Notas iniciais
Nota para Kitsune: Não é gay --' Notas para os leitores: Olá, gente fico feliz de estar postando mais um capítulo :3 Bem, como não tenho muito o que dizer e vcs pareceram curiosos, não vou demorar tanto com essas notas XD Boa leitura O/

Iwako

A brisa alisava nossos cabelos. As folhas das árvores densas farfalhavam ao nosso redor e conseguia ouvir alguns pássaros cantando baixinho, como se não quisessem atrapalhar nossa conversa; na verdade, todo o ambiente era tão harmonioso e calmo que eu podia até mesmo ouvir o som dos patos no lago atrás da Aohono-san que me encarava, totalmente perplexa, como se não fizesse ideia do que eu havia acabado de falar.

— Não contei o quê?

— Você sabe do que eu estou falando... — disse impaciente, mas tentando não demonstrar.

— Eu não sei se alguém já te disse, mas quando as pessoas perguntam, normalmente querem saber uma resposta — falou com ironia, mas logo se reprimiu, talvez por perceber que eu ainda estava sério.

— Poupe meu tempo! — exclamei exasperado, fazendo com que ela recuasse um pouco. — A Kasai no Hana! É dela que estou falando!

Parei de falar quando percebi que meu tom de voz estava começando a assustá-la, talvez minha expressão facial também não estivesse ajudando. Sem perceber, já havia avançado dois ou três passos na direção da garota. Tudo bem, Iwako, não é assim que vamos conseguir a relíquia. Respirei fundo e logo em seguida soltei o ar com um suspiro, tentando colocar as ideias em ordem, talvez isso tenha feito ela relaxar também.

— Por que não me disse que sabia sobre a Flor de fogo...? — meu tom de voz estava, definitivamente, mais calmo.

O quê?! — Ela parecia mais confusa do que eu esperava. — Mas eu não faço...

Ela começou a balbuciar coisas sem sentido, como se tentasse formular uma frase que justificasse o desconhecimento dela a respeito da própria Kasai. Fiquei observando-a por um minuto enquanto tentava dizer algo consistente... até que subitamente cessou.

— Espera. — Seu olhar era distante, como se estivesse perdida nos próprios pensamentos. — Foi aquela mulher, não foi?! Foi depois dela que você começou a agir estranho; quando ela disse sobre essa tal de "Kasai no hana" ou sei lá o quê. Bem... — Ela levantou o olhar para mim novamente. Aqueles olhos eram de um azul tão cristalino e brilhante que não pareciam normais —, o que te faz pensar que eu sei alguma coisa sobre essa tal relíquia?

Ela não sorria. Ela não estava tensa. Ela não parecia preocupada; só parecia querer terminar logo com tudo aquilo e se ver livre de todos os problemas. Eu hesitei por um breve instante, balançando a cabeça calmamente em sinal de negação.

— Vamos, eu te acompanho até a sua casa... — consegui dizer.

— Está tudo bem, Iwako-san, você já fez demais por mim, acho que posso seguir daqui. — Ela ajeitou o cabelo por trás da orelha. — Acho que vou procurar a Kasai sozinha... de qualquer forma, obrigada por tudo, nos vemos por aí, Iwako-san.

Uma parte de mim queria impedi-la, a outra só queria que ela fosse embora o quanto antes, para que eu pudesse continuar procurando pela relíquia. Meus olhos a acompanharam desde quando desceu as escadas até sumir pelo portão, aquela garota era muito diferente de qualquer youkai que eu já tenha visto.

Enquanto Aohono Michi se afastava, fiquei por alguns longos minutos admirando aquela casa que um dia deveria ter sido um belo templo. A estrada de terra que ligava a escadaria até a entrada da residência tinha algumas plantas crescidas, mas que não atrapalhavam o breve vai e vem de uma pessoa ou duas; talvez aqueles que vivem aqui.

