A Quase Raposa e o Cão de Pedra
4 Onde Fica A Saída?
Notas iniciais

≺ Michi ≻
E lá estava eu, andando num lugar cheio de monstros estranhos e com um cara que conheci ontem. Ah, e que eu acidentalmente já vi nu. Tem como essa situação ficar mais estranha...?
Bem, não queria pensar muito sobre isso, só queria dar um jeito de voltar pra casa. Encorajei-me com a ideia de voltar para o meu quarto, quentinho e seguro, e segui o homem de cabelos grisalhos à minha frente ao longo do que parecia ser uma “feirinha de youkais”. Olhando bem para o lugar, e como os seres ali presentes se relacionavam, parecia muito com feirinhas normais... Só que, com certeza, eu não veria um vendedor oferecendo produtos pendurados na ponta de seus tentáculos.
— Achou alguma coisa interessante? — a voz grave do Iwako-san tirou por completo o meu foco dos feirantes.
— Depende do que você chama de interessante... — murmurei, ainda acanhada pela cena de mais cedo.
Em contrapartida, Iwako-san parecia extremamente confortável com a situação no geral. Seus ombros largos estavam relaxados, as mãos pousavam desleixadas nos bolsos da calça e o seu caminhar estava confiante. Até mesmo seus aproximados um metro e oitenta, e porte físico de dar inveja, que certamente faz qualquer um pensar duas vezes antes de procurar encrenca, não foram o suficiente para o deixar ameaçador. De fato, ele não é um ser humano. Como alguém consegue ficar tão tranquilo depois de quase ser esmagado por um oni antes mesmo de comer o café da manhã?!
Oh, é mesmo, o café da manhã! Eu estou com tanta fome...
Antes que eu pudesse pensar em alguma forma de distrair o meu estômago, um ronco intimidador saiu de minha barriga, denunciando a falta de comida nela. Iwako-san parou de andar instantaneamente e me analisou por alguns segundos.
— Ah, é... Você não conseguiu comer nada, certo?
Apenas assenti com a cabeça. Estava tão constrangida por minha barriga ter roncado alto daquela forma! Mas, para a minha surpresa, Iwako-san apenas soltou um sorrisinho e se virou para um dos feirantes, que vendia um estranho espetinho de carne. Ou pelo menos, eu esperava que fosse.
— O que está fazendo? — perguntei enquanto corria para acompanhá-lo, já que Iwako-san adentrava na multidão para chegar às vendinhas.
— Comida! — gritou de volta.
— Se eu comer essa comida estranha, eu vou ficar mais estranha? Como ganhar chifres ou uma cauda? — falei o mais alto que pude, mas aparentemente ele já não era mais capaz de me escutar.
Suspirei e pus-me a caçá-lo por entre as figuras estranhas e retorcidas dos youkais. Sinceramente, eu esperava encontrar monstros medonhos e asquerosos, como o oni que nos atacou mais cedo ou o demônio sombra que me fez entrar em toda essa confusão. Para falar a verdade, eu tinha calafrios só de pensar em me perder do Iwako-san. Mas o que eu via na feira eram seres de diversas formas e aparências, e nem todos eram assustadores.
Havia uns que mais pareciam animais de fábulas, falantes e humanoides; outros com características semelhantes a plantas, com folhas e cipós enrolados por todo o corpo; e até mesmo alguns que aparentavam ser perfeitos humanos, se não fossem os pequenos detalhes anormais — como olhos completamente negros ou orelhas pontudas — que os denunciavam. Claro que ainda tinham aqueles que andavam armados com espadas e lanças, ou então que possuíam garras e presas que por si só já funcionavam como uma coleção de facas, mas esses eram menos frequentes e pareciam estar apenas monitorando o movimento dos youkais.
Foi então que eu me surpreendi: no geral, o lugar possuía um clima tranquilo e agradável. Anestesiada pela minha descoberta, esqueci-me completamente de procurar pelo Iwako-san. E então o desespero veio me fazer uma visita pela segunda vez no dia.
