Notas iniciais
Nota para os leitores: Gente, desculpa a demora, foi um trabalho árduo para nossa querida beta, corrigir os meus erros (erros da Akira :3). Mas, aqui está mais um capítulo, espero que gostem Nota para Kitsune-sama: Não me mate :3

≺ Iwako≻

Eu estava... apenas... passando pela rua e me deparei com aquela cena: um youkai tentando sugar a energia vital de uma fedelha qualquer, quando, do nada... Ah, mas que droga, as coisas fora do templo são realmente estranhas, não tem nem um mês que eu estou aqui e uma garota vai ser morta na minha frente. Mas essa garota... o jeito como os olhos dela brilharam, pareciam a própria chama que queimava as hortênsias naquela casa ontem a noite. Ela não é uma humana normal... Não mesmo.

Rasgar aquele youkai ontem me deixou exausto, e a menina ruiva estava acabada também. Agora estou aqui, num galpão abandonado, cheio de entulhos e paredes descascadas, fora as que já haviam desabado há tempos. O chão era escuro, não sei se por ser naturalmente assim ou por causa da poeira enrustida. Havia um balcão extenso localizado no centro do lote.

Ainda por cima, estava com essa garota deitada na minha frente... Eu, sinceramente, não faço ideia do que fazer. Conjurei um encantamento, não muito poderoso ― quer dizer, talvez fosse se minha alma estivesse inteira ― para curar os ferimentos. O rosto da garota estava diferente, não sei dizer mas, não parecia tão humana.

― Ai! ― ela gemeu. ― Minha cabeça dói...

Soltei uma risada abafada e ela se assustou, virando para mim logo em seguida.

― Uah! ― ela rastejou apavorada para longe de mim. ― Quem é você?!

Eu a encarei sério por alguns instantes. Não sabia exatamente o que responder, e mentir nunca foi o meu forte, então fiz o que eu fazia melhor... Mudar de assunto.

― Não acha irônico você ficar parada na frente de um demônio de dois metros e cinquenta e ter medo de mim? ― Bufei de leve. ― A propósito, sua farda está suja de sangue, aconselho que limpe logo.

― V-você! ― Ela me olhou com um misto de raiva, confusão e desconfiança ao mesmo tempo. ― Era você o cara que estava parado observando tudo sem fazer nada!

Ela se levantou com dificuldade.

Sem fazer nada?! ― Tentei não parecer tão indignado quanto eu estava. ― Certo, admito que eu não ia fazer nada, mas se você está viva agora, é por minha causa.

― Nossa, valeu mesmo... meu herói... ― ela disse em tom sarcástico. ― Mas... Afinal de contas, o que era aquilo?

― Eu já disse... um demônio. ― Respirei fundo. ― Um youkai.

Imaginei que por falar aquilo, ela já teria entendido... Mas, infelizmente, ela continuou me olhando com aqueles olhos puxados, embora delicadamente arredondados, bastante escurecidos em volta, formando uma cara de paisagem.

― Ai, por favor, que tipo de japonesa é você? ― Ok, dessa vez eu não consegui conter minha indignação. ― Não sabe o que é um youkai?

― Não que eu não saiba, mas digamos que eu não acredito nessas coisas... ― Levantei uma sobrancelha para ela, mas a deixei continuar: ― É que não sou muito religiosa... ― Ela disse meio constrangida. ― Do tipo que não vai a um templo desde os seis anos...

― O quê?! ― Eu arregalei os olhos. Aquilo pra mim era inconcebível. Faz ideia do trabalho que dá manter um troço daqueles em pé, garota?! ― Por que não vai?

― Porque minha mãe me levava a templos só quando meu pai era vivo... Pelo menos, era o que ela me dizia. Não me lembro bem dessa época.

― Hm, então foi o pai que sumiu... ― Me distraí um pouco e ela percebeu.

― O que tem o meu pai? ― Ela me fitou confusa. ― Ah, se for o fato do meu cabelo ser laranja e meus olhos azuis... Sim, a culpa é dele.

Não consegui evitar, olhei para ela instantaneamente; agora tudo fazia sentido.

