A Magia do Submundo
11 O Santuário
Notas iniciais
Estavam na casa de Selena, na sala localizada no andar de baixo. Luna encarava um vaso de flores que servia de decoração enquanto Selena explicava o que ocorreria logo em seguida.
Jason, que estava acordado havia alguns minutos, coçava a cabeça.
— Então — repetiu ele, pela terceira vez —, eu vou ter que me arrumar para conhecer um bando de bruxos de mil anos…
— No máximo cento e doze — corrigiu Alice, zombeteira.
— Tsc. Então tenho que ir para um tal Santuário para conhecer uma Torre e a própria líder da Irmandade?! Mas por quê? Todo aprendiz tem que ir vê-los?
— Não — respondeu Selena, baixinho. — Nem todo. Mas você é um pouco… diferente.
— Diferente como?
— A Herança que seu pai deixou para você não aje em harmonia com a Herança que eu, uma Torre, deixei a você. É por isso que você talvez tenha o interesse da Anciã.
— Hum. Então por isso eu tenho que sair hoje, mesmo sendo quase meia-noite?
— Exatamente. Agora, vá.
Jason suspirou e levantou-se para tomar banho. Selena olhou para Luna, mas a garota havia sumido.
— Silverstone? — chamou a Torre.
Ouvira passos atrás de si. Quando se virou, viu Luna com um casaco maior do que ela, provavelmente de Jason, com óculos escuros, com uma bandana ninja cobrindo a boca e com orelhas de gato.
— Hã… O quê, pelo amor de Deus, você está fazendo? — perguntou Selena, completamente confusa.
— Como assim? É meu disfarce — explicou Luna, como se fosse óbvio. — Para ir ao Santuário.
— Para o quê?!
— Para ir ao Santuário. Eles nunca me reconheceriam assim.
— Perdão, mas você realmente acha que deixarei um demônio, mesmo sendo você, descobrir onde fica o Santuário das bruxas?!
— Mas eu quero ver! — exclamou Luna, e Selena percebera que, naquele momento, a mestiça parecia ter metade de sua verdadeira idade. — Eu quero! O Santuário das bruxas, e eu seria o primeiro demônio a entrar lá e sair viva — delirava Luna com uma expressão sonhadora.
Selena quase tinha pena de estragar aquela imagem. Luna parecia ter um desejo sincero de ir junto, como se uma criança comum fosse convidada para conhecer qualquer mundo de fantasia visto em livros e filmes.
Mas ela era um demônio. Pouquíssimas bruxas eram tão tolerantes quanto Selena e Alice — talvez Lily e a Anciã, mas ninguém além delas.
“Ele era”, lembrou Selena, um pouco deprimida.
A Torre sorriu gentilmente para a meio-demônio e colocou a mão em seu ombro.
— Perdoe-me, Luna. Saiba que, se dependesse de mim, eu te deixaria ver o Santuário. Infelizmente, não posso fazer isso.
O brilho sumiu dos olhos da garota, e ela assentiu, deprimida.
— Entendo.
Obviamente entendia. Sabia o que bruxas faziam com demônios. Mas Luna não culpava-as por sentirem medo, pois sabia que os demônios faziam a elas coisas dez vezes piores.
Em alguns minutos, Jason voltou para a sala, usando jeans, uma camisa branca e um casaco vermelho. Foi quando olhou para Luna e segurou a risada, e a mestiça percebeu que havia esquecido de tirar o superdisfarce.
Sentira o rosto queimar.
— O que é isso que está usando? — perguntou Jason, extremamente sarcástico.
— E-eu… — Amaldiçoava-se por não ter tirado aqueles acessórios. — E-eu estava apenas… Testando um novo visual.
— Hum. Claro.
— Não ria!
— Não estou rindo.
— Então que sorriso otário é esse na sua cara?!
Jason continuou olhando para Luna e segurando a risada, o que deixava a garota estranhamente desconfortável. Ela apressou-se em tirar a bandana, os óculos e jogar para trás o casaco de Jason. Ainda corava.
O bruxo sorriu de canto.
— Você fica adorável deste jeito, Luna — comentou ele com leve sarcasmo, embora fosse verdade.
Luna sentira-se ainda mais envergonhada e arremessou as orelhas de gato no bruxo. Alice, que estava sentada silenciosamente no canto da sala, soltou uma risada sarcástica.
— Ela não acabou com você, Jason. É a sua deixa.
