lã marrom era justa evidenciando os quadris estreitos e moldando as coxas torneadas. As botas eram de couro macio e escuro, presas por laços de couro acima do joelho. Seus cabelos haviam sido escovados e deixados soltos, parecendo uma cascata sedosa de fios azulados.

Públio olhava para o jovem druida com dedicada atenção. A beleza do rosto, o olhar firme, a herança do sangue de sua família no exotismo daqueles cabelos... Junto a tudo isso, ainda havia aquela expressão austera e altiva que parecia não se abalar com nada. A fleuma que esconde a verdadeira paixão. O pensamento produziu uma fisgada prazerosa no baixo ventre.

— E então, meu jovem? – perguntou um pouco indignado ao perceber que após a saudação, Albafica parecia não estar presente e nem interessado em manter uma conversa com ele.

— Como? – falou Albafica sem fazer questão de esconder que não desejava estar ali.

— Parece estar longe daqui. Sei que é difícil conversarmos em uma festa como essa, mas costumamos conversar sobre assuntos administrativos com os homens do clã. Então desejo que me encontre amanhã na casa do tribuno Radamanthys para que eu avalie a questão dos cereais e da proposta que ofereceu ao tribuno.

— Estarei lá. – respondeu Albafica, educado, porém sem desculpar-se pela falta de atenção.

Bridget que estava atenta à conversa dos dois, sorriu e resolveu entrar na conversa, antes que seu neto desagradasse Públio com seu visível desinteresse.

— Estou estranhando a ausência do oficial Minos. Na outra noite, foi ele o homenageado em nossa casa. – disse ela.

Albafica também estranhara e, a bem da verdade, estava preocupado, mesmo não querendo estar. Horas antes, havia tido um pressentimento, então pedira aos deuses que protegessem quem necessitasse de ajuda, fazendo força para não pensar naquele romano.

— O oficial Minos tem muitas responsabilidades e precisa avaliar a segurança dos postos e fortes. Talvez não consiga chegar a tempo. – disse Radamanthys.

O banquete continuou com música, conversas picantes, flertes e dança. A alegria dos celtas em receber e festejar era extremamente agradável para o vaidoso Públio, enquanto para Albafica, as horas passavam lentas e entediantes, assim como a certeza que Minos não viria mais.

— Governador, tribuno e avó, peço-lhes licença para me retirar. Amanhã tenho muitas tarefas para executar e quero estar descansado. – disse o jovem druida.

Bridget franziu o cenho, mas o governador e Radamanthys sorriram permitindo que Albafica se retirasse.

— Gosto de ver seu empenho, meu jovem. Amanhã nos veremos. – disse Públio com um sorriso.

Albafica retirou-se, mas não foi para os seus aposentos. Saiu pela porta dos fundos e o ar frio da noite tocou-lhe o rosto como uma carícia bem-vinda. Em meio aos cheiros e sons da noite, ele suspirou, tentando compreender melhor o que sentia.

Passara a noite olhando para a porta, na expectativa que Minos entrasse e, ao mesmo tempo desejando que não viesse. Cada vez que pensava nele, lembrava-se do beijo que deixara seus lábios e seu corpo tão quentes, que parecia ter contraído uma febre repentina. Queria ter sentido repulsa ou indiferença como acontecera com Algol. Mas, a verdade, era que o romano mexia com suas emoções como nada ou ninguém jamais havia conseguido. Eu odeio me sentir assim! Odeio aquele homem!

Tocou o arbusto coberto de orvalho, sentindo a umidade fria nos dedos e com a esperança que aquela mansidão voltasse ao seu coração.

— Por que me traiu, Albafica?

A voz grave tirou-o dos devaneios.

— Algol.

O picto aproximou-se com agilidade e enlaçou-o pela cintura, deixando-o sentir sua musculatura rija e contraída.

— Solte-me. – disse Albafica franzindo o cenho.

— Não, antes me diga o porquê de ter salvado a vida do porco romano.

— Sou um druida, tenho um dever sagrado. Agora, solte-me!

Ignorando os protestos de Albafica, Algol continuou:

— Dever sagrado?! Com aqueles que nos submetem? Você está louco?

— Algol... – disse Albafica com um tom compreensivo. – Os ciclos na natureza nos ensinam a compreender que a vida é preciosa e as mudanças são inevitáveis. Deixar Minos morrer não acrescentaria nada de bom a nossa situação.

— O jeito que fala dele... Parece que gosta daquele cretino. É isso? Gosta dele? – o tom raivoso do picto denunciava o ciúme que o corroia.

