A Morte Das Areias do Saara
87 Uma luta desigual
Notas iniciais

O rei vestiu roupas de luto; ele e seus cortesãos, o sumo sacerdote e todos os sacerdotes de Mênfis, o exército do rei e a família do rei, estavam vestidos com roupas de luto e caminharam em procissão até o porto de Mênfis até a barcaça real. Quando chegaram ao porto, viram o corpo de Nefer-ka-ptah flutuando na água ao lado da barcaça, perto dos grandes remos-guia. E essa maravilha aconteceu por causa dos poderes mágicos de Nefer-ka-ptah; mesmo na morte ele era um grande mágico por causa dos feitiços que ele havia lavado o papiro e bebido na cerveja.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
A escuridão da falta do sol era aterradora. Sem Rá, o sol não brilharia. Era como se tudo repentinamente tivesse se transformado na mais sombria e tenebrosa das noites, e a enorme cobra que, sem qualquer pingo de medo, agora peitava vários deuses, era a prova vida de que aquela noite deveria ser temida.
A maior parte da pouca luz que iluminava o deserto branco era vermelha, caótica, e vinha toda do caos que emanava de Apófis. Mas, no meio de tanta escuridão e vermelho, um pouco de dourado também era emanado de Hórus, Sekhmet, Bastet e Ptah que haviam invocado suas formas luminosas de 20 metros de altura, que ainda pareciam formigas perto de Apófis. Quando Anúbis e os demais chegaram, Hórus, Sekhmet, Bastet e Ptah encaravam Apófis com Hapi, que, embora não tivesse forma luminosa, conseguia ficar quase igualmente gigante ao formar-se com vários litros de água.
Mas, apesar da urgência da situação, os olhos de Anúbis procuravam desesperadamente por Anput. Afinal, Ísis havia falado que ela estava ali também. Outro nome que Anúbis notou que faltava, era Serqet. Assim, ele esperava para que a esposa estivesse junto com a deusa escorpião. Sentia-se mal em pensar quão não preparada para uma luta com Apófis Anput provavelmente estaria. Mas, por outro lado, provavelmente nenhum deus ali estava. E, como se para confirmar isso, Apófis mergulhou rápida e ameaçadoramente com a boca escancarada e as presas brilhando ameaçadoramente. O mergulho foi justamente na direção dos quatro deuses que encaravam-no.
O mergulho de Apófis causou um terremoto que foi sentido por Anúbis, Set, Sobek, Khonsu e Bes bem no momento em que os quatro primeiros invocavam também suas formas luminosas e gigantes com cabeças de seus respectivos animais.O que menos sentiu foi Set, pois no segundo seguinte já estava voando em direção à luta.
Com suas asas, Hórus rapidamente voou para longe do ataque. Bastet, com sua incrível habilidade felina, desviou com agilidade como se a luta fosse uma dança de balé. Sekhmet desviou-se por pouco e Hapi só não foi engolido por Apófis pois Ptah usou toda a sua força para aumentar o máximo possível de tamanho para que pudesse segurar a bocarra aberta de Apófis.
O fato de Ptah ter ficado lá segurando o ataque de Apófis, por mais que parecesse algo bem difícil de fazer, deu aos outros deuses tempo suficiente para preparar um ataque. Foi quando o corpo de Apófis começou a ser atacado por escorpiões que surgiam da areia que Anúbis viu Anput mais além, perto do corpo de Apófis. Ela estava puxando um desacordado Qebehsenuef, outro dos filhos de Hórus. Aparentemente ela não tinha sido a única deusa não tão importante assim à ir peitar aquela briga.
Anúbis imediatamente apareceu do lado dela desfazendo toda a sua forma gigante luminosa e, em perder um segundo, tirou magicamente Anput e Qebehsenuef de perto de Apófis sem ter um segundo para trocar uma palavra sequer. O que, obviamente, assustou Anput. Pois em um segundo ela estava puxando Qebehsenuef para longe de Apófis, e no outro ela estava em um lugar seguro a alguns metros de onde a briga acontecia.
— Você me assustou! — reclamou ela.
— Foi mal. — respondeu Anúbis percorrendo o corpo dela rapidamente com o olhar procurando algum ferimento, mas não vendo nenhum — Você está bem?
— Sim. — respondeu ela — Mas Qebehsenuef não está tão bem. Tentou impressionar Hórus e olha só no que deu. Um golpe de Apófis e ele desmaiou.
