A Morte Das Areias do Saara
155 Casos de Família
Notas iniciais

Chegando ao Egito em paz até Pi-Ramsés-Grande-das-Vitórias, e descansando em seu palácio de vida e domínio como Rá que está em seu horizonte, os deuses desta terra vindo até ele adorando e dizendo: ` Bem-vindo, nosso amado filho, o Rei do Alto e Baixo Egito, Usima`re`-setpenre`, o Filho de Rá Ramsés e eles deram a ele milhões de festivais Sed para sempre no trono de Rá, todas as terras e todos os países estrangeiros caíram prostrados sob suas sandálias por toda a eternidade.
~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”
Mais um dia raiava no Egito e, para a mãe de Kheti, era mais um dia triste e sem notícias de seu filho desaparecido. Na laje de sua casa simples, mas espaçosa, com roupas já secas penduradas balançando com o vento e esperando para serem recolhidas pela mulher, a mãe de Kheti abraçava uma figura de barro do deus Bes.
Com olheiras pesadas e um olhar de dar dó, a mulher pousou a estátua no chão com delicadeza e se ajoelhou diante da figura. Ela respirou fundo e por um segundo fechou os olhos enquanto uma lágrima escorreu pela bochecha dela. Se perguntando se ainda teria lágrimas pelo filho desaparecido no dia seguinte, depois de tantos dias sem notícia, ela se prostrou diante da figura de Bes.
— Por favor, protetor dos lares… — dizia a mulher com a voz chorosa — Proteja o meu filho e faça com que ele volte em segurança para casa. Ele é um bom garoto.
Obviamente, ela podia até achar que suas preces não estavam sendo ouvidas pelo deus, mas na verdade ele estava escondido, invisível e silencioso por magia, logo atrás dela. Mas, o que a mulher não iria nem conseguir imaginar, era que dessa vez o deus não estava sozinho.
Bes suspirou e ergueu o olhar ao olhar para o deus ao seu lado, Anúbis. Os dois estavam com uma expressão de tristeza e pena pela pobre mulher, pois sabiam que a notícia que estavam prestes a dar para ela era a pior possível que uma mãe pode receber.
— Ela tem rezado todos os dias desde que o filho sumiu. — explicou Bes.
— Você recebe muitas preces assim? — perguntou Anúbis — De crianças desaparecidas.
— Às vezes. — admitiu Bes — E de outras coisas ruins também. Não é fácil ser um protetor. Mas você também deve receber preces difíceis de escutar assim, não?
— Não desse jeito… com tanta esperança e dor ao mesmo tempo. — respondeu Anúbis — Quando estão pedindo para proteger a alma, a esperança de a pessoa voltar viva não faz mais sentido e só resta a esperança de a alma seguir para o Aaru. Mas essa esperança dela, sendo que não vão vir notícias boas… ela é muito triste.
— Pronto então para acabar com o sofrimento sem fim dela, garoto? — perguntou Bes soltando um pesado suspiro ao olhar para a mulher que soluçava.
— Não muito… — admitiu Anúbis — Mas vamos...
Bes foi o primeiro a se mover, indo até a mulher e lentamente colocando a mão no ombro dela enquanto a magia que os escondia desaparecia. A mulher se sobressaltou em meio ao susto, e se virou para ele. Com os olhos vermelhos e inchados focados em Bes, a mulher demorou para perceber Anúbis e ajoelhando do outro lado dela. Ao notar que havia mais alguém ali, ela se sobressaltou novamente e virou rapidamente o rosto para Anúbis.
Ela ficou uns segundos em silêncio. Sua boca abrindo e se fechando sem som enquanto a conclusão óbvia de logo Anúbis estar ali se formava em sua cabeça. A demora foi devido ao simples fato que ela não queria aceitar, não queria acreditar que só havia um motivo para, depois de suas preces pela segurança do filho, Bes ter ido visitá-la justamente com Anúbis. Também não havia como não reconhecer ambos. Pelas vestimentas, na pior das hipóteses eram pessoas extremamente ricas, mas isso aliado ao fato de ser um anão e um homem com cabeça de chacal, eliminava qualquer dúvida.
