A Princesa Orgulhosa
3 Capitulo 3
Notas iniciais
Pela primeira vez a mulher sorriu e ficou ainda mais atraente. Spencer se perdeu naquele sorriso.
—Como você queria que eu fosse?- perguntou a desconhecida- Humilde e conciliadora?
Ela estava caçoando e Spencer se ressentiu.
Então, surpreendentemente, ela ergueu os braços e tirou-a da sela. Spencer não teve tempo de repeli-la, nem sequer de imaginar o que ele iria fazer. Quando deu por si ela a estava beijando.
Spencer ficou tão perplexa que perdeu a ação, deixando-se beijar e abraçar passivamente. Em seguida, com a mesma rapidez com que a tirara da sela, colocou-a de volta no lugar.
Ela instintivamente segurou a rédea para equilibrar-se enquanto a outra dizia _ Você é linda demais para se preocupar com política! Vá para casa, moça bonita, flertar com seus pretendentes.
Spencer a contemplou, calada, incapaz de coordenar os pensamentos e entender o que acontecera. E nem teve tempo de se recuperar, pois ela, ao acabar de falar, deu um tapa forte em seu cavalo, que imediatamente saiu em disparada por entre os pinheiros.
O cavalo já estava atravessando o rio de volta e Spencer ainda não entendera o que acabara de acontecer.
Como ela se atrevera a beijá-la?! Era incrível! Inacreditável! Um ultraje! E ela não fizera nada para impedir!
Devia ter gritado, batido nela com seu chicote ou pelo menos a repelido indignada, como faria qualquer jovem respeitável!
Não fizera absolutamente nada! Deixara-a tomá-la em seus braços e beijar-lhe os lábios. Spencer jamais fora beijada até então.
Na verdade, ninguém tentara, e ela não sabia que os lábios de uma mulher podiam ser tão quentes, exigentes e macios.
Sempre imaginara que o beijo fosse um contato suave e delicado, mas o beijo daquela desconhecida fora intensa e prolongada e pareceu violentá-la de uma maneira estranha que ela não conseguia explicar. Era como se a desconhecida a tivesse possuído e ela tivesse ficado submissa.
Sentiu-se enrubescer, só de pensar.
Estava tão absorta em seus pensamentos que só quando chegou à outra margem do rio é que notou sua escolta esperando-a.
Do outro lado do Rio
—Não sabia que a Poderosa Princesa dos Sáros estava se dando ao desfrute na floresta enquanto estamos discutindo a situação politica do reino- diz um jovem
—Eu não estou me dando ao desfrute- responde Emily indignada- e olha como fala com sua Princesa
—Me desculpe alteza- diz o homem se encurvando
—Seu idiota- diz Emily empurrando o homem- Ezra se levante e deixe de me atrapalhar. Eu só estava protegendo aquela mulher indefesa
—Protegendo de quem?- pergunta Ezra- pelo que eu vi você estava se aproveitando dela
—Protegendo-a do Conselho- diz Emily seria- os homens estavam prontos para ataca-la
—Eu percebi por isso vim atrás de vocês- diz Ezra sincera- os ânimos estão quentes
—Eu sei- diz Emily sincera- devemos voltar
—Sim- diz Ezra- mas depois vamos conversar
—Sim- diz Emily- depois conversamos
Emily e Ezra voltaram para a reunião do Conselho só que os pensamentos de Emily estavam na desconhecida que ela acabará de encontrar.
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Os oficiais e os cavalariços estavam com ar de reprovação. Imagine então se soubessem o que acontecera!
— Graças a Deus sua alteza real está a salvo! _ exclamou o coronel Rivers _ Não devia ter atravessado o rio!
— Por que não?- pergunta Spencer irritada
— Nós percebemos, princesa, que seu cavalo disparou -- disse o coronel pausadamente, escolhendo as palavras. _ Mas foi terrível que sua alteza tivesse sido levada para o território Sáros.
— Parece que não houve nada de mau _ comentou o coronel Cavanaugh
— Graças a Deus _ disse o coronel Rivers _ Mas nós lhe suplicamos que tenha mais cuidado da próxima vez, princesa.
