A Primeira Eterna
54 O grande encontro e verdades ditas
Notas iniciais
POV VANESSA
Eu estava encolhida no meu estúdio de arte, com os olhos fechados fortemente e tampando os ouvidos com as mãos sujas de tinta.
Eu não aguentava mais.
Ergui os olhos e me levantei desajeitadamente olhando fixamente o quadro na minha frente. Dessa vez a pintura me atormentou de tal forma que não sabia como explicar. Os olhos de Isabella tomava conta da tela inteira, os olhos mais hipnotizantes que já vi, porém o mesmo olhar que me encarava com total culpa e desespero.
Eu matei minha própria mãe e tal tormenta conviveria comigo pelo resto da eternidade.
Olhei para minhas próprias mãos me lembrando dos últimos momentos de Isabella como eu sempre fazia, mas dessa vez vi a monstruosidade que causei e enxerguei a morte nelas. Corri até o lavabo que tinha ali e desesperadamente lavei minhas mãos lembrando da sujeira que fiz, forcei como se de algum jeito conseguisse tirar isso da minha mente, mas nada adiantava.
Olhei para o espelho e me vi completamente diferente. Eu me sentia fraca, não me alimentava há dias e por segundo sequer sai do ateliê. Finalmente o peso da consciência estava caindo em mim. Afinal, sempre que eu me sentia assim Dionísio estava aqui para me amparar, mas dias se passaram sem nenhuma notícia sua. Ele simplesmente sumiu. Tentei ligar para ele varias vezes, mas seu celular só caia na caixa postal. Agora, ele longe senti meu pesadelo se tornar mais frequente e cruel como nunca. O medo de estar sozinha se tornou concreto.
Suspirei e sai dali.
Eu estava péssima e não sabia o que fazer. Tio James estranhamente não se preocupou comigo por nenhum segundo. A verdade é que eu o via às vezes me avaliando assim como Victória, como se estivesse decidindo fazer algo.
Eu precisava tomar um ar. Sim, era isso o que eu precisava. Coloquei os pés para fora do ateliê e olhei em volta a casa vazia, era a primeira vez em dias que eu saia dali.
O silêncio era assustador. Não tinha ninguém ali.
– Tio. – Chamei-o, mas não obtive respostas. Pelo visto, ninguém estava ali. A não ser o lado de fora que eu conseguia escutar alguns vampiros conversando entre si.
Fechei os olhos no mesmo instante que fechava a porta.
Caminhei lentamente e sai da mansão. Olhei em volta e não vi ninguém, a não ser som de vozes espalhado pelo lugar.
Olhei a melhor opção para ir, fiquei em duvida entre pegar o carro e dar uma volta até a cidade aqui perto ou correr pelo floresta.
Respirei fundo inalando o ar gostoso que tinha aqui. Com certeza só uma corrida agora me faria bem.
Peguei um sentido qualquer e comecei a correr. Não dei importância aonde estava indo e muito menos no tempo que ficaria fora. Eu só precisava me sentir em paz um pouco.
Estava correndo a um tempo desligada a tudo em minha volta quando alguém me pegando desprevenida me jogou contra o chão.
Rolei entre o mato parando com a cabeça no chão. Não senti dor por ter caído, mas foi um incomodo.
Levantei com a mão na cabeça um pouco tonta. O que aconteceu?
– Pobrezinha. Finalmente a Rapunzel saiu da sua torre. – Ouvi uma voz atrás de mim que me fez virar imediatamente na direção dela.
Olhei para os dois vampiros na minha frente e logo os reconheci. Era apenas, uns dos vampiros do exercito de James.
– Por que fizeram isso? – Perguntei confusa.
Eles se entre olharam e caíram na risada.
– Nós não queríamos machucar. – Comentou o mais alto. – Muito.
Eu os vi poucas vezes, mas me lembrava deles. Esses dois vampiros geralmente ficavam afastados de casa vigiando o lugar e poucas vezes viam James.
