Notas iniciais
Obrigado pelos comentários espero que continuem gostando. Bjs

Spencer olhou por sobre o ombro enquanto seu cavalo galopava velozmente por entre as árvores que iam rareando, até terminarem na verdejante estepe pontilhada de flores.

Era linda e estendia-se montanha abaixo a perder de vista, enquanto o bosque ia montanha acima até os picos cobertos eternamente de neve.

Spencer sabia que ali, em campo aberto, seria fácil de ser vista pelos que a seguiam. Não havia nada mais frustrante do que cavalgar acompanhada de dois oficiais do exército e dois cavalariços.

Ao sair do palácio olhara-os incrédula ao vê-los na porta esperando para escoltá-la. Mal começaram o passeio, cavalgaram a passo de funeral, e ela percebeu que não pretendia continuar cavalgando assim, de maneira tão pomposa. O que mais ansiara ao voltar para casa eram os cavalos.

Tinha apenas oito anos quando saiu de Dabrozka, mas jamais esquecera a emoção de cavalgar pelas suas estepes, nem a magnificência de seus fogosos corcéis. Os animais de Dabrozka eram criados da mesma maneira que os cavalos húngaros, mundialmente famosos.

Na verdade, os cavalos, tal como o povo de Dabrozka, tinham nas veias muito mais sangue húngaro do que de qualquer outro país dos Bálcãs. Era, por exemplo, seu sangue húngaro que naquele momento a fazia querer fugir e desfrutar em liberdade do vento em seu rosto e da beleza da paisagem.

Ao passar pelas últimas árvores do bosque viu, à esquerda, o rio que dividia o vale como uma fita de prata. Seguindo um impulso, fez o cavalo virar nessa direção e desceu a ribanceira íngreme sem diminuir a velocidade. Confiava no animal.

Ao chegar à beira d'água, olhou para trás novamente e viu que ainda não havia nem sinal de seus quatro acompanhantes de quem fugira. Conforme imaginava, naquela época do ano o rio estava raso e dali a um mês seria apenas um córrego.

Tocando de leve com o chicote no cavalo, Spencer o fez entrar no rio. De fato, a água não chegava ao seu estribo. Ela inclinou-se para a frente e acariciou o pescoço de seu cavalo.

— Conseguimos, amigo — disse ela com sua voz suave — agora podemos nos divertir à vontade!

Não pôde deixar de pensar que seu pai iria ficar muito bravo, mas pela primeira vez não estava com medo.

Esperava ver alguns dos animais selvagens que a fascinavam desde criança. Em Dabrozka havia cabras montesas, ursos, lobos, linces, veados e porcos do mato.

No entanto só uma profusão de pássaros que levantavam vôo à sua aproximação, como se protestassem contra a intromissão.

Os raios de sol que passavam entre os ramos dos pinheiros pareciam criar uma magia que Spencer jamais esqueceria. Tudo fazia parte das lendas e contos de fadas de sua meninice.

Ela ia cantarolando baixinho uma canção de camponeses que lhe viera à mente, quando de repente ouviu vozes. Instintivamente puxou as rédeas do cavalo e ficou à escuta.

Havia várias pessoas falando e ela achou estranho, pois normalmente não havia ninguém na floresta àquela hora do dia. Os camponeses deviam estar nas lavouras, cultivando a terra, sob o olhar atento de um feitor.

Talvez fossem lenhadores. Tentou lembrar-se se essa era a época do ano em que se derrubavam árvores e transportavam os troncos pelo rio até o vale. Mas, então, lembrou-se 'de que o rio estava baixo e não havia água suficiente para arrastar os troncos flutuantes. Além disso, havia muitas vozes para que fossem lenhadores. Curiosa, encaminhou-se para o local de onde vinha o som.

Caminhando devagar por entre os pinheiros, os cascos de seu cavalo quase não faziam ruído, pisando o musgo e as folhas mortas.

Então, subitamente, Spencer avistou uma clareira onde se reuniam uns cinquenta homens. Olhou-os, intrigada.

Ela viu somente uma mulher que estava no meio do grupo. Era estranho que não parecessem camponeses pobres, trabalhadores, o que seria de esperar ali na floresta. Estava tão absorta com o que via que, sem que percebesse, seu cavalo avançava e agora estava ao alcance da vista dos homens.

Eles falavam com empolgação, gesticulando, e, pelo que Spencer pôde entender, reclamavam furiosamente contra algo ou alguém.

Ficou ouvindo e percebeu que os anos que passara fora de seu país dificultavam agora sua compreensão da linguagem camponesa. Spencer, contudo, entendera com clareza duas palavras. Uma era “luta” e a outra “injustiça”. `

O homem que falava com fúria e empolgação, quase como um orador, avistou Spencer. As palavras morreram-lhe nos lábios enquanto olhava fixo para ela. Os outros homens, que estavam de costas, viraram-se seguindo o olhar do orador.

Então o homem que a avistou primeiro apontou para Spencer, gritando: — Quem é ela? O que quer aqui? Nós fomos traídos.

Pela primeira vez Elisa sentiu medo e começou a tremer.

