A Pick-Up do Márcio
7 Olha, um Andrecóptero!
Notas iniciais
Só porque eu dei a ideia de procurarmos em pares por suprimentos em um supermercado escuro e sombrio, não significa que é para seguirem a maldita ideia.
Imediatamente, depois de eu ter entrado com a Ariel no Formosa, me arrependi. O lugar tava escuro, com um cheiro de carne podre que cegava minhas narinas (foda-se o sentido) e de vez em quando eu ouvia gritos vindos dos confins do hortifrúti.
— Eita, Ariel, bora embora daqui! Quem precisa de remédio?? — sussurrei.
— Vamos tentar pelo menos, Slash — disse ela, andando corajosamente em direção à farmácia.
— Tá, né.
Ariel pegou o celular dela e iluminou o caminho, e eu, para não me sentir inútil igual a Ana, peguei o meu também. Novo desafio: desbloquear o celular.
Que saudade do tabzito :’(
Chegando à farmácia, pegamos tudo que tinha sobrado nas prateleiras e colocamos nos bolsos sem fim da calça da escola, que se tornou muito útil no fim das contas. Aproveitei que a Ariel não estava olhando e peguei 4 caixas de Ibuprofeno, o remédio do meu joelho que me deixa doidona.
— Pronto, acho que já tá bom — disse Ariel.
— É, também ach...
Então ouvimos um grito, e parecia ser a voz da Nicole.
— Será que é a Nicole?! — exclamei.
— Vai ver se é, que eu vou à livraria pegar uns livros.
— Pega uns pra mim também! — disse decepcionada. Eu queria roubar livros também! A Nicole que desse o jeito dela. — Pega a Saga Crepúsculo! A gente pode precisar fazer fogueiras!
E saí correndo atrás da Nicole.
[...]
Fui direto à adega, que por incrível que pareça, estava mais vazia que a farmácia. Pelo visto, cachaça é mais valorizada que remédio ─ papai curtiu isso.
Infelizmente, a Nicole e o Gabriel não estavam mais lá, e eu ia precisar entrar na escuridão do supermercado atrás deles. Ótimo.
Peguei uma cestinha e entrei no corredor de produtos de banho. Afinal, não são uma Nicole gritando e um apocalipse zumbi que vão fazer eu deixar meu cabelo com frizz. E foi justamente quando eu estava decidindo qual máscara de hidratação levar, que ouvi uma agitação vinda de trás. Olhei para o fim do corredor e o Gabriel surgiu.
Ele estava empurrando um carrinho cheio de bebidas, barras de chocolate e.... bem, a Nicole. Esse com certeza devia ser o “fim do mundo dos sonhos” do Gabriel, com whisky, chocolates e uma garota bonita.
— JAMILLE!! — Ni gritou, enquanto o Gabriel começou a empurrar o carrinho em minha direção.
— NICOLE?!? — berrei de volta, só para pôr um drama na situação.
— ELA FOI MORDIDA!! — foi a vez do Gabriel gritar.
— O QUÊ??! — cheguei até eles e comecei a examinar minha amiga. — COMO TU PERMITIU ISSO, SEU TAPADO? JÁ TEM ZUMBIS AQUI DENTRO? PRECISAMOS IR EMBORA!!
— Ih mana, te acalma — disse Gabriel, e no mesmo instante o olhei feio diante do “mana”. Odeio que me chamem assim. — Quem falou em zumbi?
— A Nicole não foi mordida por um zumbi?? — exclamei.
— Claro que não. Eu mordi ela. — disse ele, sorrindo e mostrando os dentes.
— ...Quê? — Será que o manicômio funciona em dias de apocalipse...?
— Simples. Eu disse que estava muito insegura por causa do apocalipse e pedi ajuda pro meu amor — foi a vez da Nicole falar.
— E eu, com toda a minha experiência em apocalipses... — continuou Gabriel, engrossando a voz. — Me ofereci para treiná-la.
— E eu falhei — choramingou Nicole.
— E eu mordi ela — disse Gabriel, como se morder as pessoas fosse algo super normal.
— Vocês são estranhos — olhei para o carrinho. — Enfim. Acho melhor vocês irem logo até a Clara e pôr esses bagulhos no carro.
Joguei os remédios e a cestinha de produtos de banho no carrinho. (Menos meu Ibuprofeno.)
— Vão logo, que eu vou atrás da Ana, Ineda e da Ariel — disse, enquanto me afastava.
[...]
Vocês podem me achar problemática por pegar produtos de banho no meio de um apocalipse, mas tem gente muito pior, podem ter certeza. E foi o que eu presenciei.
Depois de procurar no Formosa inteiro pelas duas, Ana e Ineda, eu simplesmente desisti e fui na direção da livraria para chamar a Ari; e foi quando eu vi, no meio do caos, uma área que parecia exalar glitter e flores.
No meio do supermercado estavam as duas, Ana e Ineda, em um momento de descontração... experimentando perfumes.
Sério isso?
— Ai, não, Ineda, esse cheira à mocréia — disse Ana, com sua voz “brisada”.
Ineda começou a rir sem soltar som algum, meio que fazendo uma dança da chuva em torno de seu próprio eixo.
— Ai, Ana, tu és uma graça — disse ela.
— Vocês duas se superam... — me aproximei.
— Oiii, Millegrama! — Ana exclamou.
— Mille, vê qual perfume é o melhor — Ineda me mostrou dois perfumes de embalagem rosa.
— Esse aqui — apontei para algum perfume aleatório. — Agora levem a comida que vocês pegaram pro carro...