― O que foi?

― Você não faz mesmo ideia do que seja, não é? ― minha voz talvez tenha parecido um pouco distante.

― Do que você está falando?

Inconscientemente, não sei, ela recuou alguns passos.

― Talvez queira se olhar no espelho...

Sorri com um pouco de maldade. A garota quase que como um flash puxou o celular de dentro da pasta para analisar o próprio reflexo e o resultado foi:

― AH!! ― Aquele grito estridente poderia ter deixado até um surdo atordoado, então não queira saber como meu lado canino reagiria. ― O que aconteceu com meu rosto?! Se eu já era motivo de piada antes, imagina agora... ― choramingou.

― Você era motivo de piada antes? ― Soltei um riso breve. ― Estranho...

― O quê? Também me acha estranha?

A garota, que agora tinha olhos muito similares aos de um felino, me encarava como se não tivesse entendido o comentário. Seus caninos haviam se transformado em presas e suas unhas em garras. Particularmente, ela continuava...

― Linda... ― Ao me ouvir dizer aquilo, ela arregalou os olhos, como se tivesse esquecido de todos os problemas que estava encarando naquele momento. ― Você é linda, não entendo como pode ser motivo de piada ― completei encarando ela finalmente. Suas bochechas estavam coradas e ela parecia extremamente constrangida. ― Enfim... ― Suspirei. ― Está com fome?

― Morrendo! ― E ela saiu do estado catatônico quase que no mesmo instante. ― O que tem pra comer?

― Café da manhã... ― Fui tirando algumas coisas que guardei de trás do balcão. ― Tamagoyaki e misoshiru em lata.

― Onde conseguiu isso? ― Ela falava enquanto abria a lata. ― O cheiro é bom.

― É, eu sei... Foi numa loja que vende...

― Espera...! ― ela me interrompeu. ― Você disse "café da manhã"?!

― Aham...

― Meu Deus, que horas são...?

― Não sei exatamente... Mas, provavelmente, algo entre 6h30 e 7h.

― O quê?! ― ela disse enquanto se levantava desesperada. ― Eu vou me atrasar pro colégio!

Ela começou a correr totalmente desengonçada na direção do portão de entrada que, por sinal, estava aberto.

― Espera! ― Eu me levantei rápido pra tentar detê-la. ― Não tem como você...!

Tarde demais, ela já tinha esbarrado no campo de força que eu havia conjurado. Ela deve ter sentido algo como uma pequena descarga elétrica, e caiu no chão logo em seguida. Caminhei na sua direção enquanto ela tentava se levantar.

― Eu fiz esse selo para que nenhum youkai entrasse ou saísse ― disse em tom sério.

You… kai...? ― Levantou-se desnorteada. ― Mas... Eu não sou um... youkai?! Eu sou um youkai? Ah meu Deus, é mesmo! O meu rosto! ― Ela se desesperou novamente, apalpando a face e, depois, ficando incrédula com as garras.

― Não... Quer dizer, não, exatamente... Você é uma hanyou. ― Passei a mão pelo cabelo como se estivesse tentando bolar uma forma fácil de explicar algo tão complicado. ― Resumindo, é a cria de um humano e um youkai, sendo metade demônio e metade mortal. Só não consegui identificar ainda sua linhagem... Talvez neko...?

― Não... Isso não é possível, deve haver algum engano ― ela choramingou, me ignorando completamente. ― Quer dizer que eu vou ficar assim pra sempre?

― Hm, isso depende de você, na verdade.

― Meu Deus, o que será que minha mãe vai pensar... ― Ela pôs as mãos no rosto por alguns instantes. ― Minha mãe! Eu tenho que ligar pra ela, ela deve estar morrendo de preocupação.

A garota ruiva pegou o celular novamente o mais rápido que pôde.

― Droga, a bateria descarregou...

― Eu imagino que você, se tiver o mínimo de sensatez, não vai aparecer na frente da sua mãe no estado que se encontra.

