A Nossa Secessão

5 Jason Grace: Quem não tem cão, caça com Górgonas!


Notas iniciais
Hey-yo pessoas! Estou de volta com mais um capítulo para vocês! Dessa vez trago o nosso querido Sonequinha Camarada para narrar. Espero que gostem. Boa leitura!

3 de Julho de 1863:

Agachei-me junto ao rio que corria furioso por sobre as rochas expostas. Tentei imaginar ali o que os legionários tinham me descrito. Uma parede de água de quase dez metros se erguendo do rio, tão furiosa quanto este próprio, e desabando sobre todos com uma força absurda quando alguém tentou atravessá-lo com uma lança, arrastando boa parte das tropas rio abaixo. Não conseguia. Nunca vira um poder dessa magnitude. Uma coisa era fazer como eu e convocar tempestades. Outra era fazer um rio se transformar em uma barreira intransponível.

Se os gregos tinham conseguido o filho de Netuno, então eles estavam com uma vantagem sobre a gente. Logo, logo teríamos que lidar com navios deles atacando os nossos portos e fortes. Como se não bastasse os do exército oficial da União fazendo o mesmo.

Fiquei de pé e apoiei a mão em meu gládio. A espada de ouro imperial destoava do uniforme cinza do exército dos confederados. Isso para não mencionar a pilos que eu carregava nas costas. Mas era necessário. Com tudo o que estava acontecendo, a Névoa estava dando claros sinais de estar falhando. Principalmente em campo de batalha. A última coisa que precisávamos era ter que enfrentar humanos também.

— General Grace? — chamou Dakota, um filho de Baco que a muito custo estava se mantendo sóbrio para lutar com a legião — Encontrou alguma coisa?

— Só o que eu não consigo imaginar. — respondi em tom cansado — Conseguiu contatar Reyna?

— A General Arellano pediu que você “se entendesse com Octavian”. — ele respondeu, fazendo aspas no ar para indicar que citava a fala dela.

Claro que ela quer que eu me entenda com Octavian, pensei. Se ela for fazê-lo vai matar o augoure.

Suspirei, impaciente.

— Obrigado, Tenente. — forcei um sorriso.

— Tente não matá-lo, Jason. — o garoto respondeu em um tom divertido.

Deixei escapar uma risada e, com dois tapinhas no ombro, segui para onde o restante da legião estava acampada. As tendas brancas estavam amontoadas ao redor de várias fogueiras das quais só restavam as brasas e a fumaça. Os soldados, que se recuperavam do susto da inundação relâmpago, bateram continência assim que me viram e eu indiquei que eles não se preocupassem com formalidades enquanto passava por eles.

Segui com passos largos para uma das barracas que ao mesmo tempo parecia isolada do resto e o centro de tudo, com suas decorações dourada e um altar erguido bem no centro. Dentro dela, um garoto pálido e magro, de cabelo loiro palha e uniforme de tenente largo de mais para ele, estripava uma galinha. Torci o nariz para o cheiro desagradável que dominava o lugar. Uma mistura de sangue e titica que chegava a ser enjoativo. O jovem retirou algumas vísceras com expectativa, mas logo tornou a lançá-las sobre a superfície de pedra com um bufo de irritação e olhou para o teto com raiva.

— Nada, nada... — ouvi ele resmungar se apoiando sobre a superfície e abaixando a cabeça, derrotado.

— Octavian. — chamei ríspido.

O garoto se virou. Tinha uma aparência desolada, com profundas olheiras adornando a base dos seus olhos. Quase senti pena dele. Quase.

— General Grace. — ele me cumprimentou cansado com uma expressão que demonstrava já saber o que estava por vir.

— O que você estava pensando? — fui direto ao ponto, tentando manter o conselho de Dakota na cabeça — Usar monstros para tentar capturar um semideus grego?

O outro bufou, claramente insatisfeito com a minha incapacidade de ver algum brilhantismo em sua ideia.

— Foi um mal necessário, Jason. — ele respondeu limpando as mãos cobertas de sangue em uma toalha branca.

— Necessário?! — perguntei abismado — Octavian, você colocou toda a sua Coorte em perigo! O Minotauro matou três dos nossos!

— Culpe Reyna por ter dividido a Primeira Coorte em duas! — ele ciciou — Eu precisava de mais gente para essa missão!