Procurei por ele em barracas de comida ou coisas do gênero, mas nada do que eu via me parecia comestível. E o pior: não havia nem sinal do Iwako-san. Queria gritar seu nome, mas a ideia de chamar a atenção daqueles youkais também não parecia ser uma boa ideia.
Eu não tenho mapa, informação ou qualquer coisa que possa me ajudar a sair daqui… O que eu faço sem o Iwako-san?!
Estava prestes a entrar em desespero quando senti uma mão segurar o meu pulso esquerdo, fazendo uma onda de alívio se espalhar pelo meu corpo. Mas não durou muito. Ao invés do Iwako-san, quem me segurava era uma senhora pequena e magra, mas de olhar frio e afiado. Instantaneamente, um calafrio percorreu a minha coluna, fazendo-me recuar alguns passos e libertar o meu pulso de seu aperto.
— Está perdida, minha jovem? — a senhora falou, quase sem mexer a boca fina e enrugada, com uma voz calma, rouca e ligeiramente estridente.
Eu não respondi nada. Vagamente, a memória de minha mãe me dando o velho sermão sobre não falar com estranhos passou pela minha cabeça.
Inconscientemente, eu recuei mais um passo.
— Ora, vamos! — A senhora abanou as mãos, como se estivesse acanhada. — Por que está tão assustada, minha jovem? Eu não mordo. — Ela deu um sorriso singelo, mas reconfortante.
Analisando-a melhor, a velhinha não dava medo algum. Seu rosto ligeiramente retangular e seus ombros estreitos e recolhidos passavam uma imagem de fragilidade, enquanto o cabelo perfeitamente preso num coque fixado por dois palitos a deixavam como uma bonequinha. A única coisa estranha era a roupa que usava: uma túnica cinza-opaca, com alguns bordados em preto nas bordas, que cobria quase todo o corpo.
— Eu... estou procurando uma pessoa... — falei antes mesmo de pensar no que estava fazendo.
Os olhos da senhora faiscaram ao me ouvir falar, ficando ligeiramente mais animada.
— Venha, venha! — Ela gesticulou as mãos repetidas vezes, indicando para que eu a seguisse.. — Tenho certeza de que posso ajudá-la.
A senhora se virou e seguiu em direção a uma modesta barraca de madeira, um pouco mais afastada das demais. Eu estava num lugar estranho, com uma pessoa estranha e numa situação estranha. E também estava perdida. Sabia que não era uma boa ideia seguir uma pessoa que acabei de conhecer, mas... não estava fazendo o mesmo com o Iwako-san?
Decidi ir com ela, para ver no que ia dar. Ao me aproximar da barraca, notei que nela havia vários objetos estranhos: um globo de vidro apoiado em um castiçal de ferro; cartas com símbolos e desenhos estranhos gravados nelas; frascos com pós terrosos e pedras de cores e tamanhos variados. Também havia penas, pelos, dentes, garras e outras partes de animais.
— Sente-se — disse gentilmente para mim, puxando um banquinho simples de madeira e o colocando na frente da barraca.
Acomodei-me e esperei por outro comando. A senhora deu a volta e puxou seu próprio banquinho do outro lado, para ficar de frente para mim. Depois, pegou um dos frascos com areias estranhas e passou um pouco nas mãos, fazendo uma pequena nuvem de poeira marrom se formar entre as palmas.
— Então, podemos começar? — ela disse, sorrindo amigavelmente.
Concordei com um movimento de cabeça, o que fez com que seu sorriso se espalhasse mais amplo pelo seu rosto enrugado.
— Primeiro, ponha a sua mão na Esfera Refletora — falou enquanto mexia em seus artefatos estranhos. Provavelmente, ela notou que eu estava em dúvida se estava falando da bola de gude gigante ou não, então completou delicadamente: — Sim, é essa esfera transparente.
Timidamente, pus minha mão direita em direção à bola, rezando para não levar um choque ou algo do tipo. A senhora deu mais uma espiada no que eu fazia e me parou.
— Tem certeza de que quer usar a mão direita?
