A Pick-Up do Márcio
9 Criamos uma banda
Notas iniciais
É. A. Treva.
Se eu morro de tédio quando vou passar uma semana em Cametá, nas férias, imagine o MALDITO FIM DO MUNDO INTEIRO.
Obrigado pela ideia, querido Filipe, mas eu prefiro morrer divamente num shopping a passar o resto da minha vida levando cantada de velho cheio de cárie da vila do Carmo.
— Então selou, partiu Cametá!! — disse o punhet... André.
— Mas antes, precisamos fugir daquela horda de zumbis ali, e também abastecer a pick-up e o helicóptero. A viagem é longa... — disse Davi, doido para tomar o controle da situação e virar um Rick Grimes.
— Então tá, tem um posto na outra rua — disse Maria, andando super feliz e relaxada em direção à pick-up.
Logo, todos começaram a se direcionar aos seus respectivos meios de locomoção.
— Pera, gente... tem alguém embaixo dos escombros — disse Caio, com uma voz inocente. — To ouvindo alguém chamar pelo nome “Maria Clara”.
— Ah, é só minha vó — Maria falou com desdém. — Deixa essa velha aí, e que ela sofra tanto quanto eu sofri nas mãos dela.
E entrou na pick-up, jogando o cabelo, sambando na cara dazinimigas e #causando.
[...]
O André abasteceu o Helicóptero, a Clara encheu o tanque da pick-up e fomos direto para a Alça Viária. Não havia uma alma viva na estrada; só a gente e o Helicóptero nos seguindo, logo acima. Dessa vez eu dava as coordenadas para a Clara, mesmo que não fosse tão boa nisso quanto a Nicole, mas eu já tinha “experiência” nessas bandas do Pará.
— UHUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!! — gritou Camila, tomando o lugar do Gabriel no teto solar, já que ele estava no helicóptero com os bois, digo, boys.
Assim que pegamos a estrada, o rádio sintonizou em uma rádio ilegal de Moju e as músicas eram, em sua maioria, Nordestinas. Resumindo: nossa motorista sertaneja estava pirando na quadrilha. E acelerando o carro.
— PICHICHIIIITA, Ô PICHICHITA, TÔ FICANDO VELHO E OCÊ TÁ MAIS BUNITAAA! — cantava Clara, em plenos pulmões.
— CLARA! VAI MAIS DEVAGAR!! — gritou Ineda.
— CLARA! TEM UM HOMEM ALI!!!! — gritou Ariel.
— É UM LADRÃO!! — gritou Ana.
— QUERO GRITAR TAMBÉM! — gritou, por último, Camila.
Não deu nem um segundo depois e a Clara pisou no freio, mas já era tarde demais. Só o que ouvi foi um “BUM!”.
— AAAAAAAH HÁ — berrou Ana. — BEM FEITO PRA ELE! VAI ASSALTAR TUA MÃE, COISINHA!
— Ana... — Nicole começou, virando para trás. — Como você sabe que é ladrão?
— É o mesmo da parada de ônibus! Eu vi o olhar dele! Ele tá me perseguindo!
— No meio da estrada? — indagou Camila.
— Ahaam!!
— Ana, você não pode chamar todo mundo de ladrão — Ineda repreendeu-a.
— Parece doida, essa menina — disse Ariel.
— Né, toda tchonga! — completou Maria.
— Aiiiiiii... quanta grosseria!!! Sou a Nana fofinha!! — choramingou a Peso Morto.
— Enfim... Eu vou ver se a Clara matou o cara — saí do carro logo em seguida (na verdade fui cuspida pra fora, considerando o grande número de pessoas) e comecei a procurar pelo acidentado.
— Uou... Uou — ouvi um gemido de dor (não pensem merda). — Uou... Uou... Uou.
— AI MEU DEUS, NÃO BRINCA! — exclamei.
— Me ajuda aqui, Francisca! — disse o coitado, estirado no chão.
— CLÁUDIO SANTOOOOOS!!! — berrei. — Pera professor, não morre ainda! As meninas têm que ver isso!
Corri de volta para a pick-up e coloquei a cara na janela.
— A Clara atropelou o Cláudio Santos!! — falei animada.
