A Pessoa Que Eu Quero.
4 Quatro
Notas iniciais
8 DE JULHO (22:15)
Acordo assustado com meus pesadelos.
Por um momento sinto que está tudo bem que que agora estou seguro.
Mas não é verdade. A realidade é como um pesadelo. Só que com tipos diferentes de monstros.
Seu nome vem em minha boca quase que involuntariamente e eu o digo:
"Nathan."
Devo ser a pessoa mais idiota do planeta. Deixa-lo lá e sair igual um maluco. O dia passa pela minha mente em questão de segundos. E eu apenas me sinto mais mal e idiota. Muitos não deixariam a pessoa que gosta plantada.
Mas tudo esta tão confuso quanto a minha reação. Talvez ele entendesse se soubesse o que sinto por ele. Mas claro que isso nunca passaria pela mente dele. Um garoto gostando dele.
Vou até a janela em busca de ar fresco e me deparo com ele lá. Jogando basquete.
Não parece muito comum alguém jogar basquete as 22:30 da noite. Mas quem se importa? Ele está incrível. Porém desanimado.
Queria ir lá falar com ele mais do que tudo. Ele parece chateado. Talvez por minha causa. A desculpa que sempre usei para não ir não pode mais ser usada. Não chatea-lo. Porquê ele já parece chateado. Não. Qua ideia estúpida. Não, sim. Eu tenho que ir falar com ele. Eu tenho a desculpa perfeita.
Visto um casaco e desço as escadas em silêncio.
Vejo meu irmão na sala jogando videogame. Meus pais já devem estar dormindo.
Vou até a cozinha e abro a porta que dá para o quintal dos fundos. Pego um banco para me ajudar a pular a cerca de madeira que separa nossos quintais.
Me aproximo por trás dele devagar e digo:
– Verde. E a sua?
Ele segura a bola com as duas mãos olha para trás e sorri. Sinto um calor na barriga.
– Quase um ano. — ele diz.
– Han? — pergunto confuso.
– Quase um ano... Me pergunto quando você vai sair daquela janela e vir até aqui. — ele responde.
Minha barriga gela mas meu rosto esquenta.
– De-desculpa. — digo sem saber exatamente porquê. Talvez seja feio espionar as pessoas. De qualquer forma é só o que conseguiria dizer em meio a toda vergonha.
– Pelo o que? — ele diz rindo da minha vergonha. — Na verdade me ajudou muito no meu desempenho saber que alguém estava me olhando jogar. Mas chega um momento que eu me perguntava se algum dia viria falar comigo.
– Por que não me disse? — pergunto tentando soar irritado mas a vergonha me atrapalha.
– E acabar com o mistério? Ah não. Perderia toda a graça de ver o que aconteceria. Se você realmente viria falar comigo. Seria como ler a ultima página de um ótimo livro. — ele diz sorrindo.
Continuo envergonhado então não digo nada. Então ele continua:
– Mas depois de hoje eu questionei até mesmo se você apareceria na janela... fiquei até tarde jogando hoje na esperança de você aparecer.
– Sobre hoje... — eu começo mas ele me interrompe:
– Você tem razão. Não me aproximei de você por acaso.
– Não? — perguntei desanimado.
– Não. Achei que sabia já que...
– Eu também achei que sabia.
De repente sei porque sai correndo daquela arquibancada. Por medo. Medo de que a realidade entrasse na fantasia. Medo de descobrir que a realidade não é como eu imaginava. Eu e ele. Nos conhecendo. Passando um momento. Finalmente vivenciando o que sempre imaginei em silêncio. E então você foge para que sua realidade não seja destruída pela verdadeira realidade. Mas dessa vez eu não ia fugir. Não até ele me dizer o que quer dizer.
Ele me olha e diz:
– Não me leve a mal. Eu realmente te acho legal igual te disse. Faz tempo que queria conversar com você e quando o fiz foi por um motivo egoísta. Mas quando estávamos sentados naquela mesa. Com você e seus amigos eu achei aquilo demais. Queria fazer parte daquilo mais do que qualquer coisa. Então quando vi a oportunidade de me aproximar de você, então te levei até a BatArquibancada.
– BatArquibancada? É assim que chamam? — perguntei rindo.
– Não. — ele respondeu, também rindo. — Eu que inventei. Gostou?
– Amei.
– Me desculpa ter me aproximado de você por isso...
– Por isso o que? Que motivo egoísta?
– O seu irmão.
– O meu irmão? — perguntei rindo. — O que tem ele?
– Queriamos ele na nossa Casa no InveCamp. Ele é um dos melhores jogares de futebol da cidade. E com ele levaríamos o Troféu das Casas esse ano. O campeonato de futebol vale pelo menos 40% dos pontos. — ele disse falando como se a vida dele dependesse disso.
–Sinto-lhe informar. Mas eu não sou meu irmão. — eu disse segurando a risada. Porquê isso realmente parecia sério para ele.
– Eu sei. Mas talvez você o pudesse o convencer. E se fosse eu a faze-lo entrar para o a casa me colocaria como candidato número #1 para monitor no próximo ano. E isso seria ótimo para... mim.
– Para você ou para o seu pai? — pergunte sem pensar.
Vejo que isso o chateia então mudo rapidamente de assunto:
– Não dá. Minha relação com o meu irmão é tão boa quanto a com a minha mãe.
