Notas iniciais
"...Aquele sorriso é o motivo de tudo isso. De eu estar indo para esse acampamento tosco. Não importa aonde seja. Se aquele carro ficar andando pela infinidade. Se aquele aperto de mão fosse tudo. Qualquer lugar nesse mundo não importa. Pode parecer clichê mas agora eu entendo. Qualquer lugar com ele vai estar perfeito. Qualquer lugar com ele é o que preciso."

Abro um sorriso antes dos meus olhos.

Tudo foi um sonho?

Espera...

Não. Meu coração continua batendo forte. Não poderia ser um sonho.

Olho o relógio. São 10:44. Não tenho muito tempo.

Me arrumo e desço as escadas. Encontro meu pai na cozinha. Chego e lhe dou um abraço e lhe dou bom dia. Gabe está na sala comendo cereal. Nenhum sinal aparente de minha mãe. Então decido perguntar:

– Pai, cadê a mãe?

– Ela teve que ir a uma reunião da revista, vai almoçar com eles. Porquê? — Ele está cozinhando algo.

Meu pai não é muito bom na cozinha e nem nada doméstico. Mas para sorte dele minha mãe trabalha em casa. Mas geralmente ela precisa comparecer em reuniões para discutir interesses da revista. Esse dias são os melhores para mim. E os piores para o meu pai.

Enquanto ele tentava encaixar a tampa na panela errada eu digo:

– Vou passar as férias em um acampamento.

Ele de alguma maneira conseguiu encaixar a tampa. Força talvez.

– Você?! Em um acampamento? — grita Gabe da sala com cereal na boca. Eca. — Não vai durar nem um dia.

Apenas o ignoro e volto a me dirigir ao meu pai. Ele diz:

– Acampamento? Você não me disse nada de acampamento.

– Decidi agora. — respondi.

– Já falou com a sua mãe?

– Ah claro. Já sentamos e falamos do tempo, da escola do acampamento e fizemos bolinhos juntos por que isso é muito normal — eu digo obviamente sendo irônico.

Meu pai me joga um olhar de desaprovação. Mas ele sabe que estou certo.

– De qualquer jeito pai, não vim pedir autorização. Vim avisar somente. Eu vou.

Meu pai me olha com um tom de seriedade e começa...

– Peeter eu não sei...

Mas eu logo o interrompo:

– Pai. Eu vou. Sei que vocês pensam que sou um estranho que só fica trancado no quarto lendo e ouvindo música. Não culpo vocês por pensarem isso, mas eu tenho uma vida fora dessa casa vocês acreditem ou não. Então eu vou. Se você ou a mamãe tiverem algo contra isso vão ter que fazer muito para me impedir de ir.

Meu pai ficou me encarando e depois voltou-se a panela.

– Boa viagem.

– Valeu.

Passei pela sala e apenas vi meu irmão me olhando boquiaberto. Eu entendo. Até eu fiquei surpreso.

Cheguei no quarto, abri meu notbook e logo pesquisei.

Invecamp.

Marquei o endereço em um papel que estava jogado no meu criado-mudo. Arrumei algumas roupas numa mochila. E desci. Eram quase meio dia. Você tem que apresentar sua inscrição no campus até 14 horas.

Meu pai estava na porta.

– Até que enfim, arrumou-se para um acampamento ou um shopping? — perguntou ele ironicamente.

Eu estava do mesmo jeito como desci de manhã. Mas esse tipo de comentário pertencem a ele e Gabe então desconsidero. Se tirar os comentários irônicos do meu pai resta apenas um homem que não sabe cozinhar e um viciado em trabalho.

– Como assim? Você vai me levar? — perguntei.

– Claro. Ou vai fazer um sermão rebelde sobre isso também. — respondeu ele.

– Não para mim está ótimo.

Sinceramente preferia ter ido de taxi. Você não precisa se sentir culpado de ignorar o taxista a viagem toda. Já meu pai você não consegue.

Estávamos em frente ao carro quando ele diz:

– Putz! Esqueci o frango no forno! Já volto.

Eu bufo e me encosto no carro.

E é quando eu o vejo saindo de casa. Seus olhos castanhos que esquenta a sua barriga naquele friozinho de tarde. Com uma camiseta xadrez vermelha por cima de uma camisa azul escura.

Ele me vê e sorri. Minha barriga formiga. Sorrio de volta.

– Hey! — ele diz assim que se aproxima o bastante.

– Saudações. — respondo com uma cordial referência.

Ele retribui a referência. Meu deus, como somos toscos. Ele ri e diz apontando para a mala:

– Vai viajar?

– Aham. É... Meio que mudei de ideia sobre o Invecamp.

Ele parece ter ficado surpreso. Isso é bom ou ruim? Ai meu Deus.

– Que ótimo. Você adorar. E como sua mãe lidou? — Ele pergunta penteando os cabelos cacheados com os dedos para trás. AI MEU DEUS. Por que isso me afeta tanto?

– Não lidou. — digo rindo. — Quando ela descobrir será tarde demais.

– Ahh. Quer vir com a gente? Meus pais vão me levar. — ele pergunta apontando para carro deles.

– Não sei se meu pai vai curtir. Ele já ficou bem puto quando eu disse que iria.

Nesse momento meu pai abre a porta e vem correndo.

– Mudança de plano Peeter, precisam de mim na empresa. — ele joga 50 reais no teto do carro e entra. Abre o vidro do carona e diz. — Vá de taxi.

E então da partida no carro.

Eu e Nathan nos encaramos e depois rimos.

– Bem ganhamos cinquentão. — Nathan diz rindo.

– Correção: EU ganhei cinquentão. — eu digo balançando a nota na cara dele.

Ele rapidamente puxa a nota da minha mão e diz: "Não mais." e sai correndo. Eu vou atrás dele e o seguro pelo braço. Ele cai e me puxa com ele. Eu caio em cima dele. Estamos tão perto. Nossos olhos um na frente do outro. Então encaramos cada parte do rosto de cada um. E então ouvimos alguém chamar: "Nathan!". Eu saio de cima dele e lhe estendo a mão. Ele segura. Antes de eu o puxar sinto a mesma energia de ontem anoite percorrer meu corpo. Fico encarando nossas mãos dadas, quando olho para ele vejo que ele também esta, mas logo em seguida ele me encara e sorri. Então eu o puxo e ele se levanta. Da umas batidas na roupa para tirar a sujeira que pode estar nela. Eu pego nossas mochilas e lhe entrego a dele. Ele sorri. Eu sorrio de volta.

Aquele sorriso. De repente me coloco para pensar racionalmente desde que sai. Aquele sorriso é o motivo de tudo isso. De eu estar indo para esse acampamento tosco. Não importa aonde seja. Se aquele carro ficar andando pela infinidade. Se aquele aperto de mão fosse tudo. Qualquer lugar nesse mundo não importa. Pode parecer clichê mas agora eu entendo. Qualquer lugar com ele vai estar perfeito. Qualquer lugar com ele é o que preciso.

–

Notas finais
Obrigado a todos que tem lido