O garoto sorriu de canto, e foi quando Selena entrou novamente na sala, segurando um copo d'água.
— O que está acontecendo?
— O seu filho — sussurrou Luna, ameaçadoramente, embora seu rosto ainda estivesse levemente vermelho — está procurando uma morte rápida.
— Me mataria, mestra?
— Depende. Continue com essa ousadia, e sim.
— Hum… Não me pareceu isso quando…
Luna pigarreou, semicerrando os olhos, e voltou-se para Selena. Nunca havia passado por uma situação constrangedora como aquela. Normalmente, quando faziam-na de boba, acabavam com uma lança na cabeça.
— Quando vocês saem?
— Agora mesmo.
*
Selena dirigia, e Alice sentava-se no banco da frente. Jason estava atrás, encostado na janela e olhando para a lua. Tornara-se um hábito para ele apreciá-la.
Pensava em seu pai. Então a Herança dele não possuía uma relação harmônica com a Herança de Selena? Jason não lembrava-se de sua mãe alguma vez ter mencionado algo assim.
Sem entender as circunstâncias que levaram a tal, Jason começou a teorizar coisas sobre seu pai. Não havia fotos dele, então como será que ele era? Ele era conhecido no mundo sobrenatural? Parecia que sim, pois Niel conhecera ele, mesmo sendo um demônio.
Não tivera tanto tempo de ponderar sobre isso, pois o carro afastava-se da cidade de Fairyshall. Jason, aos poucos, sentia seus olhos pesarem. Não esforçou-se para manter-se acordado.
Sentira a mão de Alice chacoalhando-o. Quando Jason acordou, olhou para fora do carro, e não sabia onde estava. Era um lugar onde só havia terra. Sem árvores, pessoas, água. Apenas terra.
Selena já estava fora do carro. Quando Jason desceu, vira que sua mãe conversava com a bruxa de cabelo roxo berrante, Lily. Assim que aproximou-se, as duas bruxas olharam fixamente para ele.
Perguntando-se se havia feito algo de errado, Jason concluiu que não. Parecia uma mania de todas as pessoas ficarem encarando desconfortavelmente os outros. Jason não podia reclamar, pois fizera isso com Luna ainda naquela noite.
Sorriu de canto ao pensar na garota. Certamente, fora uma visão adorável.
Olhou assustado para suas próprias mãos. “O que diabos você está pensando?!”
O pensamento dele obviamente não importava para as bruxas, e Selena já havia decidido não ficar usando sua leitura de mentes no garoto quando não fosse necessário. Era algo realmente invasivo.
Lily olhou para o chão, onde havia um círculo desenhado nele, feito à base de runas mágicas. Jason sabia que seria utilizado para realizar um teletransporte.
Estava certo. Lily murmurou uma fórmula mágica, e o círculo brilhou. Fora como se um vórtex se formasse no centro do círculo, sugando Jason, Alice, Selena e a própria Lily para dentro dele.
Após uma sensação extremamente desconfortável, estavam em outro lugar.
*
O local em que os quatro usuários de magia estavam agora era belo. O céu noturno tinha suas estrelas refletidas pelo lago que ficava abaixo da enorme ponte onde estavam naquele momento.
Além da ponte larga e comprida acima do lago, havia uma enorme escadaria que levava ao topo de um monte coberto de árvores. No fim daquela escadaria, era possível ver um arco de prata e ouro que provavelmente precedia o Santuário.
Jason suspirou.
— É muito bonito.
Lily sorrira de canto.
— É, sim.
No caminho todo, Alice ficou falando coisas sem especial sentido. Até chegou a tropeçar em um dos degraus da escadaria quando começaram a subir, mas levantou-se rapidamente e fingira que nada acontecera.
— Foi só o vento — murmurou ela.
Continuaram a subir as escadas. Jason sentia frio naquele momento, mesmo de casaco. Alice deve ter percebido isso, pois acendeu uma pequena chama em sua mão, esta que também iluminou melhor a escadaria.
Quando chegaram ao belo arco no fim da escadaria, Jason pode vislumbrar o Santuário da Irmandade da Bruxaria. Decidiu naquele momento que o santuário mais parecia um enorme e luxuoso palácio, uma construção branca verdadeiramente imponente e bela. Surpreendeu-se de não ter visto ele quando estavam na ponte, pois parecia enorme.
Selena sorriu.
— Não fique babando. Vamos entrar.
— C-claro.
