A Morte Das Areias do Saara

154 A Última Esperança de Pista


Notas iniciais
olá! chegou o cap novo desculpa a demora. eu tava viajando. escrevi o mais rápido possível. espero que gostem. tem uma parte com música e dança mais pro meio, se quiserem inspiração audio visual pra ela, tem aqui nesse link : - https://www.youtube.com/watch?v=UVA8WvgDKFY na imagem de hoje, algumas várias casas de quantidades diferentes de andares. feitas de tijolo de barro. construídas no meio de várias tamareiras e arbustos menores num solo bem arenoso e rochoso.

...Então Tua Majestade deu ordem para ouvir suas palavras e eu me movi pacificamente para o sul. Sua Majestade voltou em paz para o Egito junto com sua infantaria e sua carruagem, toda a vida, estabilidade e domínio estando com ele,

~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”

Timidamente, Kebechet surgiu onde Hórus estava, na casa onde Setne estava passando uns dias e que viria a ser dele quando ele assumisse plenamente o posto de Vizir de Mênfis. Na pontinha dos pés, ela passou por quartos completamente vazios, engolidos pela escuridão da noite com o único ruído sendo o bocejo de cansaço dos guardas noturnos.

Ela andou até notar uma luz solitária vinda de um cômodo mais para dentro. Sem guardas por perto, apenas aquela luz e o arranhar de pena num papiro, protegida por uma mágica para esconder sua presença, ela colocou a cabeça para dentro da porta escancarada, e notou Hórus e Ihy, também escondidos pela magia, e Setne debruçado sobre uma mesa, rodeado de papiros, sem saber das presenças extras no cômodo.

Setne estava concentrado em seus papiros, com tochas e velas fazendo luz no cômodo e um incenso com a doce fumaça subindo em uma espiral tão intensa que quase parecia um redemoinho. Logo ao lado, Hórus estava de braços cruzados, encarando Setne, e Ihy, mordendo o lábio inferior, parecia querer sumir dali. E talvez fosse a aparição de Kebechet tudo o que ele precisava, pois logo seu rosto ficou radiante ao ver a garota se esgueirando para dentro do cômodo.

— Kebechet! — exclamou Ihy.

— Encontraram algo… ? — perguntou ela sem saber o melhor jeito de revelar a notícia do anel de Ramsés II, já que Hórus parecia claramente irritado.

— Não… — disse Ihy se encolhendo e olhando para Hórus.

— Já checamos todos os cômodos, menos este… porque esse maldito não vai dormir! — reclamou o Hórus.

— Hmm… — resmungou Kebechet percorrendo o olhar pelo cômodo, tinha de fato muitos lugares ali que dava para esconder coisas… armários, estantes e baús, por exemplo.

A estante estava entupida de papiros dos mais diversos tamanhos. Era tanto papiro que ela já estava bagunçada de forma que o dono estava enfiando papiro em qualquer lugar vazio possível ao invés de ordenada e espaçadamente. Eles não sabiam, mas no meio de tanto papiro, um deles era o Livro de Thoth. Contudo, nada havia de visualmente diferente para eles adivinharem sem sair abrindo cada papiro pela frente.

— O que ele tá fazendo tão tarde ainda acordado? — perguntou Kebechet.

— Estudando… — respondeu Hórus a contragosto enquanto Kebechet se aproximava para ver sobre o que Setne estudava, parecia medicina.

— A gente deu sorte que a porta estava aberta… — explicou Ihy — Não é fácil essa de ser discreto…

— Falando em sorte… — disse Kebechet delicadamente — A gente encontrou o anel de Ramsés II… o extra… duplicado..

— Como? Onde? — perguntou Hórus em voz alta, dando os dois longos passos que o separava de Kebechet.

— N-Na casa do sumo-sacerdote da Casa da Vida… — disse Kebechet, se encolhendo diante do evidente estresse e pressa de Hórus — O Panehesy… Está lá no Salão do Julgamento agora… o anel… não o Panehesy… Ele tá dormindo.

Hórus não precisou dizer mais nada, imediatamente saiu de lá em direção ao Salão do Julgamento. A fumaça do incenso na mesa ao lado de Setne se mexeu, mas logo continuou girando enquanto Kebechet e Ihy se entreolharam.

— Será que vai dar tudo certo? — perguntou Kebechet.

— Não sei… — admitiu Ihy — Acha que foi Panehesy? Ou melhor… acha que meu pai foi pro Salão do Julgamento ou arrancar o Panehesy da cama dele?

— Espero que a primeira opção… — admitiu Kebechet.

— Vamos confirmar logo então. — sugeriu Ihy.