A pergunta foi o suficiente para me fazer recolher a mão no mesmo segundo. Sabia que tinha um truque!
— O que exatamente vai acontecer com minha mão? — para minha surpresa, a minha voz não aparentava vacilar tanto quanto o meu coração.
— Ora, não precisa ficar com medo, minha jovem. — A senhora parecia se divertir muito com a situação. Meio tarde para você me falar para não ter medo! — A mão que você usa influencia no tempo que você quer “espiar”. Se quer rever uma cena passada, usa-se a mão esquerda, e já que você procura algo que perdeu no passado, faz mais sentido usá-la.
— Hm, é verdade... — Levei alguns segundos para realmente absorver o que ela disse. — Ei, espera, você disse passado?
— Mas é claro — ela falou com naturalidade. — O que mais esperaria de uma cartomante?
Cartomante?! Oh, céus... Onde foi que eu me meti?
Nunca fui de acreditar nessas crendices que normalmente são contadas para nós quando crianças. Mas, parando para pensar, eu estou num lugar que foge completamente do senso comum: numa feira de youkais. Tenho certeza que uma cartomante — de verdade — não será a coisa mais absurda que verei hoje.
— Bem... se a senhora diz, deve ser o certo — a minha voz denunciava a minha incerteza.
Estendi a mão esquerda e, assim que me aproximei da esfera, senti como se o ar estivesse ficando mais denso em volta da minha mão. A senhora notou que eu estava vacilante, então me encorajou:
— Não tenha medo.
Por algum motivo, aquelas palavras me deram confiança o suficiente para avançar à esfera e finalmente tocá-la. A superfície era lisa e fria, mas, à medida que eu ia pressionando minha palma contra ela, a temperatura no interior da esfera parecia aumentar. E o mais incrível foi quando, no interior, o material transparente se converteu lentamente em uma chama azul-arroxeada, se espalhando da mesma forma que uma gota de tinta num copo d’água, com uma pequena bolinha de luz amarela no centro.
— Hm, acho que temos algo aqui. — Eu estava tão fixada na esfera que a voz da velhinha foi como um choque para mim. Ela percebeu que eu estava encantada pela bola de gude gigante e me deu um sorriso amável. — Ela é interessante, não é?
— Não só interessante, ela é incrível — falei completamente admirada. — Como funciona?
— Como todo cristal espiritual, ela absorve a energia vital e reflete em seu interior a imagem da alma. Que, no seu caso, seria isso daqui: — A velhinha apontou com longos dedos finos para o fogo estonteante que ganhava espaço de forma lenta e majestosa. — Cada alma irá apresentar uma cor e uma textura diferente. É curiosa essa forma que a sua assumiu. Geralmente, as dos humanos tomam forma de esferas luminosas e as dos youkais assumem uma forma mais esfumaçada, como as de um incenso. Mas a senhorita não é nenhum deles, certo?
Fiz que sim com a cabeça, e ela sorriu presunçosa por ter acertado.
— Eu pensei que a esfera apenas mostrava o passado e o futuro... Isso daqui é quase inacreditável.
— Oh, mas ela não para por aí! — A senhora se aproximou mais um pouco, empolgada para contar as façanhas do seu objeto mágico. — Com o reflexo da sua alma, eu sou capaz de muitas coisas, minha jovem. A sua alma é a sua identidade, afinal de contas — ela falava com certa pompa, mas com razão —, só preciso de mais uma coisa para terminar de dar o comando.
— Do quê?
A senhora segurou a minha mão esquerda, que ainda estava sobre a esfera, e a apertou de leve, olhando-me fixamente nos olhos.
— Eu preciso do seu nome, e do dia em que você nasceu.
Naquele instante, me perguntei por que outro calafrio descia pela minha coluna. Por algum motivo, eu não quis falar nada para ela, mesmo que ela não tivesse feito nada de errado. Pensei em desmentir e falar que tinha lembrado onde estava a pessoa que procurava, no entanto a velhinha segurava a minha mão cada vez mais forte, comprimindo-a contra a esfera. Estava prestes a me levantar e puxar minha mão do seu aperto quando, da esfera, o pequeno ponto de luz no centro começou a brilhar intensamente, se destacando do resto da fumaça azulada.
