Notas iniciais
Desculpem a demora. Espero que gostem.

— Será que papai não vai me receber, Ashley? _ perguntou Spencer

— O ajudante-de-ordens disse que o rei não vai receber ninguém, m'mselle- responde Ashley

Elisa atravessou a saleta da suíte da rainha e parou diante da janela, olhando para fora. Podia ver no vale, lá embaixo, bandeiras hasteadas, tremulando ao vento morno e salpicando de cores a cidade.

— É um absurdo! _ disse Spencer _ Eu preciso descobrir o que está acontecendo e o que ficou combinado para amanhã!

Ashley não respondeu e Spencer percebeu, pela expressão dela, que estava preocupada. .

— Tudo correrá bem, Ashely _ falou Spencer para tranquilizá-la _, tenho certeza.

Falava para encorajar tanto a ama quanto a si própria, para ver se afastava a apreensão quanto a seu futuro e a sensação chocante que lhe ficara do golpe que recebera na véspera.

Depois que a delegação se foi, ela esperou que o pai se recobrasse da raiva e mandasse chamá-la. De certa forma entendia o que ele sentia e o quanto era humilhante, depois de tudo o que dissera do princesa, ser forçado a aceitá-la como um membro da família.

Por outro lado, achava que o pai deveria entender que o país vinha sempre em primeiro lugar, e que na verdade era ela quem estava fazendo o sacrifício de fato.

Esforçava-se para sentir que o que estava lhe acontecendo era natural e comum entre pessoas de sangue real, mas não conseguia se convencer.

Qual era a diferença de se casar com a princesa Emily de Dabrozka ou um príncipe de qualquer outra parte da Europa?

Spencer imaginou que era por ter vivido tanto tempo como uma pessoa comum que achava tão horripilante a ideia de um casamento arranjado. Era assim que se sentia, mas sabia que a mãe não aprovaria se ela demonstrasse esses sentimentos.

Quem sabe se na ânsia de salvar Dabrozka ela e a princesa Emily não encontrariam uma base sólida para construir a vida conjugal? O que tornava tudo tão difícil era o fato de não saber nada sobre ela, e não havia ninguém no palácio a quem pudesse perguntar.

Achou que seria indigno pedir informações ao coronel Cavanaugh ou Coronel Rivers ou a qualquer outro dos oficiais da corte.

Além do mais, tinha certeza de que eles deveriam ter a mesma opinião que seu pai a respeito da princesa.

— Só me resta esperar para ver _ disse Spencer para si, com um sorriso triste.

Por outro lado, estava decidida a discutir não só o assunto do princesa com o pai como também toda a história dos Sáros. Podia ser que ele se irritasse com isso; sem dúvida seria agressivo e acusaria a princesa com toda violência, como sempre fizera. Mas era melhor estar preparada, saber o que a esperava, por pior que fosse, do que ficar em completa ignorância.

Durante a tarde passeou pelos jardins do palácio e visitou os aposentos que não via desde criança. Havia tanta coisa para ver e tanta coisa que despertava seu interesse que ela percebeu que começara a ficar tarde e já devia estar se arrumando para o jantar.

Ainda não havia o menor sinal de seu pai, e ela foi para o quarto na esperança de que ao menos jantassem juntos, como na véspera.

Ashley a esperava_ Achei que gostaria de jantar na sua saleta, hoje, em vez de descer para o salão, m'mselle.

— Não vou jantar com meu pai?- pergunta Spencer

— Não, m’mselle- responde Ashley

— E por que não? Ele ainda está bravo?- pergunta Spencer

Ashley hesitou antes de responder_ Ele programou outra coisa, m`mselle.

— Outra coisa?! _ Quer dizer que ele vai jantar com outra pessoa?- pergunta Spencer

— Vai sim, m'mselle- responde Ashley

Havia algo no modo da ama falar que deu a entender a Spencer haver algo de misterioso nesse jantar do pai.

