A Magia do Submundo
12 O Doutor Eliminado
Notas iniciais
Enquanto Jason estava no Santuário e Luna estava em sua casa, um homem de postura ereta e respeitável, com cabelos grisalhos e de idade claramente avançada, de terno negro, caminhava pelo mesmo bairro onde o Corruptor fora expulso.
Niel Silverstone já havia verificado os resíduos das duas presenças sobrenaturais, uma de um demônio poderoso e outra de algum outro ser sobrenatural. Niel não conseguiu reconhecer aquela presença. Era como a Herança das bruxas e bruxos, mas muito mais sombria e distorcida. Niel nunca viu nada igual.
Seguindo caminho, ele foi até o sobrado onde os demônios iam para receber alimento. Entrou na residência e foi até uma parede vazia.
— Demonstre-me o Orgulho proveniente da Estrela da Manhã.
Após o contorno vermelho e prateado abrir a passagem, Niel seguiu pelo caminho no túnel até alcançar a sala branca onde o Dr. Pietro costumava ficar. Quando entrou na sala, Niel caminhou com calma até o lado oposto de uma maca. Quando viu aquilo, apertou os punhos com tanta força que estes sangraram.
O corpo morto de Pietro estava com a cabeça partida ao meio, e havia um buraco do seu pescoço até sua barriga, como se tivesse sido devorado por alguma coisa. Niel olhou para aquela cena com desprezo.
— Então, além de assassinato, vocês cometeram canibalismo.
Afinal, Pietro era um demônio, e fora devorado por outros demônios. Normalmente, apenas carniçais e cães do inferno devoravam outros demônios.
Niel nem olhou quando um cão infernal saltou em sua direção, aquela criatura branca e esquelética, de orbes vermelhas no lugar dos olhos. O velho apenas suspirou, e uma marreta surgiu, esmagando a cabeça do demônio contra o chão.
Outros dois cães infernais saíram detrás de um armário e atacaram Niel. Uma chuva de adagas surgiu do nada, estraçalhando os corpos dos cães.
Niel olhou para seu antigo amigo, agora devorado. Os olhos do velho momentaneamente brilharam em tom vermelho-sangue, e ele liberou minimamente sua presença.
— Quem é o responsável por isso? Não importa, pois esta pessoa morrerá.
Niel voltou pelo túnel, buscando resquícios de aura. E achou a mesma que sentiu próximo ao prédio em construção. A presença de um demônio poderoso.
Este demônio morreria.
*
Estavam em casa novamente. Jason não sabia sobre o que a Anciã, Noah, Selena, Alice e Lily haviam conversado antes de saírem do Santuário. E, sinceramente, ele não queria mais saber.
Quando chegaram em casa, Jason subiu as escadas, tomou banho e foi para o quarto. Lá, apenas deitou na cama, sem usar cobertas, e fechou os olhos.
Então Owen era um bruxo também? Era um Pacificador que lutava contra demônios? Um bruxo espetacular? Sim. Ele era tudo isso. E Jason jamais soubera. E, aparentemente, Selena nem queria que ele soubesse, como se fosse algo ruim. E era esse pensamento que intrigava e irritava Jason. O bruxo estava começando a questionar-se se havia mais naquela história do que Selena estava contando.
Talvez o demônio que matou Owen estivesse vivo? Talvez Selena temesse que Jason fosse atrás dele? Mas que demônio afugentaria uma Torre?
Um Príncipe Demoníaco.
Mas qual? Seria Asmodeus? Ou Mamon? Pelo que Jason ouviu dizer, Lúcifer e Belzebu estavam mortos, o Leviatã ainda estava no inferno e Azazel e Belphegor sumiram. Este último fato não parecia preocupar sua mãe, então Jason apenas descartou-os. Asmodeus e Mamon eram os dois demônios que Jason ouvia causarem temor no mundo sobrenatural.
Mas como seria Asmodeus? Isso significaria que ele estava mesmo no mundo humano, mas nenhuma bruxa parecia acreditar nisso. Sobrava Mamon, mas o Culto estava justamente tentando trazê-lo para o mundo humano (supostamente), então como? O Culto de Mamon seria o responsável? Isso significaria que eles já estiveram em Fairyshall antes?
E quanto aquele selo que a Anciã colocou nele? Jason sabia que era um selo, tanto pelas runas, pelo formato, quanto pelo fato de que sentiu algo ser suprimido dentro de si. Mas o quê, e por quê?
