Notas iniciais
Espero que gostem do capitulo. Obrigado pelos comentarios

Enquanto os lacaios ajudavam-na a desmontar, Spencer imaginou o que diria o coronel ou qualquer outro se soubessem o que realmente acontecera no bosque. Tinha sido beijada!

Beijada por uma desconhecida que obviamente fazia parte de um grupo de camponeses dissidentes e descontentes, uma mulher que a tratou ao mesmo tempo com insolência e familiaridade.

Uma mulher cujos lábios, firmes e possessivos, ela ainda podia sentir sobre os seus!

Chegando ao palácio, Spencer foi para seu quarto, onde Ashley a esperava, com um banho preparado e roupas limpas. Os criados já haviam dito a Spencer que o rei queria vê-la. Quando se viu a sós com a ama, no enorme quarto que fora de sua mãe, disse: — Você sabia, Ashley, que os ciganos foram expulsos de Dabrozka?

— Fiquei sabendo assim que chegamos, m’mselle- responde Ashley

Ashley era uma mulher ainda jovem, com um rosto meigo e compreensivo. Fora a ela que a rainha confiara a filha ao fugirem de Dabrozka, e Ashley foi a confidente, a amiga, o esteio delas durante os anos de exílio.

Spencer costumava achar que se não fosse por Ashley elas teriam morrido de fome durante a ocupação de Paris. A ama, como num passe de mágica, conseguia sempre algum alimento, nem que fosse apenas pão.

Enquanto ajudava Spencer a tirar a roupa de montaria, ia dizendo: — Há muito ressentimento no palácio e todos me falaram sobre esse decreto de sua majestade.

— Como é que papai pode fazer algo tão cruel e insensato?! _ indignou-se Spencer

Porém sabia a resposta. Ele sempre fora assim.

— Por que — perguntava Spencer, então -- papai voltou-se contra os ciganos, assim? Para onde eles irão se não puderem ficar aqui?

— Pelo que ouvi — respondeu Ashley em voz baixa — eles se reuniram em território Sáros, onde o princesa lhes ofereceu proteção.

— Não é à toa que papai está furioso com ela!- Sabia que nada poderia enfurecer mais seu pai que o fato de os ciganos o desafiarem ficando em Dabrozka sob a proteção de sua maior inimiga.

— O povo não está feliz, m'mselle — disse Ashley — Voltamos para um país triste, terra de choro.

Spencer não respondeu. Já havia pensado exatamente a mesma coisa. Enquanto se enxugava, depois do banho, e se vestia, imaginava se seria possível conversar esses assuntos com o pai. Certamente ele não havia de querer reinar sob um povo sem alegria. Contudo, tinha quase certeza de que não teria coragem de dizer nada que pudesse irritá-lo.

Ele estava sendo surpreendentemente agradável e gentil no pouco tempo em que ela voltara ao palácio, embora tivesse reclamado com os ministros que a trouxeram de Paris, achando que haviam demorado demais na viagem.

A demora, entretanto, devia-se ao fato de que Spencer não podia sair de Paris sem ter comprado roupas novas. Que mulher resistiria, depois de tantos anos sem poder gastar, de repente ser capaz de comprar sem restrições todas as maravilhas e requintes, em termos de moda, que Paris oferecia?

Sentindo que seu pai lhe devia algo por todos aqueles anos de obscuridade, pelas privações e sofrimento por que ela e a mãe passaram durante o cerco de Paris, Spencer comprou um enxoval completo.

Havia vestidos de noite, trajes para tarde, manhã e para várias ocasiões. Muitas peles, plumas e tecidos bordados a ouro. Comprou sapatos, luvas, chapéus e roupas de baixo de finíssima seda. Jamais sentira tanta euforia e animação, e quando por fim olhou-se no espelho quase não se reconheceu.

Jamais percebera antes a beleza de seus cabelos castanho, que herdara da mãe; nem que sua pele era tão clara e que seus olhos Castanhos cor de mel tinham certo encanto.

Os vestidos elegantes e bem-feitos realçavam sua cintura fina e a curva perfeita dos seios que suas roupas baratas de antes não valorizavam.

Notou a admiração nos olhos do ministro do Exterior e nos do cavalheiro que o acompanhava quando chegaram, conforme o combinado, para levá-la até a estação de trens. Havia inúmeros baús à espera para serem transportados e Spencer disse-lhes que aquilo não era tudo. O resto lhe seria enviado quando ficasse pronto.

O ministro ficou assustado quando ela lhe apresentou as contas das compras. Mas Spencer disse para si que, se ia voltar para sua condição de realeza, teria de estar vestida como uma verdadeira princesa.