Kebechet afirmou apressadamente com a cabeça e os dois saíram dali também. O fogo do incenso se mexeu mais uma vez, e logo não passou de um mero filete, calmo, simplesmente subindo aos céus praticamente reto sob o olhar de Setne, que se desviou do papiro que lia sobre tratamentos de doenças no cérebro para o incenso e logo se ergueu.

Quando Kebechet e Ihy chegaram ao Salão do Julgamento, suspiraram aliviados ao notar que Hórus estava de fato ali. Não só ele, como também mais deuses do que havia quando Kebechet havia deixado o Salão pouco tempo atrás.

O anel de Ramsés II já estava nas mãos de Hórus, mas ele claramente estava ignorando as perguntas que os outros faziam enquanto pensava no que fazer.

— Chamamos Panehesy para ser interrogado? — perguntou Hathor.

— Anúbis parou à pouco por um momento a mumificação do garoto… Kheti… — disse Anput — E confirmou que tem o cheiro de Panehesy no anel…

— Se estava com ele, então é dele, oras! — reclamou Sobek — Não precisa sentir o cheiro. Mas é bom confirmar isso.

— Mas pode ser porque todo o resto da caixa que ele estava dentro também tinha… — disse Anput.

— Tinha outro cheiro? — perguntou Ísis.

— Não… — respondeu Anput.

— Não tem outro jeito de confirmamos a versão de Panehesy sem interrogarmos ele… — lembrou Osíris.

— Mas queremos que comecem a suspeitar mais ainda que algo está errado? — perguntou Thoth — Ramsés II já sabe que tem alguém se passando por ele…

— O que confirma que temos que ser cuidadosos… — lembrou Ísis — O que acha, Hórus?

— Vamos acordar Panehesy… — decidiu Hórus.

— Certeza? — perguntou Ísis — Ele pode muito bem contar depois por aí que conseguimos o anel e claramente algo importante aconteceu para nós, deuses, interrogarmos um humano dessa forma.

— Nada que um pouco de ameaça não resolva… — sugeriu Hórus — Se o anel for obra dele mesmo talvez nem precisaremos de nada do tipo mesmo. Se for inocente… bem… vai ser uma história para guardar.

— Vou acordar o dorminhoco então… — disse Sobek — Trago ele pra cá?

— Eu vou com você. — disse Hórus — Podemos ir pro meio do deserto e só falar que vamos deixar ele se virar pra voltar se não ajudar… ou devolver ele pro mesmo lugar se contar pra alguém.

— Clássico. — disse Sobek.

— Ou não… o deserto é território de Set e eu ainda não estou convencido que um de nós não está envolvido… — disse Hórus, pensativo.

— Que tal aquela pontinha em Punt? É mais longe… tem umas ilhas pequenas desabitadas por lá… — sugeriu Sobek, dando de ombros — Fora das ilhas já tem mais gente mas…

— É uma rota de comércio… não é tão deserto. — lembrou Ísis — Não acho que Set esteja envolvido. Se duvida, faça disso um teste, faça mesmo no deserto.

— Uma isca. Pode ser… — concordou Hórus, logo olhando para Anput — Peça para Anúbis se preparar para vir também…

— Pedirei…. — disse Anput tensa enquanto os dois sumiram dali.

Anput suspirou pesadamente, cansada da situação toda, mas não deixou de notar quando Kebechet saiu correndo em direção à sala das múmias. Kebechet parou logo na entrada por um minuto, e ficou fitando de longe Anúbis concentrado no corpo parcialmente carbonizado do pobre Kheti. Com o canto do olho, Anúbis notou que ela estava ali e gesticulou para que ela entrasse.

De forma saltitante, Kebechet foi até onde Anúbis estava e então fitou o corpo com o qual ele trabalhava. Já tendo visto todo o processo de mumificação várias vezes, viu que ele tinha avançado bastante.

— Acha que vai funcionar? — perguntou ela.

— Espero que sim… — respondeu ele sem tirar os olhos do corpo por muito tempo — Se funcionar, até amanhã ou depois deve estar pronto.

— Já tá parecendo bem melhor… — disse Kebechet.

— Já arrumei próteses de madeira para partes do corpo que eram um caso perdido… — explicou Anúbis — Isso melhora muito a aparência. Claro que o coração é o mais importante mas… não é só porque tudo que precisamos é interrogar ele que eu não vou fazer uma mumificação bem-feita. Não vou deixar ele chegar aqui com um braço faltando ou sei lá. Alguma novidade do anel?

— Sobek e Tio Hórus foram acordar o Panehesy para interrogar ele lá no deserto… — explicou ela sem notar a rápida ruga que se formou entre as sobrancelhas dele com o “Tio Hórus” — Falaram pra ficar preparado que vão vir te levar também…

— Me levar também?... — perguntou Anubis finalmente levantando de vez o olhar do corpo e logo entendendo o que isso significava — Ah não…

— O quê? — perguntou ela.