De onde estava conseguia ouvir um barulho de panelas, parece que alguém pretendia preparar o almoço. Fiquei sozinho no jardim, apenas com alguns pássaros e animais pequenos que passavam. O chão era coberto por folhas secas e as paredes, do que um dia fora um templo, estavam sujas e seu telhado tinha pequenas rachaduras espalhadas. Mas a que deus esse templo pertencia?! Procurei por qualquer vestígio que pudesse sanar minha dúvida, até que meus olhos fitaram uma estátua, um homem barbudo com pouco cabelo, sorridente segurando uma forquilha de fazendeiro. A estátua era velha e cheia de limo, além de suja e quebrada em algumas partes. Eu reconhecia aquele deus, era Tsutomu-kamisama o deus da agricultura e da fertilidade, fazia tempo que não ouvia falar dele... Agora sei o porquê.

Os kami, sobrevivem de orações e pedidos, é algo pelo qual vivem e que os fortalece; se ninguém pede, bem... então a existência desse kami se torna obsoleta e consequentemente ele acaba desaparecendo.

Desci as escadas e pude ver dois pedestais vazios, onde deveriam haver duas estátuas, cada uma delas representando os espíritos guardiões. No caso dos guardiões do templo, se a divindade a qual eles protegem se torna obsoleta, muitos deles também se tornam. Alguns preferem partir para o Reikai distante e fazer a travessia para que suas almas encontrem um lugar para descansar em paz, outros preferem vagar na esperança de encontrar uma divindade que os escolha, que os admita... ou adote; mas o lado triste dessa história, é que a maioria dos kami já possuem um par de guardiões que foi escolhido logo no princípio de sua criação, na verdade, muitos kami escolhem fazer os próprios guardiões, pois assim teriam um conhecimento amplo sobre seus servos. Já no meu caso, não tenho uma companheira e nem um kami, sou um rurouni, um andarilho sem rumo, e minha única motivação é vingar aqueles que eu perdi.

Saí do templo que agora estava mais para "residência" e segui em frente, precisava comer algo mais "substancial" que apenas um espetinho de carne, passei por uma rua pouco movimentada até chegar na porta de um mercado... Ichiban, quando senti uma coisa macia se esfregar em minha perna. Olhei para baixo instantaneamente e me deparei com um gato branco e cinza com listras pretas, bem peludo. Sua cauda era longa e cheia. Era um gato dos bosques da Noruega... mas é claro que eu conhecia aquele gato.

— Hiyato... — disse um pouco irritado. — Saia das minhas pernas.

O felino se afastou como se não tivesse ligado pro que eu disse e sentou na minha frente com o rabo balançando de um lado para o outro.

— Diga logo, o que você quer?

Algumas pessoas que passavam me olhavam estranho, talvez por eu estar conversando com um gato. Às vezes esqueço que devo tomar cuidado no Ningenkai. Hiyato parecia estar se divertindo bastante com a situação.

— Me poupe... — disse com certo desinteresse, deixando-o pra trás.

— Espera... — disse uma voz zombeteira atrás de mim. Fui detido com um puxão leve na camisa. — Estava com saudade de você, Iwako-kun.

Virei levemente a cabeça para ter certeza de quem era. A forma felina dera espaço ao "humano" que me segurava... Hiyato, ele era muito menor que a maioria dos adolescentes as quais ele fingia ser. A aparência de dezessete enganava sua idade verdadeira de setecentos.

— Estou com fome, Hiyato, depois você pode conversar o que quiser...

— Não se preocupe com isso. — Ele sorriu mostrando seus caninos levemente afiados. — Posso te levar ao meu restaurante.

— Eu passo... — disse mais uma vez tentando seguir em frente, mas ele entrou no meu caminho.

— Quantos ienes você tem? — disse calmo enquanto sorria.

Esvaziei os bolsos na procura de qualquer moeda, mas não havia sobrado nada, droga.

Foi o que eu pensei... — consegui ver de soslaio um dos seus olhos piscando pra mim.

Hiyato tem heterocromia, o que faz com que um de seus olhos seja amarelo e o outro verde, é comum em animais, principalmente em gatos, mas não acredito que isso seja um padrão normal entre humanos, o que faz sua aparência ser um tanto... peculiar.

— Certo, você ganhou Neko-san, vamos para o seu restaurante.