Os bruxos seguiram em frente. Quando estavam a cinco metros da entrada do palácio, Lily parou e colocou a mão em uma força invisível, murmurando palavras mágicas. Logo, havia um buraco na barreira de proteção que circulava o santuário.
No momento em que entraram, Jason conseguiu sentir com nitidez a quantidade de energia arcana que estava presente no Santuário. Por um momento, sentiu que não conseguiria mais andar, porém sua mãe colocou a mão em seu ombro. Jason respirou fundo e tornou a andar.
Quando entraram no palácio, o jovem bruxo viu-se diante de um salão enorme e dourado, com lustres que iluminavam toda a área. Entretanto, além do circular tapete azul escuro no centro do salão, não havia nada nele.
Do lado oposto à entrada, havia duas enormes aberturas na parede que levavam a dois corredores diferentes. Lily avançou pelo da direita, e os outros três seguiram-na.
— E como está o Noah? — perguntou Alice.
— Não posso dizer que “bem” — respondeu Lily. — Posso dizer “vivo”, pelo menos. Mas ele tem 112 anos, então é claro que anda cansado.
— E a Anciã já sabe algo sobre o Culto de Mamon? — indagou Selena.
— Não muito. Eles desapareceram. Depois que, como você me disse, seu filho matou um Corruptor, talvez tenham ficado com medo.
— Não se esqueçam o que a presença de um Corruptor significa — lembrou Selena. — Significa que estamos lidando com pessoas que possuem envolvimento direto com um Príncipe Demoníaco, obviamente Mamon.
— E, é claro — acrescentou Alice — que devem estar procurando a fenda na Muralha.
Enquanto as bruxas discutiam, guiando Jason pelo palácio e indo cada vez mais para baixo, o jovem bruxo analisava a decoração. Sua atenção fora tomada mais especificamente quando chegaram a um corredor repleto de quadros com bruxos e — mais numerosamente — bruxas. Provavelmente eram pessoas famosas no mundo sobrenatural.
Passaram por muitas pessoas que Jason não conhecia. Admitia que estava procurando Connor, seu pai, ali no meio daqueles quadros, mas sua atenção foi tomada por outro quadro. E, naquele momento, seu coração acelerou e ele arregalou os olhos, enquanto olhava para o garoto de cabelos negros que possuía um quadro naquele corredor.
“Santo Pacificador Owen Dunkelheit — Morto em Serviço”
Jason não conseguia acreditar naquilo. Sentiu a mão trêmula aproximar-se do quadro de Owen. O que aquilo significava?! Owen era um bruxo?! Então… Por que Jason nunca soubera? Selena sabia? Se sim, por que não contara para ele?!
Sentira a mão de Alice em seu ombro.
— Jay… Relaxe, ok? Tenho certeza que há um motivo para…
— Então você também sabia? — indagou Jason, inexpressivo.
— O Owen foi aprendiz de sua mãe, o primeiro aprendiz, e também um bruxo excepcionalmente talentoso. Eu sou parceira de sua mãe, mas até bruxas do outro lado do país conhecem Owen Dunkelheit, o bruxo que, aos quinze anos, já era um Pacificador melhor que a maioria da Irmandade da Bruxaria.
— Então ele era aprendiz de minha mãe… Tsc. Parece que as coisas são mais complicadas do que eu esperava.
Alice sentia aqueles sentimentos negativos queimando dentro do garoto. “Pelo amor de Deus, Selena, por que não contou para ele antes?!”
Quando virou-se para ela, Jason estava com um sorriso claramente falso.
— Vamos.
Por algum motivo, Alice sentiu um arrepio percorrer seu corpo com o som da voz do garoto. Logo entendera que ele estava encontrando seu próprio jeito de demonstrar fúria.
Quando aproximaram-se, Jason não olhou para ninguém. Olhava de maneira vazia para baixo, mas Lily parou, suspirou e olhou séria para Selena.
— Seu filho parece estar com alguns problemas. Voto para nos apressarmos.
Provavelmente conversando telepaticamente com Alice, Selena soube na hora o que acontecera, mas Jason não ligava. Não olhava para ela. A Torre fechou e abriu a mão.
“Seria muito mais fácil se você nunca soubesse”, pensou Selena.
Jason apenas seguia Lily. Logo, Selena e Alice acompanharam-nos.