— Acho que querem usar a Pena da Verdade… — resmungou ele, claramente meio irritado — Nem perguntam minha opinião antes de inventarem algo assim…

Anúbis suspirou e todo o foco para continuar aquela mumificação se foi. Ele parou uns segundos para recuperar o foco para ao menos deixar o corpo num estado que pudesse ficar sem sua atenção por um tempo, e foi nesse momento que Anput também entrou no cômodo.

— Kebechet já te contou? — perguntou ela.

— Já. — respondeu ele, limpando as mãos ao ficar satisfeito com como o corpo iria ficar — Hórus está irritado?

— Claro… — disse Anput enquanto Anúbis ia indo para a porta — Não aceite usar a Pena se não quiser…

— A ideia tem seus méritos… — admitiu Anúbis, com um suspiro — Se forem muito longe eu pego ela de volta.

Sem ter muito o que falar, a pequena família voltou para o Salão do Julgamento, e lá ficaram até Sobek reaparecer. A falta de Hórus já indicava que ele provavelmente estava com Panehesy. Tudo que Sobek disse foi “bora?” antes de eles, acompanhados de Ísis, deixarem o Salão do Julgamento para trás, em direção à completa imensidão solitária do deserto.

A lua e as milhares de estrelas eram as únicas luzes no meio da imensidão do deserto. Panehesy sentado no chão, cercado de dunas de areia, era como apenas um ponto solitário na areia. De pé ao lado dele, de braços cruzados, estava Hórus. Uma brisa gelada passava pelos dois quando Anúbis, Sobek e Ísis chegaram e também deixava os pelos do braço de Panehesy arrepiados.

— Estou falando a verdade… — implorava Panehesy quando eles chegaram — Eu não tenho uma cópia do anel do faraó.

— Espero que esteja falando a verdade… — disse Hórus, olhando para Anúbis.

— Certeza que quer fazer isso? — perguntou Ísis.

— Tenho… — respondeu Hórus, suspirando pesadamente — Saiba, Panehesy, que se contar para alguém o que acontece essa noite, iremos largá-lo no meio do deserto, nesse exato ponto… ou até pior… isso é, se passar dessa noite…

— N-Não vou… não vou contar pra ninguém… vou provar minha inocência… — gaguejava Panehesy — Só me diga como.

— Será que é inocente mesmo? — perguntou Sobek — Como o anel de Ramsés II pode estar tão bem guardado na sua casa?

— Eu não sei! — exclamou Panehesy.

— Pode pegar a Pena da Verdade? — perguntou Hórus olhando para Anúbis.

— Não faça perguntas muito complicadas e subjetivas para ele… — pediu Anúbis — Perguntas simples… de sim ou não…

— Pra que tanta preocupação? — perguntou Sobek.

— Pra caso ele seja inocente… — lembrou Anúbis.

— Não vou fazer perguntas complicadas. — garantiu Hórus, deixando de olhar para Anúbis e então olhando para Panehesy — Estenda as mãos.

Panehesy obedeceu Hórus e Anúbis lançou um olhar de alerta para o primo, mas logo suspirou e invocou, flutuando na sua mão direita, a Pena da Verdade. A pena do mais puro branco brilhava e flutuava sobre a mão dele enquanto Panehesy encarava a pena com o olhar esbugalhado e boquiaberto. O sumo-sacerdote engoliu em seco, ele sentiu seus lábios ficarem ressecados e o coração pulando no peito mesmo sem saber direito o que a pena prometia.

— Cuidado com o que fala… — alertou Anúbis ao parar na frente do homem — Qualquer mentira e você queimará, literalmente.

— Não existe outra forma? — perguntou Panehesy, encolhendo suas mãos um pouco.

— Talvez… — respondeu Sobek — Mas essa é a que queremos.

Com cuidado, Anúbis passou a pena flutuante mágica para as mãos de Panehesy, que já estava suando apesar do frio do deserto noturno. O sumo-sacerdote tremia e não ousava tirar os olhos da Pena da Verdade.

— Você fez uma cópia do anel de Ramsés II? — perguntou Hórus.

— Não. — respondeu Panehesy prontamente.

— Usou alguma vez um anel de Ramsés II ou cópia de um para carimbar algum documento como Ramsés II? — perguntou Hórus.

— Não. — respondeu Panehesy novamente e parando em seguida para respirar fundo.

— Já entrou alguma vez na tumba de MInkhaf, filho de Khufu? — perguntou Hórus.

— J-Já… — admitiu Panehesy suspirando tristemente e apressadamente se explicando — Q-Quando eu era mais novo. Não cheguei a entrar, só fui até a porta seguindo os rumores que tinha ouvido falar e não tive coragem de desfazer o lacre e de fato entrar. Era um jovem tolo e curioso.

