Depois do incidente nos cavaleiros vermelhos, era como se tudo tivesse desandado entre os dois viajantes. Elesis não falava, mal comia e durante as noites o imortal era obrigado a velar os sonhos da criança, que eram, na verdade, repetidos pesadelos.

Porém, apesar de todos os acontecimentos, a ruiva não chorava, qualquer menção que o moreno fazia ao ocorrido ela simplesmente dava de ombros e se resumia ao seu silêncio, que agora era constante.

Sieghart apenas suspirava e permanecia calado igualmente, resumindo-se sempre as cinco palavras frequentes. “Eu estou aqui para você”.

Assim seguiu-se uma rotina arrastada na primeira semana, andaram até outro vilarejo próximo e não permaneceram muito mais do que o suficiente para comprar mantimentos e roupas. Sieghart olhou preocupado para a bolsa em suas mãos, por enquanto isso vai ter que dar. Pelo menos até a ruivinha melhorar... Suspirou novamente.

-Vamos ruivinha. – Falou baixinho, passando a mão sobre os fios vermelhos para lhe chamar atenção. Ela ergueu os olhos para ele e assentiu, seguindo seus passos. – Que tal pararmos para comer alguma coisa agora? – Ela apenas deu de ombros. – Você sabe que tem que comer, não é? – Outra vez o silêncio, o moreno olhou para o céu e suspirou. Subitamente parou seus passos e olhou para a pequena que parou alguns passos à frente.

Era bem verdade, também, que o imortal estava correndo da verdade. Ela era sua descendente, ele – na falta de outro membro mais velho – deveria ser o responsável por sua educação, treino e bem estar. Mas cogitar a hipótese de ter uma ruiva brava com ele depois de descobrir sua história o incomodou, mas o que mais o incomodou foi imaginar que ela talvez achasse que ele fez o que fez por pena e instinto familiar.

Suspirando pesadamente, decidiu que primeiro faria a ruiva voltar ao normal e somente depois disso ele começaria a treiná-la. E, se tudo viesse a correr da maneira que queria, quando estivesse suficientemente boa, a levaria até Canaban, para que ganhasse sua espada vermelha e...

Suspirou pesadamente. E cada um seguisse seu rumo.

Diante da face interrogativa da ruiva, já que estava a fitando por alguns minutos initerruptamente, sorriu breve e decidiu como faria a ruiva comer dali pra frente. – Então, já que seu pai não está por perto, acredito que começarei a treiná-la como uma discípula. – Ela ergueu uma de suas finas sobrancelhas. – Até porque, não ficaria levando uma criança por aí, já uma discípula... – Riu-se, de leve, e Elesis, mais uma vez, deu de ombros. – Seu primeiro treino será sobrevivência: Você vai achar onde devemos acampar, quando devemos montar e desmontar acampamento e, o mais importante, praticar as refeições.

O imortal quase riu quando viu a garotinha engolir em seco.

-

A ruiva suspirou quando viu que já caminhavam ao norte por mais de três horas. As fronteiras da cidade já tinham, há muito, desaparecido atrás deles e, sem um nítido sinal de cansaço, o moreno continuava caminhando.

Quer dizer, o que ele tinha dito a assustou um pouco, mas não esperava que ele fosse realmente levar a sério o que tinha falado. Ele ignorava qualquer direção que ela apontava, qualquer menção para parar e descansar e quando tentava insinuar alguma coisa, vinha somente o tom de descaso de “desculpe, não estou te ouvindo”.

Aquilo começou realmente a irritar Elesis. O sol já havia se posto fazia mais de uma hora e meia – pelos seus cálculos – e suas pernas doíam. Assim como seu estômago clamava pela refeição não feita. Parou seus passos, subitamente. O guerreiro não.

Por um momento teve medo de ficar sozinha, então se lembrou do que ele sempre dizia “estou aqui por você”, mas aquilo não pareceu mudar a realidade que agora o guerreiro já estava a quase três metros de distância, a passos lerdos e desleixados. E mesmo que ela já tivesse parado, Sieghart nem mesmo fizera menção de olhar por cima do ombro para ver se estava bem ou sequer parou seus passos para espera-la.