Tomado pela ira, Algol intensificou o abraço, tentando colocar os braços do amigo presos para trás. Porém, antes que conseguisse, Albafica o empurrou e, quando ele tentou se aproximar, novamente, foi recebido com a ponta de um punhal rente ao peito.

— Somos amigos, mas nunca mais tente impor sua presença a mim deste jeito! – falou Albafica com voz firme.

O olhar surpreso de Algol percorreu Albafica como se não acreditasse no que estava vendo.

— Eu... Eu sempre o protegi e sempre o amei.

— E eu agradeço. Se realmente sente o que diz, não tente me forçar a uma intimidade que não desejo. Somos amigos, Algol, passamos nossa infância juntos e eu o considero como um irmão e somente como um irmão..

Diante das palavras do druida, Algol ficou sem ação, como se estivesse petrificado. Por um instante, a certeza que não era e, nem seria correspondido em seus sentimentos causou-lhe uma dor profunda.

— Pois bem, vejo que já fez sua escolha. A próxima vez que nos encontrarmos, não será mais como amigos. Adeus, Albafica.

O jovem druida sentiu um aperto na garganta, mas nada disse. A verdade era que ele e Algol trilhariam caminhos opostos e nada podia mudar isso. Guardou o punhal que sempre trazia consigo e voltou para dentro de casa.

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Quando as primeiras horas da manhã se revelaram na pálida luz surgindo atrás das montanhas, Bridget olhou para o neto e sorriu.

— Como eu disse antes, você tem o futuro do clã em suas mãos. Faça a proposta, sempre com firmeza. Deixe-me colocar isso em você. – disse ela com uma corrente de ouro nas mãos.

Desconhecendo os planos da avó, Albafica nada disse. Aceitou o colar que agora complementava sua vestimenta. Havia se vestido com esmero, não para agradar, mas para sentir-se sob controle frente à autoridade de Públio. A túnica púrpura contrastava com o tom alvo da sua pele e lhe conferia um ar altivo. Falaria com autoridade, porque em sua função, a diplomacia e a assertividade eram esperadas de um druida e delas, dependia o futuro do seu clã e de todos os outros.

— Farei o necessário para que não haja fome, nem perdas para todos.

Alanna aproximou-se do filho, beijando-o no rosto.

— Que Epona o acompanhe, meu filho.

Com um meio sorriso, Albafica se despediu e rumou para a casa de Radamanthys. No caminho, ouviu rumores que tinha havido outro ataque nas imediações do forte Calatum.

— Ei! – disse ele chamando um menino que brincava com uma espada de madeira.

— Sim? – o menino ruivo olhou e correu ao seu encontro.

— O que aconteceu que todos estão comentando?

— Meu pai disse que os Damnonii atacaram a décima segunda legião no forte Calatum. Mas, os romanos venceram.

Um alívio misturado à culpa fez Albafica soltar o ar que estava preso em seus pulmões. Como podia estar aliviado com uma vitória romana? Algol teria razão ao chamá-lo de traidor? Não... Não era alívio pelos romanos e sim por um romano em especial, o que tornava tudo pior! As vozes se sucediam em sua mente, como se ele estivesse enlouquecendo, então, decidiu afastá-las e imprimir um ritmo mais rápido à sua caminhada. Quando chegou próximo à escadaria da casa de Radamanthys, subiu calmamente para não parecer esbaforido.

Após ser anunciado por um escravo, Albafica foi recebido pelo tribuno com um sorriso e forte aperto de mão.

— O banquete oferecido ontem estava excelente.

— Neste aspecto, minha avó é impecável. – disse Albafica. Então emendou tentando parecer casual. — Ouvi sobre um ataque. Muitas baixas?

— Oh, sim! Mas, Minos, como sempre os fulminou e deve estar de volta logo. Agora venha, Públio o espera.

A sala onde o governador se encontrava era ampla e ricamente ornamentada. Um busto de mármore se destacava ao lado de duas colunas jônicas com capitel dourado, o piso formado por um grande mosaico reproduzia uma bela cena de caça e uma abertura no teto projetava a luz diurna conferindo um ar místico ao ambiente.

Públio estava sentado em um divã, estrategicamente posicionado abaixo da abertura no teto, onde a luz se projetava e, ao lado dele, uma pequena mesa de ardósia continha uma bandeja de prata com frutas, pães e vinho.

— Ah, você esta aí! Entre! – falou Públio com uma alegria exagerada ao ver Albafica à porta.