Eram muitas perguntas, e Jason sentia que elas não faziam sentido. Nada fazia sentido. Sua mãe escondia coisas dele. Ele não era bom o suficiente para que ela confiasse nele. Amargurado, Jason sentiu uma lágrima cair.
“Mãe… quem eu sou não é o suficiente?”
Jason adormeceu com este pensamento. O pensamento de que, mesmo localizando o antigo esconderijo do Culto de Mamon, mesmo expulsando o Corruptor, ainda não havia provado seu valor. Ainda não era considerado apto para ajudar. Selena Godren temia que algo ocorresse com ele, mas qual era o motivo de tanta preocupação?
Jason não poderia saber. Não poderia sequer imaginar.
*
O retorno ao colégio seria muito melhor se Jason não estivesse morrendo de sono. Levantou com tanta preguiça que cogitou pedir para faltar aula. Por fim, desistiu do plano e levantou-se.
Após fazer sua higiene, comer e trocar de roupa, o jovem bruxo saiu de casa sem pensar muito em Selena. Sabia que Duncan estaria lá para levá-lo para a escola.
Duncan não estava. Jason aguardou por quase quinze minutos, e seu tio não apareceu. Suspirando e sentindo sua magia oscilar pela raiva, o garoto começou a caminhar em direção à escola.
Chegaria atrasado naquele dia.
*
Quando alcançou o portão, o porteiro sorriu para ele. Era um homem idoso, que por algum motivo usava óculos escuros até em dias chuvosos, com um cavanhaque e um bigode espesso.
— Faz quanto tempo que não chega atrasado, Godren?
— Atrasado de verdade? Acho que desde o ano passado, quando quebrei o braço — respondeu o bruxo, rindo sem graça. — Tenha um bom dia, senhor Christopher.
Caminhou pelo pátio e pelos corredores — quase — vazios e finalmente chegou à sua sala. Quando entrou, o professor Harrison sorriu para ele.
— Pensei que não viria hoje.
— Meu tio resolveu desaparecer — contou Jason, forçando uma risada.
O professor pediu para que Jason se sentasse. Perdera muito tempo de aula. Demorou um pouco para conseguir pegar no tranco e entender o assunto abordado na aula.
Enquanto terminava de copiar o que estava no quadro, olhou ao redor. Robb e Bia pareciam conversar através de sinais que haviam criado para uma campanha de RPG quando seus personagens ficaram mudos, mas que acabou tornando-se uma linguagem secreta do grupo.
Olhou para Luna. Ela olhava para ele também, mas desviou o olhar e assumiu uma face um pouco emburrada. O bruxo viu-se observando-a por mais tempo do que seria considerado normal, e logo balançou a cabeça. Conversaria com a meio-demônio depois, pois já esperava aquela reação dela por ter sido deixada de fora.
Ao lembrar do “disfarce” de Luna para ir ao Santuário, Jason soltou uma leve risada.
Após a terceira aula, o sinal do intervalo tocou. Como sempre, Robb e Bia saíram com o amontoado de cabeças que corriam sem organização, enquanto Jason e Luna ficaram para trás.
Logo a última cabeça sumiu, ambos levantaram-se e começaram a caminhar lado a lado. Luna ainda estava com aquela face emburrada.
— Vai ficar assim até quando? — perguntou Jason, dando um sorriso.
— Não te interessa, Sujeito Anônimo — respondeu a garota, ríspida.
— Isso é porque eu fui visitar o Santuário junto com todo mundo e você não? — provocou Jason, mas, ao ver a decepção nos olhos de Luna, como uma criança cujo melhor presente possível fora negado, arrependeu-se. — Ei, relaxe. Um dia você poderá visitar o Santuário.
— Ah, jura? — zombou Luna, cética. — Quando?
— Quando eu realizar o desejo de meu pai.
“A paz entre bruxas e demônios”, pensou Luna, arregalando levemente os olhos.
Ao perceber que Jason a olhava, assumiu novamente a face emburrada. O garoto sorriu de canto.
— Parece que terei que utilizar a minha técnica secreta.
Jason voou para cima de Luna e começou a fazer cócegas na garota. Ela tentou se afastar, mas não conseguiu, e agora sua face fria foi substituída por gargalhadas.
Quando conseguiu segurar os pulsos de Jason, os dois sorriram.
— Viu? Problema resolvido.
— Está morto se fizer isso de novo.
— Suas ameaças não me assustam mais.
