A Pequena Mary
4 Minha melhor amiga
Notas iniciais
Hoje, mesmo não querendo, eu acabei por descobrir algo não muito aceitável. Digamos que quando a verdade caiu sobre os meus olhos, a única coisa que pude fazer foi sorrir. E mesmo que eu odiasse dar aquele sorriso falso, eu não poderia simplesmente negar-me a tal ato. Uma coisa que a vida me ensinou ao longo do tempo, era que eu deveria ser forte. Mas ninguém consegue ser forte todo o tempo. Chegara o momento em que você ira se desmanchar em lagrimas e ira se odiar por isso. Mesmo que leve tempo, mesmo que demore anos. Você ira desabar quando a dor acumulada finalmente estiver insuportável. Pode ser que não chore na frente de alguém, ou que prefira esperar a noite para poder aliviar aquele sofrimento. Mas a verdade é que você ira ser dominada por tais sentimentos. Por que ninguém é forte o suficiente. Ninguém consegue evitar tal acontecimento.
Ainda lembro-me, que minha mãe sempre me questionava sobre Deus. Suas perguntas sempre eram as mesmas. “Judy, você crer na existência divina?” Eu era apenas uma criança, mas mesmo assim, sempre lhe respondia com toda a certeza um sonoro “não”. Minha mãe é católica, e talvez, fosse por esse motivo que ela começou a rejeitar-me quando percebeu que sua filha não tinha Deus no coração. A verdade era que eu não tinha motivos para acreditar ou para adora-lo. Sempre cresci obsevando tudo ao meu redor, e com tal observação, percebi que se existia um Deus, por que ele abando seu filho na dor e na tristeza? Minhas perguntas nunca foram realmente respondidas. A maioria dos cristãos dizia-me que a culpa era de um ser denominado Diabo, e que ele era o culpado por tais destruições. Mesmo assim, com o passar dos anos, cresci com a ideia na cabeça de que Deus tinha me abandonado e que se ele realmente me abandonou, não teria motivos para aceitá-lo.
As pessoas dizem, que se sua vida é uma merda, sem Deus ela ficará pior. Talvez isso fosse real. Até por que, desde que comecei a negar-me a rezar o pai nosso, minha vida realmente ficou uma droga. Na verdade, ela sempre foi, mas após isso, minha desgraça duplicou. O problema é que, eu realmente não pensei que Deus fosse continuar a desgraça-la. Por um momento, imaginei que ele estivesse cansado de atormentar a existência vazia de uma garota com problemas como eu. Grande engano.
Eu, sinceramente, não me apaixonava tão facilmente. Ate por que, eu tentava de todos os modos negar-me tal sentimento. Isso, muitas vezes levava a comentários maldosos, como a de ser chamada de lésbica. As pessoas não me entendiam, elas simplesmente julgavam. Mas o que posso fazer? Das ultimas vezes em que me apaixonei, os resultados não foram nada reconfortantes. E dessa vez não seria diferente. .
A sorte que minha amiga Mary tinha, era uma obra de Deus. Pelo menos dela ele se lembrava. Ela conseguia o amor de qualquer rapaz, e eu realmente falo serio. O único problema era que ela não dava valor para isso. Aquilo chegava a me irritar. A cada semana eu ouvia sobre um rapaz diferente. Talvez o que eu sentia fosse apenas inveja, por saber que ela poderia ser amada e eu não. Mas naquele dia, eu não senti inveja do amor que ela recebia. A verdade é que senti um misto de tristeza misturado com a raiva. Eu me odiei por isso. Pela primeira vez eu estava odiando aquela doce menina.
