Notas iniciais
bem, depois de um capítulo passeando pelo o que viria a ser o Paquistão, estamos de volta ao Egito ♥ a imagem do capítulo é de um lugar mencionado mais pro final desse capítulo tbm, o Deserto Branco. bem, divirtam-se com o dedo no cool e gritaria :3

Então o poder o atraiu ainda mais fortemente, e ele saiu da sombra do toldo e se jogou no rio e se afogou. Quando ele caiu, todos os marinheiros da barcaça real e todas as pessoas que caminhavam na margem do rio deram um grande grito, mas não puderam salvá-lo. E quando procuraram seu corpo, não o encontraram. Assim, a barcaça real navegou rio abaixo até chegarem à terra do norte e chegarem a Mênfis, e os chefes da barcaça real foram até o rei e contaram-lhe tudo o que havia acontecido.

~ Fragmento de “O Livro de Thoth”

Às vezes, um dia tão importante e decisivo começa comum e igual a qualquer outro. Nas várias salas da Casa da Vida espelhadas pelo Egito, homens e até mesmo mulheres estudavam para serem médicos gerais ou algo mais específico, como oftalmologista e até ginecologista. As crianças brincavam sujando os pés com a lama do Nilo, soldados guardavam os muros das cidades com medo de quaisquer invasores que pudessem surgir com o cair da noite, algo que infelizmente tinha se tornado comum.

Sacerdotisas de Hathor dançavam diante de uma imagem da deusa, invocando sua proteção e presença enquanto realizavam movimentos fluídos e belos que, de certa forma, lembravam levemente o que viria a se tornar a dança do ventre. Dentre as sacerdotisas, as mais velhas estavam começando uma própria moda que ainda faltava se espalhar por todas as outras, a moda de tatuar nos braços, pernas, pescoço, ombro e abdômen com símbolos delicados ou geométricos ou palavras para a deusa.

Sem Mênfis como capital e as coisas ainda complicadas pelo Egito, especialmente no Baixo Egito, os egípcios tentavam lidar com o dia a dia. Substituindo a importância de Mênfis, Herakleopolis crescia no Baixo Egito enquanto a cidade de Tebas, futura Luxor e atual capital do Alto Egito, ganhava cada vez mais reconhecimento passando de um mero posto comercial para uma cidade de dezenas de milhares de habitantes. Era também ali em Tebas que, já 4 anos depois de seu aniversário de 1000 anos, Anúbis resolvia algumas questões pendentes.

Como o ano estava a apenas dois meses de acabar, isso significava que em breve as pessoas estariam olhando pro céu atrás da estrela que anunciava o primeiro dia do ano e, com expectativa e temor, olhariam o nível da água do Nilo. A cheia do Nilo traria não só muita alegria e comida, como também muita festa. O Egito, mesmo em seus anos mais gloriosos, podia ser um império invejável, mas ainda era totalmente dependente das cheias do Nilo.

Os afazeres do dia de Anúbis, feliz ou infelizmente, não envolviam julgar os mortos. Ao menos não no momento. Mais tarde ele iria julgar as intermináveis almas que se acumulavam no submundo. Mas, no momento ele estava checando cada um de seus sacerdotes e aprendizes de sacerdotes. A visita na grande Tebas não havia começado tão bem. Anúbis mal havia começado a checar as coisas com o sumo-sacerdote e embalsamador chefe quando este arrastou rudemente para se ajoelhar diante do deus, um de seus aprendizes.

A rudeza do sumo-sacerdote com certeza fez com que o aprendiz, um mero adolescente, machucasse os joelhos no chão de pedra levemente sujo de areia. Movido pela curiosidade e sem entender bem o que estava acontecendo, mesmo ali ajoelhado diante de Anúbis, o aprendiz olhou para o deus e a expressão de estranhamento em seu rosto ficou óbvia quando notou que Anúbis parecia ter a mesma idade que ele, talvez até mais novo.

— Não olhe diretamente assim para os deuses! — ralhou o sumo-sacerdote, ajoelhado logo ao lado do menino, forçando-o a abaixar a cabeça — Como se o que você fez até agora já não tivesse sido ruim o suficiente.

— Quero ver o que você faria no meu lugar… — resmungou o jovem.

— Já estive em seu lugar, várias vezes, e nunca fiz nada do tipo! — rebateu o sumo-sacerdote.