— Você está sabendo de alguma coisa e não quer me contar, Ashley!- exclama Spencer- Por que tanto mistério em torno da pessoa que papai convidou para jantar?

Ashley desviou o olhar_ Não fique preocupada, m’mselle. Você não devia saber da existência de mulheres desse tipo. Elas são uma desgraça. É isso o que são!

Spencer lembrou-se de que Ashley costumava usar essas mesmas palavras para as mulheres muito enfeitadas que passavam no Bois, em Paris.

Spencer calada por instantes, depois disse_ Você quer dizer que. . . que papai tem uma. . .uma mulher?

— Se prefere chamar assim _ respondeu Ashley, mordaz. _ Como sua mãe sofria, coitada!

Spencer fitou a ama de olhos arregalados. Agora começava a entender algumas das coisas que a mãe às vezes dizia sem querer.

Como a maioria dos filhos, Spencer não achava que pudesse haver algo de imoral em relação aos pais. Nunca imaginou que seu pai pudesse ser atraído por qualquer outra mulher que não fosse a sua mãe.

Os dabrozkanianos eram de sangue quente, passionais e temperamentais. Sabia que nenhum homem viveria como monje, e seu pai não era diferente. Só não sabia que tipo de mulher toleraria os acessos de fúria dele e seu comportamento caprichoso, mesmo sendo ele um rei.

— Você tem razão, Ashley! _ disse Spencer_ Prefiro jantar na minha saleta. Tenho um livro para ler que está muito interessante.

Deitou-se logo, mas não conseguia dormir. Spencer decidiu que faria tudo para ver seu povo rindo e cantando novamente. Antes de se casar falaria com o pai sobre o peso dos novos impostos e das novas medidas.

Sentiu que ganhava forças para lutar contra essas injustiças e, quando chegasse a hora de falar com o pai, não teria medo. O difícil era falar com ele!

No dia Seguinte

Desde cedo ela mandara um recado por Ashle pedindo para vê-lo. A criada voltara aos aposentos reais três vezes e sempre vinha com a mesma resposta: o rei não desejava falar com a filha.

Spencer arrependeu-se de não ter ido cavalgar e, então, voltou-lhe à memória o episódio acontecido na véspera. Mesmo com tantos problemas na cabeça, não pôde deixar de lembrar o que sentira quando aquela desconhecida a beijou, a sensação arrebatadora que os lábios macios e quentes provocaram nela.

— Preciso esquecer isso _ disse Spencer, baixinho_ Foi um ultraje! Uma impertinência!

Tudo por ter cometido a tolice de fugir dos que a protegiam.

Em Paris jamais sairia a cavalo sem estar acompanhada por um cavalariço, porém imaginara que nos bosques de Dabrozka estaria a salvo. Como se enganara!

— Por que não vai dar uma volta no jardim, m’mselle? _perguntou Ashley

— Eu queria ver meu pai. Pretendo fazê-lo falar comigo!- diz Spencer _ Deixe para fora todos os vestidos brancos que trouxemos de Paris. Precisamos resolver qual eu usarei amanhã.

— Já fiz isso, m’mselle, e tem um que é o mais lindo de todos. Tenho certeza de que vai achar o mesmo- diz Ashely

— Verei isso quando voltar- diz Spencer

Spencer desceu a escada e atravessou os corredores que conduziam à sala de audiências do rei.

Na antessala estava o coronel Rivers, a serviço, e ela se alegrou ao vê-lo.

— Bom dia, coronel — foi dizendo Spencer

— Bom dia, alteza- diz o coronel educado

— Já pedi três vezes para falar com meu pai. Acho muito importante discutirmos as combinações para amanhã- diz Spencer

— Eu posso lhe dizer quais são, alteza — retrucou o coronel. Foi até uma escrivaninha enquanto falava e pegou um pedaço de papel- diz Caleb

— E qual é o motivo para que eu não discuta isso com o rei? — perguntou Spencer

O coronel hesitou e ela percebeu que ele estava medindo o que devia e o que não devia falar.

