A Marota

66 Capítulo 64


— Potter! Você me deixou te esperando! Dias seguidos!

Eu estava parada ao corredor conversando com Amy quando alguém disse isso bem perto de mim. Eu me sobressaltei e olhei pra trás, vendo um Ephram meio irritado. Eu sabia que ele estava fingindo, por isso segurei o riso.

— Olá, raio de sol. — eu brinquei e Amy riu, recebendo uma carranca de Ephram.

— Nos vemos depois, Jane. — ela disse, ainda rindo, e se afastou.

Eu me virei para o loiro e sorri, suspirando ao notar que ele queria uma explicação real.

— Desculpa ter te deixado esperando.. Eu estou meio aérea esses dias e acabei indo direto para a sala comunal. — eu lhe disse, segurando seu braço e o puxando pra caminhar em direção aos portões do castelo.

— Foi por causa do que você estava correndo quando nos esbarramos naquele dia, não é? — ele deduziu e eu assenti.

— É.. Mais ou menos. — rolei os olhos pra cima, respirando fundo e olhando em volta. — Eu peguei Sirius com uma garota.. E eles não estavam apenas dando uns amassos.

Ephram parou e me olhou, me fazendo parar também. Os olhos claros me indicavam que ele tinha entendido e eu assenti, confirmando sua pergunta silenciosa.

— Que safados.. — ele murmurou e eu concordei.

— Tem acontecido com freqüência..

— Como se sente em relação a isto, Srta. Potter?

— Eu me sinto.. Até que normal. Eu não vou mais ficar chorando por ai por causa de Sirius Black.. E eu quero aproveitar mais, como ele. — fui discreta e Ephram parou novamente, me olhando com as sombrancelhas erguidas.

— O que pretende?

Eu sorri travessa e o puxei para andar novamente. Meus olhos passaram pelo jardim e encontraram o garoto ruivo sentado com outros colegas, um livro nas mãos enquanto parecia conversar sobre algo relacionado a alguma aula. Eu indiquei com a cabeça para Ephram e ele notou o Turner, rindo e me olhando em seguida.

— Ele é um gato. — me disse e eu sorri abertamente.

— Não é? Não sei se já reparou, mas ele é goleiro da grifinória e é bem gentil. — lhe contei, abaixando o tom de voz quando passamos pelo rapaz citado.

— Vá na fé, queridinha.. Seja feliz. — Ephram me disse e eu ri, o puxando pra sentar em um banco de pedra.

— Não é como se eu fosse namorar ele também.. Eu só.. Quero viver além de Sirius Black. — eu disse e ele concordou.

— Em falar nisso, eu queria saber o que aconteceu com você e Brendan.. Estavam tão bem, pareciam até um casal super feliz. Mas quando voltaram das férias.. Ficaram meio distantes. Ele não quis falar sobre isso comigo e nem tente usar esse argumento. — o Malfoy foi mais rápido quando eu abri a boca para dizer exatamente aquilo e eu a fechei.

— Sabe.. Nós discutimos sobre uma coisa que me deixou muito chateada. Decidimos que seria melhor.. Acabar aquele algo que tínhamos. — eu conclui, realmente não querendo falar daquilo ou acabaria contando tudo, incluindo sobre Kieran.

— Entendo.. Ele parecia gostar mesmo de você. — ele me disse e eu apertei meus lábios.

— Eu também gostava dele.. Você sabe, ele era um garoto incrível. Eu me sentia muito bem com ele. Mas nem tudo dá certo. — eu suspirei e olhei para o céu aberto.

Nós ficamos em silêncio por um momento e eu voltei a olhar o garoto ruivo. Ele tinha um belo sorriso enquanto ouvia algo de uma garota corvina, ela parecia lhe explicar de modo divertido sobre o que tinham em mãos. Ele parecia um tanto.. Inocente. Seu sorriso, seus olhos e até mesmo o jeito que ele falava mostravam isso. Era fofo.. Adorável, eu diria.

— Buh! — eu me sobressaltei e me encolhi, ouvindo a risada de Amy atrás de mim.