Chegaram diante de uma enorme porta de madeira escura que criava um belo contraste com o cenário dourado do interior do Santuário. Jason não prestava muita atenção. Lily abriu a porta, e os quatro entraram em uma sala que finalmente prendeu a atenção de Jason.
Diferentemente do resto do palácio, esta sala era cinzenta e escura, feita de pedras. Quatro pilares sustentavam a sala, e neles havia quatro pontos de luz mágica em cada.
Entretanto, o que chamava mais a atenção era o poço no centro da sala. Um poço com um líquido de um azul fluorescente e limpo. Seu brilho era consideravelmente maior que as luzes mágicas nos pilares.
Parados do lado oposto do poço fluorescente, estavam duas pessoas. Um bruxo e uma bruxa. Jason já sabia que tratavam-se do bruxo mais velho vivo, o Torre Noah Scheneizel, e da Anciã da Irmandade da Bruxaria.
O bruxo tratava-se de um homem idoso que aparentava ter oitenta anos ou mais, cheio de rugas e com a coluna torta, cabelos brancos que caíam na altura do pescoço e um cavanhaque branco. Seus olhos em tom esbranquiçados indicavam cegueira, e o homem possuía uma cicatriz que deformava seu rosto da testa à bochecha direita. Usava um manto branco e apoiava-se em um cajado, criando a imagem de um experiente feiticeiro da ficção e fantasia.
A bruxa ao seu lado parecia ter entre quarenta e cinco e cinquenta anos — embora, pelo modo que Selena falava dela, ela parecesse bem mais velha —, era alta e esguia, com cabelos castanhos presos em um coque. Seu semblante era frio e seus olhos em um tom dourado (incomum, mesmo para praticantes de bruxaria) olhavam tão profundamente Jason que ele sentia como se a mulher estivesse tocando sua alma. Usava um colar dourado e um vestido vermelho que combinavam com ela.
Os dois emanavam presenças extremamente nítidas. A aura mágica de Scheneizel era quase tão poderosa quanto a de Selena — embora um pouco menor, talvez devido à idade —, já a presença da Anciã (que não parecia uma anciã perto do Torre Noah) era diferente. A presença dela era tão esmagadora que fazia qualquer aura que Jason já havia sentido parecer uma piada. Ela era intimidadora e parecia devorar o ar de dentro da sala, e por um momento Jason perguntou-se se sequer aguentaria se mover na presença daquela mulher. Na presença da bruxa mais poderosa viva.
Lily colocou a mão no ombro de Jason e, embora a mulher de cabelos roxo berrante às vezes parecesse intimidadora, seu toque fez com que o jovem bruxo perdesse a sensação de mal-estar que sentia.
Os quatro aproximaram-se da Anciã e de Noah. O velhinho sorriu gentilmente.
— Que bom que chegaram. Selena, Alice, Liliane, jovem Godren.
— É-é um prazer conhecê-los, S-Senhor Scheneizel, Vossa…
Com um gesto da mão, Jason entendeu que não deveria referir-se à Anciã daquele modo.
— Apenas Anciã — disse ela, com a voz fria. — Abandonamos nome, bem como demais títulos, no momento em que ascendemos ao cargo de líder da Irmandade.
— S-sim, Anciã.
A mulher olhou Jason de cima a baixo, e ele sentiu-se incomodado com aqueles olhos dourados que pareciam atravessar qualquer barreira. Jason sequer imaginava que a bruxa já estava lendo sua mente, pois ela fazia isso de modo que ninguém poderia notar (Jason já aprendera a sentir quando alguém lia sua mente, mas não estava preparado para a investida da mestra de bruxaria). Além da facilidade com que a Anciã o fazia, ela não lia apenas pensamentos.
Ela lia memórias. Fez expressões estranhas quando viu Duncan e Niel, mas não fora tão grave quanto o que ocorreu posteriormente. Quando chegara a certo momento, as interações de Jason com o Corruptor, a Anciã fechou os olhos.
— Você é uma criança muito especial, bruxo Jason Godren.
A Anciã olhou para a própria mão. Cinco esferas de raios dourados, uma em cada ponta de seus dedos, foram formadas. Ela então olhou para Jason.
O garoto não viu quando aconteceu. Ele piscou os olhos, e então caiu de joelhos no chão. Ninguém se movia. A Anciã sempre sabia o que fazia, era o que diziam.
Jason sentia cinco pontos em sua barriga queimarem. Então, aquela sensação sombria que vinha tendo, seja na presença do Corruptor ou quando descobrira a verdade sobre Owen, foi completamente suprimida.
