Notas iniciais
Espero que gostem :D

O moreno suspirou pela enésima vez. Podia ouvir, e bem, o estardalhaço que a ruiva fazia trancada em seu quarto, no final do corredor. O som de passos e móveis sendo abertos e fechados enchia o ambiente do pequeno casebre em uma das ruelas de Canaban.

“Era o que eu precisava!” Pensou, irritadiço, soltando um pequeno bufo pelos dentes cerrados com força. “O mundo tendo que ser salvo e eu preso à uma criança.” Desceu os olhos sobre um aparador ao seu lado e ficou a olhar a velha fotografia.

Era um porta retrato antigo, de uma imitação verídica de madeira escura. Dentro tinha uma foto meio gasta, de um casal e uma criança. Eram um homem e uma mulher ruivos – ele tinha certeza que já havia visto o rosto daquele homem – e a criança ele pode reconhecer como Elesis.

Era uma casa bem comum, na verdade. Ele voltou os olhos pela sala, meio enfadado. Vestia uma capa negra que escondia o rosto e cabelos, além do corpo e a espada na cintura – Não era sempre que o guerreiro imortal entrava em Canaban, e queria não ter problemas. Era uma sala simples, com poucos móveis escuros e um corredor comprido que levava aos outros três cômodos – era o que imaginava, já que só via três portas quando esticava seu pescoço para fitar de onde vinham os barulhos.

Extremamente simples, mas um tanto agradável e descontraída. Tinham esporádicos quadros pelas paredes, uma espada pendurada ao canto – ele imaginava que era completamente decorativa – e quando já terminava de analisar todos os cantos da casa, abaixou os olhos e encontrou com uma pequena ruiva, que carregava uma mochila e uma espada.

-Largue isso criança, você vai se machucar. – Ele apontou para a espada e pegou a mochila da ruiva, para que pudesse carregar. Elesis inflou as bochechas.

-Não vou! – Pausou e olhou para ele, Sieghart sorriu. – E eu consigo carregar minhas próprias coisas! – Ela segurou a espada com força. Era, na verdade, uma lâmina rústica, o gladiador duvidava, com todas as forças, que aquilo lá tivesse fio de corte. As bochechas dela ficaram em um tom rosado, meigo.

-Deixe de ser ranzinza. – Ele sorriu outra vez e ela soltou um muxoxo. No mesmo momento o moreno quis abraça-la e leva-la no colo para longe dali. Sacudiu a cabeça, afastando os pensamentos. – Vamos, não temos o dia inteiro.

Assim que falou isso, a ruiva começou a andar atrás dele e prendeu sua espada nas costas – porque era o único lugar qual a ponta desta não batia no chão, em um ruído rítmico, junto com seus passos – olhando uma última vez para a casa qual tinha vivido todos aqueles anos de sua vida.

-Esta mesmo pronta para ir? – O ser encapuzado perguntou, segurando a mochila vermelha de coelho dela de qualquer maneira. Ele apoiou uma das mãos na cabeça dela. – Não vamos voltar por bastante tempo.

Ela olhou para ele, com os olhos cheios d’água e o moreno, outra vez, sentiu vontade de abraça-la. – Eu estou com você, é tudo o que eu preciso. – Pausou e abraçou a perna dele. Sieghart, por algum motivo que não soube explicar, não soube como reagir àquele carinho. Apenas ruborizou levemente e colocou uma das mãos sobre os fios ruivos.

-Vamos. – Murmurou e ela se soltou dele, voltando a andar ao seu lado.

Era a última vez que estaria em Canaban pelos próximos anos e a pequena nem ao menos imaginava quando poderia ver as fotos antigas e sentir o cheiro de mofo de seus armários novamente.

-

A floresta densa se fechava ao redor dos dois, enquanto Sieghart, finalmente, guiava-os em direção ao porto de Vermécia, para poderem seguir para Ellia.

Elesis olhava tensa para os lados, tentando identificar de onde vinham todos aqueles sons que desconhecia. Nunca havia deixado Canaban e suas redondezas. Na verdade, o mais longe que fora – e a única vez que fizera – encontrara com o gladiador que agora carregava sua mochila de coelhinho.

Era bem verdade que estava fugindo do mundo, naquele momento. Ela estava triste e sozinha, quando os guerreiros vermelhos falaram que seu pai não voltara da missão. Seu pai era o melhor gladiador de Canaban – ela tinha certeza disso – não podia acreditar que perdera para uma bruxinha de nada – vulga Cazeaje.

Ela chutou uma pedrinha e o moreno pareceu perceber a aura maligna que a criança desprendia. Ele suspirou. – Esta brava por que?

-Não estou brava. – Ela resmungou. – Só relembrando algumas coisas.

Ele deu de ombros. – Até agora você não me contou o que estava fazendo sozinha na floresta. Nem o por que de querer viajar comigo.

-Eu quero matar Cazeaje. – Ela respondeu, brava. “Como ele pode esquecer?”

-Não, não. Me refiro a um plano mais normal e que não envolve matar uma bruxa lendária. – Ele girou os olhos, arrumando a mochila em seu ombro.

Elesis amuou-se. – Meu pai não retornou de uma missão. Ele tinha saído para matar Cazeaje... E ele é o melhor gladiador de Canaban!