Não estava gostando da forma que eles estavam me olhando, estava começando a me assustar. Pareciam como se estivessem esperando pegar o melhor pedaço de carne.
– A gracinha perdeu a fala? – Zombou um. – Sei algo que pode fazer melhor com essa boquinha aberta.
– O que? – Comecei a me desesperar. – Isso é uma brincadeira de mau gosto.
Mais uma vez eles gargalharam.
– Garotinha, não estamos brincando. Não, por enquanto. – O sorriso que o mais baixo deu, fez minha espinha gelar.
Tinha algo de ruim acontecendo.
– Vocês são do exercito do meu tio.
– E é por isso que estamos recebendo uma recompensa pelo nosso trabalho árduo, não concorda Randall?
– Perfeitamente. – O outro lambeu os lábios e me olhou de cima para baixo. – Uma recompensa deliciosa.
Dei um passo para trás aterrorizada.
– Vocês não podem... Meu tio não vai permitir isso.
O sorriso de Randall se alargou mostrando todos os dentes.
– E quem você acha que nos presenteou?
Abri a boca pasma.
– Já chega de conversa. – Randall disse. O menor correu para cima de mim.
Apavorada me defendi o jogando para longe.
Ela caiu alguns metros ao meu lado.
– Você vai pagar por isso. – Randall gritou. – Venha aqui me ajudar seu idiota.
O outro levantou rosnando e me olhando furioso.
Eu não tive muito tempo para entender tudo o que estava acontecendo, mas de algo eu tinha certeza. Se eu ficasse aqui eu iria morrer.
Sem muitas opções virei de costas para eles e comecei a correr.
– Fuja em quanto puder. – Gritou alto atrás de mim. – Assim que eu colocar minhas mãos em você eu vou acabar com você.
– Não sem antes eu me sentir satisfeito com ela.
– Claro, também quero o mesmo.
Eu estava apavorada, queria gritar e chorar se possível. Por que eles estavam fazendo isso comigo? Queria Dionísio aqui para me salvar, mas eu estava sozinha e com dois vampiros ansiosamente com vontade de me pegar.
Quanto mais eu corria, mas parecia que eles se aproximavam. Todas as minhas tentativas frustradas de fugir deles, não surgia em nenhum resultado. E eles falando coisas terríveis para mim não me deixava pensar direito e me tirava um pouco do meu foco que era fugir.
A cada metro de distância parecia mais um centímetro perto deles.
Solucei.
Eu não queria morrer.
Tentei correr com mais velocidade e pareceu surgir efeito. Senti que me afastei um pouco mais.
A cidade não ficava tão longe dali, mais alguns quilómetros e eu a encontraria, mas do que adiantaria ir até lá. Provavelmente eles matariam os humanos só para não deixarem rastros deles, não podia permitir eles atacarem inocentes.
Eu estava tão perdida em pensamentos que quando dei por mim finalmente percebi que tinha algo de estranho. Não estava escutando mais suas vozes.
Sem saber o que fazer escondi atrás de uma árvore.
Para onde eu ia agora?
Finalmente escutei os passos deles. Eles estavam se aproximando de novo!
– Onde ela está?
– E eu que sei? Se você não tivesse batido naquela pedra não a teríamos perdido.
Vagarosamente olhei para trás vendo os dois não muito longe.
– Aquilo era quase uma rocha e eu já disse. Aquela rocha apareceu do nada.
– Pedras não aparecem do nada.
O mais baixou rosnou.
– Está sentindo? – Questionou Randall. – O cheiro dela está vindo de lá.
Ele apontou na minha direção.
Eles me encontrarão, eu precisava fugir.
Dei um passo para trás e senti minhas costas batendo em algo não em algo, mas sim em alguém.
Paralisei.
E antes que eu pudesse me virar para ver quem era. Minha boca foi tampada por uma mão pequena, mas grande o suficiente para cobrir toda a minha boca e meu nariz.
