A Pequena Mary
3 Eu desejo a morte
Notas iniciais
Uma coisa que eu e Mary tínhamos em comum, não era apenas os cortes profundos em nossos pulsos, ou a dor em nossos corações, muito menos a tristeza que possuía nossa alma a ponto de nos fazer querer desistir da vida. Não eram as lagrimas que teimavam em sujar nossa face todas as madrugadas e nem das pessoas que nos ignoravam a cada dia. Era algo mais profundo, algo que realmente doía. Que fazia com que nos sentíssemos realmente inúteis nesse pequeno mundo.
Se você me perguntar o porquê de eu me automutilar, o porquê de eu proporcionar esta dor a mim mesma, com certeza eu lhe direi que o motivo é minha família. Creio eu, que minha amiga Mary, também tenha os mesmo motivos que eu. Não era comum, quer dizer, desde pequena quando ligava a TV para assistir aqueles programas, eu sempre ouvia dizer que o amor de mãe era sem igual. Nenhum sentimento se comparava a tal. Grande engano meu. Eu cometi um erro enorme em acreditar nesse tipo de coisa. A verdade é que cresci pensando que minha mãe sentia esse amor por mim, e quando finalmente eu cheguei à idade em que poderia ver a verdade, eu percebi que nunca fui amada por ninguém. Eu era como a Mary, apenas um estorvo para a família.
Descobrimos isso em um dia de sábado, enquanto chovia lá fora, nós estávamos sentadas no sofá de minha de casa. Conversávamos sobre coisas aleatórias. Coisas sem sentido. E se não fosse pela minha curiosidade, eu nunca iria se quer achar que minha amiga Mary passava pelos mesmos problemas que eu. Em um momento, não pude evitar lhe pergunta a mesma pergunta que tantos me faziam. Eu realmente precisava saber a dor que ela sentia. O que poderia ser tão doloroso aponto de fazer com que a cada noite um novo corte aparecesse. E eu não esperava por aquela resposta. Eu sinceramente não acreditei quando ela disse que sua mãe a considerava uma inútil, ou quando ela me falou que seu pai a tinha abandonado. Mas, as únicas palavras que ficaram gravadas em minha mente foram quando ela me falou com a voz baixa. “Eu não quero chamar a atenção deles, pois sei que eles não se importam, apenas tento fazer com que a dor de ser uma pessoa não bem vinda em minha própria família, acabe por pelo menos poucos segundos”.
Eu realmente fiquei surpreendida. Eu e Mary tínhamos realmente muito em comum, ate por que, eu também poderia usar aquelas mesmas palavras. Ela acabou por Fazer a mesma pergunta para mim, talvez também estivesse curiosa ou apenas queria fingir importância com a minha pessoa. Mas não lhe dei a resposta. Não por que eu não quisesse responde-la. Afinal, eu iria dizer-lhe o motivo, pois não a tantos, eu fazia isso apenas por uma razão. Mas ela sabia, entendia perfeitamente bem que aquele tipo de assunto estava proibido em minha casa. Ate por que, esse era o nosso segredo e não permitiríamos que ninguém o descobrisse. Muito menos as pessoas que ficam a nos vigiar.
Eu verdadeiramente me sentia sozinha, sempre, não existia exceção. Às vezes, não me pergunte o porquê, eu gostava de sair à noite para poder correr pela rua. Eu me sentia livre. Hoje, era Domingo, estava escuro e o tempo estava realmente frio. Eu e Mary resolvemos sair. Eu lhe contei sobre essa minha mania anormal de querer correr pela estrada, um segredo que ficou apenas entre mim e ela. Foi ate engraçado, o lugar estava vazio, ha não ser por algumas vezes que as luzes dos faróis indicavam que carros vinham. Nesse momento corríamos para fora da pista e caminhávamos como se nada tivesse acontecido.