Não queria admitir, mas suas roupas novas lhe davam segurança e autoconfiança. Sentia que, se voltasse para a proteção do pai mostrando pobreza e humildade, seria dar a ele oportunidade de esmagá-la, de fazê-la sentir-se subserviente e ainda com mais medo dele.

— Não vou deixar que ele perceba que estou com medo _ repetia-se ela, centenas de vezes, enquanto o trem a levava para sua nova vida.

Tinha agora idade suficiente para entender o que a mãe sofrera nas mãos dele até ter coragem de abandoná-lo.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Emily terminou sua reunião e foi rumo ao seu castelo junto com seu primo e conselheiro Ezra. A situação estava insustentável o povo estava querendo se rebelar contra a tirania do Rei de Radak.

Emily estava tentando controlar a situação mas pelo visto em pouco tempo ela teria que tomar uma atitude.

—O que você pretende fazer?- pergunta Ezra

—Eu vou fazer o melhor por meu povo- diz Emily seria- se necessário entrar em guerra eu entrarei

—Espero que não cheguemos a este ponto- diz Ezra sincero

Emily seguiu em silencio. Eles entraram e sua prima Aria já estava a espera deles ansiosa.

—Como foi a reunião?- pergunta Aria sem rodeio

—A situação esta critica- diz Emily sincera- é hora de esfriar a cabeça e pensar no melhor para nosso povo

—Então haverá guerra?- pergunta Aria com medo

—No que depender de mim não- diz Emily

—Amor a Emily esta apaixonada- diz Ezra rindo

—Eu não estou apaixonada- diz Emily irritada

—Ela estava beijando uma desconhecida hoje- diz Ezra rindo do rosto vermelho da prima

—Olha mas respeito eu sou sua princesa- diz Emily seria- eu não devo satisfação da minha vida

Emily diz isso e sai andando com raiva.

—Amor você sabe que ela não gosta deste assunto- diz Aria seria

—Depois eu me desculpo com ela- diz Ezra

Emily foi para o quarto tomar um banho ela estava com a cabeça cheia de problemas. Só que a desconhecida não saia de seus pensamentos a muito tempo ninguém tinha despertado o interesse de Emily. Só que ela tinha uma guerra civil a evitar depois que tivesse resolvido este problema iria atrás da desconhecida.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Enquanto Ashley terminava de abotoar o lindo vestido verde que lembrava a cor das estepes, Spencer foi até a janela contemplar a bela paisagem.

Daquela altura onde se situava o palácio podia-se avistar uma vasta extensão do país. E, por uma ironia do destino, o território Sáros que seu pai tanto detestava era o mais próximo dali.

O rio, que se avistava lá embaixo, passava pelo centro da capital do país, Vitózi. Na margem em que estavam, Spencer avistava a catedral, o parlamento e várias imponentes instalações municipais.

Na outra margem ficava a parte residencial, tanto a rica quanto a pobre. Havia "villas" com as casas brancas cercadas de jardins coloridos e ruas estreitas margeadas por casas altas de madeira.

Além, meio escondidos entre as árvores, ficavam os chalés humildes dos camponeses, construídos de palha:, num pequeno terreno onde criavam suas ovelhas, porcos e cabras.

E mais além ainda da cidade, numa colina elevada, ficava o castelo Sáros, moradia do princesa Sáros há muitos séculos. Spencer não sabia o porque mas ela queria conhecer esta mulher que todos falavam.

Spencer sabia que seria impossível para os camponeses viverem bem, cedendo a metade de suas colheitas. Precisava falar sobre isso com o pai, mas, só de pensar na reação furiosa que ele teria, estremecia de medo.

— Está pronta, m'mselle? — perguntou Ashley — É melhor não deixar sua majestade esperando.

— Tem razão, como sempre — disse Spencer, com um sorriso curvou-se para beijar a ama, acrescentando— Não fique tão preocupada. Estou só cinco minutos atrasada e ele não vai me matar por isso.

Contudo, ao descer a escada, sentiu-se apreensiva. Mas não demonstrou seu temor quando o lacaio abriu a porta do salão dos aposentos reais, onde o pai a esperava.

Seu pai estava em pé diante da enorme lareira de pedra, onde se queimavam troncos inteiros no inverno. Spencer aproximou-se devagar e não pôde deixar de admitir que ele era um homem imponente e ainda muito bonito.

Não disse nada até que Spencer estivesse bem perto, então perguntou, ríspido — Onde diabos você se meteu‘? Mandei chamá-la há uma hora!