— Conversou sobre a localização da tumba com alguém? — perguntou Hórus.

— T-Talvez? Acho que s-sim… — gaguejou Panehesy — Na época.. talvez depois… não me lembro com certeza.

— Hórus… — advertiu Anúbis — Já sabemos que não é ele.

— Se quiser interrogar mais, pode tirar a pena… — sugeriu Ísis.

— Se não usou o anel nem fez o anel, como ele parou em sua casa? — perguntou Hórus, ignorando os outros dois.

Cheio de dúvidas e questionamentos no coração, Panehesy olhou para Hórus em completo terror. Não tinha mais do que teorias pouco pensadas e elaboradas. Onde estaria a linha que dividia o que era mentira entre “Não sei.” e “Não sei, mas tenho umas teorias das quais nenhuma tenho muita confiança pois não tive tempo de pensar direito em nenhuma já que não estou na melhor das situações”? Ele sentiu as mãos ficarem mais quentes, mornas. Mas podia ser tanto a pena como coisa da sua própria cabeça.

Exatamente pela complicação da pergunta, quando uma gota de suor escorreu pelo rosto tenso de Panehesy, Anúbis apressadamente pegou a pena da verdade das mãos dele. Subitamente aliviado, o sumo-sacerdote deixou um grande suspiro escapar de seus lábios e então se jogou na areia, começando a chorar.

— E-Eu não sei! Eu não sei! — gritou Panehesy — Pode ter sido de tantos jeitos… tantas pessoas vão até mim! Qualquer um pode ter colocado lá! Pode ser uma jogada para que eu perca meu posto também.

— Quem pode ter passado na sua casa? — perguntou Ísis.

— Qualquer um… — admitiu Panehesy — Todo sumo-sacerdote ou sacerdote de Mênfis provavelmente já esteve lá. E os aprendizes da Casa da Vida… e muitos oficiais, nobres, vizires… Eu falo com muita gente, recebo muita gente, saio com muita gente…

Os quatro deuses presentes ali se entreolharam e Anúbis guardou a Pena da Verdade antes que tivessem outras ideias com a coitada. Todas as perguntas mais importantes pareciam ter sido feitas, e não levaram a nada. Isso era bem desanimador e deixava os deuses com menos opções de caminhos para seguir.

— Alguma dessas pessoas fez recentemente perguntas muito estranhas? — perguntou Ísis.

— Tipo o quê? — perguntou Panehesy.

— Sobre a tumba de Minkhaf, por exemplo. — sugeriu Ísis — Ou sobre os deuses.

— Sobre os deuses sempre tem perguntas… afinal muitos estão aprendendo para virarem sacerdotes e sumo-sacerdotes… ou simplesmente procurando conselhos. — disse Panehesy, tentando ficar mais calmo — Não sei o que se classificaria como uma pergunta estranha sobre vossas divindades.

— Já que parece que não precisam mais da pena… — disse Anúbis — Eu vou indo… preciso aproveitar o tempo.

— Quando ficará pronto? — perguntou Hórus, não querendo completar na frente de Panehesy que estava falando da mumificação de Kheti.

— Talvez até amanhã… Mas sabe que ainda assim demora alguns dias até… — respondeu Anúbis deixando a frase no ar pelo mesmo motivo que Hórus.

— Sim. Eu lembro. — respondeu Hórus sabendo que Anúbis queria dizer do tempo que leva para a alma chegar no Salão do Julgamento.

Deixando o deserto para trás após dar um olhar para Panehesy, Anúbis voltou para a sala das múmias com a cabeça cheia. As opções de investigações para descobrir mais coisa sobre o roubo do Livro de Thoth estavam só diminuindo e não tinham descoberto tanto quanto gostariam de ter descoberto a essa altura.

Ele voltou a se concentrar na mumificação. Tal como prometido, no dia seguinte ele estava nas montanhas rochosas na margem oeste do Nilo sepultando Kheti em tumbas comunitárias o mais perto possível da família dele, que ainda não sabia do destino do garoto. Em todas essas horas que separaram a interrogação de Panehesy e o sepultamento de Kheti, nenhuma novidade surgiu, mesmo com a busca por todos os cômodos da casa que Setne usava em Mênfis depois que ele foi dormir após a interrogação de Panehesy.

Tentando distrair a cabeça enquanto esperava pela alma de Kheti, Anúbis decidiu ir para o templo de Hatshepsut e, sentado no chão da sua própria capela, jogar alguns jogos de tabuleiro com Kebechet. Diversos jogos se amontoavam em um canto enquanto os dois se concentravam no jogo “Cães e Chacais”. O jogo continha dez pequenas estacas de marfim esculpidas, cinco das quais lembram cães de caça e cinco chacais.