— Não faz isso! Olha o meu coração! — eu levei as mãos ao peito e ela riu mais ainda, se sentando comigo e Ephram que também ria.

— Seu interesse por Joshua está aparente pra todo mundo, está quase escrito na sua testa. — ela me disse e eu a olhei, meio surpresa com aquilo.

— Não estou interessada.. Talvez.. Só um pouquinho. — confessei e ela riu novamente, se aproximando um pouquinho.

— É seu dia de sorte, garota.. Ele também tem interesse. — Amy me disse e eu deixei clara a minha confusão.

— Como você sabe? — questionei, diminuindo meus olhos em sinal de desconfiança.

— Ele é meu primo, né? — ela riu e eu continuei a olhar pra ela. — Você não sabia?

Por essa eu nem esperava..

— Ela não sabe de muita coisa, tadinha.. É desinformada. — Ephram disse e eu me virei pra ele com uma carranca que só o fez rir.

— Eu não sabia.. — confessei e ela riu.

— Muitos não sabem. Mas eu sei de muita coisa.. E digo que tem a minha permissão para se aproximar do meu priminho. — ela engrossou a voz um pouquinho e eu ri meio alto, tapando a boca em seguida.

— Certo.. Obrigada, capitã. — eu fiz um gesto em direção a testa e ela balançou a cabeça.

Antes que pudéssemos falar sobre mais alguma coisa, ela simplesmente se levantou e correu pra longe. Amy era uma pessoa realmente divertida.. Amélia Robinwood, artilheira do time da grifinória desde o terceiro ano. Sangue puro, loira, olhos azuis.. Pensando bem, os olhos dela e do Turner eram iguaizinhos. Eu nunca teria descoberto sozinha que eles eram primos... Talvez Ephram tivesse razão.

Eu e ele passamos o resto do tempo livre ali, apreciando o clima e conversando sobre tudo o que não tínhamos conversado até ali. Eu lhe falei sobre Sirius e suas conquistas e ele me contou sobre suas férias chatas na Muy Antiga e Nobre Casa dos Black. Contará que Lúcio ficará insuportavelmente mau humorado na última semana e eu sabia exatamente porquê. Me disse que ficou muito preocupado em relação ao meu sequestro e muito aliviado quando soube que eu já estava em casa.

Ele também me contou sobre Kieran.. Eu não quis corta-lo, ele parecia muito feliz me dizendo que seu relacionamento estava indo muito bem. Mas eu não sabia se ficava feliz ou se jogava tudo pro alto e lhe contava. Ele era meu amigo... Eu não o queria ver triste, mas também não queria esconder algo assim dele. Se Kieran o estava enganando, era meu dever alerta-lo, não era?

Eu não tive tempo de me responder essa pergunta quando ele olhou em seu relógio e me fez levantar, me puxando para dentro do castelo enquanto dizia que estava na hora da aula. Corremos para as masmorras, onde teríamos aula de poções naquele período da tarde. Nunca antes eu havia notado o Turner, mas parecia que agora ele sempre se colocava no meu campo de visão. E foi ele que eu vi quando entrei na sala, sentado no canto sozinho.

— Eu vou me sentar com a Marlene. — eu disse, dando alguns passos em direção a morena mas uma certa loira foi mais rápida.

Amy me olhou com um sorrisinho e eu soltei a respiração devagar.

— Vou me sentar com você. — eu voltei a Ephram e ele sorriu, negando.

Segurou meu braço e me puxou em direção a cadeira livre. Ao lado do Turner.

— Fale com ele. — ele sussurrou pra mim antes de me obrigar a sentar ali.

Eu tentei fugir mas ele não deixou, me lançando um último olhar antes de se afastar em direção a mesa de Brendan. Balancei a cabeça e me virei pra frente, suspirando e dando um sorrisinho tímido para o Turner quando nossos olhos se encontraram por poucos momentos. Logo o professor entrou na sala e a aula se iniciou, eu não prestei muita atenção. Talvez fosse uma mania minha, nunca prestar atenção na aula. Isso soava mais como um defeito...