Spencer sabia que o coronel Rivers, ao dizer que seu cavalo disparara, estava arranjando uma desculpa para a incompetência deles em deixá-la fugir. Porém, ela não estava preocupada com isso. O que a intrigava era o tom de seriedade com que ele dissera que ela não devia entrar em território Sáros.
— Como o senhor sabe, coronel Rivers _ disse Spencer _ estive fora de Dabrozka desde os oito anos. Não me lembro de que houvesse alguma proibição de atravessar o rio. Talvez eu tenha esquecido. . .
Percebeu que o coronel Rivers trocou um olhar com o Coronel Cavanaugh como se estivesse indeciso sobre o que dizer a ela. Havia também uma expressão quase de medo nos olhos dele. Talvez fosse medo de seu pai. Quem não tinha?
Mesmo estando em casa só há vinte e quatro horas pudera notar como todos no palácio quase rastejavam diante dele e o olhavam sempre com apreensão. Devia ter ficado em Paris. Mas logo lembrou-se de que não tivera escolha.
— Gostaria de saber a verdade _ disse ao coronel Rivers
— O que está insinuando ao dizer que eu não deveria ter entrado em território Sáros? _ Pergunta Spencer Fiz uma pausa e acrescentei, com um sorriso: _ Seja o que for, eu não repetirei ao rei o que me contar.
Notou que o coronel relaxou a tensão ao responder:
— Talvez sua alteza real não saiba, mas nosso país está dividido em duas partes; Radák e Sáros- responde o Coronel Rivers
— Mas papai reina sobre Dabrozka inteira, tal como meu avô e meu bisavô, não é?- pergunta Spencer
— Teoricamente sim _ retrucou o coronel Cavanaugh— Mas nos últimos cinco ou seis anos as coisas se transformaram de modo crítico.
— Por favor, continue! _ pediu Spencer
— A Princesa de Sáros sempre foi a maior e mais poderoso dona de terras em Dabrozka _ disse o coronel Cavanaugh— e na época de seu avô, o chefe de família, príncipe Wayne Fields, era abaixo do rei o homem mais importante do país.
— Podia-se quase dizer que partilhavam o poder _ interferiu o major Rivers
— É, isso mesmo! Os dois homens juntos administravam o país habilmente _ concordou o coronel Cavanaugh. Fez uma pausa, depois disse _ Foi muito diferente quando seu pai, príncipe Peter Hastings, herdou o trono.
Spencer nem precisava perguntar por quê. O gênio irascível do pai, seu caráter dominador e sua crueldade tinham afastado a mãe dela de Dabrozka e ela própria o odiava desde que atingira a idade de raciocinar.
— O que está acontecendo agora? _ perguntou ela.
— Dabrozka na realidade se constitui de dois Estados separados _ explicou o coronel Radák _ e o povo vive ou em Radák ou em Sáros.
— Existe quase um clima de guerra entre essas duas facções _ disse o major Rivers
_ Clima de guerra?! _ espantou-se Spencer
Ao sair da França imaginou que jamais precisaria se preocupar com guerra novamente, porém parecia agora que teria de enfrentar isso ali em Dabrozka.
— Os dabrozkanianos estão em situação bastante difícil _ explicou o coronel Rivers _ Como seus governantes vivem em inimizade, muitos cidadãos acham nisso uma desculpa para retomar antigas brigas, reavivar velhas rixas e vingar-se de antigos insultos.
— O senhor quer dizer _ falou Spencer _ que a facção de Sáros está contra nós?
Houve uma pausa e depois o coronel Cavanaugh. disse, hesitante _ A princesa Emily de Sáros desaprova e rejeita muitas das novas leis que foram introduzidas por sua majestade. Ela se recusa-se a obedecê-las e defende seu povo quando algum deles é preso.
— Defende pela força? _ perguntou Spencer
— Há duas noites a prisão de Vitózi foi invadida e todos os prisioneiros libertados!- responde o Coronel Rivers
— E os guardas... foram mortos?- pergunta Spencer
— Nenhum deles _ retrucou o coronel Cavanaugh— Foram todos amarrados e jogados no lago, numa parte rasa em que não dava para se afogarem, mas foi uma humilhação que jamais esquecerão.
