A Melodia das Águas
30 O renascer da magia
Notas iniciais
O fulgor pulsava-lhe as artérias com a urgência da responsabilidade que recaíra-lhe. A essência da vida apoderara-se dela, tornando inseparável o elo entre o ser e o universo. Agora era, para além de si mesma, a própria chama.
Nadou para fora do templo, ouvindo o clamor pela tarefa há muito ignorada por seu povo. Mergulhou entre corais e cardumes. O corpo desfazendo-se e refazendo-se na transparência salgada. Fitou o céu. As brumas, antes densas e opressivas, davam lugar à visão de todo o mundo mortal, espelhado no rotundo domo celeste.
Avistou o Grande Rio, deleitando-se por toda a extensão verde, e os grandes lagos gelados do sul. Desde os recifes até as profundas fendas abissais, o mar prolongava-se ao infinito, onde os horizontes deste e daquele lugar tocavam-se, sob a luz do nascente e do poente.
A energia parecia querer fluir de suas mãos. Tocou a superfície da água com os dedos e a luz espalhou-se até onde podia-se percebê-la. Era a aurora marinha. Uma única nota saiu-lhe da garganta e foi respondida entre os nove reinos das águas. A história e o futuro reviviam-se enfim, sob o cantar uníssono das sereias. Já não havia mais preocupação em suas têmporas.
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