Ela parou por um instante para analisar a própria roupa. Seus machucados haviam se curado, no entanto, sua roupa ainda estava coberta de lama e sangue, ela cheirava a suor... Suor de medo, o que é pior. Seu cabelo estava bagunçado e eu não sei se era a parte youkai se manifestando, mas ela tinha uma mancha roxa próxima aos olhos, quase os contornando.

― É, acho que você tem... ― Ela estava levantando os olhos novamente em minha direção. ― razão... Ei, espera, você não me disse quem ou o que você é.

― Bem, nem você. ― Dei de ombros.

Fui um pouco evasivo.

― Verdade. ― Ela curvou-se em minha direção. ― Aohono Michi, segundo ano da escola Seikan, é um prazer conhecer você.

― O que você está fazendo?

Não consegui evitar o olhar confuso.

― Me apresentando... Agora você faz o mesmo.

― Não acha que eu vou...

Fomos interrompidos por um barulho estrondoso vindo de fora do galpão. Parece que meu encantamento não foi forte o suficiente, boa parte da parede fora destruída, dando espaço a um monstro vermelho com quase três metros carregando um bastão bem grande. O rosto dele era semelhante ao de um tigre ― só que bem feio ―, chifres de bode espessos. O oni ― ogro ― estava usando apenas um tecido grosso cobrindo sua cintura até o meio da coxa.

― Então... Aohono-san, acho que é uma hora bem apropriada para me apresentar... ― Meus olhos foram preenchidos por um vermelho vibrante. ― Meu nome é Iwako.

Minhas roupas começaram a queimar como se estivessem ardendo em chamas negras, logo meu corpo começou a ser revestido por pedra, uma pedra grossa, cinza e opaca. Meu rosto tomou a forma de um leão mesclado com cachorro, uma esfera também de pedra surgiu em minhas costas e um chifre pequeno se alongou pela minha cabeça. Consegui ver de relance a garota se afastar. Minha altura quase se igualava a do oni.

Koma-inu! ― o oni rosnou, sua voz era grossa e forte como um trovão. ― Matar!

Ele investiu na minha direção, descendo o bastão na minha cabeça, achei que conseguiria desviar, mas ainda estava cansado da luta do dia anterior. Ele me acertou em cheio e quase que instantaneamente meu corpo foi de encontro ao chão. O oni me acertou mais duas vezes nas costas, ou pelo menos tentou, se não fosse pela enorme bola de pedra que eu carrego… Ele o teria feito. Ergui-me e com a força que nem imaginava que ainda tinha, agarrei-o pelo chifre e bati sua cara repetidas vezes contra uma viga de metal. Ele me acertou na perna com o taco e eu caí mais uma fez, ele tentou me pisar novamente, mas eu consegui sair. Enquanto desviava dos golpes lerdos e pesados, conjurava um encantamento de combate, mas logo quando tentei lançar uma dor tomou conta do meu peito, uma dor lacerante.

Desde o dia que o templo foi atacado eu não consigo usar todos os meus encantamentos.

Caí no chão ainda com as mãos monstruosas sobre o peito, não tinha forças para lutar e meus poderes estavam divididos. Maldito dia para um oni aparecer na minha frente! O oni sorria com suas enormes presas saltadas para fora, como quem vence uma batalha, levantou o bastão para finalizar. Quando...

― Não! ― Era a garota, Aohono Michi. Ela parou entre o demônio e eu, como se pudesse fazer alguma coisa. ― Se afaste dele, agora!

O oni estava prestes a esmagar nós dois, mas foi aí que algo estranho aconteceu ― se é que dava para piorar. Ele recuou, soltou o pedaço de madeira que rolou pelo chão, sua expressão era de puro terror e, como se não bastasse, além de recuar e estar parecendo um gato assustado, seu corpo começou a se consumir em chama azul. Ele começou a urrar em desespero, caiu no chão e ficou se debatendo por alguns minutos até que seu corpo virasse fumaça e poeira.

― O que diabos foi aquilo…? ― disse mais para mim do que para qualquer um.

― Eu não sei... ― Ela olhou para as mãos e depois para mim novamente. ― Mas foi assustador.