— O que diabos é isso...? — ela murmurou, aproximando-se da esfera para ver de perto.
A velhinha tinha desviado toda a sua atenção de mim para a esfera, afrouxando levemente o aperto. Aproveitei essa oportunidade para me soltar e recuar dois passos, envolvendo a minha mão esquerda com a direita, num ato irracional de protegê-la. Só que, assim que eu deixei de tocar a esfera, a imagem que ela fazia da minha alma se esvaiu. A velha, então, me encarou com uma carranca, um misto de confusão e incredulidade.
Por um segundo, pensei que nunca mais iria ver minha casa de novo. Nem sabia ao certo se tinha feito algo de errado, mas aquela velha não parecia mais ter a intenção de me ajudar. Ou fazer qualquer coisa boa.
Foi então que eu senti uma pancadinha na minha nuca... e cheiro de churrasco.
— Mas que droga você estava fazendo, garota?! — a voz do Iwako-san soou como música nos meus ouvidos. Virei-me para vê-lo e, dessa vez, era mesmo ele. Estava segurando dois palitinhos de carne em uma mão, enquanto a outra gesticulava freneticamente. — Procurei por você em tudo quanto é barraca e... — ele se interrompeu quando seus olhos avistaram a velhinha na barraca, e então sua postura se tornou mais rígida. — Vejo que não estava sozinha.
A senhora na barraca se encolheu ao sentir o afiado olhar do Iwako-san para ela. E eu que achava que a velhinha era aterrorizante...
— Faz tempo que não vejo um da sua espécie fora do templo, Koma-inu — a velhinha aos poucos recuperava a postura, sentando-se com classe.
— Faz tempo que não vejo uma charlatona numa feira pública, velhota — Iwako-san foi mais grosso do que eu esperava, cuspindo as palavras.
A senhora o encarou fixamente, depois apenas arqueou as sobrancelhas e sorriu de canto.
— Ora, ora, para quê toda essa agressividade? — Ela se debruçou sobre o tabuleiro da barraca, sustentando o queixo sobre as duas mãos entrelaçadas e apoiadas entre os objetos mágicos. — Eu estava apenas ajudando esta pequena jovem a achar algo perdido.
O clima entre os dois estava ficando cada vez mais tenso. Não sabia muito bem se era uma boa ideia interferir, mas me senti na responsabilidade de fazer algo. Porém, antes que eu pudesse mover um músculo, o Iwako-san segurou meu antebraço firmemente com sua mão livre.
— Ela já achou o que queria sem a sua ajuda — ele disse, ríspido. Logo em seguida, virou-se para mim e começou a me arrastar pelo braço. — Vamos.
— Mas...
— Eu disse: vamos. — Por algum motivo, ele estava muito chateado. E também não parecia estar disposto a conversar sobre isso.
Fala sério, quem deveria estar assim era eu!
— Hm... E pensar que eu poderia te contar onde estava a Kasai no Hana... — lamentou a velhinha, parecendo entediada.
Assim que escutou o nome “Kasai no Hana”, Iwako-san parou de andar e se virou lentamente para encará-la.
— Como... — Ele parecia confuso e, por um rápido instante, vacilante. — Como você sabia?
A senhora abriu um largo sorriso que ia de orelha a orelha. Seu olhar dizia claramente “te peguei”, e a sua postura mudou para uma mais confiante.
— Eu não sou uma mera charlatona, afinal de contas. — Ela cruzou os braços e encarou a Esfera Refletora. No seu interior, a esfera estava completamente tomada por uma fumaça verde-oliva, com o centro condensado em verde-musgo. Talvez essa seja a alma do Iwako-san. — Você foi descuidado, Koma-inu. Parece que, diferente da sua companheira, você é capaz de liberar uma quantidade impressionante de energia vital.