— N-Não.. — gaguejou ela enquanto a verdade ia sendo lentamente espalhada por todo o seu corpo — M-Meu K-Kheti.. digam que é mentira.
— Lamento Amenirdis… — disse Bes lentamente.
— N-NÃO! — gaguejava Amenirdis, cada vez mais aumentando o volume de sua voz — NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOO!
O grito de dor da mulher explodiu pela vizinhança e ela logo se enrolou, como uma bola, como se isso fosse protegê-la da realidade que havia chegado tão bruscamente até si. Imediatamente eles ouviram passos apressados subindo até a laje em reação ao grito da mulher.
Quem surgiu na laje foi uma garota de cerca de 10 anos, a irmã mais nova de Kheti. Ao ver a mãe prostrada e chorando ao lado de dois deuses, a garota travou, sem saber o que fazer já que estava devidamente intimada. Vendo a garota mordendo o lábio e sem entender o que acontecia, Bes esticou a mão para ela, a chamando para se aproximar, para que então pudesse abraçar a mãe.
— Lamento dizer que trouxemos péssimas notícias… — disse Bes, enquanto a mulher ainda chorava.
— É..É do Kheti? — perguntou a garota enquanto já sentia as lágrimas encherem seus olhos.
— M-Meu bebê… meu pequeno garoto! — resmungava a mãe em meio às lágrimas e soluços, ainda toda enrolada no chão.
A garota imediatamente correu até a mãe e as duas se abraçaram enquanto choravam sem parar. Por um segundo, a mulher desejou ter o marido ali, mas ele havia saído para tentar implorar para os guardas e vizinhos mais uma vez sobre alguma notícia do paradeiro de Kheti.
— Ele deixou uma mensagem… — disse Anúbis lentamente, dando para a família uns segundos para digerir suas palavras antes de continuar — Ele pediu para dizer que os ama, e que sente muito por ter escapado de ajudar o pai para ir estudar no templo de Thoth…
Isso fez a irmã de Kheti chorar ainda mais, mas a mãe prestou muita atenção nessas palavras e então olhou para Anúbis com curiosidade e intensidade.
— Quando ele as disse? — perguntou a mãe, erguendo a cabeça e puxando o ar lentamente.
— Quando chegou no Salão do Julgamento… — respondeu Anúbis e a mãe logo ficou boquiaberta.
— Alguém fez a mumificação do meu garoto? — perguntou ela.
— Eu fiz. — respondeu ele, e imediatamente o choro descontrolado voltou aos olhos da mulher.
— OBRIGADA! OBRIGADA! — chorava e gritava ela, se prostrando novamente no chão, dessa vez também em sinal de respeito.
Enquanto a família extravasava todas as lágrimas que o luto podia proporcionar, Hórus e Thoth gastavam suas horas em busca de uma mulher núbia na cidade de Quemum. As horas de busca viraram dias, que viraram o tempo necessário para que Ramsés II finalmente voltasse para sua capital.
Os filhos que o acompanharam na viagem se arrastavam, cansados, atrás do pai enquanto entravam nos terrenos do palácio em direção aos próprios aposentos. O faraó deixou que os filhos corressem… ou se arrastassem como lesmas, para onde quisessem, já que ele também estava cansado e também com muitas coisas na cabeça. Não havia descoberto nada durante a viagem sobre quem estaria forjando sua assinatura.
O faraó estava cansado e doido por um banho, quando um dos mensageiros correu desesperadamente na direção dele. Ele parou de andar, ao ver o homem claramente desesperado, e deixou as crianças cansadas seguirem seu caminho.
— O que aconteceu? — perguntou Ramsés II, já preocupado.
— Vossa Majestade… — disse o homem ofegante — Primeiramente, saiba que estão todos bem.
— O que… aconteceu? — perguntou Ramsés II, mais firme e lentamente, já começando a ficar mais tenso e curioso.
— Enquanto Vossa Majestade esteve fora, tentaram tirar a vida do príncipe Amun-her-khepeshef e de sua esposa, a princesa Nefertari filha.
— COMO? — exclamou Ramsés II — Quem foi o maldito?
— Dois deles escaparam, mas outro o príncipe Amun-her-khepeshef acabou matando. — explicou o homem — Alguns homens foram recuperar o corpo para tentar identificá-lo, o corpo não estava mais onde o príncipe deixou.