Ele me olhou conformado, e foi se sentar no bando de uma mesa de piquenique ali ao lado. E eu fui sentar na frente dele. Então ele disse:
–Tudo bem... Deste aquele momento na mesa do almoço essa deixou de ser minha prioridade.
– Mas você anda com o grupo mais legal do colégio. Os populares. Eu não entendo...
– Digamos que eles não deveriam ser chamados de legais.
– Ah.
Decido perguntar:
– Isso tem alguma coisa a ver com o termino de você e da Tris?
– Digamos que sim. Beatrice não gostava de mim como dizia gostar.
– Puxa. Mas você parecia tão determinado que tudo iria se resolver no ônibus.
– E eu estava. Até descobrir que Brad Snoff não foi apenas fazer uma visita na casa dela bêbado pedindo uma chance. Digamos que eu ganhou essa chance.
– Puxa. Até mesmo o Drama de vocês populares é cool.
– Acho que todo o Drama é. Por mais que seja desgraça. Não deixa de ser interessante.
– Ah, acredite em mim. Nem todo o drama é interessante.
Ele se indireita na cadeira e olha diretamente para mim e pergunta:
– E você? Qual o seu Drama?
– Você não vai querer saber. É careta. Como eu disse nem todo drama é interessante.
–Não importa eu quero saber.
Olho para ele. Ele sorri. (sinto o calor na barriga).
Então decido contar parte de mim que oculto para todos. Não sei porque. Apenas quero que ela faça parte disso.
"Tudo começou em setembro de 2012. Aonde uma família vivia tranquilamente até minha mãe descobrir que era traída. Passou dias trancada no quarto com o meu pai tentando falar com ela pela porta. Até que ele decide sair de casa. Dizendo que isso era o melhor para todos principalmente para mim e Gabe. Durante dias apenas víamos advogados entrando e saindo de casa. Demorou três semanas até revermos nosso pai mas não podíamos chegar perto deles porque estavam em "reunião". Minha mãe ainda vivia trancada no quarto, o que me obrigou a assumir uma posição de cuidar do meu irmão e da casa. Eu já tinha 14 anos. Idade o suficiente para entender que para minha mãe não era fácil. Mas ela não queria colaborar. Criticava o café da manha que servia. Criticava a maneira como eu arrumava os quartos, criticava até mesmo os sabores de pizza que eu pedia. Depois de muito aguentar algo dentro de mim se rompeu e eu a enfrentei. 'Então pare de sentir pena de sí mesma e haja como uma mãe e faça melhor." Apenas me lembro da minha mão berrando coisas enquanto meu irmão chorava. Não conseguia entender o que ela dizia mas não parecia ser "Desculpa, filho." Então ela saiu de casa. Depois disso fui viver com o meu pai. Foram os melhores 3 meses da minha vida deste muito tempo. Não conseguia odiá-lo por ele ter feito o que fez. Me surpreende ele não ter feito antes. Minha mãe nunca fui o tipo fácil de lidar. Depois recebi a pior noticia que podia receber. Meu pai queria começar um novo ano. Em uma nova casa. Em uma nova cidade. Mas com a velha família, apenas esquecendo os acontecidos dos últimos meses. Reencontrar com a minha mão não foi a coisa linda que deveria ser. Ela me criticava em tudo. Sempre me testando para ver se a história não ia se repetir. Mas sacrifiquei tudo de paz dentro de mim. Por Gabriel e meu pai. Passei no teste mas as criticas e desmerecimentos não pararam. Talvez por causa de costume. Ou simplesmente porque ela gosta."
***
Ficamos conversando sobre diversas coisas, descobrimos que tínhamos o mesmo gosto musical, que compartilhávamos do mesmo filme preferido "Hoje eu quero voltar sozinho" o que foi uma surpresa, não esperava que ele gostasse romances. Ainda mais desse gênero. Até mesmo sugeri livros para ele. Cantamos alguns trechos de Demons da Imagine Dragons e até jogamos uma melhor de três no basquete. Contamos histórias engraçadas e rimos. Queria que aquele momento durasse para sempre. Mas vimos que já eram quase 3 horas da manhã.
Então decidi ir embora mesmo sabendo que não conseguiria dormir tão cedo depois daquela noite.
– Então... até daqui há três semanas — ele disse estendendo o a mão para mim.
Três semanas?! O que ele está falando?
InveCamp, lembrei.
–Até. — Eu disse apertando sua mão.
Senti uma energia eufórica percorrendo meu corpo. Indo de baixo para cima sem parar. Senti meu coração batendo tão forte que ele podia escutar.
Ficamos ali de mãos dadas por mais de 5 segundos.
Não sou um especialista em apertos de mão mas isso é muito mais do que geralmente dura um. E por um momento senti que ele estava sentindo a mesma coisa que eu. Ou talvez só fosse muito educado para largar minha mão, então larguei a mão dele depressa e disse:
–Tchau.
E então fui caminhando. Até que ouvi:
– Hey! — Ele me chamou.
Eu olhei para trás e ele disse:
– Laranja.
Eu sorri mais do que já estava. Era como um ato inevitável. Como se sorrir fosse uma válvula de escape para toda a energia que estava percorrendo o meu corpo.
Pulei de volta para o meu quintal e meu joguei na grama. Olhei as estrelas e sussurrei de uma maneira que somente eu pudesse ouvir:
– Nathan.
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