Pensei que esse truque só funcionasse se a pessoa tocasse a esfera... O Iwako-san deve ter uma quantidade muito grande de energia para que a esfera captasse a essa distância — não que nós estivéssemos muito longe — e o suficiente para que ela fosse capaz de olhar o seu... Ei, espera. A velhinha não disse que, para analisar o seu passado ou futuro, era necessário o nome e a data de nascimento?
— Ela está mentindo — pensei alto... alto demais. A velhinha e o Iwako-san me encararam no mesmo instante, então decidi completar o raciocínio. — Você me disse que, para realizar o meu desejo, precisaria do meu nome e da minha data de nascimento.
Foi então que a senhora assumiu uma feição ainda mais maquiavélica.
— Boa memória, jovem... — ela murmurou baixinho, mas alto o suficiente para que fosse audível. — Eu não preciso olhar o passado ou o futuro dele para saber do que ele precisa. Só precisava olhar a sua alma, e a imensa ferida talhada nela. — Ela parecia estar se divertindo ainda mais, ao passo que o Iwako-san ficava gradualmente mais irritado. — Afinal de contas, a sua espécie costuma andar em dupla. Onde está a sua parceira, Koma-inu?
Essa foi a gota d’água. Iwako-san me soltou, caminhou a passos largos até a barraquinha e bateu forte as duas mãos sobre o tabuleiro. Por um segundo, eu pensei que a mesa fosse partir no meio.
— Pare de falar besteiras, sua bruxa velha, e parta para o que me interessa: o que sabe sobre a Kasai no Hana? — a voz do Iwako-san estava firme e fria como gelo, sem deixar transparecer nenhum sentimento, a não ser irritação.
— Alto lá, Koma-inu. — Ela riu e levantou os braços, como se dissesse “pare por aí”. — Não ache que eu trabalhe de graça, tudo tem seu preço.
Iwako-san apenas sorriu de canto; um sorriso irônico e perigoso.
— Então, planejava se aproveitar daquela garotinha ali? — Ele apontou com o polegar por cima das costas em minha direção. — Que golpe baixo.
— Depende do seu ponto de vista — ela rebateu, dando de ombros.
— Vá direto ao ponto e me diga o preço — ele a apressou.
A senhora o encarou, desviou os olhos para mim por uns segundos, e depois se voltou a ele mais uma vez.
— Meu preço é a garota.
Ele congelou instantaneamente, assim como eu. Da forma que o Iwako-san queria aquela flor, ele com certeza me trocaria por ela. Afinal de contas, nós nem nos conhecemos. Céus, eu estou perdida... de todas as formas possíveis.
— A garota? — Estava claro que, assim como eu, ele não estava entendendo muito bem a situação. — Por que quer uma híbrida? Ela sequer tem um poder de destaque.
— Você é tão ingênuo... — murmurou a velha, alisando a bola de vidro.
Sim, a bola de vidro... Se me lembro bem, ela começou a agir como se fosse arrancar minha cabeça fora depois que aquela luz surgiu no centro da esfera, enquanto olhávamos para a minha alma. Isso mesmo, ela parecia bem surpresa... só pode ser por causa dela...
— Só pode ser por causa da luz — disse em voz alta, sem perceber.
A velha encarou-me com olhos semicerrados, como se quisesse partir-me ao meio com a força do pensamento. Apenas com aquele olhar, ela me ameaçava silenciosamente: “Não ouse dar mais nenhuma palavra”.
O que ela não sabia era que eu fico extremamente teimosa quando me desafiam, e estava cansada de apenas olhar as coisas acontecerem.
— Quando ela estava olhando para a minha alma — continuei, com uma súbita coragem —, uma luz intensa apareceu no meio dela. Agora, o que eu quero saber é o que você faria com isso.
Iwako-san virou-se para me olhar, e aparentava estar ainda mais confuso. Em contrapartida, a velha pareceu ficar ainda mais carrancuda — se é que isso era possível.
Num piscar de olhos, a velha saltou a barraquinha com uma agilidade impressionante, vindo em direção a mim. Enquanto corria, seu corpo ia aos poucos se deformando: a mandíbula esticou para baixo; a boca era uma fenda que ia quase que de orelha a orelha; os braços e pernas se afinaram, crescendo rapidamente, assim como seus dedos esqueléticos. A túnica já não lhe caía tão bem.
