A Pequena Mary
7 O fim
''Corríamos como duas crianças prestes a se jogarem em um rio. Animadas e felizes. Era um dia quente e ensolarado, e Mary segurava a minha mão como a dias não fazia. Ela sorria, daquele jeito que só ela conseguia, e aquilo de certo modo me fazia sorrir também. Seus cabelos se espalhavam por causa do vento, e o seu vestido cor bege a deixava realmente linda. Os pés descalços contra a areia, me fazendo se dar conta do lugar em que estávamos. Olhei ao meu redor, encontrando ao longe, o mar azulado. Mary permitiu mostrar-me o brilho de seus olhos, enquanto eu observava com certa confusão na face. Ela gritou '' felicidade '' e em seguida correu em direção a água. Observei as marcas de seus dedos ficarem na areia, a medida que seu corpo já se molhava. Fiquei quieta, paralisada, observando e gravando aquele momento único, entre mim e ela. ''Venha, Judy '' Me chamara. Com calma, eu dera um passo, levemente amedrontada. '' Eu tenho medo '' Sussurrei. Mary sorriu, como se dissesse, '' eu estou aqui. Estarei sempre aqui. Não tem o que temer'' . Mas mesmo assim eu não fui. Talvez aquele fosse o meu erro. Não superar meus medos. Neguei com a cabeça. " Venha para a areia'' Pedi. '' Vamos conversar '' e ela veio. Caminhara lentamente, na tentativa de sair do mar. Mas uma onda a puxara e a correnteza a levara. Gritei, desesperada. '' Judy... Judy... Não permita que eu me mate'' implorou, mas meu temor pela agua não me deixara se aproximar. '' Pelos Deuses, Mary '' agoniei-me '' nade! Nade! '' E Mary afundara...''
Acordei ofegante e levemente suada, sem compriender o que aquele sonho significava. Meu psicologo me avisara, que naverdade eu me sentia culpada, e era por isso que aquele pesadelo me assombrava. Quase todas as noite eu presenciava a morte de Mary em meus sonhos, como se ja não bastasse sua morte real. Suspirei, lembrando-me do dia em que minha mãe me chamara, dizendo que ja era a hora. Naquele dia eu estava a observavar a janela de meu quarto, notando o céu azulado e livre de nuvens carregadas. Era triste. Eu havia chorado horas e horas, sem ter ninguem para consolar-me, pois a unica pessoa na qual eu desejava, ali ao meu lado, estava desfalecida no caixão em sua casa.
No dia em que Mary sumira, sua mãe acionara a policia. Fazia dezenove horas que a mesma estava desaparecida. Lembro-me que ali, em meus pensamentos, eu me sentira uma inútil. Não pude fazer nada para ajuda-la, e afastei-me dela com medo de que minha mãe descobrisse nossos encontros, e nos separasse. Naquela hora, eu pensei apenas em mim e no meu medo de ficar sozinha caso Mary fosse obrigada a sumir de minha vida. Hoje, uma semana depois de seu suicídio. Eu finalmente me dera conta de que era para ter feito algo. Que eu deveria ter a ajudado. E Deus, só Deus sabe o quanto não ter feito nada, me fazia se sentir miserável. Eu poderia ter evitado.
Eu me lembrava das lágrimas e das palavras que sua mãe gritava sobre o caixão aberto. Eu notava as faces depressivas e tristes que os colegas de sua classe formavam. Como se soubessem realmente quem você era, Mary. Eu não entendi, mas agradeci por minha mãe ter permitido eu comparecer ao seu enterro. Eu queria vê-la. Queria dar uma ultima olhada em seu rosto, mesmo que ele estivesse gélido e pálido. Mesmo que seus olhos estivesse fechados e que em seus lábios não houvessem aquele sorriso falso. Eu queria poder ter a certeza de que você realmente estava morta, por que quando me avisaram, eu não acreditei que você tinha realmente se matado. Eu não pude crer nas palavras de minha mãe, quando ela dissera que seu corpo fora encontrado em um matagal perto de nossa casa, e que em sua mão jazia um papel, escrito em poucas palavras '' Eu te amo, Judy ''. Passei horas me perguntando, se você realmente me amava, por que me abandonara? Não pude saber a resposta. Você não estava ali para dá-la.
Era meu ultimo ano no colégio. Hoje eu iria lhe visitar. Iria poder conversar, pois eu acreditava que você pudesse me ouvir e me observar. Contar que nada mudara, a não ser pelo fato de que eu estava vazia e deprimida de tal forma, que a dor em meu peito não passava. Era doloroso olhar seu túmulo, Mary. Mas você não deve entender, afinal, sou eu que estou aqui e não você. Eu queria lhe fazer tantas perguntas, e a que mais me atormentava, era um simples porque? Por que Mary? Por que você se fora, assim, desse modo? Por que me abandonara? Por que dissera ''eu te amo'' em um borrão no papel, sendo que poderia dizer com palavras? Por que me deixara? Você prometeu sempre ficar aqui, do meu lado. Eu fui uma amiga horrível por não ter percebido que você estava a ponto de se cometer suicídio. Eu não vi o desespero em seus olhos e nem os sussurros de ajuda que você me pedia em silêncio. Eu fiquei ali, quieta, apenas se importando comigo e com minha dor. Desculpe-me Mary, Eu sei que é tarde para isso, mas... Eu sinto tanto.
Li uma vez, que nunca se a despedida. Que quando se ama de verdade, mesmo após a morte, os dois seres continuam conectados. Depois de ler aquilo, eu imaginei que talvez eu e Mary pudéssemos estar assim, conectadas. Na verdade, lá no fundo do meu ser eu tinha certeza de que aquilo era uma mentira. Mas mesmo assim eu deixe-me ficar iludida, por que não quero abandona-la. Após afastar-me de seu túmulo, eu pude sentir uma brisa forte, causando-me um arrepio, era como se o vento sussurrasse '' seja forte por mim''
''Sentirei eternas saudades, pequena Mary''
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