Preparamos uma poção e eu não sabia por que, mas estava nervosa. Talvez fosse porque ele era um tremendo gato e a todo momento nossas mãos se tocavam sem querer. Era um pouco semelhante ao meu nervosismo assim que conheci Brendan.. A diferença entre eles, era que Joshua parecia quente.. As mãos tranquilas cortavam com paciência os ingredientes e os jogavam no caldeirão, ele era calmo demais.

— Mexa pra mim, por favor? — ele pediu e eu assenti, deixando o livro no balcão e me direcionando a poção.

Eu a mexi devagar, tomando cuidado para que ela não espirrasse e acabasse sujando a mesa ou a mim. Eu cantarolei baixinho uma música infantil enquanto mexia a poção e balançava a cabeça levemente de um lado para o outro. Meus olhos desviaram da poção por um momento e encontraram os do Turner em mim. Ele olhou pra baixo e eu sabia que segurava o riso. Minha bochechas ameaçaram arder e eu pigarreei, voltando para o livro.

O resto da aula seguiu silencioso e nós nos saímos bem. A aula seguinte foi defesa contra as artes das trevas que passou mais rápido do que o esperado. Assim que acabou, eu sai da sala com Marlene, agradecendo quando ela disse que levaria a minha bolsa. Estava um pouquinho pesada por conta dos livros.. Nós duas fomos rapidamente ao sétimo andar e deixamos nossas bolsas e capas no dormitório antes de voltarmos a descer para o jantar, sem pressa alguma.

— É sério! Você tinha que ter visto. — ela me disse depois de me contar sobre seu "encontro" desastroso com um quartanista.

— Por que aceitou sair com ele? Devia sair com os garotos do nosso ano que te chamam pra sair. — eu ri e ela deu de ombros.

— Nenhum deles foi tão fofo quanto esse.. Ele até me deu flores, mesmo que elas tenham me feito espirrar bastante. — me contou e nós duas rimos.

— Potter? — alguém me chamou e eu me virei, parando no corredor do terceiro andar.

Era o Turner. Ele nos alcançou e coçou a própria nuca, as bochechas mais rosadas que o normal.

— Sim? — eu o olhei, confusa, achando fofo o jeito como ele parecia nervoso.

— Eu vou ser breve e talvez um pouco rápido demais. Amy me encorajou a vir aqui e eu queria saber se você não gostaria de ir a Hogsmeade comigo nesse final de semana. — ele disse tudo rápido, respirando fundo e me olhando com expectativa.

— Eu.. Bem.. Eu tinha combinado de ir com a Marlene.. — eu disse, olhando para a morena ao meu lado que sorriu.

— Mas ela pode muito bem furar comigo, eu não me importo. — ela disse rapidamente também e eu voltei a olhar para o Turner.

— Então, sim.. Eu adoraria ir com você. — lhe disse, sorrindo enquanto via os olhos dele tomarem um leve brilho.

— Bem.. Okay, então.. Nos vemos por ai. — ele disse e eu concordei, observando ele se afastar na direção contrária.

O corredor ficou silencioso antes da minha amiga ter seu ataque habitual.

— Você vai sair com o Turner! — ela quase gritou, me sacudindo pelos ombros.

— Como é que é? — mais alguém entrou na 'conversa' e eu fechei por olhos, sabendo muito bem quem era.

Eu me virei lentamente e encontrei Sirius a me olhar como se esperasse uma resposta. James, Remo e Pedro também estavam ali mas não pareciam querer dizer nada. Não tinha nada a ser dito, na verdade, aquele confronto seria entre mim e o Black.

— O que você ouviu.. Eu vou a Hogsmeade com o Turner. — eu confirmei e o corredor voltou a ficar em silêncio antes de ele soltar o que pioraria tudo.

— Você não vai.

Incrédula, eu ri. Quem ele pensava que era?

— Quem vai me impedir? — eu perguntei, cruzando meus braços o desafiando.

— Eu! E eu pensei que estivéssemos juntos. — ele disse e eu ri mais ainda, o deixando claramente confuso.

— Não me venha com essa! Iludiu a si mesmo? — eu questionei, realmente não acreditando naquilo.