A breve conversa dos dois foi interrompida quando a atenção deles foi desviada por um grito desesperado de Bastet.
— HÓRUS! CUIDADO! — gritou a deusa gata.
A imagem de Apófis se dividiu em duas, uma delas, Ptah ainda segurava na boca. A outra, um pouco menor, usou o corpo como um poderoso chicote que atacou Hórus e jogou-o para longe como se não fosse mais do que um mosquito irritante. O movimento também tinha jogado para longe os escorpiões que se acumulavam sobre o corpo de Apófis. Estes se juntaram mais além e formaram Serqet.
Embora tenha atraído olhares um pouco atrasados, a forma que dava total atenção à Ptah, endureceu a expressão ameaçadoramente e avançou mais forte contra o deus, como se estivesse brincando até então. Sem qualquer dificuldade, Apófis abocanhou Ptah tal como uma cobra abocanha sua presa.
— PTAH! — exclamou Sekhmet preocupada com o ex-marido.
Tanto a deusa leoa, como Hapi, viram que tinham que salvar Ptah, já que Bastet estava agora ocupada com a cópia de Apófis que tinha mandado Hórus para longe. Hapi atacou Apófis com jatos de água turva e Sekhmet, deixando a sua forma o mais gigante que conseguia, abocanhou Apófis com suas presas de leoa. Mas Apófis, cujo pescoço estava mais volumoso devido ao processo de engolir Ptah, apenas riu.
— Achei que teriam mais o que mostrar… — falou Apófis com sua voz grossa, sussurrante e ameaçadora.
Se juntando imediatamente à batalha, Anúbis rapidamente criou a mais densa névoa negra que conseguia. Por mais difícil que fosse tentar não atingir nenhum dos outros deuses no meio daquela confusão, ele tentava usar a névoa para putrefazer o máximo possível do enorme corpo de Apófis. Ao mesmo tempo, também em sua forma gigante brilhante, Sobek avançou contra a parte de Apófis que tentava devorar Ptah. O deus crocodilo abocanhou Apófis logo embaixo do calombo que era Ptah ao mesmo tempo em que Bes pulava sobre o focinho de Apófis.
Apófis ficou com os olhos cruzados tentando olhar para Bes em seu focinho enquanto o deus anão já preparava sua expressão que magicamente assustava qualquer um que olhasse para ela. Mas, Bes não conseguiu fazer nada pois, assim que olhou para Apófis, a maligna serpente mostrou que seu olhar também era repleto de poder. Bes ficou paralizado do mais puro e cru medo. Tudo que Apófis precisou fazer foi sacudir sua cabeça para mandar Bes pelos ares até seu pouso ser amortecido por um enorme bloco de pedra que o corpo do deus quebrou em pequenos pedacinhos.
Enquanto isso, Bastet, que lutava contra a versão menor de Apófis, recebeu a inesperada ajuda de Set que chegou voando lançado rajadas certeiras e fortes de areia contra o rosto da cobra. Tão fortes eram essas rajadas que, não só elas complicavam a visão de Apófis, como também raspavam em sua pele fazendo ele perder escamas e se ferir. Não só isso, mas Set também se jogou no meio de toda aquela areia contra Apófis e invocou uma espada em sua mão que usou para fincar no focinho de Apófis, de cima a baixo.
O golpe de Set, embora inteligente, não durou muito. Pois tudo que Apófis precisou foi um poderoso movimento com a cabeça para jogar Set para longe também. E foi nessa hora que Khonsu se aproximou para fazer sua parte da luta. O deus da lua parou o tempo por segundos suficientes para se aproximar de Apófis e invocar em sua mão uma longa espada brilhante como a lua. Mas, quando o tempo deveria estar parado e Khonsu notou o olhar de Apófis virando para a sua direção, o deus percebeu que seus poderes não pareciam afetar Apófis tanto sim.
Sem qualquer dificuldade, Apófis mordeu Khonsu. As longas e ameaçadoras presas da serpente maligna perfuraram o corpo do deus como se fosse um mero pedaço de frango. Sangue prateado escorria pelo corpo de Khonsu e então pela boca de Apófis, que ousou abrir um sorriso sangrento de pura diversão.
Quase que de forma sincronizada, Bastet e Anput pularam na direção de Apófis. Adagas na mão da primeira, espada na mão da segunda, elas tinham objetivos diferentes. Bastet queria salvar Khonsu enquanto Anput mirou na garganta de Apófis, bem onde o calombo que era Ptah estava, e tentou abrir um longo ferimento para tirar o deus dali.