— Dê-me ela! Dê-me a sua alma! Eu quero a Kasai! — gritava entre grunhidos estranhos. A velha estava completamente ensandecida.
Eu estava me preparando para o impacto. Pensava em desviar do caminho assim que ela chegasse perto e fugir, mas sei que não teria utilidade alguma correr dela. Ah, e aqueles braços de aranha com certeza me pegariam bem antes de eu conseguir fugir. Meu plano B era tentar soltar aquele foguinho azul que usei contra o oni mais cedo, só que eu não fazia a mínima ideia de como se fazia aquilo de novo.
Faltando apenas alguns passos para que a velha me alcançasse, o Iwako-san finalmente decidiu sair do seu estado de confusão profunda e a segurou pela túnica, atirando-a contra a barraquinha de madeira. O barulho e a grande fumaça que se formou chamou a atenção dos vendedores que estavam em volta, que se afastavam aos poucos. Pude ver um youkai lagarto chamar a atenção dos youkais guardas que passavam por perto, e fiquei mais aliviada.
— Eu acho que nós poderíamos ter resolvido isso de uma forma mais pacífica — falou o Iwako-san, aproximando-se lentamente da velha estirada no chão. — Mas, já que a bruxa velha não quer colaborar, vai ser do jeito difícil mesmo.
Ele se aproximou da velha e se agachou ao seu lado. Calmamente, segurou um punhado de cabelo da nuca da velha, que soltou um gemido de protesto. Ele puxou firmemente a cabeça dela para olhá-la nos olhos, o que a fez se encolher.
— Última chance para você, bruxa velha: onde está a Kasai no Hana?
A velha o agarrou pelo pescoço com seus longos braços e o puxou, forçando-o a chegar mais perto.
— Isso não vai sair barato, Koma-inu... Nada é de graça.
Com a outra mão, a velha desenhou um símbolo estranho no chão de terra: um grande “X” com um “S” deitado entrecortando-o e um círculo pequeno bem no meio. Assim que terminou, pôs a mão em cima e toda a fumaça que havia subido expandiu-se instantaneamente, como se fosse uma explosão feita de vento. Iwako-san foi atirado para longe, assim como eu e os youkais que haviam parado em volta para ver o que estava acontecendo.
Quando abri meus olhos de novo, a velha já tinha sumido, e a feira havia se tornado um caos, com youkais correndo de um lado para o outro. Procurei pelo Iwako-san, mas tinha muita gente na frente. Não demorou muito para que uma mão grande segurasse a parte de trás da minha gola e me pusesse de pé. Era o Iwako-san.
— Por que está aí, parada?! — esbravejou. — Nós precisamos sair daqui, agora.
— Mas a velha já...
— Não estou falando da velha! — Ele apontou para um grupo de youkais humanoides armados que se aproximava. Deviam ser a “polícia” daqui. — Se os servos do Batsuke nos pegarem, estamos ferrados.
— Servos de quem?
— Não importa. Vem!
Ele me segurou pelo antebraço e me arrastou pela feira, esquecendo-se do detalhe de que eu não corria como um youkai.
Depois do que pareceu ser uns dez minutos, estávamos longe o suficiente do movimento da feira. Na verdade, estávamos em um caminho de barro que passava no meio de uma floresta exuberante, com árvores imensas e majestosas.
— Iwako-san... para onde estamos indo? — arrisquei uma pergunta.
Sim, eu não dei uma palavra depois do que aconteceu com a velha. Não sabia se ele ainda estava irritado, e também não queria vê-lo gritando comigo de novo.
— Para a casa de uma certa hanyou — disse com descaso.
Com certeza, ele ainda está irritado. Mas com o quê? Comigo, por tê-lo feito entrar em tanta confusão em menos de dois dias? Com a velha, por não ter dito onde estava a Kasai–alguma-coisa? Não sei... Iwako-san é, afinal de contas, um completo estranho para mim.