Não demorou muito para Anúbis perceber que os dois pareciam ter esquecido que estavam ajoelhados diante dele. O deus só cruzou os braços e decidiu ver quais rumos aquela conversa ia ter. Mas, considerando que mais cedo o sumo-sacerdote tinha lhe contado o crime que o aprendiz havia cometido, Anúbis duvidasse que tivesse muita paciência para ouvir o resto daquela conversa.

— Ela estava deitada lá, pelada! — disse o aprendiz — O que queria que eu fizesse?

— A MUMIFICAÇÃO! — exclamou o sumo-sacerdote informando o óbvio.

Anúbis não achou muito surpreendente os rumos que aquela conversa estava tomando e nem o tanto que a paciência dele estava acabando a cada frase dita, e exatamente por isso, decidiu terminar a conversa. Ao revirar os olhos e bufar levemente, Anúbis acabou lembrando aos dois mortais ali em sua frente sobre a situação em que eles estavam.

Com a pouca cor que ainda restava no rosto dos dois mortais se esvaindo por completo, o sumo-sacerdote e seu aprendiz ergueram os olhos para Anúbis. Pelo pavor que ficou estampado no rosto ao ver que no rosto do deus não havia nem um pingo de paciência, foi possível entender que nenhum dos dois levava mais tanto em conta assim a aparência jovem do deus da morte.

O aprendiz engoliu em seco e seu olhar abaixou-se assustado quando Anúbis olhou para ele. Lá no fundo do coração, o aprendiz torcia para ganhar a misericórdia do deus. Mas, sentindo o quão em apuros estava, não ousava abrir a boca para nada.

— Você ao menos tem noção de que o que fez, além de extremamente nojento, também é errado, né? — perguntou Anúbis.

— S-Sim… — gaguejou o aprendiz sentindo o medo envolver cada vez mais o seu coração enquanto abaixava ainda mais a cabeça — M-Me desculpe.

— Ah… não é pra mim que você tem que pedir desculpas… — disse Anúbis suspirando e tocando com o indicador na careca do aprendiz que estava voltada para sua direção — É para a garota. Mas provavelmente não vai ter essa chance.

Só o toque, e mais nada, foi o suficiente para, a partir do ponto onde o dedo de Anúbis tocava, o aprendiz começar a putrefazer. O sumo-sacerdote olhou o processo paralizado em completo pavor torcendo para não ser penalizado pelos crimes do aprendiz. O corpo, ainda se desfazendo, do aprendiz começou a se desmontar e cair no chão em pedaços quando, de repente, o dia virou noite.

A troca aconteceu de um jeito tão repentino, tão não natural, que a primeira coisa que o sumo-sacerdote fez foi olhar para Anúbis achando que tinha sido obra dele. Mas, ao ver na expressão do deus que ele parecia tão perdido quanto, o sumo-sacerdote descartou essa possibilidade rapidamente. O corpo do aprendiz jazia ignorado e amontoado como um quebra-cabeça dos mais macabros possíveis enquanto Anúbis e o sumo-sacerdote olhavam para o céu e não achavam nem lua e nem sol.

— Um eclipse? — perguntou o sumo-sacerdote, embora sem muita confiança na voz, pois, com os conhecimentos de astronomia dos egípcios, ele sabia bem que o fenômeno da lua esconder o sol não acontecia rápido assim.

— Não acho que seja… — respondeu Anúbis sentindo os pelos de seu braço arrepiarem.

Se o sumo-sacerdote já estava com medo, a situação piorou quando um rugido que terminava com um sibilado, que tanto lembrava uma cobra, se espalhou por todo o Egito assustando todos seus cidadãos. Mas, mais preocupante ainda, foi que o medo também se apoderou de Anúbis quando ele deduziu quem era o dono daquele barulho aterrorizante. E se algo era capaz de assustar e tirar a cor do rosto de um deus, essa coisa definitivamente deveria ser temida e evitada.

Quando o sumo-sacerdote viu que até o deus estava com medo, de uma coisa ele teve certeza, o Egito estava prestes a encarar problemas muito piores do que ladrões e estrangeiros ameaçando suas fronteiras e cidades. Sendo, obviamente, bem instruído sobre a própria religião, o sumo-sacerdote não demorou muito para chegar ao mesmo chute que Anúbis tinha.

— Isso… é quem eu acho que é… senhor? — perguntou o sumo-sacerdote.