Jason então largou-a e começou a caminhar pelo corredor. Olhou para trás, esperando que Luna seguisse-o. Ao notar isso, a mestiça saltitou até ele.
Sorria. Aquele sentimento que jamais sentira voltou. O sentimento de que finalmente tinha alguém com quem dividir seus momentos. Alguém além de seu pai.
*
Quando a aula acabou, os quatro saíram do colégio. Robert e Jason discutiam sobre super poderes.
— Mas telecinese é incrível — argumentava Jason. — Poder mover as coisas com-a-men-te.
— Viajar no tempo é muito melhor! Ou teleporte!
— Teleporte?! Viagem no tempo?! — exclamou Jason, sorrindo. — São poderes muito perigosos. Se você errar o local no espaço-tempo para realizar o teleporte ou a viagem temporal, levando em conta que a Terra se move a dezenas de quilômetros por segundo… É. Você acabaria literalmente no meio do espaço se tentasse realizar essas coisas. Você precisaria ficar por meses calculando e recalculando para usar seu poder uma única vez, garantindo que o tempo, data e local são perfeitos.
— Odeio quando você usa esses argumentos meio complicados, Jay — resmungou Robert. — Se você começar a pensar assim, vai achar algum defeito no poder de todo super herói.
— Isso poderia ser resolvido — continuou Jason — com um tipo de ponte que ligasse os teleportes. Isso impediria que você fosse para outro lugar durante a viagem.
— Como uma ponte — entendeu Bianca. — E o rio abaixo dela seria o espaço vazio do universo. Teria que seguir a ponte para não cair.
— Exatamente — concordou Jason.
Luna ouvia a conversa e suspirava. “E ainda existem seres capazes de realizar esses tais ‘cálculos complicados’ em milésimos de segundo”, pensou ela.
Uma van chegou na esquina. Luna surpreendeu-se. Ultimamente, ficava na casa de Jason durante a tarde. Mas reconhecia aquela van como o veículo de seu pai.
Após despedir-se (para a surpresa de Jason, principalmente), Luna foi até a esquina e entrou na van. Niel estava com um olhar sério. Mal respondeu o cumprimento da filha, e ela logo entendeu que havia algo acontecendo.
O demônio mais velho pronunciou-se:
— Você não deve voltar até a sede dos demônios.
— Por quê?
— Pietro está morto.
Luna ficou estática. Olhou para frente, e seus olhos verdes agora brilhavam em tom vermelho-sangue. Finas lágrimas escorriam de seus olhos, mas não eram lágrimas comuns. Eram lágrimas vermelhas, que deixavam um rastro em sua pele. Rastros de sangue.
Niel olhou de soslaio para a filha.
— Controle-se. Se você perder o controle, Fairyshall pode estar em perigo. É isso que você quer?
Luna respirou fundo, e então olhou para o pai, limpando as lágrimas de sangue no uniforme e sujando-o.
— Você sabe o que vai acontecer agora, não sabe?
— Sei, Luna. Você irá para a sede, mesmo que eu tenha recomendado o oposto. Sinceramente? Eu sei de tudo. Mas eu peço que tome cuidado.
— Tomarei. Sabe que nenhum demônio da cidade pode me ferir.
— Sozinho, talvez não — murmurou Niel, logo em seguida acrescentando: — Também não leve o jovem bruxo com você.
— P-por quê?
— Porque é perigoso. Não precisei chegar muito perto para notar o Selo de Kurakuma nele. Se a Anciã das bruxas fez isso, significa que a situação esquentou mais do que deveria.
— O que está acontecendo com o Jay?
— Não posso dizer. Mas ele não estará em segurança se for colocado em perigo novamente. Seja lá o que houve nos últimos dias, Jason Godren está com alguns problemas — explicava o velho demônio. — Pode contar a ele, mas não o leve para a sede.
— Pode deixar. Estou mesmo com vontade de me vingar por ele não ter me deixado ir ao Santuário. Quer dizer, foi a senhora Selena, mas isso não importa. — Luna olhou para Niel. — Vou investigar e tentar descobrir quem foi que fez isso com o Pietro.
— Mais uma coisa. Seja lá qual for o demônio que fez isso, ele também estava observando o confronto entre Jason e o Corruptor. Tome cuidado com isso.
— Mais alguma coisa?
— Além de haver alguns cães infernais lá… Outra aura residual estava observando o bruxo e o Corruptor. Era uma presença sombria, mas não demoníaca. Tome muito cuidado com isso.