Mais à frente, passamos por cima de um pequeno desfiladeiro. Dali, pude ver um vilarejo bem simples e aconchegante, com pequenas casinhas deitas de madeira, pedra e palha. Olhando mais de perto, vi que os moradores não eram aldeões comuns: eram pequenos tanukis, uma espécie de guaxinim, mas com algumas características humanoides.
— Nem ouse me causar mais problemas — a voz do Iwako-san me fez perceber que eu havia parado de andar para observar o vilarejo. — Venha, nós chegamos.
Envergonhada, fiz exatamente o que ele mandou. Paramos em frente a um poço velho, feito de pedras e com plantas e musgo presos nas paredes e rachaduras. Não entendi exatamente o que era para ser feito, então apenas olhei para o Iwako-san e esperei por mais um comando.
— Pule dentro dele — disse, sem mais delongas.
O quê?! Pular?! Eu quero voltar para o meu mundo, não seguir para o próximo! Se bem que, parando para pensar, eu já estou no outro mundo.
— Mas...
— Se você não vai, eu vou — ele me cortou, antes mesmo que eu protestasse.
Com um único salto, Iwako-san mergulhou na escuridão do poço. Mesmo depois de uns dez segundos, eu não pude escutar o barulho dos seus pés se chocando contra o chão. Comecei a duvidar se ia entrar lá também ou não quando um barulho de galho sendo partido me fez pular no poço, sem hesitar.
A sensação de queda mal durou 5 segundos, quando eu senti meus pés atingirem gentilmente o chão. Notei que estava de olhos fechados, e os abri lentamente. A primeira coisa que vi foi o rosto do Iwako-san sorrindo, provavelmente achando graça da minha reação.
— Pelos deuses, você é tão fresca — ele disse entre sorrisinhos.
Revirei os olhos para ele.
— Caso você não saiba, essa foi a minha primeira vez pulando num poço — resmunguei baixinho.
— O que disse?
— Nada não — desconversei. — Onde estamos agora?
— No seu mundo.
A resposta foi tão chocante que eu quase não acreditei. Nós ainda estamos dentro do poço velho; não pode ser. Olhei para cima, em busca de uma escada ou uma corda para sair, mas não havia nada além de algumas pedras mais salientes que as outras. Bem, se não tem outro jeito...
Com cuidado, escalei as pedras até o topo, que não estava tão distante assim. Chegando lá em cima, olhei em volta. Estávamos mesmo no meu mundo. Olhei para trás para ver se o Iwako-san já tinha escalado, mas ele achou uma forma... mais fácil. Com apenas um salto — um belo salto, por sinal — ele já havia saído.
— Exibido — murmurei, e ele apenas riu de canto.
Olhei em volta mais uma vez, para identificar a localização. Esse também era um poço velho e abandonado, que provavelmente pertenceu ao templo que ficava na grande casa atrás de nós. Era bem comum templos antigos serem cuidados por famílias e, com o tempo, serem transformados em apenas uma casa. O poço ficava em cima de uma grande escadaria, que dava para a rua do supermercado Ichiban.
Sim, eu conheço essa rua! Não fica longe de casa!
— Iwako-san, eu... — parei de falar assim que me virei para encará-lo.
Iwako-san estava com os braços cruzados abaixo do peito, destacando os bíceps. O seu maxilar bem desenhado estava tencionado, o que indicava que ele estava com os dentes cerrados. E, por fim, as sobrancelhas espessas estavam franzidas de tal forma que eu não soube dizer direito se ele estava preocupado ou irritado. E os seus olhos… Só então eu notei o brilho intenso dos seus olhos laranja, amarelados pela luz do sol, em contraste com a tonalidade clara de sua pele sob os fios acinzentados. Na verdade, Iwako-san parecia uma rocha viva quando se olhava bem; mesmo na forma humana, ele ainda possuía traços da sua forma youkai.
O problema é que eu finalmente percebi que aqueles olhos intensos olhavam para mim com um quê de irritação.
— Por que não me contou? — ele disse com a voz firme… Firme como uma rocha.
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