Tentei gritar e me soltar inutilmente. Seja quem fosse tinha força suficiente para me prender.
O vampiro me ergueu e correu numa velocidade absurda até para meus olhos acompanharem tudo a minha volta.
Preferi mantê-los fechados.
Seria esse o meu fim?
Talvez, esse fosse meu castigo por ter matado Isabella.
Eu teria o perdão se eu pedisse? O mais importante, eu estava arrependida do que fiz.
Com a morte próxima eu não tinha dúvidas. Eu me arrependia sim de ter matado Isabella e mais que tudo desejava poder mudar o passado.
Há muitos séculos eu não rezava mesmo crendo em Deus, então essa seria a primeira vez. Fiz uma prece e pedi perdão pelo que fiz. Não devia ter sido eu a jugar o certo e o errado. Eu não tenho esse poder, na verdade ninguém tinha.
Não sei se passaram segundos ou minutos, mas só senti que o vampiro que estava me carregando tinha finalmente chegado ao seu destino.
Abri os olhos lentamente piscando algumas vezes olhando a minha volta.
Eu não sabia onde o vampiro tinha me levado, mas o lugar parecia um casebre. Pequeno e humilde, nunca frequentei um lugar tão simples assim. Mas que de certo modo, pareceu mais reconfortador que as enormes mansões e castelos que James sempre fez questão de morar.
Ele me soltou me fazendo cambalear. Apoie-me na cadeira da sala. Finalmente podendo respirar.
A pior decisão que fiz.
Travei no lugar ao sentir o cheiro tão familiar e que me assombrava a muito tempo.
Não podia ser ela.
Isabella estava morta.
Apavorada me virei desesperada para trás. Minhas pernas cederam e nem mesmo a cadeira serviu como apoio.
Fui direto para o chão, mas antes que caísse sentada, os braços firmes de Isabella me seguraram.
– Por favor, não me machuque. – Pedi temerosa. Para meu tormento ela me ergueu com rapidez, me deixando cara a cara.
Me encolhi e fechei os olhos.
Isso não podia estar acontecendo. Isabella estava viva e estava aqui para me matar ou seria seu espirito?
Não, se fosse eu não conseguiria senti-la.
Oh Deus.
Minha respiração estava desregulada. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo.
Não estava nem mesmo conseguindo pensar.
O medo do que ela está para fazer comigo era grande demais, mas depois do que fiz ela não seria gentil.
Sua mão foi para meu queixo esticando meu rosto. Ela não o soltava de jeito nenhum e eu sabia porque e se eu não o fizesse eu tenho certeza que ela nunca me soltaria.
Tinha que enfrentar meus medos.
Hesitante abri os olhos encarando aqueles olhos chocolates que não saíram da minha mente e se tornaram meus maiores pesadelos.
Ela me encarava séria e não duvidava que a qualquer momento ela me atacaria com sua irá.
Seu silêncio era atormentador e seu olhar me angustiava, pois cenas daquele dia que a matei vinham com força na minha mente. Me torturando mais do que eu podia imaginar.
Mas de tudo que estava acontecendo, algo eu sentia. Por mais que eu não quisesse admitir, eu estava aliviada que Isabella não estava morta.
Que eu não a matei.
No entanto não era isso que me importava no momento, só o simples fato que ela estava aqui por um único motivo: Me matar assim como sempre desejou.
Ela logo soltou sua mão do meu queixo, seu simples gesto me apavorou.
Encolhi novamente tentando dar um passo para trás.
– Não me mate. – Eu não queria ser morta por ela. Por mais que depois de tentado mata-la e eu merecesse, não queria ser morta por suas próprias mãos.
Para minha total surpresa. O que veio a seguir jamais imaginei realizar, só nos meus sonhos que há muitos séculos estavam mortos e enterrados nas mais profundas memórias.
Isabella me puxou de encontro a ela, me envolvendo em volta dos seus braços. Claro que minha primeira reação foi achar que ela queria me atacar então me debati contra ela varias vezes até senti-la me prendendo mais contra seu corpo como se me amparasse.