— Amun-her-khepeshef e Nefertari filha se machucaram? — perguntou o faraó enquanto mudava seu caminho, que antes era para seu quarto e agora se tornava para os aposentos de Amun-her-khepeshef.
— Um pouco, mas nada grave. Estão bem. — garantiu o mensageiro, apressadamente seguindo o faraó — Só um pouco assustados eu diria.
Ramsés II já estava claramente irritado quando entrou nos luxuosos aposentos de Amun-her-khepeshef, sem pensar que isso poderia estar ligado à clonagem de seu anel. Afinal, clonar seu anel era uma coisa, tentativa de assassinato ao herdeiro do trono era uma situação extremamente mais delicada.
— Pai… — disse Amun-her-khepeshef ao ver Ramsés II entrando sem cerimônias na sua mansão própria dentro do palácio enquanto o mensageiro humildemente ficava do lado de fora.
Como primogênito, Amun-her-khepeshef já era um homem formado. Já com mais de 20 anos, era difícil lembrar, no meio de tantos filhos bem mais novos de Ramsés II, que ele era um filho de Ramsés Ii, não um irmão esquecido. Afinal Ramsés II tinha meros 16 anos quando Nefertari engravidou de Amun-her-khepeshef.
— Fiquei sabendo o que aconteceu… estão bem? — perguntou Ramsés II mesmo que as risadas dos netos correndo em algum cômodo próximo já fosse sinal de que tudo estava bem.
— Alguns cortes…. — disse Amun-her-khepeshef mostrando o braço enfaixado — Mas o pior foi o susto mesmo.
— Reconheceu algum dos malditos? — perguntou o faraó.
— Infelizmente não… — admitiu Amun-her-khepeshef com um suspiro pesado — Não quero levantar suspeitas e falsas acusações mas… acha que algum dos meus irmãos estão envolvidos? Afinal… diminuir a fila de herdeiros seria útil para eles.
— Não quero levantar suspeitas e falsas acusações também, mas pensei a mesma coisa. — reclamou Ramsés II entre-dentes — Não imaginaria que nenhum deles fosse capaz de algo tão atroz e nojento assim… Vou mandar uma investigação ser feita imediatamente. Ao menos deixe-me chegar de viagem… estou exausto… evite sair daqui enquanto isso. Irei mandar reforçar sua segurança também.
— Obrigado. — agradeceu o príncipe — Minha mãe já pediu algumas investigações… mas não descobrimos nada… Ramsés filho, Setne, Mentuherkhepeshef e Nebenkharu são os quatro mais velhos… se quiser colocar Nebenkharu na lista de quinto também. Mais do que isso, meus irmãos são muito novos para pensar em algo do tipo…
— Mentuherkhepeshef teria uma chance muito remota de competir pelo trono já que sua mãe é uma esposa-menor… — opinou Ramsés II — Mas claro, isso também pode ser um motivo… Não gosto de pensar assim dos meus filhos… analisando quem pode ter mais chance de planejar um assassinato. Mas, de toda forma, não descartaria algumas das mulheres também… afinal, a maioria é casada com algum dos irmãos e pode querer ser rainha… ou repetir os feitos de Hatshepsut.
— Uma usurpadora… — disse Amun-her-khepeshef.
— Hatshepsut, apesar das situações, foi uma faraó muito boa… — disse Ramsés II — Mas querer seguir seus passos não justifica assassinato. Nem mesmo Hatshepsut os cometeu para chegar ao poder.
— Certo certo… — disse Amun-her-khepeshef não querendo se prolongar no assunto de Hatshepsut — Mas pode ir descansar… Está tudo bem por agora, Nefertari filha está bem também, está brincando com as crianças e já planejavamos ficar mais quieto aqui.
— Vou mandar soldados ficarem em cada entrada daqui e só deixarem eu e vocês entrarem. — avisou Ramsés II enquanto voltava para a saída.
— Obrigado. — disse o príncipe.