A maior das bruxas então olhou para Selena, Lily e Alice, enquanto Jason gemia de dor no chão.
— Fairyshall tornara-se perigosa. É por isso que mandei Lily para auxiliá-las. Eu raramente mando reforços em cidades protegidas por Torres.
— Tem a ver com a falha na Muralha? — perguntou Selena, séria.
— Sim. Nunca houve confirmação de que ela realmente existe — acrescentou a Anciã —, mas, se existir, é dela que o Culto de Mamon está atrás. O culto é comandado por Arvak, um demônio que já liderou muitos cultos ao príncipe Mamon em diversos locais do mundo. Ele, possivelmente, está atrás de um meio de abrir a Muralha pelo menos para que seu mestre obscuro passe.
— Mas como fariam isso? — perguntou Alice.
— Através — explicou Noah, o mais velho bruxo vivo — das Pedras da Lua.
A dor de Jason começara a passar, e agora ele tentava entender a conversa.
— Ainda existem Pedras da Lua?! — indagou Lily, surpresa.
— Dizem que existem treze espalhadas pelo mundo — contou Scheneizel. — Mesmo assim, não conhecemos seu paradeiro. Dizem que a Pedra da Lua Negra foi escondida por um Príncipe Demoníaco, e podemos teorizar que não está com Mamon.
— De quantas Pedras da Lua eles precisariam para abrir um portal para um Príncipe Demoníaco passar? — perguntou Jason, chamando a atenção dos demais.
Noah Scheneizel encarou-o por um momento antes de responder.
— Quatro.
— Então não importa muito quantas existem — comentou Jason, dando de ombros. — Se eles tiverem menos de um terço delas eles já podem abrir o portal. Sério, eles estão em Fairyshall, então, se eu tiver de teorizar, só há duas opções: ou eles já têm as quatro Pedras da Lua e só precisam encontrar um local onde a Muralha é menos resistente, ou…
— … a última Pedra da Lua está em Fairyshall — completou a Anciã, dando um leve sorriso. — Gosto do modo que pensa, garoto. E acredito que esteja correto. Ou eles buscam por Fairyshall porque, segundo os rumores, foi aqui que Asmodeus abriu a fenda, ou o porquê é o fato da Pedra da Lua estar aqui.
— Neste caso, devemos mandar mais bruxas para Fairyshall? — indagou Noah.
— Não podemos — negou a mestra de magia. — Não existem bruxas suficientes no mundo para ficarmos mandando mais de três para a mesma cidade, ainda mais uma Torre. Selena, Alice, eu estou mandando Lily para auxiliá-las, mas o resto é com vocês. Não temos recursos para isso. Mesmo que seja a possível volta de um Pecado Capital, se mandarmos mais bruxas muitos inocentes morrerão nas outras cidades sem bruxas.
— Entendemos, Anciã — concordou Selena, baixinho. — Mas, eu quero fazer uma pergunta…
— Faça — permitiu a Anciã, cuidadosamente.
— Quero saber se posso utilizar os métodos necessários para impedir a vinda de Mamon.
— … que tipo de métodos? — perguntou Scheneizel.
— Desejo permissão para compactuar com seres demoníacos neste objetivo.
Com o pedido da Torre Selena Godren, um silêncio instaurou-se na sala. O espaço pareceu tornar-se mais frio e sombrio.
— Espero que não tenha dito tal barbaridade, Selena — pediu Noah, calmamente. — Você, mais do que muitos, sabe que os demônios são nossos inimigos e também o que eles são capazes de fazer.
— Tenho ciência de seus temores e experiências — interveio Selena —, mas nem todos os demônios são iguais. Mudanças estão ocorrendo, e estou disposta a confiar nestes seres.
— Duncan Livesking — pronunciou-se a Anciã, olhando para Selena —, Niel e Luna Silverstone. Estes são os demônios com quem não apenas pede para compactuar, como já compactua?
Selena escondeu rapidamente o espanto, e Jason entendeu que a Anciã havia lido suas memórias.
— M-mas como…?
A Anciã ignorou o aprendiz, e trocou olhares com Noah.
“Você sabe o que eles me fizeram”, disse Noah telepaticamente.
“Sim”, concordou a mulher, “mas chegaram tempos de mudança”.
Ela olhou para Selena.
— Tem permissão para receber auxílio destes demônios, se confia neles.
— Obrigada, grande Anciã.