Ela estava me deixando confusa, por que estava fazendo isso comigo? Para me torturar mais e deixar a culpa se tornar maior?
Seja lá o que ela quisesse estava funcionando. Por uns instante quis erguer meus braços e envolve-la, mas resisti e deixei meus braços ao lado do meu corpo onde deveriam estar.
– Está tudo bem, não vou machuca-la. – Ela sussurrou.
– O que? – Perguntei sem acreditar no que ela dizia.
– Eu não vou te matar. – Ela disse se afastando de mim e me encarando.
Eu não estava acreditando no que ela disse. Isso era um truque, só podia ser.
A empurrei dando um braço para trás. Vislumbrei sua expressão triste, ela estava tramando. Isabella não tinha sentimentos.
– Como está viva? Eu te matei. – Quase gritei a última parte.
Ela fez uma careta e me olhou brava.
– Sim, me matou e tão pouco não é graças a você que estou aqui hoje. – Ela cuspiu as palavras me atingindo mais do que eu imaginaria doer. – Me desculpe. – Ela disse ao ver o estado que fiquei.
Isabella suspirou.
– No dia que você me matou antes que James pusesse fogo na casa. Didyme me tirou de lá.
Didyme? A vampira que era prisioneira de James e conseguiu fugir? O que ela tinha haver com Isabella?
Se Isabella estava viva. Só tinha um motivo para ela vir atrás de mim.
– Você veio me matar. – Constatei já nervosa.
– Eu já disse que não vim te matar. – Respondeu como se estivesse falando com uma criancinha.
– Não minta. – Comecei a me irritar. – Você sempre me quis morta e até a pouco tempo você acreditava que eu estivesse mesmo. Eu nunca vou esquecer que você tentou tirar minha própria vida. – Acusei-a, a raiva que até a pouco não tinha vindo, veio a tona com toda minhas forças. Lembrei do ódio que sempre senti de Isabella que até há pouco tempo tinha apagado das minhas lembranças.
Eu não me entregaria fácil para ela. Lutaria e não deixaria que ela se livrasse de mim tão fácil.
Dá primeira vez eu consegui pegar ela desprevenida, sei que agora não teria a mesma chance. E sinceramente não sou boa em lutas, mas poderia ter uma chance de fugir e contar a tio James.
– Pare de falar idiotices. – Consegui distinguir a leve mudança do tom da sua voz, ela não estava mais tão calma.
Estreitei os olhos.
– Eu não vou me render tão fácil. – Disse voraz.
Isabella arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços abrindo um sorriso irônico.
– Você acha que é capaz comigo? Dá última vez pode ter me pego de surpresa, mas não vai acontecer de novo.
Algo que ela me disse me intrigou, eu estava deixando algo tão importante como isso passar, mas agora...
– Como se lembra de tudo? – Perguntei meus pensamentos em voz alta.
Eu tinha bloqueado sua mente e ninguém além de mim conseguiria inverter o processo.
Não era possível que meu dom não tivesse funcionado nela.
O sorrisinho que tinha no seu rosto logo desapareceu dando lugar aos olhos estreitos na minha direção.
– Eu não me lembro de nada. – Ela disse séria. – Mas graças a Didyme, Nessie e outros vampiros sei o suficiente.
– Então é por isso que diz que nunca quis me matar, nem ao menos se lembra disso. – Agora tudo se encaixava. – Você só veio atrás de mim, porque quer que eu desbloqueie sua mente.
Isabella revirou os olhos e mais uma vez respirou profundamente.
– Eu não vou repetir de novo que eu nunca quis te matar. Isso tudo foi invenção de James. Ele enfiou besteiras na sua cabeça e te manipulou todos esses séculos, pois sabia que você além de Nessie é a única que pode me matar. – Eu podia matar Isabella? Então talvez eu tinha chances se lutar contra ela. – James é um grande mentiroso e você deixou que ele facilmente te manipulasse.