Quando saiu dos cômodos do príncipe herdeiro, ao ver o mensageiro parado esperando por ordens ou ser liberado, assim como um guarda que andava tranquilamente ali perto, Ramsés II aproveitou a chance e ordenou que uma investigação fosse feita e a segurança de Amun-her-khepeshef e sua família fosse triplicada.
Mais cansado do que quando chegou, sentindo o peso da responsabilidade e dos problemas nas costas, Ramsés II voltou para o caminho que levava até seu quarto. No meio do caminho, ele acabou dando de cara com Nefertari, lentamente andando pelo jardim acompanhada de uma das filhas do casal e seguida por um gato rajado. Considerando o estado que a Grande Esposa Real estava quando ele deixou Pi-Ramsés, graças ao bebê que perdera, ele ficou muito feliz em vê-la fora da cama. Então, mesmo cansado e doido por um banho, ele foi direto até ela.
Os dois trocaram um sorriso cansado quando se viram. Um sorriso repleto de amor mas cheio do cansaço das lutas que a vida jogava contra eles. Ramsés II acelerou o passo até a esposa, e imediatamente a abraçou gentilmente, com medo de apertar demais o abraço e ela sumir de seus braços.
— Como foi de viagem? — perguntou Nefertari.
— O de sempre… — respondeu ele — Estou mais feliz de vê-la fora da cama.
— Alguma hora eu tinha que sair né? — respondeu ela.
— Sabia que conseguiria. — respondeu o faraó acariciando o rosto dela delicadamente enquanto admirava a sua beleza por uns segundos antes de dar-lhe um beijo doce nos lábios.
— Mas ainda não é fácil… é… cansativo… — admitiu a rainha — Em vários sentidos.
— Estávamos até voltando pro quarto já. — completou a princesa.
— Então vamos para o quarto descansar. — sugeriu Ramsés II imediatamente pegando Nefertari nos braços e fazendo-a cair na gargalhada enquanto se agarrava ao seu pescoço.
— Já mais de 40 anos e você não parece um dia mais fraco do que quando nos casamos. — disse Nefertari.
— Vou levar isso como um insulto. — brincou Ramsés II, enquanto Nefertari ria — Eu era muito novo quando nos casamos. Devo ter melhorado um pouco.
— Certo, certo… — concordou ela, ainda rindo.
Carregando Nefertari nos braços e deixando a filha e o gato para trás, os dois foram em direção ao quarto. Mas, no meio do caminho, Ramsés II fez um pequeno desvio até que encontrasse qualquer um de patente alta o suficiente para para realizar um favor para ele… se é que qualquer coisa pedida pelo faraó pudesse ser chamada de favor ao invés de ordem.
— Minmose… — disse o faraó chamando o homem que encontrou no caminho.
— Sim, Vossa Majestade… — respondeu o homem abaixando a cabeça brevemente.
— Mande chamar o joalheiro real para vir hoje ou amanhã. — disse Ramsés II — Quero pedir um colar e brincos novos para minha rainha.
— Sim, Vossa Majestade. — respondeu novamente o homem, continuando de cabeça abaixada até o faraó se afastar com sua amada nos braços.
— Já não acha que eu tenho muitas joias? — perguntou Nefertari enquanto se afastaram e voltavam ao caminho do quarto.
— Acho mais que está precisando de um pequeno agrado hoje. — respondeu ele.
Ao chegarem no quarto, ele deitou ela na cama e se aninhou logo ao lado dela, abraçando-a bem pertinho enquanto ela esticava a mão para poder, repetidas vezes, enrolar e desenrolar o dedo indicador em uma mecha de cabelo ruivo enquanto ele fazia o mesmo com o cabelo incrivelmente preto dela.
— Imagino que já saiba de Amun-her-khepeshef… — disse Nefertari delicadamente, com receio de tocar no assunto.
— Sim… — respondeu ele suspirando pesadamente, de pura exaustão.
— Vai ficar tudo bem… — garantiu ela.
— Desculpa ter deixado todos esse problema para você enquanto estive fora… — disse Ramsés II, afinal, na falta de um faraó, a Grande Esposa Real é a responsável pelo império.
— Não.. foi bom para me fazer voltar a realidade. — disse a rainha — E, claro, todo mundo está bem… então está tudo bem. Só basta entender mais do que aconteceu. Tentei mas…
— Tudo bem… — disse Ramsés II pegando na mão dela e lhe dando um doce beijo — Parece que os problemas me perseguem ultimamente.