Elesis não pode ver, mas Sieghart torceu o nariz. “Estão dando esse título para todo mundo agora.” – Não se preocupe, se ele realmente é o melhor gladiador – Sua voz tinha uma pitada de sátira. – ele vai voltar.

-Você acha mesmo? – Os olhos dela brilhavam, mas ele ainda permanecia de costas, andando e sendo seguido. Suspirou.

-Claro. Os melhores sempre voltam.

E, aparentemente, ele deu por encerrado o assunto. Elesis agora caminhava em um passo animado, ela tinha se convencido que seu pai estava bem, graças às palavras do guerreiro e o moreno apenas mantinha seu próprio passo, evitando tropeçar em raízes.

Repentinamente , ele simplesmente parou. Fazendo a ruiva trombar nas suas costas. Ela olhou irritada para cima, encontrando a expressão séria dele, fitando as árvores. – Por que você parou do nada? – Ela resmungou.

-Fica quieta, ruiva. – Seu tom era grosso e decidido, a garotinha resolveu manter-se quieta. Ela afastou-se dois passos das costas dele e ficou a olhar ao redor. Não ouvindo nada.

Literalmente, nada.

Perguntou-se aonde o canto dos pássaros e o ruído de animais silvestres tinha desaparecido, e por que demorara tanto para perceber. Olhou temerosa para o guerreiro e ele puxou, suavemente sua espada, sem fazer um único ruído. Sieghart soltou a mochila de coelho no chão, silencioso, e ficou com sua arma em punho, atento ao redor.

Era uma belíssima lâmina prateada, sua empunhadura tinha detalhes negros e roxos e ela emanava uma opressiva energia que parecia estar completamente sincronizada com o punho tenso dele. Enquanto a garotinha observava a lâmina, descuidada, só sentiu seu pé ser puxado com toda a força, fazendo-a cair no chão.

O moreno virou-se, de supetão e encravou sua espada na mão que segurava a garota, fazendo-a soltar. Elesis afastou-se, assustada e reparou no ser monstruoso. Ele era verde, em suas costas tinha algo como uma crosta de lama e pedras, dura, que protegia seus pontos vitais. Também tinha algo como antenas na cabeça e, ao sentir sua mão ser perfurada pelo guerreiro, urrou, erguendo-se.

Elesis concluiu, ao ver aquele monstro, que Sieghart mal bateria em seu joelho. O guerreiro não se intimidou. O troll bateu os punhos no chão, derrubou arvores e tentou acertar o guerreiro de qualquer maneira, que, ágil, desviou de todos os golpes e, quando a criatura abaixou a mão, subiu pelo braço dele e encravou sua espada no ombro verde gosmento.

Logo em seguida, ao ver o ser cair, pulou para trás e, de uma só vez, encravou sua espada no chão e levantou-a, jogando um feixe de energia cortante no inimigo caído. – Chamas da morte! – Grunhiu e deu uma volta, jogando as chamas na horizontal, agora.

O troll cedeu, deixando seu sangue verde escorrer pela grama marcada pelo golpe de pouco tempo e o homem virou-se para a garotinha assustada. Sieghart se abaixou, na frente dela, e largou sua espada no chão, para poder olhar para a perna de Elesis.

-Vamos, vou tentar achar alguma coisa para fazer um curativo em sua perna. – “Ou alguém, não sei se ainda consigo fazer algo assim”. A perna branca da garotinha tinha um hematoma grande, devido a força qual o monstro empregara para poder puxá-la com violência.

Elesis deixou cair duas ou três lágrimas, ainda muito assustada. – Eu... – Pausou e soluçou, antes de começar a chorar, copiosamente. O guerreiro suspirou, arqueando as sobrancelhas.

“É só uma garotinha, afinal. Apesar do gênio forte e da ótima companhia.” Ele segurou-a com cuidado, com a outra mão puxou sua espada e prendeu-a na cintura, logo depois pegou a mochila esquecida e voltou a caminhar pela floresta, carregando a garotinha com cuidado.

-Sieghart... – Ela esfregou os olhos, o moreno desceu os orbes pratas sobre ela. – Você é um herói, não é?

Ele hesitou. Não era possível que uma criança soubesse de suas lendas. – Por que acha isso? – Disfarçou.

Ela abraçou o pescoço dele com delicadeza, tentando controlar sua respiração por causa do choro. – Só um herói pula daquele jeito para proteger alguém. – Ele surpreendeu-se, logo depois sorriu. Era um sorriso genuíno, calmo. – E mesmo se você não for um herói, você é heroico o suficiente para mim.

-Era só um troll, ruivinha. – Ele riu. – Não foi nada demais.

-Um dia, eu quero ser tão herói quanto você. – Ela sorriu, mesmo com os olhos inchados pelas lágrimas de medo. Ele riu.

-É heroína, ruiva. – Pausou e continuou sorrindo, olhando para a garotinha. – E acredito que um dia você será sim.

O resto do caminho foi seguido de reclamações da pequena ruiva, para que ele não risse dela, e risos por parte do imortal.

Notas finais
Aaah, eu adorei esse capítulo *---*
Espero que vocês também tenham adorado tanto quanto eu :D
Beiiijos ~