A Pequena Mary
6 Amizade
Notas iniciais
Após exatas duas semanas, Mary veio ate minha casa e com lagrimas em seus olhos, me dissera que fora agredida pelo seu padrasto. Minha camisa ficara molhada por suas lagrimas e o meu corpo fora apertado com força pelos seus braços. Desde aquele dia em que minha mãe presenciara o que fazíamos em meu quarto, Mary e eu fomos avisadas a nunca mais nos encontrarmos.
Sabíamos que isso seria impossível de se realizar. Tanto eu quanto Mary, não iríamos permitir que isso acontecesse. Poderiam afastar meu corpo do dela, mas nunca iriam afastar nossas almas. Não importa o que fizessem, eu e ela não queríamos ser separadas.
Fomos obrigadas a comparecer a psicólogos, no qual não nos ajudaram de modo algum. Eu, particularmente, não acreditava que aquele desconhecido pudesse me ajudar, por esse motivo, a maioria das vezes eu permanecia quieta, em silencio. Por outro lado, Mary adorava comparecer a esses lugares. Sempre carregava aquele sorriso falso, e com gosto, dizia tudo que sentia.
Só não declara as agressões que sofria do homem que dizia amar a mulher que lhe deu a vida
Eu prometi nunca mais chorar. Desde o dia em que minha mãe me tocara aquela fora a ultima noite em que derramei lágrimas. Chegava a ser cruel de minha parte, ter a pequena em meus braços, chorando, enquanto que em minha face nem um semblante triste eu demonstrava. Ela se remexia em meu colo, fungando. Levei meus dedos em direção aos seus cabelos negros, tocando-os, fazendo um carinho gostoso em sua cabeça. Eu permitia que ela chorasse em meus braços, enquanto a acalentava com minhas mãos. Eu deixava que ela me abraçasse e que me molhasse com suas lagrimas. Eu me machucava por dentro do mesmo modo como ela estava machucada.
Eu poderia ficar o resto de minha vida apenas a abraçando, pois para mim, aquele era o único modo de poder ajuda-la. Eu não me sentia capaz de protegê-la da dor de ser ignorada pelas pessoas que ela tanto amava, mas eu podia impedir que o sentimento de estar sozinha a dominasse por completo. Eu não era capaz de fazer com que sua mãe lhe dissesse palavras amáveis ou que seu padrasto parasse de agredi-la, aquilo dependia apenas dela. Mas eu, com toda certeza, poderia fazer com que ela não se sentisse mais sozinha. Eu poderia não ser a melhor amiga ou a mais indicada. Não sei por que Deus, se é que ele realmente existe, fez com que eu e Mary nos encontrássemos ao decorrer de nossas vidas. Mas eu o agradeço por isso. Por que talvez, Mary fosse o único motivo por eu ainda não ter cometido suicídio.
Aquele simples abraço demorado fora o bastante para eu perceber que o que estávamos a fazer ali era de certo modo perigoso. Eu sabia que não tinha permissão para ficar ao lado de Mary, como ela também não poderia ficar ao meu. Minha mãe fora bem clara ao dizer que nunca mais a queria como minha companhia. Por esse motivo, afastei-me dela e pedi para que a mesma fosse embora. Não que as ordens de minha mãe fossem mais importantes que os sentimentos de minha amiga, mas eu sabia que se por um acaso fôssemos vistas novamente juntas, nossa situação apenas se complicaria. Mary pareceu compreender, pois logo após eu dizer tais palavras, ela ergueu-se do chão e com um sorriso gentil em seus lábios, afastou-se de mim e desapareceu de minha casa como se nada tivesse acontecido.
Eu já estava acostumada a não ter amigos. Eu passei a minha vida apenas com a companhia de alguns colegas de classe, dentro da sala de aula, ou fora dela apenas para fazer algum trabalho escolar. Nunca tive a oportunidade de dizer a eles o que eu sentia ou de perguntar a eles o que eles sentiam. Não me sentia no direito de pedir conselhos ou de aconselha-los. Na verdade, eles deixavam claro que não desejavam aquilo. Eu não sabia como era se sentir cheia pela presença de amigo, por que naquele tempo eu não possuía nenhum amigo. Lembro-me que quando eu ainda era uma criança. Eu ficava a observar meus colegas de classe brincando no pátio da escola. Eu adorava aquela época, quando eu simplesmente pedia para brincar do pega-pega e eles permitiam que eu brincasse. Até que certo dia, após eu correr bastante, minha mãe viera me buscar. Seus olhos se arregalaram quando viram o estado que meu vestido estava. Desde então, ela me impedira de brincar novamente na hora do intervalo. A partir dali, passei todo o ano apenas observando meus colegas correrem pelo pátio.