— Sabe que não vai conseguir ficar aqui comigo muito tempo, né? — perguntou Nefertari.
— Sei. Mas vou aproveitar o quanto posso. — garantiu Ramsés II, preocupado e cansado.
— E ainda tem em Iset… — disse Nefertari, se referindo a outra das esposas de Ramsés II — Ela notou que Setne não veio com você. E não gostou muito.
— Ele chegou aqui já né? — perguntou ele, subitamente meio preocupado — Inteiro, preferencialmente.
— Sim, alguns dias atrás. — respondeu Nefertari — Justamente por isso que ela vai vir dar umas broncas em você… por ter deixado ele ir sozinho, sem guardas nem nada.
— O moleque é teimoso. — justificou Ramsés II — Mas também queria se provar. O importante é que deu tudo certo, já que ele chegou aqui. E também… ele já é adulto… Nos separamos em Tebas, ele começou a voltar pra cá e eu fiquei mais alguns dias em Tebas antes de seguir para o sul, para a fronteira.
— E ela está bem? A fronteira… — perguntou Nefertari.
— Sim… me certifiquei disso. Assim como o templo que ganhará de presente. — disse Ramsés II, sorrindo.
Os dois ficaram ali, entrelaçados e conversando tranquilamente, até Ramsés II acabar caindo no sono nos braços da amada que lhe fazia cafuné querendo que todos os estresses saíssem do marido. Ele só acordou quando repentinamente vieram informá-lo que o joalheiro havia chegado. Ele deu um beijo rápido em Nefertari, pegou uma caixa pesada que estava ali no canto do quarto e, acompanhado do guarda que foi comunicar a chegada do homem, o faraó cruzou o palácio indo da parte dos aposentos reais até a parte onde a burocracia era resolvida.
— E tem mais, meu faraó… — disse o homem entregando um papiro para Ramsés II — Recebemos notícias que um incêndio aconteceu num templo de Thoth em Quemum.
— Quemum…. nós passamos perto de lá… — disse Ramsés II preocupado enquanto colocava a caixa debaixo do braço e, da forma que podia, abria o papiro.
— Provavelmente Vossa Majestade e a mensagem acabaram se desencontrando. — sugeriu o guarda — Ela acabou de chegar.
Ramsés II percorreu os olhos pela mensagem rapidamente enquanto andava e não gostou do que leu. A mensagem, escrita por um sacerdote de Thoth, não só informava que havia mortos no incidente, como também a suspeita de que havia sido um incêndio proposital. Mas o detalhe que mais lhe chamou atenção, foi a pequena frase “Rezamos aos deuses por ajuda nesse tempo difícil”. A olhos destreinados, poderia parecer uma frase simples de um simples fiel orando por suporte e ajuda nos momentos difíceis, mas Ramsés II já tinha anos demais como faraó e lidando com os mais diversos sumo-sacerdotes para entender que aquilo significava que os deuses estavam REALMENTE averiguando o caso… o que era raro. Não era tudo que eles consideravam que merecia atenção divina.
Não que o faraó precisasse daquele aviso extra e enigmático do sacerdote, aquele acontecimento parecia se ligar com o papiro teoricamente inocente, com exceção do carimbo falso, que Thoth e Hórus haviam lhe mostrado. Pelo o que lembrava, ele parecia endereçado a um templo de Thoth.
O faraó fechou o papiro mais uma vez decidindo que o leria com mais calma enquanto já sentia sua cabeça latejar da combinação de cansaço com o tanto de problemas que chegavam um atrás do outro. Por agora, ele tinha que resolver seus assuntos com o joalheiro, que iam muito além de um simples presente para a esposa. Assim, ele entrou no cômodo onde o joalheiro esperava e fechou a porta atrás de si enquanto o homem se curvava diante dele levemente com a mão sobre o coração.
— Vossa Majestade… — disse o homem respeitosamente.
— Djehuty… — disse Ramsés II pensando em como começaria o assunto que queria ao colocar a caixa sobre a mesa que havia no centro do cômodo — Vejo que veio bem rápido… como sempre.