— O QUÊ?! — berrou Ariel. — NÃO PODE SER!
Ela saiu pisando em todo mundo até escapulir do carro.
— ELE NÃO PODE MORRER ANTES DE DAR O GABARITO DA QUARTA AVALIAÇÃO!! — ela berrou de novo, e saiu correndo atrás do professor.
Enquanto isso, Ineda pegou uma caixa de primeiros socorros e depois também saiu correndo até o professor. E eu fui atrás filmando, afinal, não é todo dia que se atropela o Cláudio Santos.
— Aqui, professor — disse ela. — Só que eu não sei fazer curativos.
— É simples, Francisca, imagine que você vai fazer um bolo....
E então alguém berrou:
— VOCÊS ATROPELARAM MEU TIO??? — disse a desconhecida, que usava um coturno, meia calça preta, short de cintura alta, uma cropped customizada e um casaco de couro.
— SOPHIA?? — falamos em coro.
No instante seguinte, todas correram para abraçá-la. Menos eu, que fiquei raciocinando um pouquinho.
— Pera... — falei, quando cheguei à minha conclusão. — O Claudio Santos é teu tio??
[...]
Enquanto isso, no Ludurana’s Móvel.
O helicóptero estava em santa paz, cheio de garotos maduros, com uma música bem máscula tocando ao fundo...
— COMO O ANDRÉ É DONO DO HELICÓPTERO, A HONRA DE CANTAR O REFRÃO É DELE! — disse um exaltado Gabriel.
— VALEU MANOOOW! EU CANTO EU — André concordou, com voz de bicha emocionada. — SOU A BARBIE GIRL, SE VOCÊ QUE SEEER MEU, NAMORADOO, FICA LIGADOOO! — cantou ele, em plenos pulmões.
“Não posso suportar, é muito contagiante”, pensou Filipe, que logo depois juntou-se ao André na cantoria.
— PRESTE ATENÇÃOO, NA MINHA CONDIÇÃÃOOO! É DIFERENTE, SOU MUITO EXIGENTEEE! — continuaram a música juntos e, ao fundo, não se ouvia mais a voz da Kelly Key.
— Que vergonha — disse Davi. — Parem logo com isso. Aqui, coloquem o meu USB nesse rádio — ele tirou um USB de dentro do estojo, que antes estava na mochila da escola. (Todos ainda estávamos de uniforme... Pois é.)
— Hmmmm, olha a Necessaire dele. Tem um absorvente aí, tem? — zombou André.
— Êhhhh — Caio riu, mostrando o polegar.
Davi ignorou os comentários e colocou o USB no rádio do helicóptero; logo, a primeira faixa começou a tocar. Começou com uma batida, e então:
“SEI QUE EU SOU, BONITA E GOSTOSAA, E SEI QUE VOCÊ, ME OLHA E ME QUEER!!”
— HAUHSUHANUSIDHAUSHUAHUAHUAHSU — riram todos juntos, e Davi corou. —DAVI GOSTA D’AS FRENÉTICAS!!!
— A MAMÃE QUE DEVE TER USADO MEU USB! — disse Davi, tentando argumentar.
— Mas rapaaaaaaaz, nem tua mãe escuta essas viadagens! — disse Caio.
[...]
Por mais que Nicole, Ineda e eu tenhamos protestado, o Claudinho teve que ser deixado para trás numa fazenda. Na verdade, ele ficou bem aliviado em não ter que viajar conosco. De qualquer modo, enfiamos a Sophia no teto da pick-up, amarrada com uns barbantes e com a Camila segurando ela.
— Sim, Phia, tu ainda não me respondeu! — exclamei. — Que história é essa de tu ser sobrinha do Cláudio Santos?
— Tá meio na cara! Fala meu sobrenome aí.
— Errrr... — travei.
— Sophia Carvalho dos Santos — disse Nicole, convicta, e depois ainda acrescentou: — Mas tem um “Castro” em algum lugar.
— ENFIM! — Sophia disse irritada. — Santos, o Cláudio Santos, é da família Santos, e eu também.
— Que sinistro — falei por fim.