Anúbis olhava para o tabuleiro com as peças enfiadas nos buracos, mas Kebechet olhava para ele intensamente, sabendo bem que a cabeça dele não estava no jogo. Kebechet mordeu o lábio inferior, preocupada enquanto pensava no que dizer.

— Vai ficar tudo bem…. — disse Kebechet repentinamente, atraindo a atenção de Anúbis para si — A múmia do Kheti tava muito bem feita.

— Você e sua mãe claramente me conhecem demais. — disse Anúbis suspirando mas deixando um leve sorriso no rosto.

— Claro. — respondeu Kebechet toda orgulhosa.

— Tem muito em jogo com a alma de Kheti… — admitiu Anúbis — Não temos outras ideias do que fazer além de começar a interrogar todo mundo com a Pena da Verdade, o que é muito perigoso. Estamos demorando tanto que Setne e Ramsés II até já estão voltando para Pi-Ramsés…

— Talvez alguma pista nova apareça… — disse Kebechet, dando de ombros — Ramsés II voltando para Pi-Ramsés deve começar a investigar quem está se passando por ele, né?

— E achará algo? — perguntou Anúbis enquanto finalmente fazia sua jogada — O joalheiro que provavelmente duplicou o anel morreu a anos.

— Vai que? — perguntou Kebechet, movendo uma peça no jogo de forma que fez Anúbis arquear as sobrancelhas — Já disse que eu tenho uma ideia de como te derrotar hoje?

— Você nunca ganhou de mim nesse jogo. — disse Anúbis com um sorriso desafiador no rosto.

— Sempre tem uma primeira vez. — respondeu Kebechet, rindo.

— Veremos. — desafiou Anúbis.

Os dois continuaram ali por horas e nenhuma vitória de Kebechet veio naquele jogo, só quando eles trocaram para outro. Perto do pôr do sol, Anput chegou para se juntar na admiração do sol se pondo. Os três se sentaram aproveitando aquela calmaria enquanto o sol pintava o seu e emoldurava o deserto e o Nilo além. Ao lado deles, algumas cestas de frutas e pão faziam companhia para adocicar um pouco a conversa.

— É tão bom parar um momento para apreciar essas vistas… — disse Anput, deitando a cabeça no ombro de Anúbis enquanto Kebechet já estava muito bem deitada com a cabeça no seu colo.

— Até porque logo a alma de Kheti deve chegar ao submundo, se tudo der certo… então logo o caos vai voltar. — disse Anúbis.

— Não sei se prefiro o caos ou a tensão que está lá. — disse Anput passando a mão pelos cabelos de Kebechet.

— Ao menos a tensão é silenciosa agora. — disse Kebechet — Será que dá pra eu aproveitar isso e ir visitar a Macária?

— Pode ser. — respondeu Anput.

Ver o pôr do sol em família logo virou uma pequena festinha particular quando eles acenderam uma fogueira para iluminar a noite trazendo um pouco de vida ao templo solitário de Hatshepsut. Kebechet e Anput começaram a dançar ao redor da fogueira naquela forma tão antiga de dança do ventre enquanto acompanhavam as tentativas horríveis de Anúbis de tocar uma música com um pequeno tambor.

— Tá muito ruim o ritmo. — disse Kebechet rindo.

— Não estou vendo você fazer melhor. — respondeu Anúbis, fazendo Kebechet rir ainda mais.

— Deixa que eu cuido da música. — disse Anput rindo e até o tambor.

— Vem dançar comigo então. — disse Kebechet indo até Anúbis e o puxando para se levantar.

— Eu? — perguntou ele, completamente perdido e já morrendo de vergonha.

Com Anput com o tambor, a música melhorou enormemente mesmo que ela não fosse ainda uma profissional no instrumento. Kebechet logo começou a dançar e olhava com expectativa para que Anúbis a imitasse.

— Quê? Não mesmo. — reclamou ele — Prefiro passar vergonha com o tambor.

— Anda! — disse Kebechet rindo enquanto Anput segurava uma risada — Faz assim ó. Com o quadril, pra cima e pra baixo, colocando essa perna assim na ponta do pé.

Ela colocou o pé direito levemente mais pra frente e na ponta do pé e repetiu o movimento devagar enquanto a música continuava a tocar. Timidamente, ele até colocou o pé pra frente na ponta do pé, mas ao pensar no movimento de quadril, mais na diagonal do que pra cima e pra baixo como Kebechet tinha explicado, ele imediatamente se retraiu e deixou uma risada escapar.

— Vai! Você consegue! — disse Kebechet ainda fazendo o movimento com o quadril — Pra um lado, e pro outro. Pra um lado e pro outro. Estou pegando leve.