Rosnei furiosa.
Tio James nunca mentiu para mim. Nunca. Ele quem me salvou, me protegeu e cuidou de mim.
Eu não admitia que ninguém falasse mal dele muito menos Isabella.
– Nunca mais diga isso dele. – Pontuei cada palavra odiando profundamente tudo que ela disse.
Enxergando tudo vermelho, avancei nela. Tentei pegá-la de frente para jogá-la contra parede, mas com tamanha delicadeza e maestria Isabella desviou facilmente do meu ataque.
Parei antes que eu desse de cara na parede e virei na sua direção.
O sorriso de deboche estava estampado na sua cara.
– É só o que consegue fazer? – Zombou.
Grunhi, avançando mais uma vez. Tentei deferir socos e chutes, mas a cada golpe que eu tentava ela desviava e seu sorriso parecia aumentar cada vez mais.
Eu sabia o que ela estava fazendo comigo. Isabella estava brincando comigo e vez ou outra me derrubava no chão sem usar força nenhuma, usando somente movimentos simples e leves junto com meu desequilíbrio.
– Achei que você era melhor do que isso. – Ela sorriu torto.
Rosnei.
– Cala boca. – Vi Isabella fechar a cara no mesmo instante sumindo qualquer resquício de humor que tinha até então.
– Peça desculpas. – Ela exigiu.
Agora quem sorriu fui eu. Nós duas tínhamos parado de se movimentar assim que ela zombou de mim. Estávamos uma de frente para outra.
– Nunca.
– Você deve respeito a mim. – Ela disse fria que até me fez gelar. Tentei inutilmente deixar transparecer indiferença.
– Não devo nada, porque você é nada para mim.
Por um instante, um breve e rápido instante vi que minhas palavras doeram nela mais do que eu imaginei que podia afetá-la, mas sua mudança de estado mudou drasticamente e juro que podia ver ódio estampados não só nos seus olhos, mas como cada traço do seu rosto.
Isabella se movimentou tão rápida que nem mesmo eu consegui enxergar o que ela fez. Só quando percebi o que estava acontecendo, vi que estava suspensa no ar com minhas costas encostada na parede e ela me segurando pela gola da minha blusa.
Seu olhar me deu um medo e juro que queria sair dali, mas meu corpo não me correspondia. Ele estava travado pelo pânico.
– Muito bem você sabe que eu não lembro nada de mim, então para mim pouco importa se eu matar você nesse instante, afinal não me lembro de você mesmo. Qual a diferença? – Sua voz saiu cruel e mortal. – Mas se você desbloquear minha mente posso dizer por que sempre quis te matar, pelo menos assim você vai saber o motivo antes de morrer.
Ela me escorregou pela parede até meus pés pousarem no chão e deu um passo ficando cara a cara.
Suas feições era graciosamente assustadoras.
– Te dou duas escolhas: Quer saber antes de morrer agora sim ou não por que nunca te quis e tentei te matar quando tive chances?
Essa era a pergunta que eu sempre fizera todos esses séculos e talvez essa seja minha única chance.
Mas devolvendo a memória dela, Isabella terá chances de acabar com meu tio agora que sabe que ele está vivo, por outro lado eu nunca vou ter uma chance como essa.
Ela mesmo disse que me matará de um jeito ou de outro.
Observei seu rosto. Que tipo de mãe tem coragem de matar a própria filha? Isabella não era minha mãe.
Fechei os olhos com força.
Ela é um monstro, não tem coração e tão pouco sentimentos. Ela estava disposta a matar independente da minha decisão.
Sei que é egoísmo da minha parte e nunca que James me perdoaria, porém eu precisava saber o por quê ela me odiar tanto. E se vou morrer pelo menos preciso saber o motivo.