Talvez, minha mãe tivesse sua parcela de culpa por eu não possuir amigos. Ela sempre dizia que eu não precisava deles e que poderia me divertir sozinha. Quando pequena, ela não permitia que eu os trouxesse para casa e me pedia para evita-los na sala de aula. Dizia-me que amigos apenas atrapalhavam os estudos. De certo modo eu passei realmente a ignora-los. Minha única intenção era de tirar as melhores notas, e para isso, eu deveria dar atenção às aulas. Minha mãe sempre foi rígida quando se travava da minha educação, deixando de lado o carinho e o amor que toda criança merecia. Todo final de ano, quando eu lhe dizia que tinha sido uma das primeiras alunas na sala a tirar as melhores notas, ela sorria para mim e após fazer um leve carinho em meus cabelos, dizia “bom trabalho’’”. Eu gostava daquilo. Gostava quando ela fingia se importar comigo. Era por esse motivo que eu ia para escola e esforçava-me para tirar as melhores notas.
Foi um pouco tarde quando notei que tudo aquilo era uma mentira. Afinal, eu cresci e percebi que o sorriso de minha mãe não existia. Que eu passei anos estudando com as mesmas pessoas, mas que mesmo assim não possuía amizade com nenhuma. Foi quando eu parei de dar atenção aos estudos, ate por que, eu não desejava mais o sorriso falso que minha mãe me dirigia. Com o tempo, ela percebeu que eu não me contentava mais com aquilo, e que não conseguiria mais nada em troca de seus sorrisos. Por esse motivo, ela se sentiu no direito de deixar claro que eu não precisava do seu carinho. Eu sei que nunca o tive, mas a partir do momento em que eu não a agradava como ela queria, ela permitiu-se parar de fingir.
Cheguei a pensar que nunca teria a oportunidade de possuir um amigo de verdade. A maioria das vezes eu me sentia sozinha, e com isso, preparava-me para me mutilar. No começo, lembro-me bem, que foi apenas um pequeno corte feito no dorso de minha mão. Passaram-se semanas sem que eu imaginasse em fazer outro. Admito que aquilo não me interessava nem um pouco. Mas bastou que o sentimento de dor e solidão voltasse a me dominar, para que eu me entregasse à gilete em minhas mãos. Foi a partir dali que me permiti amenizar a dor com outra dor. Até que certo dia, tudo mudara. Eu mudei-me para uma nova casa e com isso, passei a viver ao lado de uma certa garota tão necessitada por atenção quanto eu. Pensei que nunca poderia ter a chance de chama-la de amiga, ate por que, quando notei o quanto ela sorria falsamente para mim, desejei ignora-la a todo custo. Mas como ignorar alguém como ela, tão parecida comigo. Quando pela primeira vez notei as marcas que seu pulso possuía, senti vontade de abraça-la e dizer-lhe que eu a entendia. Devo admitir, foi graças a Mary que eu pude sentir-me cheia como eu me sentia quando ainda era uma criança feliz.
Estava próximo de fazer três semanas desde a ultima vez que a vi. Fico a pensar se Mary ficara irritada por eu ter pedido que a mesma saísse de minha casa. Senti-me mal com aquilo, mas me sentiria muito pior se por um acaso eu não pudesse vê-la nunca mais. Eu sabia que minha mãe poderia ser capaz de fazer com que eu e Mary nunca mais nos víssemos, e aquilo de nenhum modo me agradava. Com o tempo, voltei a me sentir sozinha, e com isso, voltava a trancar-me em meu quarto. Mary nunca me permitia ficar presa ali por muito tempo. Ela sempre me puxava pela mão e obrigava-me a ficar ao seu lado enquanto caminhávamos pelas ruas movimentadas. Eu já tinha me esquecido como era aquele sentimento de se sentir sozinha, mas ficar tanto tempo sem vê-la, fez com que ele voltasse e me mostrasse o quanto aquilo doía.