— O que quer dizer? — ele cerrou seus olhos e eu umedeci meus lábios antes de falar.

— Como podemos estar juntos se você vive atrás de qualquer rabo de saia que passe na sua frente? — eu fiz aquela pergunta lentamente e observei sua expressão mudar.

— Eu não tenho estado com nenhuma garota além de você. — ele mentiu como se fosse realmente verdade.

— Você é muito bom nisso, não é? Você.. Mente como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Não tem nem um pingo de remorso? — eu neguei com a cabeça, sentindo meus olhos ficarem molhados.

— Não estou mentindo. — ele tentou.

— Está sim! Ninguém me disse, Sirius, eu vi. A semana toda. — eu ri, mesmo que não tivesse graça algum, contando nos dedos. — Segunda: Sala precisa. Uma garota loira, biblioteca.

Eu lhe dei detalhes, poderia dar muito mais se ele quisesse.

— Terça: Floresta proibida. Ela é proibida a noite, mas não importa se for pra fazer sexo, não é? — eu continuei, limpando uma lágrima que me escapou. — Quarta: Torre de astronomia. As constelações do corpo daquela corvina eram bem interessantes, não concorda?

— Chega... — ele disse mas eu não parei.

— Hoje cedo: Sala de troféus. Os troféus do time de quadribol teriam muito o que contar caso falassem, não é mesmo? — eu debochei, lhe dando o sorriso mais insolente que consegui.

— Chega! Eu já entendi, tudo bem? Você me pegou, era isso que queria ouvir? — ele disse e eu assenti, não conseguindo me sentir satisfeita.

Nós apenas nos encaramos, eu podia ler tudo nos olhos dele.. Talvez eu quisesse que ele dissesse algo, que se defendesse ou até mesmo que me beijasse, como sempre fazia quando brigavamos. Mas ele não disse e nem fez nada.. Ele apenas ficou ali, me olhando de volta enquanto meus olhos queimavam junto do meu coração. A vontade de chorar me dominou e eu sabia que não iria aguentar muito tempo.

— Então, é isso.. — eu disse, a voz trêmula assim como meus lábios.

— É isso. — ele repetiu, tão sério quanto poucas vezes eu já havia visto.

Eu assenti e me virei antes que mais alguma lágrima me escapasse. Sem esperar mais, eu corri de volta para as escadas e as subi o mais rápido possível, ignorando o chamado de Marlene pouco atrás de mim. No sétimo andar, eu dei a senha a mulher gorda e entrei na sala comunal, me jogando no sofá e desabando. A sala estava completamente vazia, então eu não me importei nem um pouco.

Eu ouvi o retrato se abrir novamente e o sofá ao meu lado afundar quando Marlene se sentou, passando uma das mãos pelas minhas costas carinhosamente. Eu não me levantei e nem olhei para ela, apenas deixei sair o que tinha que sair.

— Jane.. — Marlene me chamou suavemente e eu a olhei.

— Ai, Lene.. — eu me levantei por um momento e coloquei a almofada em seu colo, deitando a minha cabeça ali. — Acabou..

— Não.. Vocês sempre brigam e se resolvem depois. — ela me disse, acariciando meus cabelos.

— Dessa vez isso não vai acontecer. — lhe disse, fechando meus olhos e fungando baixo.

— Por que tem tanta certeza? — me perguntou e eu abri meus olhos, os fixando na poltrona a frente.

— Porque eu vi nos olhos dele. — contei e nós ficamos em silêncio.

Marlene acariciava meus cabelos com uma delicadeza impressionante para alguém tão bruta como ela. Eu não quis saber da hora, meu estômago não aceitaria nada agora. Meus olhos apenas se fecharam e eu apenas ouvi o silêncio, até que Marlene passou a cantarolar baixinho uma melodia desconhecida. Minha mente foi parar em outro lugar mas eu ainda pude ouvir quando os outros alunos da grifinória entraram na sala e passaram a conversar. A última coisa que pensei antes de cair no sono, foi: Eu havia perdido aquela batalha. Sirius Black nunca seria meu e, por mais que doesse, eu teria que aceitar isso. Mais cedo ou mais tarde.