Abri lentamente os olhos e depois de uma puxada de ar respondi:
– Sim. — Eu esperaria sua resposta e depois que eu a tivesse não desistirei tão fácil. Se Isabella quer me matar ela vai ter que lutar contra mim.
– Vai devolver minha memória? — Ela questionou desconfiada.
Assenti com a cabeça.
Ela me avaliou por um segundo decidindo se podia ou não confiar em mim, até que finalmente ela se rendeu.
– Muito bem. Faça. — Ela pediu dando um passo pra trás me dando o espaço que eu precisasse.
Respirei fundo e ergui as minhas mãos para colocar em volta da sua cabeça, entretanto antes que eu a alcançasse ela segurou meu punho com sua mão firme.
– Não tente nenhuma gracinha.
– Eu não vou. — Prometi e assim ela soltou minha mão coloquei-as envolta da sua cabeça. — Mas isso vai doer.
E usei meu dom. Seus olhos imediatamente se fecharam com força.
Para desbloquear a mente de um humano é muito fácil, pois além da sua mente ser limitada sua vida é muito curta para ter informações presas.
Por outro lado a mente de um vampiro é mais complexa o que exige um esforço da minha parte e um esgotamento mental do vampiro ao qual estou usando meu dom. Para Isabella seria uma dor intensa, pois é uma mente mais complexa e de difícil acesso que de qualquer vampiro que já fiz isso, mas não impossível e sua idade só dificultava mais as coisas.
Isabella começou a grunhir de dor e colocou suas mãos sobre as minhas para afasta-las, mas sua força era tão fraca que eu nem sentia direito sua força contra mim.
Dado as circunstâncias, esse era o momento que eu teria varias oportunidades.
Eu podia usar sua exaustão e matar ela agora mesmo, mas ai nunca teria as respostas que eu tanto anseio, da outra vez eu tentei mata-la sem pensar duas vezes, porque meu ódio era maior que meus princípios. Podia fazê-la perder a memória de novo, mas de que adiantaria? Por fim, podia aproveitar que estava fraca e fugiria, entretanto há dois vampiros lá fora em algum lugar querendo me matar.
Então eu não irei fazer nada.
Me concentrei liberando sua mente. Era como se abrisse cada porta e atrás delas ia liberando sua mente, mas não bastava abrir essa porta, era como se ela estivesse emperrada ai tinha que empurra-la, ou seja, tinha que forçar a barreira pra abrir a mente do vampiro.
Isabella gritou não conseguindo conter a dor. Logo, ela caiu de joelhos no chão e apoiou a testa no chão.
Eu usava muita força e concentração para trazer de volta sua mente, agora tive a certeza de que nunca mexi numa mente tão poderosa quanto dela. Isabella é mais poderosa do que eu podia imaginar.
Quando estava no fim praticamente, Isabella ergueu sua mão na minha direção e uma força invisível me jogou contra parede e me prendeu contra ela. Tentei me soltar apavorada, mas parecia que por mais que eu usasse minha força de nada adiantaria.
Meus olhos focaram nela que estava suspirando ofegante de cabeça baixa ainda e a mão levantada.
Era Isabella que estava fazendo isso comigo!
Senti meu corpo ser prensado cada vez mais forte. Parecia que tinha uma parede invisível me esmagando contra a parede que estava nas minhas costas.
Arfei quando a dor se tornou insuportável, não conseguia nem gritar.
Mal consegui visualizar o que aconteceu a seguir. Num momento Isabella estava sentada e no outro estava de costas para mim em posição de ataque rosnando furiosamente.
No milésimo de segundo seguinte, Dionísio surge do nada preso na parede igual a mim.
– Bella... para... com isso. — Ele disse com a voz estrangulada. Seu pior erro, pois ela usou mais seu poder. — Sou eu, Dionísio.
Parecia que ele estava se asfixiado, as veias do seu pescoço estavam saltadas.
A dor que parece ter diminuído por um segundo aumentou com força total. Tentei gritar, mas a única coisa que saiu foi minha voz engasgada.