— Acho que sim… — respondeu Anúbis.

— Vamos ficar bem? — perguntou novamente o sumo-sacerdote — Quero dizer… o Egito…

— Eu não sei… — admitiu Anúbis — Vou checar as coisas. Torça para estarmos errados.

E assim, Anúbis sumiu e foi para o Salão do Julgamento e foi imediatamente recebido pelo mais completo e puro caos e desespero. Logo no centro, Osíris conversava claramente preocupado e talvez até irritado com Sobek, que parecia afobado, enquanto Khonsu só ouvia pensativo e visivelmente preocupado. Hathor tentava acalmar o recém-nascido Ihy. Nefertem, pálido, discutia com Qebui segurando-o pelo braço logo ao lado de Duamutef, um dos filhos de Hórus, que se apoiava em um jarro grande e alto e parecia pronto para vomitar lá dentro, quer deuses conseguissem vomitar ou não.

Embora a imagem de Imhotep assustado num cantinho sem saber lidar com aquilo tudo já dissesse muito por causa de seus olhos sobressaltados em completo terror, a cena mais chocante ali não era com ele, nem com qualquer um dos outros deuses que tentavam descobrir o que fazer. O foco ali também não era o olhar de aliviada que Néftis deu, em meio às lágrimas, ao notar Anúbis chegando inteiro. Nem era a expressão mal humorada de Naunet que parecia se fechar para tudo que acontecia ao seu redor, nem Hedjhotep respirando fundo de um jeito acelerado demais, mas tentando se acalmar enquanto segurava uma ânfora de vinho. Não, o foco ali, era Rá, ao lado de Ísis, estirado no chão, desacordado, repleto de ferimentos que sujaram o Salão do Julgamento de sangue prateado.

A imagem de Rá naquela situação era chocante o suficiente para paralisar não só à Anúbis, como também à Set que chegou segundos depois. A expressão do deus do caos foi do mais puro assombro.

— Apófis se soltou? — perguntou Anúbis ainda tentando processar a cena.

Apófis, a grande serpente com quem Rá eternamente duelava numa das camadas mais profundas do Duat. A serpente que jurou matar Rá e impedir o nascer do sol e, se pudesse levar mais todos os outros deuses nessa carnificina, então Apófis se encheria de felicidade.

Ajoelhada ao lado de Rá tentando curá-lo com magia, pois os ferimentos pareciam estar demorando demais para se curarem, Ísis afirmou com a cabeça com uma expressão aterradoramente triste no rosto. Por mais que deuses fossem imortais, eles podiam morrer brevemente para depois voltar, tal como tinha acontecido com Sobek tantos séculos atrás, quando Osíris foi fatiado em vários pedaços. E se tinha uma coisa que ninguém queria, era ficar sequer um dia sem Rá.

Então, sem Anúbis ou Set, que ainda estavam sendo atualizados dos acontecimentos esperarem por isso, a imagem de Rá mudou. A aparência de Rá trocou de sua típica imagem musculosa e banhada em ouro, pra outra. Os músculos se mantinham, mas a cor de sua pele trocou de um dourado claramente mágico que lembrava tanto a luz do sol, para um negro-avermelhado que lembrava um pouco o vermelho das folhas de outono. Como se isso já não fosse o suficiente, ainda apareceu em seu rosto uma longa e fina barba negra como a noite.

— O que é isso? — perguntou Set.

— Não temos certeza ainda. — admitiu Ísis com um pesado suspiro de evidente preocupação.

— Onde está Thoth?! — indagou Set ficando gradualmente mais irritado.

A irritação de Set ia ficando aparente inclusive em sua pele que ia trocando de cor de um cinza meio doentio para um vermelho de pura raiva e ódio. Paciência não era um dos traços que Set podia dizer possuir. Mas foi também nesse exato momento que, ainda mais atrasado que Anúbis e Set, chegou Bes. A primeira coisa que Bes viu ao entrar na Salão do Julgamento foi Anúbis, por isso, ele foi logo o cumprimentando.

— Hey garoto, — disse Bes — O que tá acontec-

A fala de Bes se perdeu com o choque ao ver Rá estirado no chão daquele jeito. Assim como todos os deuses antes, Bes ficou paralizado e a expressão de choque ficou estampada em seu rosto.

— Apófis está acontecendo… — respondeu Anúbis.