Hiyato riu uma última vez e guiou o caminho até o restaurante, que felizmente não era muito distante. Na verdade, ficava próximo a muitas casas, uma pracinha e um colégio que tinha um nome familiar... Seikan. Não conseguia me lembrar de nada que parecesse com aquele nome, então apenas ignorei.

— Bem-vindo ao meu humilde negócio...

Hiyato abriu as portas de correr, expondo um salão com mesas e cadeiras arrumadas de forma simétrica, o lugar era bem tradicional, no sentido nipônico da palavra, e tinha uma sensação acolhedora ao entrar mesmo estando vazio.

Ele continuou me guiando até a parte dos fundos, onde ficava a cozinha. Era um pouco escura, tinha bancadas brancas que tomavam boa parte do lugar e alguns paneleiros sobre nossas cabeças, talvez três ou quatro, duas geladeiras grandes, dois fornos industriais, um caseiro e uma chapa grande, talvez para fritar peixe ou coisa do tipo. A parede no fundo da cozinha tinha três basculantes, mas mesmo que fossem grandes não clareavam muito, talvez porque havia uma casa logo na frente.

— É um lugar interessante — disse enquanto me encostava em uma das bancadas —, mas não acha que as pessoas vão desconfiar de um proprietário baixinho com aparência de adolescente?

Ouvi sua risada brincalhona e ligeiramente infantil.

— Claro que sim, sendo um youkai com certeza vai desconfiar... — Ele abriu uma das geladeiras enquanto olhava pra mim. — Acontece que para os humanos eu posso ter a aparência que quiser, desde uma garota de cinco anos até mesmo um velho de noventa. O meu único problema são com os outros youkais, minha capacidade de transformação é limitada quando se trata de demônios, mas com os mortais, digamos que... minha vida está ganha.

Ele piscou novamente pra mim.

— Ah sim! — ele se lembrou. — Você disse que estava com fome, não foi?!

Entendi aquela pergunta como retórica, portanto não me dei ao trabalho de responder. Ele tirou vários ingredientes da geladeira e os colocou sobre uma bancada.

— Gosta de lamen?

Fiz que sim com a cabeça e ele começou a preparar.

— O que você queria falar comigo, Hiyato?

— Iwako-kun você é muito rude, sabia? — fingiu chateação. — Só estava com saudades.

— Até parece...

— Estou sendo sincero. — O "pirralho" não me olhava diretamente, parecia muito concentrado no que estava fazendo. — Mas não vou mentir ao dizer que aquela conversa sua com a garota ruiva no templo do Tsutomu-kamisama, não me interessou... você ali, falando sobre a Kasai no Hana.

Você estava me seguindo?! — indaguei surpreso, mas ao mesmo tempo irritado.

— A princípio eu não estava — ele continuou falando calmamente, sem medo nenhum da minha reação —, mas você discute muito alto, por um instante pensei que você fosse bater na garota. — Ele riu brevemente, mas não compreendi muito bem o motivo. — Eu estava passando e sua voz familiar me chamou a atenção... Enfim, vou direto ao ponto. — Ele se dirigiu ao forno caseiro, colocando tudo o que tinha para colocar no fogo. — Você deveria desistir da Kasai, Iwako-kun, não digo isso porque quero achar ela para poder ter poder supremo, não me importo com tal coisa, mas não se ouve falar dessa relíquia há mais de vinte anos. Acho que ela sumiu, mesmo que vinte anos não sejam nada para nós, é tempo o suficiente para uma relíquia tão cobiçada. Não acha que a essa altura alguém já teria achado?

As palavras dele invadiam minha cabeça, eu não queria acreditar no que ouvia, mas parecia bem concreto.

— Qual era o clã responsável pela Flor de Fogo? — perguntei apenas por curiosidade.

— Não lembro ao certo, mas tenho quase certeza que eram as kitsune. — Hiyato coava o macarrão enquanto conversava.

As raposas? Pelo que eu sei elas gostam mais dos humanos que dos próprios youkais.

É verdade, faz tempo desde a última vez que eu vi uma kitsune. — Ele despejou o macarrão e a sopa em uma tigela, acrescentando por fim o que faltava.