— Sim, Vossa Majestade. — respondeu o homem com um sorriso tímido — É sempre uma honra servi-lo… até trouxe alguns exemplos de colares que tenho desenhado no meu tempo livre… fui informado que quer dar um presente para Grande Esposa Real.
— Sim… mas o assunto principal é mais importante e sigiloso. — respondeu Ramsés II trocando sua simpatia por seriedade, e imediatamente Djehuty percebeu a troca — Já fazem vários anos desde que fez os aneis que uso para carimbar os documentos reais, certo?
— Sim, senhor… — respondeu o homem — Foi uma grande honra para mim, não iria esquecer.
— Então… me diga… existe alguma chance de alguma duplicata desses aneis existirem e não estar em minha posse? — perguntou Ramsés II com uma seriedade tão grande que Djehuty podia sentir o peso do olhar do faraó.
— N-Não… claro que não… — respondeu o joalheiro, logo engolindo em seco — Eu não fiz duplicatas dos aneis. Apenas um com cada nome de Vossa Majestade. Só Vossa Majestade tem eles… ao menos feito de minhas mãos.
— Seria muito difícil alguém copiar os aneis sem ter o original em mãos? — perguntou o faraó.
— Sem ter o anel de base, é algo mais difícil do que pode parecer. — respondeu o joalheiro, logo usando toda sua experiência — As marcas deixadas no papiro podem ser bastante sutis e podem variar dependendo da pressão aplicada, da textura do papiro e do tanto de tinta… Mesmo carimbos feitos pela mesma pessoa podem ter pequenas variações, o que pode dificultar a reprodução exata sem acesso direto ao carimbo original.
— Então posso entender que tem que ser alguém extremamente habilidoso. — concluiu Ramsés II.
— Com certeza! — enfatizou Djehuty — Não é qualquer um que conseguiria fazer isso. Não só precisa de habilidade mas… alguém que tenha coragem de copiar o vosso anel certamente não pode ser alguém que teme os deuses… ou tem um preço que faz o temor fraquejar.
— Saberia dizer onde pode ter joalheiros tão habilidosos assim ou estou exagerando em minha pergunta? — perguntou o faraó.
— É uma pergunta sábia, meu faraó… — respondeu o joalheiro temendo dizer tão diretamente que era de fato uma pergunta exagerada — Infelizmente não posso dizer conhecer todos os joalheiros do Egito. Posso afirmar que nas grandes cidades, com mais nobres, existem mais do que nas vilas com praticamente apenas camponeses agricultores… mas mais do que isso está além de meu conhecimento.
— Entendo… — disse o faraó lentamente enquanto pensava sobre o problema por alguns minutos — Espero que deixe essa conversa entre nós, sim?
— Sim, senhor. — respondeu o joalheiro — Irá comigo para o túmulo.
— E sua filha, como vai ela e o treinamento dela? — perguntou o faraó.
— E-Ela n-nunca faria algo assim! N-Nunca! — gaguejou o joalheiro subitamente cheio de coragem — Nem mexe nas minhas ferramentas sem minha supervisão!
— Calma Djehuty… só realmente queria saber como estava indo o treinamento dela… — explicou o faraó com calma — Deve estar ansioso para se aposentar, não?
— A-Ah.. sim… perdão… — respondeu o homem, ficando extremamente sem graça — Sim. Estou. Mas também muito orgulhoso de vê-la progredindo. Irá me substituir muito bem e espero que nos dê a honra de continuar confiando em nosso trabalho.
— Não duvido de sua habilidade como professor. — disse Ramsés II — Adoraria ver algum trabalho dela… e também, vou querer novos anéis assim como ainda vou querer ver umas jóias para Nefertari. Disse que tinha um colar novo que estava planejando?
Ramsés II abriu lentamente a caixa e o brilho de seu interior logo invadiu todo o cômodo. Pepitas de ouro e prata, cornalinas, obsidianas, lápis-lazúlis, turquesas, granadas, malaquitas, jaspers, onixs, ametistas, quartzos e esmeraldas… um arco-íris da mais pura riqueza.