O coronel falava com seriedade, mas Spencer não pôde deixar de rir.
— Isso não é para se achar graça, alteza _ disse o major Cavanaugh, em tom de reprovação.
— Desculpe, mas é que ontem mesmo quando vi os guardas no palácio achei que o novo uniforme que papai escolheu é muito pomposo! Deve ter sido engraçado para os habitantes de Vitózi vê-los amarrados e sentados dentro d'água- disse Spencer
— Estou só tentando preveni-la, alteza, de que não deve entrar em território Sáros _ falou o coronel Cavanaugh em tom de reprovação. _ Pode ser insultada ou, pior ainda, até sequestrada.
Fez uma pausa antes de acrescentar com eloquência: _ Seria, sem dúvida, um modo de obrigar sua majestade a rescindir algumas das novas leis.
— E quais são essas novas leis que causaram tanto problema?- pergunta Spencer
— Acho que é melhor perguntar isso ao rei, alteza- responde Coronel Rivers
— O senhor sabe muito bem que eu não faria isso. Tenho tanto medo de papai quanto o senhor, coronel- disse Spencer
— Medo? Medo, eu? Eu tenho é muito respeito por sua majestade e obedeço às ordens dele! — disse Coronel Rivers
—Mas tem medo dele — insistiu Spencer — Vamos, seja sincero. Papai é uma pessoa que inspira medo. Por isso, apesar de ter sido difícil, foi um alívio para mim não ter vivido em Dabrozka todos esses anos.
Ela suspirou e olhou em redor — É verdade que tive muita saudade dessa incrível beleza e de nossos cavalos! Conte-me a verdade, coronel, e depois poderemos galopar por esses campos maravilhosos.
O coronel Cavanaugh olhou-a como se achasse irresistível o apelo em seu olhar — Pois bem, então vou lhe contar, princesa, quais são as duas leis que enfureceram tantas pessoas. Primeiro, o rei decretou que a metade da colheita de cada homem deve ser apropriada pelo Estado. Em segundo, baniu todos os ciganos, sob pena de morte.
— Mas isso é ridículo! — exclamou Spencer — Os ciganos sempre viveram em paz conosco. Lembro-me de que mamãe me contava como eles eram tratados com crueldade na Romênia.
— É verdade, princesa — murmurou o major Rivers
— Mas aqui eles sempre foram aceitos como parte de nosso modo de vida — disse Spencer
— O rei ordenou que eles deixassem o país — comentou o coronel Cavanaugh
— Mas para onde eles vão? — perguntou Spencer. — Só resta a Rússia, mas como os russos nos detestam é pouco provável que aceitem nossos ciganos.
— Todos esses argumentos foram colocados para o rei de modo bastante incisivo pela Princesa Fields- responde o coronel Cavanaugh — Nem precisa dizer que papai não lhe deu ouvidos.
— Há várias outras leis que foram decretadas recentemente e que estão causando muita dissensão — falou o coronel — O Exército está sendo reforçado e, para falar francamente, a situação não é nada fácil.
— Não me admiro! – Spencer sorriu para o coronel e depois para o major— Obrigada por terem me contado. Podem ter certeza de que não trairei a confiança de vocês. Agora, quero galopar com toda velocidade e esquecer de tudo, menos que este é o lugar mais lindo do mundo!
De volta para casa, Spencer não pôde deixar de contemplar os camponeses trabalhando nas plantações por onde passavam, nos vilarejos ou nos bosques que circundavam o palácio.
Aproximaram-se do palácio e começaram a longa subida até a magnífica morada que há séculos contemplava o vale ali do alto da colina.
Desde sua construção tinha sido reformado e restaurado pelos vários monarcas que se sucederam no trono.
Os jardins dentro do castelo eram também muito bonitos.
Ao entrar pelo enorme portão de ferro que protegia contra exércitos inimigos e bandos de saqueadores, Spencer pensou que quem vivesse num lugar desses só podia ser feliz. Contudo, sabia muito bem que não havia felicidade no palácio Radák.
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