Angustiou-se. Ele iria, realmente, abandoná-la ali? E todo o papo de discípula e vou cuidar de você? Eram ladainhas?

Abriu a boca para falar, mas teve medo de sua própria voz. Teve medo do que viria a sair de sua garganta, o quão rude arranhariam as palavras traqueia a fora. Ou talvez até mesmo magoadas. Não queria ser fraca, pelo contrário. Queria ser forte por seu pai que não estava ali, queria ser forte pelo guerreiro, que estava fazendo de tudo por si. Queria ser forte por si mesma e não mais atender por uma garotinha, agora, órfã. Não ser ruivinha, mas sim Elesis. Queria ter orgulho de si própria.

Elesis abaixou a cabeça, fechando a boca e novamente caindo no silêncio opressor. Foi quando ouviu a voz do imortal, já de longe, gritar para si. – Desse jeito vai ficar pra trás. Que tipo de líder você espera ser com esse tipo de ação?

O grito que rompeu sua garganta fez alguns pássaros se assustarem e levantarem voo, afastando-se. O imortal parou seus passos, porém sem ainda olhar para trás. A ruiva mantinha a cabeça baixa e os punhos cerrados.

-Não vá. – Resmungou baixinho, rouca. Sua voz lutava para deixar a boca. – Você disse que estaria aqui.

Sieghart apiedou-se. Talvez tenha pegado pesado demais com uma criança. Talvez devesse ter pelo menos olhado para trás. Voltou seus passos, parando de frente com a ruiva, que ainda mantinha-se cabisbaixa. – Você tem que entender que manter tudo isso preso dentro de você só irá te fazer mal.

-Você disse que ele ia voltar, você mentiu? – A rouquidão de sua voz era incomum.

O moreno suspirou. – Eu disse que os melhores sempre retornariam. – Pausou, indeciso. – Mas saiba que se ele conseguiu fugir a tempo, não vale a pena ele retornar, porque nada irá ser além de um covarde. E, se não me engano, ser taxado de covarde é uma séria punhalada no orgulho de um cavaleiro vermelho. – Outra longa pausa. Elesis ainda mantinha-se muda. – E se ele morreu, saiba que o fez com honra, lutando até a exaustão de cada músculo em seu corpo. E é assim que heróis caem.

Elesis fungou. – Eu tenho que ser forte por ele, então. De um jeito ou de outro ele era meu pai e eu tenho que honrar seu nome.

-Você nunca conseguirá ser forte se escondendo dessa maneira. – Sieghart suspirou e abaixou-se, ficando de cócoras e olhando firme para os olhos vermelhos por baixo da franja. – A primeira lição para se tornar mais resistente é saber quando você chegou ao seu limite.

-Sieg... – Ela murmurou, em um tom penoso. – Se eu deixar tudo isso sair de mim, eu vou desmoronar, você não entende?

-E o que tem de tão ruim com isso? – Ele sorriu e colocou uma das mãos sobre a cabeça dela. – Depois disso você vai recolher os pedaços e começar de novo. – Puxou-a vagarosamente para um abraço e a apertou junto ao tórax, descansando sua bochecha sobre o topo de sua cabeça. – Eu vou estar ao seu lado o tempo todo e se você deixar, te ajudarei a recolher seus pedaços.

Só assim o choro angustiado rompeu a noite abafada de verão.

-

O moreno suspirou, ainda com a criança no colo. Elesis havia chorado até dormir, porém agora parecia tranquila em seu sono. Bocejou. Fazia dias que já não conseguia dormir corretamente e quando decidiu ajudar a pequena garotinha, ainda nos arredores de Canaban, não pensava que tudo isso estivesse prestes a acontecer. Não esperava passar pelo que passou.