— Não não… — resmungou ele, negando com a cabeça — Outra coisa.

— Vai! Não custa nada! — implorou Kebechet, segurando a risada.

Suspirando fundo reconhecendo sua falta de habilidade de dizer não para a filha, Anúbis tentou controlar tanto sua vontade de rir como sua vergonha. Com um sorriso, Anput se divertia e admirava o quanto ele já estava vermelho.

Depois de respirar fundo para conseguir controlar a vontade de rir, ele tentou de novo e dessa vez conseguiu segurar a risada por tempo suficiente para ao menos mexer o quadril uma vez para cada lado. O problema, foi que logo os três caíram na gargalhada, interrompendo a música completamente.

— Tava menos ruim no tambor. — disse Anput, limpando uma lágrima que escapava de seu olho direito em meio às risadas.

— Tão ruim assim? — perguntou ele.

— Sim… — disse Anput, rindo de leve — Falta um movimentinho de quadril… Você está todo travado.

— Eu ensino então! — disse Kebechet, respirando fundo para parar a risada.

— E quem disse que eu quero aprender pra começo de conversa? — perguntou ele — Prefiro aprender o tambor.

Enquanto isso, no meio da mesma escuridão da noite, já no final do caminho que conectava Mênfis à Pi-Ramsés, Setne descansava perto de uma árvore solitária pouco além da margem fértil do Nilo. As sombras de um vilarejo emoldurava a vista atrás do príncipe enquanto ele amarrava seu cavalo na árvore e voltava sua atenção para a bolsa que o cavalo levava.

Setne acendeu um incenso e ficou fitando por uns segundos enquanto o filete de fumaça subia aos seus, reto. Quando se deu por satisfeito, ele usou as próprias mãos para abrir um buraco no terreno arenoso, logo abaixo da árvore. Não tendo tanto progresso quanto gostaria para a profundidade que planejava, começou a improvisar usando o que tinha em mãos, como a espada, uma pedra largada por perto… qualquer coisa.

Quando o buraco estava profundo o suficiente, ele respirou fundo, olhou para o incenso mais uma vez, e apressadamente enfiou a mão na bolsa que carregava e, debaixo de roupas e comidas para viagem, tirou de lá o Livro de Thoth. Com pressa, e o coração palpitando em pleno desespero, ele jogou o rolo de papiro do Livro de Thoth no buraco e apressadamente enterrou-o ali.

Ofegante, ele olhou para o incenso mais uma vez e então sorriu em vitória ao ver a fumaça ainda calma. Colocou então uma pedra em cima do ponto onde cavou e se jogou no chão. Cansado, suado e ofegante, pronto para descansar com a sua vitória e, de quebra, dormir logo em cima do ponto que tinha acabado de enterrar o livro.

Tanto para Setne como para Anúbis e sua família, o dia seguinte logo chegou. Para Setne, isso significava vencer a pouca distância que ainda o separava da cidade de Pi-Ramsés deixando o livro para trás, para Anúbis, Anput e Kebechet, o novo dia trouxe a alma de Kheti chegando no Salão do Julgamento.

A expectativa era grande quando Néftis passou por todas as almas em fila e fez Kheti furar a fila inteira, até ser o próximo a ser julgado. Isso não passou despercebido para o garoto de 16 anos, que tentava entender o que ele podia ter de tão importante para ser escoltado por uma deusa para furar a fila daquela forma. Afinal, não passava de um filho de comerciante.

— P-Posso perguntar, senhora vossa divindade senhora Néftis, porque tenho tratamento especial? — perguntou o garoto, encolhido de medo de surpresa de tudo que acontecia ao seu redor — Tudo bem mesmo pular toda a fila assim?

— Talvez você tenha visto algo que nós precisamos saber… — explicou Néftis enquanto continuava a andar com ele.

— Ah… sei? — perguntou ele surpreso — Achei que nem ia conseguir chegar até aqui pra falar a verdade. Meus pais não estão numa situação financeira muito boa sabe? Achei que não iam conseguir pegar minha mumificação.

— Ah… Devido a algumas complicações, eles não sabem ainda que você morreu. — explicou Néftis.

— Quem fez minha mumificação então? — perguntou o garoto — Dei sorte de uma pessoa aleatória ficar com dó de mim.

— Anúbis fez. — revelou Néftis.

Kheti ficou tão chocado com aquela informação, que travou no lugar que estava completamente boquiaberto. Néftis continuou a andar enquanto o garoto ficou ali parado e, ao notar que ela já estava longe, ele apressadamente saiu correndo atrás dela. Estava realmente se sentindo muito importante e especial agora.

— S-Sério? — perguntou ele, sem conseguir aceitar aquela informação — Tudo isso porque eu talvez vi algo que vocês precisam?