— Que obra de arte você consegue fazer com essas? — perguntou o faraó — Acha que serão suficientes? Se não posso pedir para trazerem mais…
— N-Não precisa… acho que será suficiente… — disse o homem maravilhado, sempre nada acostumado com a riqueza do faraó — Deixe-me mostrar o que tinha em mente para ver se aprova… estava rabiscando num papiro…
Ramsés II ficou quase duas horas conversando com o joalheiro até decidir que joias encomendaria para a rainha e como seriam os novos aneis. Quando se deu por satisfeito, liberou o homem e voltou com sua caixa de joias um pouco mais leve enquanto o homem saía acompanhado de guardas, para certificar de que as joias realmente chegariam ao destino. O faraó, ao invés de ir até sua amada, foi para um lugar mais privativo, um pequeno templo mais particular com uma estátua de Hórus de um metro colocada no centro.
Com calma, o faraó acendeu os incensos, que logo encheram o cheiro do cômodo com um doce aroma, ele pensou dentro de seu coração algumas poucas palavras mais padrões, como agradecendo por ter chegado à salvo da viagem, e completou com uma pequena isca.
— … imagino que estejam ocupados investigando quem está envolvido no incêndio em Quemum… — pensou ele.
O incêndio se apagou, o ar ficou frio e os olhos da estátua de Hórus começaram a brilhar.
— Onde ouviu isso? — perguntou Hórus.
— Recebi relatos dos sacerdotes do templo de Thoth em Quemum… e algumas coisas escritas no papiro que me mostraram pareceram familiar. — respondeu Ramsés II — Já encontraram quem foi o joalheiro que fez a cópia?
— Tsc… — resmungou Hórus.
Os olhos da estátua se apagaram e logo o verdadeiro Hórus apareceu atrás dele. De braços cruzados, Hórus não parecia estar no melhor dos humores.
— Não acha que sabe demais? — perguntou Hórus.
— São conclusões óbvias… — disse Ramsés II, se virando para o deus — Com todo o respeito, não acho que sei demais. Tentei perguntar para meu joalheiro se sabia de algo de réplicas de meus aneis, quem poderia ter feito ou algo do tipo, mas… nada…
Hórus olhou para Ramsés II por um tempo, e pensou se iria ou não revelar algo para ele. Estavam sem muitas pistas para seguir e talvez a ajuda dele fosse de alguma valia.
— Achamos que o joalheiro que fez as cópias foi morto uns anos atrás… — revelou Hórus — O que faz com que as cópias sejam mais velhas do que pensamos. E o assassinato dele também teria sido feito de um jeito que não poderíamos o interrogar ao chegar no submundo.
— Então tem outra pessoa… — concluiu Ramsés II.
— Sim… Por motivos que não estou tão interessado em te revelar, pelo menos mais duas. — disse Hórus — Um mandante e alguém que colocou fogo no templo. É provável que a pessoa que colocou fogo no templo seja uma mulher núbia, mas não encontramos ninguém em Quemum ainda.. e não é uma cidade tão grande assim.
— Tentaram Zawty? — perguntou Ramsés II repentinamente.
— Ainda não… — disse Hórus, fechando o rosto e pensando na sugestão.
— Ouvi falar que alguns núbios se instalaram por lá, na periferia da cidade. — disse Ramsés II enquanto um gato cor de areia entrava no cômodo e miava alto ao deitar ao lado do faraó — Não seria novidade eles servirem como mercenários para quem pagar melhor.
— Hm… — resmungou Hórus, pensativo.
— Estão preocupados com tudo isso apenas pelo incêndio ao templo de Thoth? — perguntou Ramsés II — Não que não seja preocupante e ruim, mas…
— Quantos gatos você tem mesmo? — perguntou Hórus.
— Onze, mas isso não é o foco agora. Eu posso ajudar! — insistiu Ramsés II — Não vou deixar alguém usando meu nome impune dessa forma.
— Nós achamos o anel. Isso não se repetirá. — disse Hórus.
— Se tem uma cópia, pode muito bem ter duas… — lembrou Ramsés II — Já mandei fazer outro… se o carimbo copiado se repetir depois que o novo ficar pronto, pode ser mais fácil traçar de onde o papiro veio.
— Eu sei. Imagino que tenha ouvido da tentativa de assassinato de seus filhos já… — disse Hórus.
