A Mesma História, Um Começo Diferente
1 Primeiro
Notas iniciais
Era uma calmíssima manhã de quarta feira, a mente da pequena garotinha acentuou, na realidade, era, até mesmo, uma bela manhã e foi isso que a fez ficar extremamente mal-humorada. Ela andou até o rio, enxugando as lágrimas como pode nas mangas de sua blusa vermelha. No momento, ela tinha raiva até mesmo do sol que brilhava sobre sua cabeça e, resmungando, andou pelo rio, afundando na água até suas canelas, abaixando-se para lavar seu rosto.
O reflexo na água era de uma pequena garota de oito anos – e dez meses, ela sempre lembrava a todos –, não mais, nem menos. Uma pequena garota de cabelos avermelhados e um rosto pálido pequeno, corado pelo choro recente, assim como os olhos inchados. Lágrimas ainda corriam por sua bochecha e sua real tristeza não poderia ser expressa, nem mesmo em ações impensadas. Os olhos vermelhos chocaram-se com os do reflexo e a garotinha deixou-se cair de joelhos na água gelada, escondendo seu rosto entre as mãos pequenas.
Era um choro angustiado, um desespero profundo e, de sua garganta, os soluços embrulhavam com sua respiração acelerada, a fazendo tossir, por vezes. E, naquela manhã calma de quarta feira, às sombras das árvores e o barulho calmo do rio, a pequena garota chorou todas suas mágoas acompanhada de sua solidão. Até acalmar, levemente, a dor estilhaçante que consumia suas entranhas.
Ergueu-se, meio trôpega, e saiu do riacho, jogando-se na terra batida que estava às margens do mesmo. Aquele pequeno pedaço de terra úmida que estava completamente iluminado pelo sol, diferente do riacho calmo qual se encontrara outrora. Ela fechou os olhos em uma calma falsa e encolheu-se, em posição fetal, adormecendo de seu cansaço emocional.
O homem do outro lado do riacho soltou um pequeno riso, não da desgraça da pequena ruiva, nem por qualquer outro motivo. Apenas comovido pela cena, e nada mais que isso, atravessou o raso riacho e aproximou-se da garotinha adormecida. Não a deixaria desprotegida, nem jogada ao sol, para que tivesse uma insolação. Então apenas, e delicadamente, a pegou no colo e apoiou a cabeça pequena de encontro ao seu ombro, deslocando-se vagarosamente e silenciosamente, enquanto a menina dormia em seus braços.
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Ela abriu os olhos calmos e olhou ao redor. Estava em uma minúscula barraca, algo como aquelas usadas para acampar. Olhando pela abertura do tecido, pode reparar no rapaz abaixado ao lado do fogo, aparentemente preparando algo em uma panela improvisada. A última coisa que podia se lembrar era do riacho, e ao lembrar-se da cristalina água, as memórias tristes lhe acometeram novamente. Tentando ignorar a dor no coração – e sem saber se eventualmente um dia iria superar essa adaga enfiada em seu peito – empurrou o pano, saindo do conforto da pequena barraca.
Instantaneamente, ela pode reparar que os olhos do homem se fixaram em sua imagem e ele logo abriu um sorriso. – Acordou bela adormecida?
Ela apenas acenou com a cabeça, aproximando-se lentamente. Desconfiada. – Onde estou?
-A alguns metros do riacho. – Comentou, olhando para os lados, apontou então uma direção. – Andando, você chega a Canaban em meia hora. – E então outro sorriso. – Desculpe trazê-la até aqui, pequena, mas acho que não seria muito gentil da minha parte deixar uma pequena criança morrer em baixo do sol quente.
Ela suspirou pesadamente. – Deveria ter deixado.
-O que lhe trás tanta melancolia, ruivinha? – O rapaz sorriu, erguendo-se. Só então a ruiva reparou o quanto ele era alto. Se ficasse na ponta dos pés, talvez alcançasse o meio da barriga dele. Ele depositou a comida que fazia em cima de outro improviso, só que desta vez um prato. – Está muito nova para ser tão triste.
-Elesis.
-Desculpe? – Resmungou, sem entender.
Ela negou com a cabeça. – Meu nome é Elesis.
Ele sorriu. – Gosto mais de ruivinha. Elesis te faz parecer muito mais madura do que você é na verdade. – Ela enrugou a testa, em desagrado, e olhou feio para o mais velho. Ele apenas sorriu e continuou. – Não fuja da pergunta que fiz. Quero uma resposta.
-Você nem ao menos me disse seu nome! – Rebateu a mais nova, ele apenas continuou a fazer o que fazia antes. – Eu não vou contar-lhe toda minha vida.
-E você é muito encrenqueira para uma garotinha. Quantos anos têm? Cinco? – Zombou.
Elesis no mesmo instante se frustrou e, pisando duro, andou até o maior e ameaçou soca-lo. Ele não fez muito caso da cena. – Oito anos e dez meses, para sua informação! – Respondeu desaforada. Ele riu.
-Certo, certo... Ruivinha desaforada. – O homem olhou para ela e abaixou-se para ficar na mesma altura. Instantaneamente ela beliscou sua bochecha, o fazendo soltar uma exclamação baixa de dor. – O que você tem nos ossos, aço? Ninguém tem dedos tão dolorosos. – E afagou a bochecha. Ela cruzou os braços, meio que se gabando.
-Isso foi pelos insultos de agora. – Ela respondeu, somente. O outro suspirou.
-Meu nome é Sieghart. – Ele sorriu, outra vez, ainda sem se levantar. Mantendo a posição em que estava antes, deu um pequeno peteleco na ponte do canal nasal da ruiva, a fazendo segurar o nariz, com dor. – Seus pais não lhe deram educação em respeitar os mais velhos?