A viagem continuou sem maiores complicações, e como acontecia normalmente, estávamos tagarelando sem parar... Menos a Phia, que desmaiou de insolação.
— Puta que pariu um feto afetado — disse Clara. — TEM UM RIO NO MEIO DO CAMINHO!! NÃO DÁ PRA ATRAVESSAR!
—Tem uma balsa, sua anta — falou Maria, delicada como sempre. Meu orgulho. ♥
— Ahh... — ela murmurou, parando a pick-up.
E então, uns caras se aproximaram. Um deles chegou perto da nossa motorista amarela e disse:
— Não pode passar. Ordens do governo.
— OI???
— O QUÊ???
— COMO ASSIMMM???
— QUE MERDA.
— AH NÃO GENTE.
— NÃO ACREDITO.
— AIINNNN QUE MOCRÉIO!
Todas reclamavam ao mesmo tempo (somos muitas e todas faladeiras... menos a Sophia, porque estava desmaiada).
— Desculpa aí, patroa, são ordens do chefão.
— Não tem como deixar passar só a gente? — Ariel perguntou.
— Ninguém. Só se fosse o presidente.
— Bora volt... — tentou Ineda, mas foi logo cortada por mim.
— ESPERA! — saí do carro. — Nós somos mais importantes que o presidente!
— E quem vocês são? — Vish, quem nós somos?
— COMO ASSIM VOCÊ NÃO SABE QUEM NÓS SOMOS?? — Nicole surgiu ao meu lado, pondo seu lado de atriz para funcionar. — NÓS SOMOS AS SPICE GIRLS!!!
“Nicole sua bestona, essa banda já se separou”, ouvi a Maria falar baixinho. Mas poderia dar certo, um ribeirinho não ia saber que as Spice Girls se separaram.
— SIMM! — concordei, fingindo pose.
— Mas vocês não se separaram? — um deles perguntou. FUDEU.
— O QUÊÊ?? — dessa vez a Ineda surgiu. — VOCÊ NÃO SOUBE? Nós nos juntamos novamente! Nosso show de estreia vai ser em Camebá!
— Cametá — Clara corrigiu, saindo do banco do motorista —, e você precisa nos deixar passar! Temos um show pra fazer!
— Vocês não eram mais velhas?
— Colágeno, querido — foi a vez da Ariel sair do carro. — Faz milagres.
Maria e Ana saíram do carro para esticar as pernas, e o cara da balsa viu.
— E essas aí? Quem são? Que eu saiba, na banda tem menos gente.
— São minhas filhas! — falei. — Essa danadinha é do primeiro casamento — puxei a Maria para perto.
— E eu sou do quinto! — Ana disse risonha. Vadea. Casei quantas vezes?
Eu não sei se o cara acreditou ou se ele só queria se livrar de nós. De qualquer modo, ele disse:
— Tá bom. OSVALDO!! LIGA O MOTOR DA BALSA!
Aliviadas, nós começamos a voltar para o carro. Mas a Ana teve que abrir a boca...
— Que gentil! Muito obrigada, senhor! Podemos cantar pro senhor como agradecimento! — ela exclamou, jogando o cabelo.
M.E.R.D.A.
— Ahnnnnnnnnnn... — começou Clara. — Quem sabe na volta... estamos atrasadas!
— Ia ser paidégua! Só uma musiquinha — o cara disse, e o tal de Osvaldo se aproximou.
— Então tá, né... — concordei. — Nicol...quer dizer, Emma! Pode começar.
— YOOOOOOOOO — ela cantou a nota inicial da música. Corri e cutuquei a Maria.
— I'll tell you what I want, what I really, really want! — Maria continuou.
— So tell me what you want, what you really, really want — cantaram as duas juntas.
— I'll tell you what I want, what I really, really want — Clara retomou.
— So tell me what you want, what you really, really want — foi a vez da Ineda.
— I wanna, I wanna, I wanna, I wanna, I wanna really, really, really wanna zig a zig haaaa — cantaram as quarto juntas. Depois continuaram a cantar. Eu, Ariel e Camila começamos a fazer batidas, até porque não nos arriscamos a cantar em público.
Felizmente, depois do showzinho, a balsa foi toda nossa.
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