— Desculpe, papai, por deixá-lo esperando, mas eu lhe disse que iria cavalgar e só quando voltei fiquei sabendo que o senhor queria falar comigo- responde Spencer educada

— Pois devia ter vindo me ver assim que chegou!- diz Peter irritado

— Eu quis me trocar, papai, para lhe mostrar um dos meus vestidos novos. . . Espero que goste- diz Spencer rodopiou para que ele pudesse apreciá-la melhor.

— Não tenho tempo para essas frivolidades — disse o rei, impaciente. — Há uma comissão aqui, esperando para falar comigo, e eu os deixei esperando, até que você resolvesse aparecer!

Spencer ergueu as sobrancelhas— Uma comissão? O que eles querem, papai?

— Só Deus sabe! Imagino que desejam fazer reclamações. E só o que ouço ultimamente! Mas, se você vai assumir o lugar de Jason, é melhor que esteja presente a audiência- diz Peter serio

Spencer ficou calada. Ainda não se acostumara a idéia

— Seu irmão está morto. Assassinado por aqueles malditos Saros, de quem me vingarei um dia! — disse Peter, com violência.

— Pelo que eu soube, Jason morreu de acidente, papai- fala Spencer

— Acidente?! E desde quando a morte de um herdeiro de trono pode ser acidente? — esbravejou Peter — Foi assassinato premeditado E um dia eu matarei Emily Fields da família Saros tal como ela matou meu filho!

— Foi para me dizer isso que o senhor mandou me buscar em Paris?- pergunta Spencer

— Não, claro que não! Mandei buscá-la para que assumisse o lugar de seu irmão e cuidasse do seu sobrinho- diz Peter. Notou a expressão de preocupação da filha e prosseguiu- Preciso de um herdeiro e tem que ser um Radak. Sua mãe era uma mulher frágil demais para um homem viril como eu e só me deu dois filhos.

Spencer cerrou os punhos ao ouvir o insulto a sua mãe, mas, sabendo que devia controlar suas emoções, disse com frieza— O senhor quer explicar exatamente o que espera de mim, papai?

— Você vai se preparar para reinar neste pais apos minha morte e cuidar do seu sobrinho até ele poder reinarNão que eu esteja pensando em morrer logo, mas eu estava preparando Jason para isso, e agora que ele se foi preciso preparar você!- fala PeterComo se a ideia o aborrecesse, o rei chutou um banquinho, que caiu no chão, depois disse com rispidez_ Só Deus sabe o que fará uma mulher no trono, mas pelo menos você é meu sangue e não há mais ninguém em quem eu possa confiar.

Passou então a atacar com veemência a princesa Emily e todos os que o apoiavam.

— Ficarei honrada em acompanhá-lo na audiência a comissão, papai. O senhor os informou da minha chegada?- pergunta Spencer

— Informá-los? E por que deveria? Eles logo saberão. Tudo o que acontece por aqui se espalha com rapidez- diz Peter

Isso era verdade. Spencer tinha certeza de que em breve todos em Dabrozka saberiam de sua volta ao lar. O que ela queria dizer na verdade era se o primeiro-ministro e seu gabinete tinham recebido comunicações de sua nova posição. Por outro lado, sabia que apesar de o pai ter-lhe dito que a queria como herdeira, era bem provável que mudasse de ideia.

— Vamos! Vamos! — apressou o rei, ríspido. — Se temos que receber esse amaldiçoado pessoal, vamos terminar logo com isso. Tenho coisa melhor para fazer do que escutar essas infindáveis lamúrias.

Spencer seguiu-o pelo salão. Passaram pelo hall, decorado com armas antigas e bandeiras, e entraram num corredor largo que conduzia à sala do trono. Era um aposento grandioso e imponente, reconstruído pelo avô de Elisa, que tomara como modelo a Sala dos Espelhos de Versailles.

De frente para a porta ficava um tablado sobre o qual havia dois majestosos tronos, cobertos de ouro e cravejados de ametistas. Tudo extraído das minas nas montanhas de Dabrozka.

O trono da rainha era menor, e Spencer sabia que era ali que deveria sentar-se. Subiu no tablado, em companhia do pai, e assim que ele se sentou ela se sentou também, mantendo as costas bem eretas.

Olhou com interesse para o homem que estava diante deles. O porta-voz, um pouco adiante dos outros, era o primeiro-ministro e Spencer sabia que seu nome era Ted Wilson.

Todos os ministros se curvaram diante do rei, antes que Ted dissesse— Pedimos esta audiência com sua majestade para tratar de um assunto de grande importância.