Eles apenas se ergueram, não se aproximaram dela, todavia Spencer teve uma sensação de perigo, de algo que não compreendia, mas que era ameaçador.

No meio do grupo, a mulher que permanecera sentado ergueu-se e encaminhou-se para ela. Era muito alta e dava a impressão de estar mais bem vestida do que os outros (mesmo estando de calça de montaria). Parou a seu lado e ela pôde ver que ela era muito bonita (na verdade uma morena linda a mais bela que Spencer já viu). Os cabelos eram negros, mas, surpreendentemente, os olhos eram de um castanhos forte e límpido. Porém, Spencer jamais vira uma mulher tão atraente e interessante.

— O que você quer? _ perguntou a desconhecida.

— Como pode ver _ retrucou Spencer _ estou cavalgando.

A desconhecida esboçou um sorriso ao responder_ Já percebi. Mas você foi imprudente vindo para este lado da floresta..

— Por que? _ perguntou Spencer espantada.

Sabia que, por ser filha de quem era, poderia cavalgar por onde quisesse em Dabrozka, e nenhuma terra, a quem quer que pertencesse, poderia ser interditada ao rei ou a sua família.

— Você está sozinha? _ Perguntou a desconhecida.

— Acho que essa resposta é absolutamente desnecessária _ retrucou Spencer, achando que ela estava sendo impertinente.

Podia não ter percebido quem ela era, mas, por outro lado, havia qualquer coisa em seu tom de voz que a afetava. Além disso, fez a pergunta em tom autoritário e não tinha o menor direito.

A desconhecida olhou para as pernas do cavalo e notou que estavam molhadas

— Você atravessou o rio- a desconhecida disse em tom de acusação _ Permita-me sugerir-lhe, mocinha, que volte para o lugar de onde veio.

— Voltarei quando eu quiser e nem um minuto antes!- rebateu Spencer autoritária

Spencer nem sabia por que ficara tão revoltada e hostil. Normalmente era dócil e sempre disposta a fazer o que lhe pediam. Porem, naquele momento, sentia vontade de desafiar e foi de queixo empinado que disse: _Não posso imaginar o que esteja acontecendo aqui, a não ser que vocês estejam participando de alguma atividade secreta e subversiva da qual se envergonhem!

Ela falou alto e os homens do grupo que estavam mais próximos escutaram. Houve uma certa movimentação e comentários em voz baixa, entre eles

A desconhecida de olhos penetrantes segurou a rédea do cavalo de Spencer e começou a reconduzi-la para a floresta de onde viera.

—Quer fazer o favor de largar a rédea do meu cavalo? _ indagou Spencer

—Não seja tola- respondeu a desconhecida, com desdém- Se sabe o que e bom para você, vá embora e esqueça o que viu ou ouviu.

—E por que faria isso?- indagou Spencer

—Porque, como eu já disse, seria perigoso se não o fizesse- respondeu a desconhecida com calma

—Perigoso? Perigoso para quem?- Perguntou Spencer

A desconhecida não respondeu e continuou conduzindo o cavalo por entre as arvores. Spencer puxou a rédea com força e o cavalo parou.

—Não gosto de sua atitude! -disse Spencer_ Não recebo ordens de você ou de quem quer que seja!

A desconhecida olhou a por um momento, depois disse_Agora, ouça me, e ouça com atenção.

Alguma coisa em seu tom de voz fez com que as palavras ríspidas se esvaíssem nos lábios de Spencer, ela a olhou e ficou calada.

—Não sei quem você é, ou por que veio aqui_ disse a desconhecida_Provavelmente você e estrangeira e está visitando o país. Mas eu lhe peço encarecidamente, pelo seu próprio bem e o de todos, vá embora depressa. Esqueça o que viu!

—O que for que eu vi foi uma porção de homens reunidos no meio da floresta, falando de injustiça!- diz Spencer

—Então você ouviu isso, é?- perguntou a desconhecida

—Ouvi. Mas estou disposta a esquecer se você me der um bom motivo para isso- diz Spencer

—Acho que já lhe dei um. Mas, se você quer causar um grande mal, talvez sem intenção, se quer destruir homens que são importantes para Dabrozka, então é só comentar o que viu e ouviu- diz a desconhecida.

Havia agora um tom de sinceridade na voz dela.

Sentindo que ela falava a verdade e que era muito importante o que dizia, Spencer capitulou _Esta bem. Eu lhe dou minha palavra de que não contarei a ninguém que estive aqui.

Spencer viu uma expressão de alívio da mulher e, para que ela não ficasse muito satisfeito de ter conseguido o que queria, ela acrescentou _Mas eu não vejo razão para você ser tão intoleravelmente mandona e ficar me dando ordens.

Pela primeira vez a mulher sorriu e ficou ainda mais atraente. Spencer se perdeu naquele sorriso.

—Como você queria que eu fosse?- perguntou a desconhecida- Humilde e conciliadora?

Ela estava caçoando e Spencer se ressentiu.

Então, surpreendentemente, ela ergueu os braços e tirou-a da sela. Spencer não teve tempo de repeli-la, nem sequer de imaginar o que ela iria fazer. Quando deu por si ela a estava beijando.

Notas finais
Desculpem os erros de português.