— Talvez porque elas se camuflam melhor que você — disse com um ar irônico e acho que o comentário deixou Hiyato um pouco irritado.

Hiyato colocou a tigela na minha frente, acompanhada de um hashi, aqueles palitinhos que usamos para comer, mas eu não conseguia colocar nada na boca pois algo estava martelando em minha mente.

— Sabe aquela garota que estava com você, no templo, hoje? — Ele deu um pequeno salto para sentar-se na bancada ao meu lado. — Ela sempre vem aqui depois que as aulas no Seikan acabam... Nunca imaginei que ela pudesse ser um youkai, mesmo sendo bem diferente.

— Deve ser porque ela se camufla... — me detive antes concluir a frase.

Cabelos alaranjados, olhos azuis, capacidade de se "misturar" entre os humanos... hanyou. Como eu não tinha pensado nisso?! Aohono Michi é uma kitsune! Percebi que estava parado observando um ponto fixo, não sei por quanto tempo fiquei assim, mas apenas voltei a mim quando vi a palma da mão do Hiyato balançando na minha frente.

— Iwako-kun... você está bem?

Eu olhei para ele, mas não consegui dizer nada, minha mente ainda estava tentando processar todas as informações. Devorei o lamen o mais rápido que pude.

— Desculpa, Hiyato, depois eu explico tudo, obrigado pela refeição! — Não esperei que ele falasse nada, apenas corri para fora do restaurante na direção da casa da Aohono-san.

Mas que droga, eu não faço a mínima ideia de onde ela mora. Lembro da minha conversa anteriormente com o Hiyato, ele disse "quando as aulas no Seikan acabam" é isso! A garota estuda no Seikan! Virei para o lado e me deparei com o muro escondendo parcialmente o prédio escolar, uma placa enorme continha os caracteres "青函" — Seikan — me dirigi até o colégio para procurar informações sobre onde ela morava, mas a medida que andava, meus pés pareciam mais pesados, a dor no meu peito começou a latejar, assim como o meu coração que parecia querer pular para fora. Olhei por dentro da camisa e consegui ver o lugar onde a cicatriz estava, ela estava maior e mais escura, tentei fazer um encantamento de última hora para me teletransportar para um lugar seguro, mas acho que isso só piorou as coisas, a dor aumentou de forma que minha visão escureceu e eu desmaiei.

Acordei algumas horas depois, já era noite e pelo visto bem tarde, olhei ao redor e a decoração tradicional me ambientou na mesma hora.

— Hiyato? — minha voz fraquejou, tentei levantar mas não consegui.

— Achei que fosse morrer — disse transparecendo alívio.

Dei um longo suspiro, a possibilidade de morrer me fazia pensar no meu deus, no Daisuke-kamisama. Isso só me deixaria mais fraco, imaginar que o deus da proteção está morto; não é uma ideia que eu consegui aceitar muito bem, mesmo que tenham se passado dez anos desde a invasão no templo.

— Você estava procurando a garota ruiva? — Hiyato falava enquanto despejava chá quente em uma xícara.

— Como sabia? — Com certa dificuldade me coloquei sentado para apanhar a bebida.

— Duzentos anos de diferença entre mim e você talvez seja um bom começo... Ah, e claro que todos os anos da minha vida não foram dentro de um templo. — Sorriu pegando um pouco da bebida para si. — De qualquer forma, era só me perguntar, posso descobrir onde ela mora.

— Você... — tentei conter minha confusão — E como pretende fazer isso? Nekomatas não são os melhores tipos de rastreadores.

— Talvez não, mas às vezes ter contatos é bem melhor que um sentido apurado, Iwako-kun. — Ele colocou a xícara vazia sobre a bandeja de chá. — Claro que eu vou te dizer onde ela mora, mas quero te pedir um favor... Sabe, como amigo.

O sorriso do Hiyato se alargou, sua postura era calma e tranquila como sempre. Claro que vindo dele isso podia significar inúmeras coisas.

Notas finais
Nota para Kitsune: O Hiyato, não é gay --' Notas para os (queridos) leitores: Espero que tenham gostado do Hiyato (e do capítulo tb :3) é isso aí, vejo vcs em breve O/