— Você sempre diz isso — resmungou o rei.

O primeiro-ministro tinha pouco mais de quarenta anos. Não era um homem alto, mas tinha um porte elegante. Spencer sentia que ele não temia o rei como os outros.

Os outros ministros olhavam nervosamente para o rei, apreen-sivos, e Spencer tinha certeza de que estavam tentando adivinhar o humor dele, para saber se seu pedido teria chances de ser aceito.

— Estamos de posse de informações extremamente alarmantes, sire — prosseguiu o primeiro-ministro Ted— a respeito das intenções dos russos com relação a nosso país.

— O que quer dizer com está de posse de informações? — disse o rei com desdém. — Fale a verdade, homem, e diga logo que o que ouviu veio de seus espiões ciganos, aquela escória que você emprega e que só serve para contar histórias sem a menor consistência.

— O que ficamos sabendo, sire, não veio dos ciganos, desta vez, embora eles já nos tivessem avisado do que estava se comentando nas fronteiras- fala o primeiro-ministro Ted

— E o que está se comentando? — perguntou o rei

— Os russos pretendem explorar e tirar vantagens das dificuldades que existem em nosso país. — responde primeiro-ministro Ted

—Que dificuldades? De que está falando? — perguntou o rei.

— Estou me referindo à inimizade entre os Radák e os Sáros, que chega a ser quase um estado de guerra, sire- responde o primeiro-ministro Ted

— Santo Deus! E você acha que não sei disso? — esbravejou o rei. — Se quer saber a verdade, primeiro-ministro, é realmente um estado de guerra! Eu pretendo destruir os que não obedecerem às minhas leis e que desafiarem minha autoridade a ponto de deixarem escapar meus prisioneiros!

— Essa é exatamente a política que interessa aos russos — disse o primeiro-ministro, com calma.

O rei encarou-o, mas não disse nada. O primeiro-ministro prosseguiu— Tenho provas irrefutáveis, sire, de que eles se infiltraram entre nosso povo e estão instigando pessoas a criar conflitos, oferecendo dinheiro e a promessa de muitos benefícios se a monarquia for derrubada.

— Você está louco! — disse o rei. — Quem poderia me derrubar?

— Uma guerra civil, que é o que os russos estão incentivando, sire- explicou o primeiro-ministro.

— Isso proporcionaria desculpa suficiente para o exército russo entrar aqui sob o pretexto de manter a ordem. Sua majestade sabe muito bem que, se eles invadirem este país em condições de paz, tanto o império austro-húngaro quanto a Romênia protestariam e até nos dariam apoio militar- informa o primeiro-ministro Ted fez uma pausa e, olhando fixo para o rei, disse pausadamente— Mas, se continuarmos brigando entre nós, se o país ficar dividido como está no momento, os russos assumirão o controle. E, se tornarem o poder, será muito difícil desalojá-los.

O rei recostou-se no espaldar do trono, a boca ligeiramente distorcida, num esgar de incredulidade.

Spencer, porém, sabia que ele estava realmente surpreso com o que acabara de ouvir. Tinha certeza de que era uma previsão sensata e plausível. Há anos ouvia dizer que os russos cobiçavam Dabrozka. Na verdade, as montanhas do lado leste do país, que fazia fronteira com a Rússia, não estavam muito longe da capital e eram mais facilmente transponíveis do que as que ficavam nos limites da Hungria e da Romênia.

Além disso, a Rússia era muito grande e seu exército enorme e poderoso!

Se houvesse uma guerra, Spencer sabia que, por mais corajosos que fossem os dabrozkanianos, seriam esmagados por uma simples questão de número.

O primeiro-ministro quebrou o silêncio que se instalara— Esta manhã nós do Conselho encontramos uma solução sire.

— Uma solução?! E qual seria?- O rei ainda falava de modo agressivo, mas Spencer sentiu que ele ficara perturbado com o que se dissera.

— Todos nós ouvimos falar da volta da princesa. — Fez uma mesura para Spencer, dizendo: — Permita que lhe dê as boas-vindas, alteza, e lhe diga que sua ausência foi muito sentida durante esses anos todos. Sei que sua beleza e seu encanto inaugurarão uma nova era na história de nosso país.

Spencer sorriu para ele— Obrigada, primeiro-ministro. Sou muito grata por suas palavras gentis e espero que eu possa de alguma maneira trazer paz.

Para sua surpresa todos os homens da delegação olharam-na com uma expressão que ela não soube definir.