— Não passe a culpa dos seus atos para Reyna, Tenente. — censurei — Você se aliou aos monstros. Se importa em ao menos me explicar o que te levou a fazer isso?!

— Os deuses sugeriram. — ele respondeu empinando o nariz e me olhando com ares de superioridade — Eu simplesmente acatei as ordens deles.

— Ah, por favor. — rebati com a minha pouca paciência já transparecendo na voz. Não adiantava o quanto eu tentasse, nunca conseguia ser muito diplomático com ele — Os deuses não falam com você desde que começamos essa guerra!

— Eles falam! — Octavian afirmou em tom determinado, torcendo os lábios para baixo, o que só o deixava com uma expressão maior de desagrado — Só não com a mesma frequência de antes. — ele resmungou em complemento.

— E você espera que eu acredite nisso?! — perguntei — Você é o único que consegue ler os agouros! Pode inventar qualquer bosta e dizer que foi os deuses que falaram!

— Não desvalorize o meu trabalho. — ele sibilou de forma ameaçadora — Se não fosse por mim, você nunca teria conquistado o seu posto.

— Aposto que você amaldiçoa o dia em que resolveu me ajudar. — provoquei.

Octavian desviou o rosto e eu soube que tinha acertado no calo dele. Claro. Eu, centurião da Quinta Coorte, fora erguido nos escudos, aclamado como pretor depois de vencer uma das batalhas mais difíceis que a legião já havia enfrentado, enquanto ele, um descendente de Apolo que tinha todos os contatos possíveis e era um dos melhores oradores da história do acampamento, fora deixado de lado, mesmo depois de demonstrar várias vezes o seu desejo pelo posto de pretor. Talvez fosse por isso mesmo que ninguém nem ao menos cogitava a possibilidade dele assumir o cargo. Pelo menos ninguém que não fosse seu seguidor.

— Sei que errei. — ele admitiu com amargor na voz. Devia ter tido de matar o seu ego antes de conseguir falar aquelas palavras — Mas fiz o que era necessário para conseguir capturar o garoto.

— Mesmo que o tenha perdido para as tropas da General Chase. — complementei.

— Eu tentei, Grace. — ele sibilou e olhou para a galinha morta sobre o altar com clara insatisfação, ficando em silêncio por um curto período de tempo antes de voltar a falar — Conseguiu alguma coisa com a sua busca?

— Os rastros acabam dois quilômetros a oeste do rio Green. — respondi, cruzando os braços — Eles provavelmente utilizaram a biga que roubaram de nós para evacuar os soldados.

— Ou estão usando a Névoa para ocultar as pistas que deixaram para trás. — o agoure falou com o típico ar de desinteresse que o dominava sempre que ele discutia algo que não gostava — Da última vez que chequei, Hekate estava se mantendo neutra, mas isso não impede que os gregos tenham aprendido a criar ilusões.

— Bom, nós também temos nossa própria bruxa. — falei — Vou pedir para que chamem Hazel para verificar o lugar em busca de manipulações da realidade.

— Deveríamos tentar encontrar uma forma de recuperar o filho de Netuno antes que ele seja integrado aos ranques dos gregos. — comentou Octavian.

— Nós temos a mãe dele. — respondi — Não acho que ele vá deixá-la para trás.

Mas ele já negava com a cabeça muito antes de eu terminar de falar.

— Quando isso acontecer pode ser tarde de mais, você sabe disso. — ele rebateu — Precisamos de algo mais imediato. — ele fez uma pausa esperando que eu me opusesse, mas como não o fiz, ele prosseguiu — Eu tenho uma sugestão.

— E você espere que eu confie em você depois do desastre que foi a sua última missão? — perguntei erguendo as sobrancelhas e deixando clara a minha falta de confiança nele.

Em resposta, o legado de Apolo me lançou um olhar de reprovação.

— Jason, sei que nunca nos demos muito bem e que nossa relação não melhorou muito desde que você foi elevado ao cargo de pretor, mas eu lhe peço: vamos deixar as nossas picuinhas de lado até o fim da guerra. Manter essa atmosfera de conflito pode dividir a legião e enfraquecer as nossas tropas, dando aos gregos uma vitória na bandeja de prata. Nenhum de nós quer isso. Temos esse ponto em comum. — ele se virou para o altar e recolheu as tripas que retirara, lançando-as ao braseiro mais próximo — Além disso, tente ver a minha aliança com os monstros pelo lado positivo: Ao menos eles não estarão nos perseguindo durante as missões. Será um problema a menos para nos preocuparmos. Só teremos que manter os olhos abertos para que eles não nos traiam. É como diz o ditado: Mantenha seus amigos próximos e os seus inimigos mais ainda.