Varias vezes, não foram poucas, eu sempre parava e ficava em pé, quieta, com aquela vontade de me jogar na frente daquele automóvel em alta velocidade. Imaginava-me sendo partida ao meio, para então, ouvir os gritos de Mary, se é que ela iria realmente gritar. Eu gostaria de saber se alguém sentiria minha falta, se alguém iria se que chorar. Na verdade, acho que a única coisa boa que a morte pode nos oferecer, é que se por um acaso você morrer e perceber que ninguém sentira falta da sua existência, você não poderá voltar.
Acho que era por esse motivo que eu sempre ia ate esse lugar. Eu esperava que em algum momento um motorista qualquer acabasse por cometer o erro de passar por cima de mim. Era estranho pedir tal coisa em pensamento, mas essa era a verdade. Eu não estava feliz em viver aquela vida, em estar naquele lugar, em possuir aquela família. Eu desejava a morte, por mais que ela me negasse, por mais que ela me rejeitasse. Eu a queria.
– precisamos ir – Avisou-me.
– Mary... – a chamei – você esta feliz? – perguntei, olhando em seus olhos, apenas assim eu teria a certeza de que ela estaria falando a verdade.
– uhn... – Sua face ficou confusa – por que tal pergunta? –
Suspirei.
– gostaria de saber – respondi, caminhando ao seu lado enquanto observava os carros passando ao lado.
– nesse momento eu estou sim – respondeu, sorrindo – e você? – a encarei, vendo a mentira em seus olhos.
– eu... Estou sim – não vi mal algum em mentir também, afinal, era apenas com mentiras que eu e ela conseguíamos sobreviver. Pois, se a verdade fosse dita, com certeza não conseguiríamos suporta-la.
Depois daquele dia, Mary chegou a sua casa e eu consegui ouvir os gritos de sua mãe direcionados a ela. Apesar de querer fazer algo, eu não poderia se quer fazer nada. Aquele assunto era apenas delas apesar de saber que a culpa também era minha por ter voltado tarde pra casa. Eu realmente pensei que Mary estaria feliz, por um momento cheguei a imaginar que eu trazia a felicidade para ela. Sinto-me inútil por nem ao menos fazer minha melhor amiga sorrir. Eu esperava que quando ela chegasse em sua casa, pudesse encarar sua mãe de cabeça erguida, quem sabe pudesse falar que aquilo valeu apena, que ela estava comigo e que estava sorrindo verdadeiramente, que não importa o quanto sua mãe lhe batesse, ela não estava e nem ficaria arrependida de ter saído comigo aquela noite fria. Mas... Como era de se esperar, aquilo não aconteceu. Mary era uma garota fraca assim como eu. Apesar de tudo, eu a entendo e não a julgo. Naquela noite, fui dormir com a imagem da face vermelha de Mary em meus pensamentos. Da tapa que sua mãe lhe deu, da dor que ela sentiu.
Hoje eu teria que ir a escola.
– foi divertido... Eu queria fazer de novo – disse-me, sorrindo de leve.
– é melhor não. – respondi, lembrando-me da noite passada.
– aquela tapa realmente doeu... –
A olhei em silêncio.
– Judy... Por que... Você faz isso – perguntou, segurando meu pulso coberto por um moletom cinza.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, apenas observando as pessoas que caminhavam ao nosso redor.
– Eu quero a morte, Mary – respondi – Mas sou fraca... Assim como você. Não consigo ir ate o final. Eu apenas desejo que um dia, os cortes que tanto causo a mim mesma me levem a morte. É como você disse... Eu não faço isso para chamar a atenção, pois sei que eles não se importam. –
Era essa a verdade. Eu e Mary tínhamos muito em comum. A dor de ser ignorada pela família, pela sociedade. A dor de ser julgada pelas pessoas ou de ser vista como uma doença contagiosa. A tristeza de viver sozinha ou de saber que não e amada nem pela própria família. Tínhamos o mesmo sentimento. E agora, percebemos que resta apenas eu e ela. Que ninguém será por nós. Ela não esta sozinha e muito menos eu. Agora... Estamos sozinhas juntas e quem sabe, felizes com isso.
– prometo estar sempre contigo, Judy – falou, abraçando-me.
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