Sieghart estava seriamente divido entre os dois sentimentos que se digladiavam dentro de si, por um lado sentia um instinto nato de protegê-la, aliás, proteger qualquer coisa menor ou menos poderosa que si, e, portanto, sentia a necessidade de ensiná-la a batalhar e se defender. Já por outro lado, aquele sentimento intruso mandava-o mantê-la longe de qualquer coisa que pudesse arranhá-la ou até mesmo ferir suas emoções: e, portanto, longe dele também.

Nessa última semana em que ambos dividiram o silêncio, Sieghart se pegou pensando em como contar para a ruiva que era imortal. Que era seu antepassado. Que estava – esse tópico foi rapidamente descartado, devido ao choque que causaria à garotinha – apaixonado por ela.

Ainda que a mantivesse junto e a treinasse, provavelmente chegaria um momento em que ela perceberia que ele não envelhecia nem morria e que lutar era algo que estava gravado a ferro em brasa dentro de seu existir. Meio sem saber como reagir, olhou para a garota em seu colo.

Estava sentado de pernas cruzadas, enquanto suas costas estavam apoiadas na árvore mais frondosa da clareira. A garota dormira entre seus braços, com a cabeça apoiada em seu tórax e suas pernas esticadas perpendicularmente ao corpo do imortal. Suas mãos agarravam a blusa do mais velho em um desespero inconsciente de não deixa-lo ir.

Olhou para as estrelas mais uma vez, tentando achar uma saída para aquilo tudo. Uma saída que não envolvia uma criança magoada nem uma adolescente ruiva brava consigo. Estava se sentindo atado – não de uma má maneira, mas sem saber como reagir – por algo que nunca havia sentido antes. Não dessa maneira, nem nessa intensidade.

Lentamente ergueu sua mão esquerda, que passava sobre o colo da ruiva e a levou até o cordão em seu pescoço. Essa era uma das saídas que satisfazia ambas as suas necessidades, mas se sentiu culpado de dividir esse tipo de maldição com a ruiva. Sorriu triste por alguns poucos segundos e a lua pareceu brilhar mais forte para si. – Laf, o que você esperava que eu fizesse? – Resmungou baixinho. – Aliás, o que você faria no meu lugar? – E, dela, só recebeu de volta o silêncio.

Suspirou, pesadamente, e voltou seu braço para o lugar de origem, em uma posição protetora sobre a ruiva desacordada. Sem ter respostas e sentindo o silêncio o oprimir de uma maneira única, resolveu render-se ao sono.

Seja lá o que fizesse agora, seria uma longa caminhada em direção ao desconhecido. E fosse lá o que fizesse, talvez não acabasse tão bem.

-

-Sieghart! – O moreno abriu os olhos de supetão, encontrando dois orbes vermelhos lhe encarando de volta. Soltou a respiração presa em uma só baforada e tentou acalmar as batidas de seu coração. Elesis riu.

-Não me assuste desse jeito, ruivinha. – Ele passou a mão na testa, tirando os fios de sua franja que lhe incomodava os olhos. – Por que me acordou desse jeito, de qualquer maneira?

-Você sabe que dia é hoje? – Ela tinha os olhos brilhantes para ele, sorrindo. O imortal ergueu uma sobrancelha, pensou em soltar um inútil “quinta feira?”, mas sabia que só ia atiçar a raiva da ruiva. Pensando melhor, o imortal se pegou contando os dias, percebendo que mal fazia duas semanas que conhecera a ruiva impulsiva. – Já que você ‘tá com cara que não vai responder, eu te digo: Falta um mês para meu aniversário! Agora sou uma mocinha de oito anos e onze meses!

O moreno riu, divertido. – Não precisava ter quase me matado de susto só pra isso.

-Só nada! É muito importante.

-Certo, tudo bem. Daqui a um mês eu penso em algum presente pra você.

-Não é pelo presente, seu bobo. – Ela riu, ele ergueu uma sobrancelha, tentando adivinhar o que aquela mente estava pensando. – Significa que ficarei mais velha e possa, quem sabe, ser chamada de Elesis e não de ruivinha!