— Sim. — respondeu ela, já ficando um pouco cansada de tantas perguntas.

— O que eu posso ter visto? — perguntou ele.

— Tem a ver com o momento que você morreu. — disse Néftis.

Ao ouvir aquilo, o garoto imediatamente levou a mão para o pescoço. O corte mortal havia se tornado real mais uma vez em sua mente. Ele se arrepiou todo, podendo praticamente sentir cada corte secundário e o fogo que se seguiu depois. Mas o pescoço jorrando sangue e impedindo que ele respirasse foi a memória mais intensa e desconfortável que veio até si.

Kheti respirou fundo um pouco, parando novamente de andar. Quase podia sentir-se novamente engasgando com o próprio sangue. Dessa vez, Néftis esperou que ele se recuperasse. Afinal, não era novidade que as almas recém chegadas ficassem um tanto desconfortáveis, tensas e aflitas ao lembrar do momento de sua morte.

Carinhosamente, Néftis se aproximou do garoto e colocou as mãos nos seus ombros enquanto o olhava com um sorriso acolhedor e tranquilo.

— Vai ficar tudo bem. — disse Néftis — Ouvi falar que não teve uma morte fácil… mas vai ficar tudo bem…

— R-Realmente não a chamaria de fácil… — gaguejou Kheti.

— Vamos… — disse ela deixando uma das mãos sobre o ombro dele, de forma reconfortante, e continuando a andar com o garoto.

Néftis só soltou a mão do ombro dele quando parou para abrir a gigantesca porta do Salão do Julgamento. O garoto ficou boquiaberto quando viu todo o Salão do Julgamento se abrindo à sua frente com vários deuses na expectativa de ouvir o que ele tinha a dizer. Notou primeiramente Osíris em seu trono. Mas logo ficou intimidado com os diversos deuses com cabeças de animais como Hórus, Anúbis, Thoth e Hathor. Não era muito estudado a ponto de saber exatamente quais deuses estavam presentes no julgamento, mas sem dúvida estava se sentindo uma celebridade.

— Kheti, filho de Qar de Quemum… — disse Osíris — Bem vindo ao Salão do Julgamento…

— Senhor, o-obrigado senhor… — gaguejou o garoto.

— Você se lembra da sua morte? — perguntou Hórus.

— Infelizmente… — disse Kheti abraçando o próprio corpo e se tremendo todo — Não tem como apagar isso da minha cabeça Senhor vossa divindade grande Hórus, senhor?

— Terá bastante tempo para ficar em paz com suas lembranças se passar pelo julgamento da balança… — disse Osíris — Não se preocupe. Imaginamos que pode ser muito para lidar.

— Acha que eu vou passar? — perguntou o garoto, assustado.

— Talvez… depende de você. — respondeu Osíris.

— Eu fui uma boa pessoa… eu acho… Ou ao menos não fiquei abaixo da média — disse Kheti — Tá que eu estressar minha mãe quando eu saía pra jogar bola e voltava tarde… ou não queria ajudar meu pai no trabalho… e talvez eu tenha irritado demais a Karomama perguntando se ela queria ficar comigo… mas não passa disso não. Eu juro!

— Então provavelmente não terá muito com o que se preocupar. — disse Anúbis.

— Meus pais devem estar tão tristes… — disse Kheti, cabisbaixo — Foi tão injusto….

— Estava no lugar errado na hora errada? — perguntou Osíris.

— É, acho que pode-se dizer isso. — disse Kheti — Eu estava só indo no templo de Thoth para pesquisar uma coisa nos papiros e falar com um amigo meu… a gente gosta de estudar medicina. Se minha família tivesse mais condições e fosse de médicos, eu queria um dia ser médico… mas agora já era né? Não que eu fosse conseguir mesmo estando vivo.

— Chegou a ver o homem que te matou? — perguntou Hórus.

— Eu vi… mas não era um homem não. Era uma mulher… — respondeu Kheti — E ela não parecia estar indo pro templo para fazer nada de bom não. Acho que ia colocar fogo nele ou roubar…

— Como ela era? — perguntou Hórus.

— Não consegui ver o rosto dela direito… — defendeu-se Kheti imediatamente — Ela enrolou a cara e a cabeça nuns panos sabe? Tipo o pessoal costuma fazer quando vai pro meio do deserto. Mas ela era bonita… só que bem magra.

— Conseguiu ver algo mais que possa a diferenciar do resto das pessoas da cidade? — perguntou Hórus.

— Ela devia ser núbia… ou descendente… — sugeriu o menino, dando de ombros — Ao menos a pele dela era bem negra, quase como a noite. Como estamos bem na divisa entre o alto e o baixo Egito, não é como se tivesse muitos núbios por lá…

— Obrigado, isso já ajuda bastante. — respondeu Hórus, realmente feliz por essa informação — Consegue pensar em algum detalhe mais que possa nos ajudar a identificar essa mulher? Ela chegou a falar algo?