Era desprezível uma garota odiar a melhor amiga por causa de um garoto que nem se quer sabe de sua existência. A verdade era que eu não poderia evitar aquilo. Era visível a diferença física entre nós duas, fazendo com que assim, os garotos sentissem desejo por ela. Eu não me importava com tal coisa, apesar de que na maioria das vezes eu me sentisse inferior a ela. A verdade era que, desde que cheguei a minha adolescência, era comum eu ouvir de meus parentes a palavra estranha dirigida a mim. Não apenas deles, meus colegas de classe me apelidavam disso e de outras coisas realmente cruéis. O que quero dizer, é que nunca me importei com o afastamento das pessoas, nunca me senti triste quando os garotos diziam ter repulsa de mim ou me chamavam de feia. A razão disso era por que eu não tinha nenhum sentimento para com eles, era como se as pessoas não existissem ao meu redor.
Infelizmente, por mais que eu tentasse não me apaixonar, esse sentimento doloroso sempre acabava por preencher meu coração vazio. Eu não admitia, nunca admiti gostar de alguém, por mais que eu estivesse a gostar dessa pessoa, a frase eu te amo, nunca saiu de minha boca. Ate por que, eu não gostaria de sofrer a humilhação de receber um “não” sem o mínimo de educação.
Mas com ele era diferente, eu realmente iria me declarar, só estava a esperar o momento certo. Eu sabia que não tinha chances, mas se iludir às vezes não causa mal algum, a não ser é claro, deixar um coração despedaçado. O problema é que, Quando eu vi Mary correr em minha direção com um sorriso em seus lábios, eu desacreditei quando vi que ela sorria de verdade. Aquilo era tão contagiante, que mesmo sem querer, acabei sorrindo junto a ela sem nem ao menos saber o motivo. Ate ela dizer que estava apaixonada.
Eu fiquei realmente surpreendida. Mas isso não significa que não estivesse ficado feliz. Era inesperado, incomum ou ate inacreditável que minha amiga Mary tenha se apaixonado. Mas mesmo assim, eu fiquei feliz por ela. Mesmo que ela estivesse enganada ou precipitando as coisas. Eu fiquei feliz em saber que ela estava feliz.
Ate descobrir quem era o motivo de sua felicidade.
Foi naquele momento que eu tive a certeza de que não existia um ser divino. E mais certeza ainda de que eu estava destinada a sofrer por toda a vida. Não importa como, não importa se era culpa da família que não me amava ou da sociedade que me julgava, e ate mesmo do amor que me ignorava. Eu apenas sabia que, eu não podia dizer a Mary, que eu também estava apaixonada.
Era doloroso saber que a pessoa que tanto me importo, estava amando o homem que eu amo. E era mais doloroso ainda, saber que eu não teria nenhuma chance. Sabe, eu realmente me imaginava tendo um romance com ele. Pela primeira vez, em toda a minha vida, eu pude sentir que seria feliz. Talvez, se eu não fosse à estranha, ou se eu não mutilasse o meu corpo toda vez que estivesse triste, eu poderia, quem sabe, ter tido uma adolescência comum.
Mas não importa. Quando se trata de meus sentimentos, não importa. Afinal, eu aprendi a ser uma ótima atriz com o passar dos anos. Não é qualquer um que consegue sorrir, quando na verdade se quer chorar. Afinal, garotas como eu, que suportam ver o cara que ama beijar sua melhor amiga, não deviam ser chamadas de fracas por se mutilarem em segredo quando chegam em casa.
A verdade, é que Mary não era minha melhor amiga. Por que naquela noite, não era Mary que estava do meu lado quando eu cai em desespero sobre o colchão do meu quarto. Não foi ela que amenizou a dor que eu sentia naquele momento. Não foi ela que me deu a certeza de que nunca me deixaria.
Agora eu sei que precisava realmente de ajuda. Afinal, não é comum uma garota dizer que sua melhor amiga é uma gilete na qual é guardada todos os dias, dentro da gaveta da mesinha que fica ao lado de sua cama. Mas o que posso fazer? As lágrimas não era o bastante para destruir aquela dor. A única coisa, que iria amenizar aquele sofrimento. Era o contato daquele objeto cortante contra o meu braço. Era o sangue que iria escorrer pelo meu pulso. Era a dor, amenizando outra dor.
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