Algo no olhar dela estava me apavorando e o pior é que eu não conseguia saber o que era. A sensação me congelava por inteiro; aos poucos, minha armadura de pedra se desfazia e eu inevitavelmente recuava.

― Para de me olhar...! ― falei num tom mais grosseiro do que realmente pretendia.

― Hã? ― Seu olhar parecia ter voltado a ser o de uma adolescente normal, quer dizer, uma adolescente normal com olhos de gato. ― Por q...

Ela se interrompeu me encarando paralisada. Ah é... Toda vez que eu tomo minha forma original minha roupa desaparece. Ela virou-se de costas instantaneamente.

― AH!! ― De novo, o grito estridente. ― Onde estão as suas roupas?!

Ela desviou o olhar rapidamente assim que minha transformação terminou, cobrindo o rosto com as mãos.

― Eu também gostaria de saber... ― Me levantei do chão com certa dificuldade. ― Deve haver algum encantamento para fazer as roupas ficarem no corpo mesmo na transformação, mas eu não consigo lembrar...

Ela virou para mim novamente, provavelmente esqueceu que eu estava pelado.

― O que... ― Ela tomou um susto de novo, realmente ela tinha esquecido que eu estava sem roupa. ― Ai, descul... Espera... ― A garota apontou sem olhar diretamente para mim, ainda cobrindo o rosto. ― O que é isso no seu peito?

Acho que ela estava falando da marca de queimadura. Na verdade, eu já havia notado aquela cicatriz bem no dia que o templo foi atacado, mas agora parece que ela está maior... Estranho.

― Uma longa história... ― Suspirei. ― Bem, de qualquer forma, será que você tem como arranjar algumas roupas pra mim?

― Por que eu faria isso? ― ela falou desconfiada, mas ainda extremamente sem graça.

― Porque eu salvei a sua vida...?!

― É... Eu também acabei de salvar a sua, não há de quê ― seu tom era irônico.

― Não tinha motivo pra você entrar na briga... ― resmunguei. ― Eu tinha tudo planejado.

― Estava nos seus planos ter a cabeça esmagada por um tacape de madeira?

Eu ri por um instante, talvez isso a tenha pego de surpresa, fazendo sua feição séria se desmanchar aos poucos.

― Certo, se você me arranjar roupas... ― Pensei por um instante. ― Eu te acompanho até sua casa, feito?

― Minha... ― Ela arregalou os olhos. ― casa…! Meu Deus, o que aconteceu ontem! Eu sou meio-demônio... e você também!

Essa garota sofre de dislexia ou o quê?!

― Não... Você é meio-demônio; eu sou um demônio por completo.

Ela se afastou de mim, apanhando sua pasta escolar do chão e a colocando entre nós dois, talvez para se defender.

― O que você quer comigo?

Ela parecia inexplicavelmente nervosa. Quer dizer, pelo menos pra mim; afinal, não sei o que tinha de tão absurdo em ser um demônio completo. Talvez ter dito isso para uma mundana completamente desorientada, que nem deve saber que existem demônios bons e maus, não tenha sido lá uma das minhas melhores ideias.

― Tem como você relaxar?! ― Tentei avançar um passo, mas ela recuou outro. ― Se eu quisesse te matar, já teria feito...

Ela se acalmou um pouco, talvez a ficha de como a vida dela está estranha só caiu agora.

― Olha, eu não sei o que está acontecendo, mas passagens para o Reikai não deveriam se abrir tão facilmente. ― Eu parei quando percebi a expressão de dúvida, antes que ela perguntasse qualquer coisa eu me antecipei: ― Reikai é o mundo espiritual que os mortais podem ver... Eles não podem interagir, mas no seu caso e no meu, que não somos mortais, esses espíritos podem nos alcançar. Só que o estranho disso tudo é: apenas lugares específicos que normalmente servem de passagem para esses espíritos, não qualquer lugar...

Me distraí por alguns instantes, estava tentando analisar a situação.

― Por que tinha que ser eu? ― A garota sentou-se no chão, apoiando o rosto nas palmas das mãos. ― Esse tipo de coisa sempre acontece comigo...