Tinha que admitir. Ele tinha um ponto ao seu favor. Mas mesmo assim eu não gostava da ideia de colocar a legião para lutar lado a lado com monstros que não viam a hora de se servir no enorme banquete a la carte que estávamos ingenuamente providenciando. No momento, porém, estava receoso. Precisávamos manter os Três Grandes do lado de Roma ou não teríamos chances. Se o filho de Netuno entrasse para o jogo do lado dos gregos, eles equilibrariam a balança que, até o momento, vinha pendendo para o nosso lado. Octavian parecia conseguir farejar os meus medos, porque já sorria muito antes de eu concordar em ouvir o que ele tinha a dizer.

— Eu tenho uma amiga que pode farejar o nosso graecus fujão. — ele afirmou.

———X———

— Não. — falei incisivo — Absolutamente não. Fora de questão.

— É por causa do meu cabelo, não é, filho de Júpiter? — brincou Medusa, enfiando os dedos entre os corpos de serpente que saiam de seu couro cabeludo e permitindo que os animais se enrolassem em seu pulso.

Lancei a ela um olhar que misturava repulsa e receio, mas ela não conseguiu ver, uma vez que estava vendada.

— Ela é boa no que faz. — Octavian argumentou olhando para a mulher trajada em um vestido de algodão simples sentada em uma banqueta diante de nós.

— Não me interessa se ela é boa ou não, Octavian. — rebati irritado — Precisamos do filho de Netuno vivo! E não transformado em uma estátua.

— Ah! Poseidon... — a monstra estalou a língua — Ainda me lembro daquele canalha. O cheio de maresia que emanava de sua pele... Eu consigo senti-lo aqui. Está fraco e não vai demorar muito para se apagar.

O agoure me lançou um olhar significativo, como se dissesse eu te falei.

— Não. — reafirmei — Reyna nunca concordaria com isso.

— Você não é a Reyna, Jason! — Octavian rebateu, perdendo a paciência — Tem a mesma patente que ela, pode dar as suas próprias ordens!

Fechei a cara para ele e impus a minha presença, fazendo questão de invadir o seu espaço pessoal para tanto.

— Talvez eu não tenha deixado claro... — ciciei — Eu disse não. Vamos esperar o filho de Netuno aparecer em busca da mãe dele. E se você continuar me pressionando, eu vou te colocar em probatio novamente.

Ele me lançou um olhar de desafio que eu respondi à altura antes de me afastar com passos largos.

— Reúna a Primeira Coorte e sigam para a Carolina do Sul. — ordenei — Identificamos uma possível ameaça dos gregos ao Forte Wagner. Precisamos de tropas lá para defendê-lo, não podemos contar apenas com os humanos. E avise a Quinta Coorte que eles devem aguardar aqui pela chegada de Hazel.

— E aonde você vai, General? — perguntou Octavian com um tom jocoso.

— Conselho de Guerra. — falei por sobre o ombro, me encaminhando para onde minha águia estava pousada — Tente não fazer mais nenhuma loucura ou provocar alguma morte enquanto eu estiver fora. — pretendia parar de falar aqui, mas me senti forçado a continuar — E não envie nenhum monstro atrás do filho de Netuno. Ou você vai se resolver com Lupa.

Montei o animal e lancei um olhar breve para o augure para ter certeza de que ele tinha entendido o recado. Octavian tentou, mas não foi rápido o bastante para esconder o brilho de medo que se instalara em seus olhos com a menção da loba sob uma camada de desdém. Satisfeito, virei-me para a ave.

Para Charleston, pensei.

Como desejar, senhor. A voz dela ecoou na minha mente e alçamos vôo, erguendo uma nuvem de folhas secas e poeira ao nosso redor.

Enquanto nos elevávamos acima do dossel verdejante de verão, porém, não pude deixar de sentir que Octavian estava prestes a me apunhalar pelas costas.

Notas finais
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