Vampiros podiam se sufocar?
– Bella, você está matando a Vanessa. — A frase saiu num fôlego só seu. E como surgiu efeito imediatamente meu corpo foi largado e cai no chão.
Respirei profundamente como se precisasse mesmo buscar o ar. Meu corpo doía de um jeito que eu nunca senti antes.
– Você está bem? – Ouvi a voz de Isabella. Ergui o rosto pensando que ela estava falando comigo, mas não ela ainda estava de costas para mim encarando Dionísio.
Ele também estava de joelhos no chão e apoiado em suas mãos. Um sorriso surgiu assim que ele ergueu o rosto.
– Estou bem, não se preocupe.
Isabella, surpreendente estendeu a mão para ele.
Dionísio olhou para mão dela e depois para seu rosto, aceitando prontamente sua mão.
Reparei como ele a encarou quando ficou em pé, muito mais alto que ela, mas os olhares pareciam estar conectados.
– Desculpe por isso, é estranho alguém conseguir ter acesso na minha mente. – Sua voz saiu tão amigável, diferente do que eu ouvi até agora.
– Você nunca precisará se desculpar comigo. – Ele disse intenso e os olhos brilhando.
Ela parecendo se dar conta do que estava acontecendo, deu um passo para trás se afastando dele. O sorriso que Dionísio tinha no rosto sumiu imediatamente, e pude vislumbrar dor em seus olhos.
Eu nunca tinha visto meu amigo olhar para ninguém assim. Meu coração se apertou por vê-lo triste.
Afinal, Dionísio a conhecia? E onde ele estava esse tempo todo? Tudo se encaixou quando minha fixa caiu, ele estava esses dias com ela.
– Vocês se conhecem. – Sussurrei atraindo a atenção dos dois que como sincronia viraram o rosto na minha direção.
Dionísio não deixou nada transparecer, mas já Isabella me olhou de um jeito que me deixou atordoada. Seus olhos demonstravam emoção no qual eu dizia para mim mesma que era tudo mentira.
– Vanessa. – Ela murmurou com a voz também parecendo emocionada. – Me desculpe pelo que fiz.
A ignorei encarando meu amigo.
– Você estava esse tempo todo com ela? Desde quando sabia que ela estava viva?
– Vanessa deixe eu explicar.
– Não. – Murmurei dando um passo para trás. – Você me traiu.
– Não Vanessa. Eu nunca te trairia. – Ele disse convicto. – Encontrei Bella esses dias, descobri no mesmo dia que sai da mansão que ela estava viva. E você precisa ouvir o que ela tem para te dizer.
Meus olhos arderam fuzilando Isabella.
– O que fez com ele?
– Eu não fiz nada. – Ela disse parecendo perder um pouco a paciência.
– Ela não fez nada. — Dionísio interferiu.
Ela se aproximou dando um passo na minha direção.
– Mas se eu quisesse faria. — Isabella disse fixando seus olhos no meu. – Você sabe do que sou capaz? – Tremi quando sua voz saiu num sussurro suspeito.
Balancei a cabeça negando.
– Posso fazer tudo com a minha mente.
– O que quer dizer com isso?
– Posso fazer coisas simples como ler a mente de alguém, me proteger de ataques mentais, mas não o seu e o de Nessie. Como também posso matar um vampiro com um só olhar, controlar matéria e também controlar a mente de qualquer um.
Senti minhas pernas fraquejarem diante de tal poder que ela tinha. Nunca imaginei que algum dia pudesse existir um vampiro tão forte. Se pela minha mente eu acreditei que por um segundo eu conseguiria lutar com ela, essas chances se esvaziaram rapidamente.
Tentei não me mostrar abalada.
– E foi isso que você fez com o meu amigo? – Mas acho que falhei drasticamente.
Ela ao perceber deu um sorriso e abriu a boca para responder, porém foi impedida pelo outro vampiro na casa.