O jovem obedeceu e o governador sinalizou para que se sentasse ao seu lado. Albafica se sentou, embora não estivesse à vontade, ali, enquanto Públio servia duas taças com vinho, estendendo uma em sua direção.

— Não costumo beber pela manhã. – disse o druida.

Públio sorriu e colocou a mão no ombro de Albafica.

— O vinho tem o poder de nos deixar mais à vontade. Você me lembra o meu amado irmão. Sempre tão correto, tão frio... Mas, por dentro, o fogo ardia e pedia passagem, mesmo que ele o reprimisse.

Com o cenho franzido e sem entender o rumo que o governador imprimia àquela conversa, Albafica notou que Públio tinha o olhar de um ébrio e que o fitava com intensidade. Um arrepio percorreu-lhe a espinha até chegar à nuca. O druida teve vontade de levantar e o fez. Públio fez o mesmo e Albafica, que só o tinha visto sentado, percebeu que ele era bastante alto e que apesar dos seus 54 anos, mostrava uma estrutura física ainda vigorosa.

— Você está com medo de mim? – disse Públio ficando bem próximo ao jovem.

— Não, mas talvez não seja uma boa hora para conversarmos. – respondeu Albafica recuando um passo até sentir suas costas bater no busto de mármore.

Aproveitando-se da atitude do jovem druida, Públio agiu com uma extrema agilidade, pegando-o pelos cabelos presos na altura da nuca.

— Nós vamos conversar agora. Eu quero conhecer você...

Albafica sentiu-lhe o hálito cheirando a vinho e, mais uma vez, sentiu-se ameaçado como acontecera com Algol. Públio colocava o corpo como barreira e apertava seus cabelos com força, enquanto continuava a falar próximo ao seu rosto com o olhar cheio de luxúria.

— Você é virgem, não? Jamais experimentou o toque de um homem, eu sei... – murmurava Públio levando a mão livre à cintura de Albafica.

O jovem druida estava se contendo, mas aquela atitude o desonrava e o fazia recordar situação dolorosa e humilhante sofrida por sua mãe. De súbito, uma onda de ira se apossou do seu corpo e ele sacou o punhal que sempre trazia consigo, movendo-o com precisão e cortando o braço que o segurava.

— Não tem direito e nem autoridade para tratar-me como se eu fosse um prostituto! – gritou com o punhal em riste.

Públio arregalou os olhos ao ver o corte em seu braço. O sangue verteu rubro se unindo à ira em seu olhar, enquanto a saliva escorria pelo canto da boca aberta. Como esse garoto ousa ferir a mim?

Uma cena tensa se construiu e, por um segundo, tudo ficou estático no ambiente, enquanto ambos se encaravam com animosidade. Então Públio saiu do transe em que se encontrava e avançou na direção de Albafica mostrando o ferimento.

— Viu o que você fez? Eu vou ensiná-lo a respeitar...

— Governador Públio, o que está acontecendo aqui?! – uma voz chamou, imperiosa.

Ofegante e com o coração aos pulos, Albafica olhou na direção da voz que reconheceria em qualquer lugar. Minos!

Públio deteve a ação de avançar sobre o jovem. Seus olhos estavam injetados de cólera e um pouco de embriaguez.

— Esse... esse druida ousou me ferir!

Minos olhou para o governador com o cenho franzido e, em seguida para Albafica que continuava segurando o punhal em posição de ataque.

— Dê-me a faca, druida. – ordenou o oficial, fria e calmamente.

Albafica hesitou, sentindo a raiva ceder seu lugar para a apreensão. Porque se deixara levar pelo descontrole? Certamente seria punido e deveria escolher se aceitaria com resignação ou lutaria.

Minos continuou a encarar o jovem torcendo para que ele tivesse juízo e se rendesse. Atacar uma autoridade romana era punido com um castigo exemplar ou a morte. Se Albafica resolvesse reagir, teria que submetê-lo à força e, certamente, machucá-lo.

— Não vou falar, novamente. Dê-me a faca e me acompanhe. – disse o oficial.

Ainda imóvel, Albafica perscrutou o rosto de Minos, então percebeu que não havia saída. Virou a lâmina para si e estendeu-a na direção do oficial. Minos pegou-a, colocando-a em seu cinto. Em seguida, retirou uma tira de couro que trazia junto ao cinto e amarrou as mãos do jovem.

Foi neste momento que Radamanthys entrou, os olhos dourados atônitos ao ver Albafica sendo amarrado.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou olhando para Minos e, em seguida para Públio que segurava o braço.

— Ele me atacou! – gritou Públio.