Noah Scheneizel não retrucou. Ficou em silêncio, de cara fechada.
Lily olhou para Jason.
— Deixe a sala, jovem bruxo. Os assuntos aqui abordados não são de seu interesse.
Jason duvidava muito daquelas palavras, mas queria tomar um ar, e pensar um pouco. Então, aceitou deixar as Torres e bruxas para trás.
*
O jovem bruxo olhava para o estrelado céu noturno, perguntando-se em que país ficava aquele Santuário. O teleportal poderia tê-los levado para qualquer lugar.
Ficou admirando a noite fria e silenciosa, sozinho com seus pensamentos. Pensava em Owen, e no fato dele fazer parte da Irmandade da Bruxaria. Pensou nos possíveis motivos para Selena e Alice não terem contado isso para ele. Pensou em Luna, que devia estar resmungando sobre a injustiça de ter sido deixada para trás.
Ouviu passos, e soube que mais alguém havia saído do palácio. Também reconhecia de quem eram aqueles passos.
Selena sentou-se ao seu lado, e os dois ficaram em silêncio no último degrau da escadaria, observando a ponte e o lago. A Torre, inicialmente, não disse nada. Após um longo período em que a única coisa que reinava era o silêncio, Jason finalmente resolvera quebrá-lo ele mesmo.
— Então o Owen era um bruxo?
A resposta demorou um pouco a vir.
— Sim.
Jason assentiu.
— Ele… — continuou Selena, gaguejando levemente. — Ele era meu aprendiz. Também era o terceiro Pacificador de Fairyshall, junto de mim e de Alice. Ele recebeu fama até fora da cidade por ser um bruxo excepcionalmente talentoso.
— Tsc. Ele era assim mesmo. Era o melhor em tudo o que fazia.
Mais um momento de silêncio, e então Selena prosseguiu.
— O Owen tinha uma irmã. — Jason arregalou os olhos, e Selena continuou. — Ela também era uma bruxa, mas não era como as outras. Ela possuía uma doença que tornava seu corpo extremamente frágil. Ela ficava no Santuário, sem poder sair. Era o motivo de Owen às vezes sumir por alguns períodos. Ele visitava a Thalia, que obviamente não podia visitá-lo.
— … Onde está a Thalia?
Selena respirou fundo.
— Foi levada para tentar realizar um ritual que permitiria ajudar seu corpo a voltar ao normal. A tentativa falhou, pois foram atacados por demônios. Ela e as cinco bruxas que escoltavam-na foram assassinadas. O-o Owen foi atrás destes demônios…
Selena não concluiu. Não precisava. Jason já entendera o que aconteceu. Então Owen fora morto por demônios. Por um único momento, Jason sentiu imenso ódio. Um sentimento que ele não acreditava que poderia existir. Mesmo assim, respirou fundo, e aquele sentimento diminuía.
Jason olhou para sua mãe, e sorriu de canto.
— Parece que ele passava mais tempo com você do que eu.
Jason talvez não tivesse nenhuma intenção, mas aquelas palavras magoavam Selena. Principalmente por saber que era verdade. Tanto com o treinamento, com a caçada a demônios e com o simples fato de que Owen era praticamente irmão de Jason, e viviam juntos. Selena realmente passava quase o dia todo com o Dunkelheit, e nem metade deste tempo com Jason.
Quanto mais pensava nisso, mais abalada ficava.
Seu filho levantou-se.
— Então eu só fui chamado aqui para que a sua Anciã queimasse a minha barriga e para que soubesse do Owen? Se sim, acho que já é hora de ir embora.
Jason precisava colocar seus pensamentos em ordem. Então Owen fora aprendiz de sua mãe tal como ele estava sendo agora? Então ele tinha uma irmã, e morreu tentando vingar sua morte? Eram informações que Jason nunca imaginaria. Vivera muito tempo com o Dunkelheit, e nunca encontrara nenhum sinal de que ele poderia ter sido um bruxo.
Naquele momento, a sua melhor opção era colocar os pensamentos em ordem. Até porque também imaginava que precisariam se preocupar com o tal Culto Carmesim.
Olhou de soslaio para sua mãe.
“Vai querer manter-me de fora novamente”, pensou, levemente irritado. “Não sou mais uma criança. Sou um bruxo. Lidei com muitos demônios. Lidei com o Corruptor. Não vou mais te deixar sofrer riscos sozinha, mãe. Nunca mais.”
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