— Thoth… — disse Ísis respondendo lentamente a pergunta de Set como se claramente estivesse com medo do impacto que alguma informação teria — Thoth está no Deserto Branco. É onde Apófis está. Hórus já está lá… alguns outros também… Ptah, Hapi, Serqet, Bastet, Sekhmet… Anput…

— QUÊ? — exclamou Anúbis surtando automaticamente.

— Quanto antes formos, melhor. Não? — disse Khonsu se aproximando e passando cada um dos braços ao redor dos ombros de Anúbis e Set puxando-os para o portal de entrada do Salão do Julgamento.

Anúbis e Set podiam até não se gostarem e nem se darem bem, mas foi difícil não lembrar que os dois eram pai e filho quando ambos, ao mesmo tempo, se livraram do braço de Khonsu. O deus da lua riu pela reação dos dois deuses e esses segundos de atraso foram o suficiente para Sobek se juntar ao pequeno e estranho grupo que estava se formando para ir ao Deserto Branco.

Anúbis, Bes, Set, Khonsu e Sobek, uma estranha combinação de fato, deixaram o Salão do Julgamento para trás e foram para o Deserto Branco num piscar de olhos literalmente. O nome do deserto resumia já bastante sobre ele, mas escondia que ele era apenas uma depressão geológica de centenas de quilômetros quadrados que constituía o Saara.

Até onde o olho alcançava, a areia era branca e, quando não era, era rodeada por pedras planas e brancas como as nuvens. As dunas eram poucas, a terra era mais plana e aparentava ser mais dura. Mas, o tanto que ele não tinha de dunas, era o tanto que ele tinha de estranhas e enormes pedras, também brancas, que se erguiam do chão parecidos com punhos fechados ou cogumelos de vários metros de altura. Ali já era muito longe das fronteiras do Egito e também de muitas cidades. Os poucos que ousavam cruzar aquele deserto eram, em geral, beduínos que se aproveitavam dos poucos oásis e fontes termais.

Bem que os deuses prefeririam encontrar o vazio e o silêncio do deserto, mas a primeira coisa que os cinco deuses viram, foi uma cobra de tamanho estupidamente colossal. Tão grande que, se colocada ao lado da grande pirâmide de Khufu, esta iria parecer uma pecinha de um jogo de tabuleiro ao lado do poderoso corpo de Apófis. Seu corpo, vermelho como o próprio caos, parecia até mesmo irradiar essa energia tão perigosa e cruel. Um hieróglifo brilhava em sua crista, as presas gotejantes de sua enorme bocarra tinham tamanho de arranha-céus, seu corpo era tão longo que nem os deuses conseguiam ver seu fim, mas podiam ver bem os olhos vermelhos que pareciam sedentos por sangue.

— Quando que vocês lutaram contra Apófis da outra vez mesmo? — perguntou Anúbis que, assim como Bes, estava vendo a enorme cobra pela primeira vez.

— Uns 3000 anos atrás… — respondeu Set sem tirar os olhos de Apófis — 3500 talvez.

— Ele era tão grande assim? — perguntou Bes engolindo em seco.

— Não. — respondeu Set secamente como se ainda tentasse aceitar a situação.

Apófis rugia e sibilava tão alto que os ouvidos dos deuses ficaram incomodados por estarem tão próximos do monstro e, mesmo eles sendo deuses e estando em mais de um, eles se perguntavam como iriam lidar com uma criatura que praticamente nasceu para matar deuses e que tinha acabado de derrotar o tão poderoso Rá. Ainda bem que o Saara era um dos maiores desertos do mundo, pois ele certamente parecia até mesmo pequeno para um confronto com uma cobra daquele tamanho.

Notas finais
REFERENCIAS **** O Livro de Thoth - https://www.sacred-texts.com/egy/woe/woe10.htm Dança - https://www.ancient.eu/article/1075/music--dance-in-ancient-egypt/ Sacerdotizas de Hathor - https://journals.openedition.org/bifao/296?lang=en Tebas - https://www.ancient.eu/Thebes_(Egypt)/ Amun - https://www.ancient.eu/amun/#:~:text=Amun%20(also%20Amon%2C%20Ammon%2C,1570%2D1069%20BCE). Apófis - https://www.ancient.eu/Apophis/ Deserto Branco - https://en.wikipedia.org/wiki/Farafra,_Egypt#White_Desert Beduínos - https://en.wikipedia.org/wiki/Bedouin#Early_history