A mera ameaça que Bastet representou foi o suficiente para Apófis cuspir Khonsu para longe e dar exclusiva atenção para a deusa. Afinal, ela parecia claramente a que menos estava apanhando naquela luta. Ela havia atacado ele várias vezes e, apesar de nenhum ataque fazer qualquer real estrago, ele ainda não tinha conseguido acertar a deusa gata.
Ainda assim, no meio de toda aquela confusão, a nuvem negra de Anúbis que trazia consigo a putrefação e a necrotização da morte incomodava a pele de Apófis. Assim, mesmo que suas cabeças estivessem focadas na luta que acontecia ao seu redor, a enorme serpente usou o corpo para tentar bater contra Anúbis. O deus da morte, no entanto, foi esperto e no último segundo simplesmente virou névoa. O corpo grosso e poderoso de Apófis passou direto por Anúbis enquanto este reapareceu sobre uma das cabeça de Apófis, especificamente a que estava tentando digerir Ptah.
Anúbis e Apófis trocaram um olhar rápido antes de Anúbis tocar com suas mãos, super concentradas com toda a putrefação que ele podia trazer, sobre os olhos de Apófis. Apófis rangeu de dor mas, o que Anúbis, Bastet, Anput e todos os outros deuses que conseguiram fazer algum ferimento em Apófis notaram mais ou menos ao mesmo tempo, foi que todos os ferimentos que eles conseguiam fazer se curavam imediatamente depois. Sem nenhum milésimo de segundo de espaço.
Nenhum deles tinha uma cura tão rápida e eficiente. E rapidamente entenderam o como aquilo era perigoso e dificultava muito o que tinham que fazer. Mas, não tiveram nem mesmo um segundo para tentar processar aquela descoberta. Pois, no segundo seguinte, quando Hórus já estava se reerguendo abrindo ampla e orgulhosamente suas asas e se aproximando velozmente de Apófis, o chão rachou-se em várias partes.
Das rachaduras do chão foi expelida uma forte e intensa baforada de caos direto do Duat que também foi fortemente saiu pela pele escamosa de Apófis. A energia caótica foi tão forte que jogou todos os deuses para longe. Anúbis, que estava logo em cima da cobra, foi jogado para o alto enquanto a maioria dos deuses rolou pelo chão.
O caos que foi expelido por Apófis ardia como uma queimadura leve na pele de Anúbis enquanto ele caía sem qualquer preocupação com o destino final de sua queda. Ali do alto, sentindo a brisa morna do vento, ele olhou a cena e o enorme corpo de Apófis que se perdia de vista. Foi nesse momento também que Apófis notou que ele era o único que estava caindo precisamente em sua direção. A serpente lançou-lhe um olhar que petrificava de medo e rapidamente começou a esticar o corpo para dar o bote no deus da morte. Todavia, Anúbis foi rápido. Ele escapou do bote de Apófis ao simplesmente sumir e reaparecer já no chão, perto de Anput.
A troca de lugar tinha sido feita às pressas e as condições iniciais não ajudaram muito Anúbis a aparecer do lado de Anput numa maneira mais organizada. Assim, ele caiu ao lado dela um pouco de mal jeito e com certeza teria saído levemente arranhado pelas pedras e fósseis de pequenas criaturas marinhas que se acumulavam aos pontes pela região, se não fosse o fato de que era um deus e nenhuma daquelas coisas mundanas podiam fazer nada com ele.
— Vocês ficaram frouxos… — dizia Apófis se virando para os deuses, todos caídos no chão — Dependentes demais de Rá.
Apófis estirou a língua para fora, tal como uma cobra sentindo rastro de cheiro deixado pelas presas… ou como uma pessoa lambendo os beiços depois de uma refeição saborosa, que no caso, havia sido Ptah. Pois, quando Anúbis olhou novamente, o calombo no pescoço de Apófis que uma hora tinha sido Ptah, já não parecia estar lá.
— Calado… — falou Hórus entredentes fazendo Apófis rir.
— Isso claramente não está dando certo. — sussurrou Bastet que foi prontamente ignorada por Hórus que voou na direção dos olhos de Apófis.
Igualmente imprudente, Sobek avançou para a cópia menor de Apófis enquanto Hapi foi ajudar Hórus. O caos do Duat ainda era expelido pelo chão fazendo os cabelos e as roupas dos deuses balançarem e a pele arder num leve desconforto. Também foi nesse momento que mais ajuda chegou.