Sieghart gargalhou.

-O que foi? – A ruiva perguntou ofendida.

-Você vai ter que crescer bem mais do que isso para eu pensar no seu caso. – Ergueu-se, limpando a poeira da roupa e esticando os músculos, ouvindo seu ombro estalar. Ainda tinha resquícios do riso em suas palavras.

-Você vai ver só, nesse mês eu vou ficar tão... Tão...

-Mais alta? – Ele sugeriu.

-Isso! Quer dizer, não! – Ela apontou para ele. – Eu vou ficar mais... Madura, essa a palavra! Que você vai implorar para eu deixar você me chamar de Elesis.

-Hhm, acho que não. – Outro riso, só que baixinho. Estava satisfeito por todo seu esforço ter valido a pena. Preferia mil vezes a ruiva de oito anos e onze meses, do que a garota apática que estava viajando com ele.

-Ora seu...! – Ela resmungou algumas coisas que ele não se deu o trabalho de ouvir, invés disso, preferiu seguir até o riacho para lavar o rosto e começar o dia. Elesis o seguiu. – Então ‘tá bom, sabichão. Quantos anos você tem?

Sieghart gelou. Pigarreou discretamente e, depois, forçou um sorriso. – Certamente mais do que você pode contar nas mãos. – Abaixou-se a margem, juntando água para jogar no rosto.

-Sim, isso eu sei! Mas quanto exatamente?

-Menos do que o maior número que você conhece? – Arriscou. Elesis empurrou seu ombro, quase o desequilibrando para dentro do rio.

-Você por um acaso é um elfo?

-Não até onde eu saiba. – Respondeu, secando as mãos.

-Então certamente é um número menor do que o que eu conheço, oras. – Ela resmungou. – Só elfos vivem mais de duzentos anos.

-A ruivinha só sabe contar até duzentos? –Ele riu.

Ela inflou as bochechas, com raiva. – Não! É só pra mostrar que você não pode ser tão velho assim.

-Hhm... – Ele pensou e depois riu baixinho. – Certamente sou mais velho do que você imagina.

-Você deve ter uns vinte anos. Não mais que isso.

-Obrigado pelo elogio, mas não. Sou mais velho.

-Vinte e um?

-Você não vai acertar, ruiva.

-Vinte e cinco!

Sieghart riu e virou-se, continuando a caminhar de volta para o acampamento. – Invés de você estar tentando acertar a minha idade, deveria estar tentando aprender a acender uma fogueira, já que é sua responsabilidade.

Ela girou os olhos. – Eu sei acender uma fogueira. – Ele olhou para ela, desconfiado. – Vinte e sete!

Sieghart riu. – Certo, então eu tenho a idade que você definir pra mim, ruiva. Agora vá fazer seu trabalho.

Ela sorriu, encarando aquilo como uma vitória. – Viu, eu disse que acertaria. – E passou a frente, marchando e decidida a acender o fogo. O moreno riu, encarando a sua própria desistência.

-Não vá se queimar. – Ainda falou alto o suficiente para ela ouvir. Em resposta, ouviu só um grunhido bravo semelhante a “eu sei fazer sozinha”. Sieghart não perdeu a deixa. – Até parece que uma garotinha de oito anos e dez meses, saberia acender uma fogueira.

-ONZE MESES! – A ouviu gritando. O moreno gargalhou.

Notas finais
Bom, foi um capítulo pequeno, mas necessário. Sinto muito em dizer, mas está acabado a época de nossa pequena Elesis! D: Infelizmente no próximo capítulo ela já estará um pouquinho mais velha, mas não tanto quanto vocês imaginam. (Será que ainda poderão contar nas mãos? -qn)
Espero que vocês tenham gostado do capítulo. Espero que vocês deixem reviews também, mas se não deixarem também está bacana, contando que leiam. :3
Beijos, Teffy ~