― Que tipo de “coisa”? ― Soltei outro riso abafado. ― Ser atacada por dois demônios diferentes na mesma semana e descobrir que não é mortal, além de que ou seu pai ou sua mãe também é um demônio e que sua camisa provavelmente jamais voltará a cor original? Realmente, você é uma garota bem estranha...

Bufei.

― Você entendeu o que eu quis dizer...

Ela me olhou de canto com um pouco de raiva, mas logo abaixou a cabeça novamente.

― Então, deve estar muito bom ficar aí no chão se lamentando e tal... Mas eu realmente preciso de roupas e você realmente precisa voltar pra casa.

Eu tentei me aproximar e fazê-la levantar, mas ela foi mais rápida. Ainda com a cabeça baixa, se ergueu e foi caminhando na direção do buraco que o oni havia feito. Ela seguiu sem dizer uma só palavra.

― Você está bem? ― Puxei-a pelo braço e ela se virou, revelando os olhos cheios de lágrimas. ― Ah droga... Não... Não chora.

Não demorou muito para que ela desviasse o rosto, ou para esconder as lágrimas ou devido ao fato de que eu ainda estava nu. Por que diabos uma pessoa começa a chorar desesperadamente quando outra diz para ela não o fazer? Não consegui evitar tocar com a palma da mão sua cabeça redonda e seu cabelo laranja e macio.

― Hã? ― Ela parou de chorar por um instante.

Eu estava um pouco tenso, então provavelmente minha expressão estava fria e séria. Ela sorriu, um sorriso singelo como o da noite que nos conhecemos.

― Não é tão ruim quanto parece... ― eu falei um pouco baixo. ― Sabe? Pode parecer uma maldição, mas, algum dia, você vai perceber que descobrir ser um hanyou foi umas das melhores coisas que já te aconteceu.

Sua expressão agora estava mais tranquila e harmoniosa, suas bochechas ainda estavam vermelhas de chorar, mas ela enxugou as lágrimas e deu mais um sorriso encorajador.

― Certo, espera aqui vou pegar algumas roupas pra você.

― Não vou a lugar algum... Pode ter certeza...

Ela sorriu meio sem graça ao lembrar que estava conversando tão naturalmente com um cara totalmente pelado. Aohono-san partiu para a entrada da loja, mas parou assim que passou pelo balcão.

― Ei, essas roupas que estão aqui não servem em você?

Ela apontou para um emaranhado de roupas e sapatos que estava largado no canto do balcão: uma calça jeans, tênis bem velhos, e... Uma peculiar camisa preta com um número quatro em vermelho, que irônico — quer dizer, já que o som de “quatro” também lembra “morte”; ambos são pronunciados como “shi”, em japonês. Com certeza, o antigo dono desse lugar era uma pessoa curiosa.

Comecei a me vestir.

― Se quiser, eu fico do lado de fora...

― Você já viu o que tinha pra ver, não faz diferença agora. ― Comecei a me vestir. ― Por que os mundanos tem tanto problema com o próprio corpo?

― Não é isso... É que... ― Ela parecia estar pensando numa resposta adequada, enquanto isso eu terminava de colocar a camisa. ― é complicado...

― Mais complicado que demônios e mundos que você não conhece?

― Bem mais, pode apostar ― ironizou. ― E então, será que podemos ir agora?

Eu assenti e nós nos dirigimos para fora do estabelecimento. Devo dizer, a reação da Aohono-san foi muito engraçada ao notar o local em volta. Nós estávamos ainda no Reikai, mas em uma camada mais profunda, que é onde os youkais vivem livremente: o Reikai Intermediário.

Pode-se dizer que o Reikai Intermediário se parece muito com o Ningenkai, o mundo dos humanos, exceto pelo fato de que aqui o céu parece estar constantemente coberto por uma neblina, ou algo parecido. Não demos nem três passos até a Aohono-san correr para as minhas costas e segurar a barra da minha camisa, enquanto encarava os youkais que passavam, embora nem todos fossem ruins. Fala sério, nem parece a garota que queimou um oni minutos atrás...