– Como já disse ela não fez nada. — Dionísio se apressou em dizer. — Como você bloqueou a mente dela, bloqueou seus dons também.
– E agora quem garante que ela não vai controlar nossa mente?
– Eu já... – Mas antes que ele pudesse continuar a falar Isabella o interrompeu entrando na sua frente e ficando alguns passos de distância de mim.
– Se eu quiser posso te controlar, posso te fazer esquecer que me viu que nem ao menos me conhece.
Observei seus olhos castanhos fixos no meu.
Por um milésimo de segundo quando pisquei vi que não estava mais no mesmo lugar, eu estava cara a cara com ela. O mais assustador é que não foi ela quem veio até mim e sim eu até ela só não sei como.
Olhei para o lado e vi Dionísio de olhos arregalados observando nós duas.
– O que aconteceu? – Perguntei aturdida.
– Eu te controlei para vir até mim e depois apaguei sua memória.
– Você fez o que? – Eu estava espantada. – Você me controlou! – Dei um passo para trás, nós estávamos perdidos. Se na primeira vez consegui pegar Isabella de surpresa agora eu não teria chance alguma.
– Você não entendeu ainda o que estou querendo dizer? – Ela disse seria. – Estou te mostrando o que sou capaz de fazer e ainda sim não fiz nada. Você sabe tudo o que aconteceu com você. Te dei minha palavra que eu contaria tudo o que aconteceu desde o início e vou cumpri-la.
– E depois que me contar vai apagar minha memória ou me matar.
Ela me olhou fria e cruzou os braços.
– Vou dizer pela última vez: Eu. Nunca. Tentei. Te. Matar. — Ela pontou as palavras olhando dentro dos meus olhos. Pela primeira vez passou pela minha cabeça se essa possibilidade pode ser verdadeira. — E eu lhe prometo que nunca vou controlar sua mente. Depois que eu contar tudo, você pode escolher se quer esquecer tudo e ir embora, me odiar para sempre ou decidir me conhecer de verdade. A escolha é sua.
"A escolha é sua." Essa frase rondou minha mente mais do que eu pretendia que permanecesse.
Eu finalmente iria descobrir a verdade, saberia toda a história. Isabella disse que nunca tentou me matar. Se isso for verdade, eu posso ter me enganado esse tempo todo e pior de tudo eu teria tentado matar ela sem motivo algum?
A culpa de ter tentado tal ato me corroeu, se antes não me perdoava quando acreditei ter matado ela, imagina se for verdade que a mesma nunca tentou realmente me matar. Nunca me perdoaria.
A história que Isabella ia me contar pode mudar tudo, mas ela também podia mentir para mim. Bastava eu acreditar que é sua sinceridade ou não. Isso aplicaria muitas coisas inclusive tio James no meio disso tudo. Seria ele capaz de mentir para mim? Pela primeira em toda minha eternidade essa duvida surgiu na minha mente.
– Não gostaria de se sentar antes de eu começar? – Ela gesticulou apontando para o pequeno sofá no meio da sala.
Não respondi, apenas abaixei a cabeça e cruzei meus braços procurando um apoio em mim mesma.
Como se sentisse meu sofrimento Dionísio veio até mim e envolveu meu corpo com seus braços protetores, era disso que eu precisava um conforto para mim. Talvez eu não aguentasse sozinha, graças a Deus que o tenho aqui do meu lado.
Quando ergui o rosto vi Isabella nos encarando de um jeito que parecia sofrer com o que via. Será que ela estava triste ao ver Dionísio me abraçando?
Balancei a cabeça quase que imperceptivelmente abanando esse pensamento agora. Não era hora de pensar que Dionísio encontrou finalmente seu primeiro amor e Isabella acreditasse que tinha algo entre nós.
Suspirei fechando e abrindo os olhos a fitando com coragem.
– Pode começar. — Pedi.
Isabella abriu um pequeno sorriso sentando no encosto do sofá.
– Vamos começar quando conheci seu pai.
Fale com o autor