No mesmo momento os olhos vermelhos caíram em direção ao chão e o moreno sentiu vontade de morder a própria língua. – Infelizmente meus pais estão mortos.
O baque foi forte. As palavras duras deixaram a pequena boca de uma maneira tão dura e amarga que ele teve suas dúvidas de como a pequena garotinha não engasgou. Sieghart segurou uma mecha do cabelo dela, brincando com os fios ruivos entre o indicador e o polegar, e com um sorriso calmo, olhou firme para os olhos baixos dela.
-Às vezes essas coisas acontecem. Mas não acha que seus pais iriam a querer viva? Eu não gostaria que minha filha ficasse amuada pelos cantos, chorando escondida. – Os olhos dela encontraram-se com os cinzas e afogaram-se neles. – Acho que é a hora de você ser forte, ruivinha.
Ela derramou uma lágrima e ele largou os fios dela para limpá-la. Quando o fez, não esperava o abraço que recebera, o fazendo cair sentado na grama verdejante da clareira em que se encontravam. A pequena menina segurava com toda a força seu pescoço, enquanto ele apenas depositou uma mão calma nas costas que subiam e desciam dela.
-Eu queria ser forte. – Murmurou, entre soluços. Sieghart se esforçou para entender. – Mas eu não consigo! Eu não quero voltar para casa e não achar ninguém! Eu não quero chegar em Canaban e as pessoas olharem com pena para mim!
E mais choro. Mais uma vez, o moreno comoveu-se. A ruiva continuou a chorar por mais algum tempo. Ele deixou que a garota chorasse, chegou a conclusão que seria melhor para ela se o fizesse, então manteve-se quieto, com a pequena em seu colo, embalando-a, escondendo-a do mundo. Pouco tempo depois do choro ter cessado, o moreno pode reparar que a criança novamente dormia e achou quase engraçado, mas manteve-a em seu colo, em um abraço quase paternal.
Quem era aquela ruiva? Do que ela tanto guardava tristezas? E suspirando-se, olhou para o céu levemente alaranjado observando que logo escureceria.
-Hm, acho que terei que jantar sozinho.
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Quando os primeiros raios de sol entraram na barraca, iluminando diretamente o rosto do moreno, ele apenas fez menção de cobrir os olhos com uma das mãos, tentando permanecer em seu doce mundo dos sonhos, foi quando virou-se no estreito saco de dormir que reparou.
Ergueu-se de supetão, olhando para os lados em busca da pequena Elesis, qual dividira a barraca noite anterior. Saiu com calma olhando para as pequenas brasas que ainda haviam restado da fogueira de outrora e acabou encontrando a menina tentando escalar uma árvore logo ao lado, em busca de uma maçã.
Não quis admitir, mas suspirou em alivio.
-O galo veio te cutucar essa manhã, ruivinha? – Ela parou o que fazia, tomando um susto e deixando as maçãs que recolhera caírem no chão. Fez um pequeno bico catou-as, com calma.
-Eu só achei que seria bom se você acordasse e tivesse algo para comer. – Ela corou no mesmo instante. O moreno somente achou graça. – É como se fosse um agradecimento.
-Nesse caso, muito obrigado. – Ele abaixou-se, pegando as maçãs que restaram e ambos se aproximaram na fogueira apagada para poderem comer. – O que vai fazer agora, ruivinha?
Ela não esperava aquela pergunta. A pequena garotinha apenas colocou as maçãs no gramado e olhou para ele. – Por que?
-Porque eu vou partir hoje ainda. – Sieghart olhou para a pequena, ela apenas silenciou-se. – Achei que você tivesse imaginado que só estava de passagem por Canaban. – Ela permaneceu quieta, nem um som saía da boca dela e ele coçou os fios negros, suspirando. – Desculpe, ruivinha.
-Eu posso ir com você?
A pergunta inesperada fez o gladiador engasgar. Ele olhou para a menina e ela mantinha os olhos decididos em sua direção, pensou no que falar, em como reagir. Nada pareceu realmente convincente. Nem mesmo para uma garotinha de oito anos. – Eu não posso levar uma garotinha comigo, é muito perigoso.
-Eu sei me defender. – Ela rebateu. – Só um pouco, mas posso treinar. Eu aprendo.
-E sua família, amigos?
-Eu não tenho mais nada aqui. – Ela murmurou quieta. – A única coisa que ainda me mantinha aqui era achar alguém que pudesse me ensinar alguma coisa. – Ela suspirou. – Eu quero derrotar Cazeaje!
O moreno quase riu tamanha a ingenuidade dela. Derrotar Cazeaje? Esse era o trabalho dele. – Principalmente em uma jornada difícil dessa, não acha que é perigoso demais eu escoltar uma garotinha se eu nem vou enfrentar Cazeaje? – Ele mentiu.
A ruiva franziu o cenho. – Então eu vou com você por um tempo, depois quando eu souber usar uma espada, posso continuar sozinha.
Ele pensou em todos os argumentos possíveis. Ela apenas continuava o olhando da mesma maneira decidida de antes. Sieghart não soube dizer quando Elesis mudara de solidão para decisão dessa maneira. E então, coçou sua própria testa, sem saber o que responder.
E não soube, necessariamente – ou talvez não quisesse admitir. –, o que o fez dizer sim, mas no momento acusou, somente, seu coração mole e os olhos decididos dela.
-Certo, ruivinha. – Ele suspirou. – Você vem comigo, mas terá que obedecer tudo o que eu mandar.
Ela apenas sorriu.
Notas finais
Bem, cuidem-se!
Beijos ~
Teffy.
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