Kheti parou um pouco para pensar e relembrar o momento e qualquer informação útil que a mulher misteriosa pudesse ter deixado escapar. Mas depois de alguns minutos, ele simplesmente negou com a cabeça.

— Não... desculpa... — respondeu ele — Foi só isso mesmo. Ela só me xingou e me matou em seguida.

— Tudo bem. — respondeu Osíris — Se é assim, podemos começar seu julgamento.

— A-ah.. antes… — disse Kheti, juntando os indicadores de cada mão repetidas vezes, se perguntando se deveria mesmo falar o que pensava — Será que eu posso pedir para os senhores, vossas divindades, passarem um recado para a minha família? Eu morri tão do nada…

— Depende… o que seria? — perguntou Anúbis.

— Falar pra eles que eu amo eles… — disse Kheti — E que eu sinto muito por ter escapulido de ajudar meu pai pra ir estudar no templo.

— Acho que podemos passar esse recado na primeira oportunidade que ele não traga problemas. — disse Osíris, olhando para Anúbis e Hórus.

Hórus não tinha tanta certeza, e parecia estar pensando no assunto, mas Anúbis afirmou com a cabeça. Hórus e Anúbis se entreolharam e, em silêncio, tiveram uma troca de olhares que resumia uma conversa sobre como a família tinha que saber sobre a morte de Kheti, apesar da probabilidade de vazar que sabiam afinal de contas de quem era o corpo morto perto do templo de Thoth.

Revirando o olhar como se dissesse “faça o que quiser”, Hórus decidiu voltar-se para outros problemas e funções, como por exemplo, a continuação do julgamento de Kheti.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Vamos falar um pouco de cor de pele no Antigo Egito? então, não se tem muitos registros escritos sobre como se era exatamente então tem muitas teorias ainda e achismos. como o Egito tá literalmente lá na entrada pra África, e pra Europa e pra Ásia, considerando as pinturas, esculturas, textos e blablabla, algumas coisas dá pra se saber ou teorizar. 1 - existia sim miscigenação. 2 - considerando a miscigenação, ela provavelmente significava que quanto mais ao sul se vai, mais negra a população fica por causa da mistura com os núbios. e quanto mais ao norte, mais branca ou com características ali do começo do oriente médio da região do Levante (Síria, Libano, Palestina, Jordânia) por causa da mistura com a Europa e o Oriente Médio. 3 - a média de aparência era claramente visualmente e fenotipicamente diferente dos núbios considerando o registro em pintura que o Egito fazia dos povos ao seu redor. o que diminui a probabilidade de a maioria da população ser negra retinto. 4 - ainda assim, os gregos registraram os egípcios como tendo pele mais escura q eles, o que também diminui a probabilidade de a maioria da população ser branca (e branco nível grego, que não é tão branco como os nórdicos, por exemplo). 5 - então a maioria da população devia estar aí na zona do 'pardo' (por mais polêmico que o termo possa ser considerado, acho que é o melhor jeito de explicar direitinho). tanto que se vcs prestarem atenção, de personagem egípcio na fic mesmo, tem pouquissimos que não foram descritos assim. se vcs imaginaram diferente aí é com vcs kkk algumas exceções são, por exemplo, o Anúbis, o Thoth e o Chenzira lá no começo. a família do Ramsés II é outra provável exceção dependendo da geração (afinal, vai misturando) pq tem teorias que eles vieram da região do Cáucaso muito antes do Ramsés II nascer e é confirmado que ele era ruivo pq a gente tem a múmia dele e, como faraó mais famoso de todos, muitos testes foram feitos. então a gente sabe bastante do cara. incluindo quando morreu e de quê (que vcs obviamente verão mais pra frente). **** REFERÊNCIAS **** Poema do Pentauro - https://www.worldhistory.org/article/147/the-battle-of-kadesh--the-poem-of-pentaur/ Poema do Pentauro - https://www.jstor.org/stable/528771?seq=2 Jogos no Antigo Egito - https://www.ancient-egypt-online.com/ancient-egypt-games.html Instrumentos musicais egipcios - https://exhibitions.kelsey.lsa.umich.edu/galleries/Exhibits/MIRE/Introduction/AncientEgypt/AncientEgypt.html uma musiquinha com tambor, harpa e dança do ventre se quiserem imaginar melhor a parte da música e da dança. tem uma parte que fica só o tambor - https://www.youtube.com/watch?v=UVA8WvgDKFY Dança no Antigo Egito - https://en.wikipedia.org/wiki/Dance_in_ancient_Egypt