A Maldição Hettel

2 Capítulo II - Reflexo


Notas iniciais
''O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos. A maneira como você encara a vida é que faz toda diferença..'' —Luís Fernando Veríssimo

Fui para casa, comi alguma coisa e tomei um bom banho, tentei me distrair o dia inteiro, mas aquele simples caso de (aparentemente) vandalismo não saiu da minha cabeça. Enfim, fui dormir. À noite tive um pesadelo terrível com crianças gritando, tentando fugir de algo que não identifiquei, mas o desespero delas era óbvio. Acordei num salto suando frio, era de madrugada, mas não consegui voltar a dormir, me senti realmente mal por ter presenciado aquelas cenas, mesmo que fosse um mero pesadelo.

Esperei até a hora que eu normalmente saio, e fui correndo para a escola querendo receber notícias do que havia ocorrido. Acho que estava esperando ouvir que aquilo não passara mesmo de vandalismo.

Chegando lá, passei pela porta da sala onde tudo tinha acontecido. Apesar dela estar coberta por faixas, por impulso, tentei abri-la, mas como pensei estava trancada.

Me reuni com meus amigos dentro da sala de aula à espera do professor de história, Gustavo, o único professor dali que parecia se importar com os alunos.

—E aí, alguma novidade?

—Não, é melhor deixar isso pra lá.

—É você tem razão Lisa, vamos esquecer isto!

O professor entrou na sala e começou sua aula normalmente, sem nenhuma palavra de explicação para a sala destruída. De repente comecei a sentir uma forte tontura. Tinha uma forte sensação de que algo estava errado.

—Professor, estou me sentido um pouco mal, posso ir ao banheiro?

—Claro Wendy, mas você está bem? Não quer ir a enfermaria?

—Não, não. Só quero lavar o rosto.

—Tá — falou o professor com desconfiança — Pode ir então.

* * *

Entrei no banheiro, felizmente não tinha ninguém. Enxaguei meu rosto e olhei fixamente para o espelho. A marca das olheiras debaixo dos meus olhos castanhos era evidente, algo normal para alguém que mal dormiu a noite passada.

Tive mais uma súbita tontura, foi quando a minha imagem refletida começou a mudar, o espelho agora mostrava uma sala escura e ensanguentada, um verdadeiro ambiente insalubre. Além disso o banheiro mostrado no espelho parecia ser de décadas atrás. Olhei em minha volta, o lugar onde eu estava continuava exatamente o mesmo, aquela visão era apenas no reflexo de espelho. Numa mistura de desespero e nojo, fui dando passos em direção à porta, mas ainda encarando o espelho. Foi então que vi aparecer o reflexo de uma garota que gritou desesperadamente:

—Me ajude! Por favor!

Eu olhei para trás morrendo de medo, não tinha nada ali, o banheiro estava como sempre e o espelho voltara ao normal.

Saí correndo de lá, não queria ficar sozinha e tampouco falar nada para alguém agora, então voltei para a sala e sentei em meu lugar. Rafael que estava sentado ao meu lado perguntou:

—Tá tudo bem?

—Não sei.

—O que aconteceu? — Lisa perguntou.

—Depois eu falo.

—Mas...

—Vamos deixar ela em paz, ela não está bem. — Interrompeu Eric.

As próximas duas aulas se estenderam no que para mim, pareceram décadas, até que o sinal tocou para o intervalo e fomos direto para o refeitório. Lá, Rafael me perguntou:

—E então, vai nos falar o que aconteceu?

—Eu acho que foi só minha imaginação. — Claro que eu sabia que não era minha imaginação, mas não queria parecer louca.

—Amiga, conta pra gente, vai se sentir melhor — Pediu Lisa.

— Tá bom, vou contar. — Falei, sabendo que não ia adiantar nada tentar esconder algo dos meus amigos.

Comecei a falar tudo o que aconteceu no banheiro. Quando terminei de contar, vi os rostos surpresos e duvidosos deles, foi aí que percebemos que uma caneca com suco que estava sobre a mesa começou a se mover sozinha em minha direção, até que desviou seu caminho para a ponta da mesa e caiu derramando o suco de dentro.

—Ai. Meu. Deus — Exclamou Lisa — Então...

—Talvez não fosse só sua imaginação — Completou Rafael.

—Isso é loucura! -irrompeu Eric.

—É, é mesmo.

—Quero dizer, é loucura mesmo! Vocês não podem estar acreditando nisso. — Ele continuou, mesmo que parecesse meio hesitante quanto essa afirmação.

* * *

Estávamos muito assustados, mas tivemos que voltar para as últimas duas aulas. Que também pareceram uma eternidade. Mas enfim acabaram. Decidimos ir na sala do Diretor Lúcio perguntar se os policiais descobriram alguma coisa.

—Isso não é da conta de vocês! Ora!

—Mas Diretor, por favor! Diz pra gente pelo menos se eles tem alguma ideia de quem fez aquilo naquela sala! Somos apenas alunos preocupados com a situação de nosso colégio, temos o direito de saber o que se passa por aqui – Justificou Rafael.

—Como poderiam ter alguma ideia? Quem quer que tenha feito isso não deixou nenhum rastro para ser pego.- Respondeu o diretor, cedendo as nossas perguntas.

—Nenhum??

—Foi o que eu disse. Agora saiam daqui! Já falei demais! E não se metam mais nessas coisas.

Nós saímos. E achamos bom irmos para minha casa, já que meus pais estavam fora, nós poderíamos falar sobre tudo. E aparentemente, meus amigos não queriam me deixar sozinha.

Notas finais
E aí ._.