Procurei por uma cestinha com comida.
— Ah não... Cadê a comida?
— Tá aqui! — Ineda pegou uma sacola de supermercado.
— Foi uma coisinha pra pagar, demorou muito — Ana disse, mexendo no cabelo.
— Vocês pagaram...?
— Claro né, trouxemos o que deu pra pagar — Ineda estendeu a sacola para mim.
Tinha três sacos de Cheetos lá dentro.
— Vocês compraram Cheetos pra gente sobreviver no fim do mundo??! — devolvi a sacola para Ineda. — Vamos ter que comer os chocolates do Gabriel, pelo visto.
— Para de reclamar, Mille — Ineda revirou os olhos.
— A Ana é a inútil, é a peso morto, mas a Ana que tem que pegar comida... — reclamou Ana, falando dela mesma em terceira pessoa. Algo muito recorrente, por sinal. — Ainda reclamam do Cheetos da Ana!
— Ok, voltem pro carro que eu vou atrás da Ariel — disse, já sem paciência, me afastando.
A perfumaria ficava ao lado da livraria, então cheguei rapidamente lá, logo encontrando a Ariel que estava em meio à sua própria odisseia.
— SAI DA MINHA FRENTE!! AHHHH! — berrou a panda, com uma voz esganiçada.
— NÃO!! SÓ SAIO SE ME DER O LIVRO!! — berrou alguém, com uma voz que eu conhecia.
Pausa.
Vou descrever a cena que presenciei.
Ariel segurando vários sacos cheios de livros, com um que parecia ser de Nazismo na mão, e na frente dela, atrapalhando a passagem, estava Adrick.
— EU PEGUEI O LIVRO PRIMEIRO!! NÃO VOU DAR! — ela berrou de volta.
— NÃO IMPORTA, É O ÚLTIMO DA LIVRARIA, E EU QUERO ELE!! — Adrick berrou de volta, e eu fiquei super surpresa, pois nunca tinha o visto aumentar o tom de voz.
— NÃÃÃOOO!!!
— AHHHHHHHHHHH!
— EIII! — berrei. — Parem com isso, é só um livro, não é motivo de briga.
Então olhei rapidamente para a sacola aos pés do Adrick e logo no topo vi o Gandalf. ERA O VOLUME ÚNICO DE SENHOR DOS ANÉIS!!
— SLAAAAASH! PENSA RÁPIDOOOOO! — Ariel berrou, e jogou o livro por cima do Adrick. Eu pulei e o peguei no ar.
Adrick virou-se e olhou feio para mim. Em um lapso de adrenalina, puxei a sacola dele e saí correndo.
— UHUUU! PERDEU PLAYBOY!! — berrei. — BORA PRO CARRO, ARIEL!!
Logo em seguida, ouvi um estrondo, mas não tive coragem de olhar para trás. A Ari deveria ter derrubado o Adrick.
E então, nós duas corremos de volta à pick-up, cheias de livros nas mãos.
[...]
Chegando à pick-up, todos estavam amontoados em uma rodinha, com alguém no centro.
— Aí estão vocês duas! Olha quem tá aqui! — disse Clara, que parecia estar super relaxada depois de todo esse tempo no carro, de boas.
No meio das pessoas, estava... a Camila!!
— DARWINNN! — corri para abraçá-la.
— KIANÇAAA! — Ariel berrou, ao meu lado.
Depois de matarmos a saudade, começamos a fazer perguntas.
— O que aconteceu? Como você veio parar aqui? E o Filipe, tá vivo? Teve apocalipse na sua escola? — falamos sem parar, Ariel e eu.
— Não, cara, foi muito doido! O primeiro zumbi foi um aluno do primeiro ano, e a notícia se espalhou pela escola. O Filipe e eu fomos até a frente da escola, quando o André apareceu, no helicóptero dele.
— OOOI?! O André tem helicóptero??!
— Tem sim, e ele que pilota! — ela continuou. — Ele desceu no meio da rua, matando o João Paulo! Dentro estavam o André, o Caio e o Davi. Ele foi na nossa escola salvar o Filipe, e quando eu pedi ajuda, ele perguntou se eu tinha dinheiro pra pagar a gasolina, como eu não tinha, ele se recusou a dar carona pra mim.
— Viaaaaaaaaaaaado!!! — Clara exclamou.
— Ele largou nossa amiga! Bora deixar o amigo dele pra trás, então! — disse, olhando para o Gabriel.
— EI! — Nicole gritou, abraçando o amado dela.
— De onde você teve a ideia de vir pra cá, Mila? — perguntou Ineda.
— Muita experiência vendo The Walking Dead!! Vim direto pro supermercado, antes que os suprimentos acabassem! Então achei a Clara, abastecendo a pick-up.
— Aham! — Clara exclamou.
E então, ouvimos um barulho vindo do céu.
— É um pássaro? — exclamou Ana.
— Um Avião? — exclamou Nicole.
Mas não era nenhum dos dois. Era um helicóptero rosa de blister, escrito na lateral: “Ludurana’s Móvel”. De lá, ouvi a voz do André berrando:
— FAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAALEEEEEE!!!!! — e depois algo semelhante a uma sirene-corneta-da-Copa.
— Será que ele viu a gente? — perguntei.
— Acho que não, ele só gosta de berrar “fale” — disse Ariel, com um Gabriel chorando de emoção ao lado dela.
— Então vamos seguir esse Andrecóptero!!
— Esse viado filho duma égua vai ver só — disse Clara, dando partida no carro.
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