O tribuno olhou para Albafica que permanecia em silêncio, mas seu olhar exibia uma fúria que jamais vira nele. A tensão no ambiente, ao invés de diminuir, aumentou.

— Vou colocá-lo em prisão domiciliar na ala oeste da casa. – disse Minos, puxando o druida como se ele fosse um escravo.

Públio caminhou, trôpego e tocou o ombro de Minos.

— Ele deve ser castigado, mas... não o machuque demais.

O oficial encarou o governador que suava e segurava o braço ferido. Seu olhar inflexível e profundo parecia a própria adaga de Albafica. Era um legionário e fiel servidor de Roma. Já havia presenciado os desmandos, a crueldade e a covardia dos nobres e, na maioria das vezes, isso não o afetara como agora. Tinha vontade de ele mesmo enfiar a adaga no coração daquele cretino devasso, mas isso seria improdutivo e irracional. Respirou fundo e falou com austeridade.

— O clã dos Brigantes está sob a minha proteção e vou incumbir-me de fazer os ajustes necessários para que seja fiel a Roma. O druida ficará em prisão domiciliar até o castigo ser decidido. Mandarei um escravo tratar do seu ferimento. Vejo que foi apenas um arranhão. Com licença.

Minos conduziu Albafica sob o olhar atônito do tribuno. Sinalizou com um olhar incisivo que explicaria tudo mais tarde e levou Albafica até uma porta nos fundos que direcionava para uma parte isolada da casa. Ali ficava a despensa e um cômodo com uma pequena janela alta. Havia uma pequena mesa, um banco, um tapete de pele de animal e uma cama.

— Então esta será a minha prisão?

— Preferia uma cela comum e fétida?

— Vocês se gabam de suas leis e justiça. Onde está a justiça que pune alguém por evitar a humilhação de ser possuído à força? Ah, esqueci, estamos diante do governador, um porco que se considera um deus!

Minos suspirou e levou a mão aos cabelos. Sabia que ele tinha razão. Homens como Públio se consideravam como deuses e usavam do poder para ferir ou corromper sem problemas de consciência.

— Vocês dois estavam sozinhos. Será a sua palavra contra a dele. – disse Minos desamarrando-lhe as mãos.

Um sorriso de escárnio brincou nos lábios delicados de Albafica.

— Faça o seu trabalho, romano. Não precisa fingir que se importa.

— Aquele velho devasso não vai admitir e nem esquecer o que você fez, druida. Acredite você ou não, nunca fui conivente com estupro, seja de quem for.

Com o cenho franzido, Albafica o desafiou.

— Você é subordinado a ele e vai obedecê-lo, mesmo que saiba o que ele fez. Então vou facilitar para você! É melhor me matar, porque não vou aceitar mais nenhuma humilhação.

Minos estava exausto. Havia cavalgado quilômetros, verificado as provisões direcionadas aos dois maiores fortes na Bretanha, lutado contra os selvagens e, ao chegar à casa de seu amigo Radamanthys, se deparara com aquela cena deplorável que inflamara seu sangue e exigira um autocontrole hercúleo para não enfiar a espada naquele cretino com amplos poderes. Olhou para Albafica sem nenhuma vontade de discutir com ele. Precisava descansar para pensar com mais clareza e decidir o que fazer.

— Por ora, druida, descanse. – disse ele.

Sem entender o posicionamento de Minos, Albafica suspirou e olhou em volta.

— Porque está fazendo isso? Eu recusei a sua proteção, caso tenha esquecido. – questionou.

O oficial olhou para o druida de um jeito intenso e profundo. Albafica sentiu um calor no peito e uma ansiedade que parecia medo, mas não era. Minos não respondeu, apenas deu as costas à Albafica dizendo:

— Colocarei dois guardas para vigiá-lo. Ninguém, além de mim ou Radamanthys entrará neste aposento.

Albafica atirou-se na cama estreita e fechou os olhos. Recusava-se a perder o controle, mais uma vez, então orou aos deuses e adormeceu...

Notas finais
♥ Eu agradeço, sempre a todos que leem, comentam, favoritam, silenciam, imprimem energia e vida à fic. Muito obrigada!!! *♥* Epona: Importante Deusa Celta e uma das mais antigas em seu culto, sempre ligada a cavalos. Inicialmente cultuada na Gália, foi cultuada por grande parte dos Celtas e chegou a ser cultuada até em Roma como a Deusa tríplice Eponae. Epona foi a única Deusa Celta a ser citada no panteão Romano, tinha grande popularidade entre a cavalaria.