— Por acaso. . . ele mudou de ideia a respeito do casamento?- pergunta Spencer preocupada

— Não exatamente, mas, como já era de esperar, sua majestade está com muita raiva de ter sido forçado a dar o consentimento- responde o Coronel

— Ele deve entender que não havia outra alternativa- diz Spencer

— Tenho certeza de que é correto lhe falar que o primeiro-ministro e o princesa Emily estiveram aqui de manhã e pediram para vê-Ia- diz o Coronel Rivers

— A Princesa?! — pergunta Spencer surpresa. Era de esperar que ela viesse— Eu não fui informada da visita dela

— Não, sua majestade recusou permissão para que ele a visse, ou mesmo o primeiro-ministro- diz o coronel— Eu acho, princesa, que o recado foi dado a eles de modo pouco educado.

— O que aconteceu? Qual foi o recado que meu pai mandou a princesa? – pergunta Spencer preocupada

— A princesa pediu para vê-la e seu pai mandou dizer que a alteza real, princesa Spencer de Dabrozka, não desejava ver ou falar com a princesa Emily enquanto não fosse obrigada pelas circunstâncias- O coronel falava em voz baixa e pausada, mas acrescentou rápido— Lamento profundamente que isso tenha acontecido.

— Eu insisto em falar com meu pai- fala Spencer. Sentia uma onda de raiva em seu íntimo por seu pai ter sido tão descortês e ter insultado a mulher com quem ela iria se casar.

Não podia ter acontecido coisa pior naquele momento.

O coronel não discutiu com ela, atravessou a sala e abriu a porta dos aposentos reais. Voltou logo depois e disse apenas— Sua majestade receberá sua alteza.

De cabeça erguida, Spencer passou por ele e entrou na sala do pai. O rei estava sentado numa poltrona, com as pernas estendidas, um cálice de conhaque na mão, uma garrafa pela metade sobre a mesa ao lado.

— O que você quer? — perguntou o rei ríspido como sempre.

Spencer fez a mesura de obrigação e continuou se aproximando— Esperei a manhã inteira para falar com o senhor, papai.

— Eu não quero falar com você.- diz Peter irritado

— Disseram-me que o senhor destratou o princesa Emily e o primeiro-ministro em meu nome. Isso não só foi extremamente ofensivo como também pouco hábil- diz Spencer também irritada

— O que quer dizer com pouco hábil'?. . perguntou o rei, fitando-a.

— Se vou me casar com a princesa Emily no esforço de salvar este país e criar um clima de paz entre nosso povo, é desaconselhável que ela pense que sou rude e estou com má vontade- responde Spencer

— Como se atreve a questionar minha atitude?! — falou o rei. Largou o copo e ergueu-se, alto e imponente, com as sobrancelhas espessas franzidas lhe dando um ar agressivo e ameaçador.

— Precisamos criar um novo espírito no país, papai. Temos que dar fim às inimizades e ódios, fazendo com que os Radák e os Sáros se unam- diz Spencer

O rei caiu na gargalhada. Era um riso de desdém, sem a menor graça.

— Você acredita que pode mudar o sentimento do país? Você, uma criatura sem a menor importância, a não ser pelo fato de ser minha filha, criada na obscuridade por aquela beata da sua mãe?!- Falou Peter com tanta violência que por instantes Spencer ficou sem palavras para responder.

Vendo-a calada, ele riu de novo_ Se você imagina que a farsa desse casamento irá mudar alguma coisa, está muito enganada. Eu não acredito em nada daquela besteirada toda sobre os russos quererem dominar nosso país. Mas de uma coisa eu tenho certeza, que meu povo, os Radák, odeia os Sáros e o sacrifício de uma virgem inocente no altar do matrimônio não os fará mudar de ideia!