— Não qualquer filho, meu herdeiro. — lembrou Ramsés II — Sabe alguma coisa disso? Uma das pessoas que o atacou foi morta. Isso está ligado ao incêndio no templo e ao anel duplicado?
— Provavelmente. A pessoa que morreu não chegou ao submundo… — disse Hórus — Pode muito bem estar com a alma vagando perdida a essa altura já que o corpo deve ter sido esquecido, escondido ou qualquer coisa do tipo. Tentamos procurar, mas tem sido complicado encontrar qualquer pista extra. O corpo também pode ter sido queimado a ponto de nada restar, como parece ser comum nessa bagunça toda, então já era.
— Acha que algum dos meus filhos está envolvido? — perguntou Ramsés II.
— Isso ou querem fazer que pareça que algum de seus filhos esteja envolvido. Estamos investigando os suspeitos. Mas se quiser ajudar com alguma investigação, avise se ver um livro mágico por aí e não conte isso para absolutamente ninguém além de mim. — disse Hórus, antes de sumir dali e mentalmente tirar Ramsés II da lista de suspeitos.
Ainda assim, se passaram vários dias antes de eles terem qualquer pista extra. Tantos dias se passaram que logo o Ano Novo chegou e o Egito explodiu em festa e, com a virada do ano, também significava que Setne começava a arrumar sua mudança para seu trabalho em Mênfis.
Enquanto o Egito comemorava a virada do ano, Setne se preparava para deixar Pi-Ramsés e, quando o fez no dia seguinte, deixou o poderoso Livro de Thoth ainda escondido embaixo da areia. Iria esperar a poeira abaixar mas, enquanto isso, aproveitando que estava na proteção de Mênfis e seu tamanho, na calada da noite, ele foi até um mago que conhecia a um tempo e que sabia que havia traído a casa da vida, e fez um pedido simples, uma maldição para deixar o máximo de pessoas possível na Casa da Vida de Tebas doente, numa batalha perdida entre a vida e a morte.
Não podia, apesar de que seria mais seguro, resolver as pontas soltas que deixou por lá na sua busca pela tumba de Minkhaf com incêndios. Chamaria muita atenção. Um surto de tuberculose seria muito mais irrelevante.
E assim, com o passar dos dias, o desespero dos deuses foi se tornando desistência. Não havia nenhuma pista nova e ninguém encontrava a tal mulher núbia mesmo que os núbios de Zawty tivessem confirmado que lá havia uma mercenária que ninguém via há dias. Esses dias viraram semanas, e um surto de Tuberculose assolou Tebas, começando na Casa da Vida e logo se espalhando. Nada havia de anormal. Era a forma de morte mais comum do Egito.
Essas semanas viraram meses, meses que a cada dia Setne olhava para seus incensos com atenção durante o dia todo. Ele notava, pelo movimento da fumaça com a magia que havia feito, que havia meses que nenhum deus ia olhar o que ele aprontava na esperança de achar o Livro de Thoth. Foi só aí então, que numa visita à família em Pi-Ramsés, no meio do caminho da volta ele, com muito cuidado e cautela, desenterrou o Livro de Thoth.
Ainda no meio da solidão do deserto, ele usou um feitiço que havia ficado muito tempo estudando, para que o livro parecesse um papiro sem graça, inclusive em seu conteúdo, para outros que o vissem. Torcendo para que realmente tivesse funcionado, ele voltou para Mênfis e continuou com seu trabalho como vizir. Contudo, nos momentos livres e à noite ele lia o livro de Thoth, que deixava enterrado sob vários papiros burocráticos. Dia após dia, ele estudava as magias mais poderosas do livro e procurava pelo o que ele queria. Logo chegando à conclusão que teria que fazer sua própria magia, com ajuda do livro, se quisesse alcançar seus objetivos.
Setne não desistiria. Embaixo do nariz dos deuses, com o passar do tempo, ele aprendia magias que nenhum humano deveria saber. Sem coragem de soltar magia alguma, temendo atrair os deuses até si, por meses a fio ficou apenas na teoria, até colocar o primeiro plano em ação e, num piscar de olhos, Amun-her-khepeshef estava morto.
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