Ate que certo dia, após adentrar a porta de minha casa. Avistei Letícia sentada no sofá da sala. Quando seus olhos se encontraram com os meus, seu corpo tremeu. Perguntei-me o que ela fazia ali, mas lembrei-me que minha mãe ainda a tinha como amiga. Impedia com que eu e Mary nos víssemos, mas a amizade das duas ainda existia. Lembrei-me do dia em que minha mãe fora conversar com ela, dizendo-lhe coisas como ‘’ sua filha incentivou a minha’’, e como resposta, Letícia defendeu-se enquanto chamava-me de anormal. Aquilo doera.
– Judy – Minha mãe aparecera na sala, segurando uma pequena bandeja em mãos. Trazia chá. — Letícia deseja falar com você – ditou.
Isso de certo modo me deixara um tanto nervosa. Eu sabia que Letícia não gostava de mim. Sua atenção era dada apenas a dona da casa, que era minha mãe. Tanto é que minha mãe deixara claro que não gostara nenhum pouco ao saber que Letícia viera tratar seus assuntos comigo e não com ela. A pequena bandeja fora colocada em cima da mesinha que ficava a frente do sofá, enquanto eu permanecia em pé, ainda a segurar a mochila que ficava em meu ombro. Minha mãe saiu da sala, deixando eu e Letícia a sós.
– onde esta minha filha? – fora direta, deixando-me confusa.
– como? – perguntei, estreitando os olhos, levemente irritada.
– eu sei que você sabe onde esta Mary! – Letícia aumentou seu tom de voz, deixando-me um tanto nervosa.
– eu não sei do que esta falando – ditei, jogando minha mochila em cima do sofá – Faz três semanas que não a vejo –
– você acha que eu não sei? – perguntou, aproximando-se de mim – Mary vinha aqui lhe ver –
– então você sabe – respondi sem deixar claro minha surpresa. – você sabe também sobre as agressões que ela sofria? – Indaguei, encarando-lhe a face.
Letícia arregalou os olhos ao ouvir minha pergunta, ficando um tanto assustada.
É, ela sabia.
– Mary, mereceu! -
Eu não pude acreditar no que ouvi.
– o que disse? – irritei-me – como dizer tal... –
– cale-se! – interrompeu-me – Mary foi uma garota mal criada. Julius apenas lhe ensinou a não... -
– fique quieta! – sussurrei entre dentes – Fique quieta ou eu prometo denuncia-la por agressão – avisei, ouvindo logo em seguida um risinho debochado por parte dela.
– o que vai fazer? – perguntou, sentando-se novamente no sofá enquanto tocava a xícara e a levava ate os lábios – vai dizer que o meu marido bateu nela? Você não tem provas – continuou, sentindo o gosto do chá adentrar sua boca.
Eu não a entendia. Eu realmente não a entendia. Eu nunca me coloquei no lugar de Mary, e nunca fiz nada para ajuda-la. A maioria das vezes eu ficava presa em meu quarto apenas ouvindo os gritos que sua mãe lhe direcionava. Eu ficava calada apenas observando-a se mutilar cada vez mais, como se aquilo fosse à solução dos seus problemas. Eu a abraçava e lhe dizia palavras carinhosas, como se isso fosse mudar sua vida. Eu fui uma má amiga.
– onde esta Mary? – perguntei.
– você acha realmente que eu sei? – indagou – diga-me você, afinal, vocês não são melhores amigas? –
– Há – sorri logo lhe mostrando o ódio em meus olhos – torça para que eu não a encontre... Por que se isso acontecer, eu prometo denunciar você e o seu marido covarde -
– e o que fará logo depois? – Letícia ergueu-se do sofá, ficando a minha frente – vai trazê-la para a sua casa? Vai viver feliz ao lado da mãe que tanto ama? Ou vai trancar-se com Mary em seu quarto e se mutilar ate não haver mais sangue? – provocou – boa sorte com isso. –
Letícia sairá de minha casa após dizer tais palavras. Segurei-me para não ofende-la, Afinal, ela tinha razão, para onde eu e Mary iríamos?
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