— Acho que o senhor está enganado, papai. Acho também que existem muitas injustiças em Dabrozka atualmente que devem ser sanadas- diz Spencer

Era um esforço enorme desafiá-lo, mas ela falou com calma e segurança, sem desviar o olhar do dele. De repente, e tão inesperadamente que ela foi tomada de surpresa, ele deu um passo à frente e deu uma bofetada no rosto da filha. O golpe a fez cambalear e cair de joelhos.

— Como você ousa criticar minhas leis e decretos?! _ gritou o rei_ Como se atreve a me responder do mesmo modo que sua mãe fazia?

Spencer sentia um apito nos ouvidos que a deixava tonta. Então, subitamente, sentiu o ardor de uma chicotada no ombro. Por ter sido tão inesperado, por não ter percebido que ele pegara o chicote de montaria, ela gritou. Depois, enquanto as chicotadas se sucediam em suas costas, ela mordeu o lábio até sangrar. A dor era como a de uma faca cortando sua pele delicada.

— Saia daqui e fique longe de minha vista! Quando se tornar uma Sáros logo vai saber o que acho de você!- diz Peter

Era difícil mover-se, quase impossível erguer-se. Spencer tinha a impressão de que a sala rodava a sua volta. Só por orgulho conseguiu, afinal, ficar em pé e encaminhar-se para a porta.

Fez menção de pegar o trinco, quando a porta se abriu e ela viu o coronel Rivers do lado de fora. Passou por ele sem dizer uma palavra e, saindo da antessala, percorreu lentamente o caminho de volta até seu quarto. Só quando fechou a porta e se viu sozinha, pôs a mão no rosto, horrorizada com o que acabara de sofrer.

Mal podia acreditar que seu pai batera nela daquele jeito, tal como fazia quando ela era criança! Todo o terror daquela época voltou como uma torrente.

— Eu o odeio! Eu o odeio! _ disse Spencer baixinho para si.

A intensidade de seus sentimentos afastou a fraqueza que ameaçava se apoderar dela e as lágrimas que inundavam seus olhos. Estava decidida a não ser subserviente a ele, nem demonstrar que sua força a derrotara.

Jurou para si que, por ter sido tratada daquele modo, lutaria contra ele e suas injustiças até a última gota de seu sangue.

No palácio Sáros

Emily tinha acordado com o primeiro ministro que iram se encontrar no Castelo Radák

No horário marcado ambos estavam em frente ao castelo.

—Boa tarde Princesa- diz o primeiro ministro Ted

—Boa Tarde Sir- diz Emily educada- o Rei esta ciente de nossa visita

—Não consegui falar com ela- diz o primeiro ministro- mas tenho certeza que ele ira nos receber

—Assim espero- diz Emily seria

Os dois são recebidos pelo Coronel Rivers.

—Boa tarde Coronel Rivers- diz Ted- eu e a princesa precisamos falar com o Rei e ver a princesa Spencer

—Vou anunciar vocês- diz Caleb

—Obrigado- diz Emily educada

Caleb entrou na sala. Emily e Ted ficaram ouvindo tudo.

—Majestada a princesa Emily de Sarós e o primeiro ministro querem uma audiência com vossa alteza e a princesa Spencer- diz Caleb fazendo uma reverencia

—Eu não quero ve-los- grita Peter- princesa Spencer de Dabrozka, não desejava ver ou falar com a princesa Emily enquanto não fosse obrigada pelas circunstâncias

—Majestade eu... – tenta falar Caleb

—Pode avisar aquela mulher que ela não é bem vinda em minha casa- diz Peter

Caleb sai e vê que eles ouviram.

—Com licença- diz Emily saindo

—Princesa- fala o primeiro ministro indo atrás dela- majestade mudou de ideia?

—Não. Eu cumpro com a minha palavra- diz Emily- amanha me caso

Emily voltou pra casa se sentido humilhada e com raiva dos Radak.

—Se esta princesa for como o pai este a casamento esta fadado ao fracasso- diz Emily- mas meu povo merece meu sacrifício. Vou me casar com ela e domar este gênio ruim dos Radak.