— Temos rezado para que nos trouxesse a paz, alteza, e está em seu poder nos dar — disse o primeiro-ministro.

Spencer olhou-o atônita e o rei interferiu, ríspido— De que diabo você está falando? Não estou entendendo nada! Se tem uma solução, como diz, exponha-a logo.

— Nossa solução, sire, é muito simples — respondeu o primeiro-ministro — É que este país, que todos amamos tanto e desejamos servir, deve ser unificado para que não haja mais lutas nem divergências entre os Radák e os Sáros.

— E como espera conseguir isso?- pergunta o rei

— Através do casamento de sua alteza real, princesa Spencer, com a princesa Emily Fields de Sáros!

Por instantes fez-se um silêncio mortal. Spencer abafou uma exclamação e seu pai inclinou-se para a frente, dando um murro no braço do trono real.

— E você chama isso de solução? — gritou o rei — Como pôde imaginar que eu daria minha única filha para se casar com uma mulher e logo aquela demônio que me desafiou, assassinou meu filho e incita meu povo contra mim? Isso nunca vai acontecer

A voz dele parecia reverberar pela sala dos espelhos.

Depois de instantes o primeiro-ministro voltou a falar, com calma— Se essa é sua palavra final, sire, então é melhor abrirmos passagens para os russos e recebê-los como nossos conquistadores!

Novamente fez-se silêncio.

Spencer sentiu o coração bater forte e apertou as mãos cruzadas, no colo, como se isso a impedisse de gritar que era impossível. Era impossível que estivessem lhe pedindo para se casar com uma mulher e ainda mais uma que nunca vira, de quem não sabia nada, a não ser que seu pai a odiava. Em Paris todos falavam sobre o amor. As meninas no colégio falavam em se casar como se com isso fossem entrar numa espécie de paraíso. Specer não participava dessas conversas, mas sempre achara que um dia iria se apaixonar, e como já não era ninguém importante, não precisaria se submeter a um casamento arranjado. Isso era comum na França, mas afinal ela não era francesa.

Costumava ler e ouvir contar as lendas húngaras e histórias de amantes que desafiavam o mundo inteiro para encontrar a felicidade juntos. Nunca discutira o assunto nem com a mãe nem com ninguém, mas em seu íntimo Spencer decidira que jamais se casaria se não fosse por amor. Tinha um sonho infantil, uma certeza de que um dia um homem surgiria em sua vida para amá-la e ser amado. Gostava de imaginá-lo chegando como um cavaleiro montando um fogoso corcel, atravessando as campinas verdejantes. E quando se encontrassem nada mais teria importância, a não ser o amor entre eles.

E de repente aquela realidade brutal a fazia acordar de seus sonhos românticos. Alem disso uma mulher, nenhuma mulher tinha mexido com ela, só a mulher da floresta. Mas ela nunca mas conseguiria ver aquela mulher. Ela entendia muito bem o que o primeiro-ministro estava falando, sabia que de fato esse seria o único modo de trazer a paz a Dabrozka. Mas, mesmo assim, sentiu o desespero invadi-la.

Ela era a única pessoa que podia fazer isso, era a herdeira do trono de Dabrozka. A princesa Emily reinava em seu território com poder e autoridade igual ao do monarca. Não havia outra maneira de acabar com a inimizade, as brigas e os ódios que dividiam o país.

— Eu não vou concordar! _ disse o rei, com teimosia.

— Pois bem, majestade _ disse o primeiro-ministro com certa rudeza. _ Neste caso, como já disse, só nos resta esperar a chegada do inimigo.

— Como pode ter tanta certeza de que é isso que os russos estão planejando? _ perguntou o rei.

— Temos nossos agentes na Rússia, além dos ciganos que o senhor despreza- diz o primeiro-ministro Ted

— E você pode confiar de fato nessas informações?- pergunta Spencer

— O que eles nos disseram já foi confirmado de várias maneiras. Os agitadores que prendemos na cidade ao serem interrogados confirmaram totalmente nossas suspeitas!- repete o primeiro-ministro Ted

O rei ficou calado. Então alguém da delegação falou, meio titubeante_ Não seria o caso, sire, de perguntar à princesa se ela estaria disposta a salvar seu país?

De novo todos olharam para Elisa e ela sentiu que seu pai esperava uma resposta. Por instantes achou que iria protestar, repudiando a ideia, horrorizada.

A delegação continuava à espera de uma resposta e Spencer ouviu-se dizer quase como se a mãe falasse por ela.

— Eu farei o que me pedem... se com isso puder salvar nosso país!- diz Spencer