Não falamos nada durante algum tempo, e esse silêncio me fez lembrar de que eu não podia ficar por aí passeando com uma garota quando deveria estar trabalhando numa forma de me tornar mais poderoso. Devo ter deixado minha expressão preocupada transparecer.

― Está tudo bem? ― Aohono-san me olhava com receio. ― Sei lá, você ficou meio pra baixo do nada.

― Está tudo bem... ― Desviei o olhar.

Sora dizia que não precisávamos ter as almas ligadas para que ela soubesse que eu estava mentindo, era só olhar bem nos meus olhos e eu iria desviar.

― Sabe... ― Ela hesitou por um segundo. ― “Iwako”, né?

Confirmei, balançando a cabeça.

― Existe alguma forma da minha aparência física voltar ao normal?

― Mas essa é sua aparência física normal... A outra era sua aparência humana, assim como a minha.

― Está me dizendo que sua aparência normal é aquela criatura esquisita de pedra?

Fitei-a com os olhos semicerrados.

― Eu deveria ter deixado você morrer… ― falei com desdém.

― Ai... que cruel...

― Foi você que me chamou de esquisito.

― Own... ― Ela sorriu. ― A criatura de pedra tem sentimentos.

Suspirei para tentar controlar a raiva.

― Mas então… ― prosseguiu Aohono-san. ― Existe alguma forma de voltar a ser humana?

― Não vou te falar...

― Ah, qual é...!

― Deveria ter pensado duas vezes antes de ter me chamado de esquisito.

― Cara, supera isso!

Ela falou indignada. Nós paramos de andar, parecia que ela havia se assustado com alguma coisa.

― Claro que tem, se trata apenas de autocontrole. Da mesma forma que eu consigo mudar daquele “monstro de pedra” para essa forma humana, você também pode.

― Tá... e como eu faço isso?

Levantei uma sobrancelha para ela.

― Olha, eu realmente não sei lidar com essas coisas de youkais e mundos estranhos... Tem uma forma de me fazer cem por cento humana de novo?

Suspirei profundamente.

― Tem sim...

― Sério?

Fiz que sim com a cabeça.

― Como?

― Bem... ― Pensei por um instante. ― Existe uma lenda entre os youkais de uma relíquia chamada "Kasai no Hana", naturalmente, ela é uma fonte de poder...

Parei no mesmo instante. Como eu nunca havia pensado nisso?! Eu posso usar a Kasai no Hana para aumentar o meu poder. Olhei para a garota novamente e ela estava com cara de paisagem, esperando que eu dissesse alguma coisa, ou pelo menos concluísse o que já estava falando.

― Então... ― Eu passei a mão pelos cabelos cinzentos. ― É só achar uma passagem para o Ningenkai e de lá você se vira. Até mais, boa sorte com tudo.

Tentei sair, mas ela me conteve.

― Espera, esse não foi o trato! Então não vai falar sobre essa “Kasai no Hana”, ou sei lá o quê?

Suspirei... Não sou do tipo que falta com a palavra, então segui com ela pelo corredor de youkais tomando cuidado para não falar alto demais, já que as Relíquias são como tabus para nós. Tudo bem falar, ela não vai saber como encontrá-la de qualquer forma...

― Basicamente, essa relíquia é uma fonte de poder ilimitado. Se encontrá-la, pode fazer com que ela a transforme à sua forma humana permanentemente.

Ela ficou fitando o chão pensativa.

― Você pode me ajudar a encontrar essa relíquia?

Eu a encarei meio perplexo. Aquilo era a última coisa que eu esperava escutar. Tudo o que eu conseguia pensar era como eu estaria fodido, caso aceitasse aquela proposta.



Notas finais
Nota para os leitores: E é isso, mais um capítulo no PoV do Iwako, espero que tenham gostado, o próximo é com a Rumiko com o PoV da Michi :3 Nota para Kitsune-sama: A Michi é uma garotinha astuta, o que fará com essa informação?>:3 ... Veremos no próximo capítulo