O deus Heka, deus da magia e da cura, acompanhado de Anuket, a deusa das cataratas do Nilo e de Anhur, esposo de Anuket e um deus menor da guerra. Enquanto Heka criou faixas intensas de luz enormes que cortaram Apófis em dois pedaços fazendo-o gritar de dor, Anuket mirou com seu arco-e-flecha para os olhos da serpente. Anhur, por sua vez, se aproximou de Apófis com sua espada na mão, mas o olhar do monstro o paralisou de medo tal como tinha paralizado Bes segundos antes.
Nessa hora, Apófis se dividiu mais uma vez. Agora com três Apófis para lutar, os deuses viam seus problemas aumentarem cada vez mais por mais que o tamanho de Apófis diminuísse a cada divisão.
— Isso claramente não está dando certo! — disse Bastet para os poucos que estavam ouvindo-na e sendo sensatos ao invés de pularem na direção de Apófis sem qualquer plano — Precisamos pensar em uma estratégia.
— Nem mesmo os ferimentos que fazemos duram muito tempo. — disse Anúbis — É uma luta inútil.
— E Ptah… — lembrou Sekhmet — Acham que…
— Acho que Ptah morreu… — disse Anúbis sombriamente — Ao menos é o que eu sinto.
Não havia tanto pesar na morte de Ptah pois era só uma questão de tempo para o deus voltar. O problema, era que podiam ser dias, semanas, meses ou anos até isso acontecer. Mas os deuses logo notaram que a morte de Ptah seria o menor de seus problemas pois, na luta contra os imprudentes, Apófis acabou dando um bote tão certeiro contra Hapi que engoliu o deus junto com pedras e areia. Nas outras duas versões da enorme cobra, as coisas não iam tão melhores assim. Uma delas envolvia o poderoso corpo de Sobek várias vezes, prendendo-o completamente e começando a devorá-lo lentamente.
A terceira versão da serpente estava indo fazer o mesmo que fazia com Hapi e Sobek só que com Anhur. Desesperados, Anuket e Heka atacavam sem parar, até que se tornaram um empecilho maior que Anhur poderia representar. Apófis então avançou contra os dois com a boca escancarada.
Contudo, no último segundo, Apófis teve sua boca forçadamente fechada quando Anúbis se transportou para em cima de seu focinho, envolveu a bocarra do monstro com faixas de linho que putrefaziam tudo em que tocavam e ainda se pendurou na ponta de uma delas para fazer força para fechar a boca de Apófis. Apófis começou a se debater tentando se livrar do deus da morte que usava toda sua força e concentração para manter a boca de Apófis fechada. Usar toda sua força significava que sua forma divina, grande e com cabeça de chacal brilhava em dourado competindo com o vermelho de Apófis.
O debater de Apófis acertou várias pedras em formato de cogumelo no deserto, quebrando-as por completo. Também acertou o pobre e paralizado Anhur que nem teve tempo de se recuperar e posteriormente foi esmagado pelo corpo de Apófis.
Ao mesmo tempo, os demais deuses tentavam salvar Hapi e Sobek à suas próprias maneiras. Todavia, Apófis não estava nem um pouco inclinado a deixar os deuses interromperem seu café da manhã. Tudo que ele precisou foi mais uma forte expelida de caos para mandar os outros deuses para longe. Anúbis, preso à Apófis, tentou se segurar, mas a baforada maligna de caos foi forte demais e acabou arremessando Anúbis com tanta força para o chão que este quebrou-se ao seu redor.
Tonto e com visão embaçada, Anúbis olhou para Apófis e perguntou-se se era ou não impressão dele o fato de Apófis parecer um pouco menor do que antes. Considerando que estava tão tonto a ponto de ver duplicado, não confiava muito no julgamento de tamanho que teve no momento.
— Se não se importam, tenho mais o que fazer do que ficar brincando com vocês agora que estou completamente livre. — disse Apófis — Acertaremos nossos assuntos mais tarde.
O Deserto Branco foi então envolvido por mais um terremoto quando o chão se abriu num enorme buraco por onde mais caos foi expelido. As três versões de Apófis se juntaram novamente em apenas uma e esta entrou no buraco que acabara de abrir. Com os deuses todos caídos ou devorados, ninguém parou Apófis quando ele foi embora.
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