Luna assentiu.
— Acho que só preciso descobrir como é a aura deste demônio. Talvez eu reconheça ela.
— E o que fará depois?
— Vou achá-lo. Não me olhe assim. Não vou me arriscar demais.
Niel não acreditou. Mas Luna sabia se cuidar. Agora que o Corruptor havia sido expulso, duvidava que outro demônio poderia realmente vencê-la.
*
Quando chegou em casa, novamente caminhando, Jason já estava frustrado. Onde estava sua mãe? E seu tio? Eles estariam juntos? Mas, se sim, Jason não sabia exatamente o que estavam fazendo.
Foi no meio do caminho que entendera. Os dois deviam estar procurando a tal Pedra da Lua em Fairyshall. Afinal, além dos demônios comuns, havia o Culto de Mamon. Talvez Selena, Alice e a tal Lily estivessem colaborando com Duncan para que parte deles eliminasse demônios e a outra parte procurasse a Pedra da Lua.
Jason não sabia, mas estava correto. Pelo menos, parcialmente correto.
Entrou em sua casa, mas percebera algo estranho: a porta não estava trancada. Estava do mesmo jeito que estivera quando o bruxo saiu, o que fez o garoto questionar se sua mãe sequer estava em casa quando ele acordou, de manhã.
Deixou a mochila do lado da porta e, sem pensar muito, puxou o cilindro-bastão-lança-espada de um dos bolsos da mochila. O garoto então começou a caminhar com cuidado, pois sentia que alguém havia tentado ocultar sua presença naquele local. Jason era surpreendentemente bom em reconhecer isso.
Ouviu um barulho na cozinha. Cuidadosamente, caminhou até lá, escondendo-se ao lado do espaço onde ficaria uma porta. Respirou fundo, e pulou para o lado.
Uma mulher de cabelo roxo berrante sentiu seu coração pular uma batida quando, subitamente, um garoto pulou para dentro da cozinha. Lily, com uma fatia de pão na mão, olhou assustada para Jason.
— V-você quase me matou de susto, pirralho inútil!
— S-senhorita Liliane — percebeu Jason, corando. — E-eu não esperava te ver por aqui.
— Que seja. Sua mãe está procurando a Pedra da Lua, e aquele gordo com cheiro desagradável está ajudando a Alice na caça de demônios que atravessam a Muralha — explicou a bruxa. — Eu fico assustada com a quantidade de demônios que surgem nesta cidade. Mesmo com uma Torre eles não param de surgir.
— Realmente. Mas um dia eu poderei ajudar minha mãe, e os demônios vão acabar!
“Talvez, quando a paz for alcançada, não surjam demônios nunca”, refletiu Jason. Lily riu, seca.
— Está sonhando alto, criança.
— P-pare de ler minha mente! É irritante. Eu esqueci de bloquear isso.
— Tanto faz. Estou aqui para continuar seu treinamento. Eu estou um pouco decepcionada, porque sou melhor que a Alice, mas talvez a sua mãe apenas ache que a novata iria explodir você acidentalmente.
— Parece ter algo contra a Alice.
— Não exagere. Gosto dela. Apenas acho ela meio… inexperiente. Mas isso é algo que pode mudar com o tempo. Afinal, estou aqui para treiná-lo, e se a inexperiência não pudesse ser mudada não haveria sentido em treinar alguém.
A mulher continuou comendo o pão, o que, para Jason, tirava boa parte do peso das palavras da bruxa. Ele também achava ela… diferente. Normalmente, a primeira impressão que teve dela é de uma mulher fria e experiente, porém aquele cabelo de um roxo berrante constratava completamente com aquilo.
A bruxa olhou para Jason.
— O que aprendeu sobre magia?
— Detecção e ocultação de presença, fechar minha mente contra telepatia e também bastante de telecinese. Acho que sou bom nisso.
— Se enfrentou um Corruptor, imagino que não haja motivos para duvidar de suas palavras — decidiu Lily, após um momento. — Muito bem. Arrume-se, pois iremos para um lugar mais adequado.
— Adequado… para quê?
— Acho que, com tudo isso de Culto de Mamon, será bom você começar a treinar magia elemental. Está ligado a qual elemento?
— Acho que ar.
Lily assentiu.
— Perfeito. Vamos.
— Para onde?
— Qualquer lugar mais isolado ao ar livre. Alguma sugestão?
Jason pensou por um breve momento, mas não precisou de muito tempo para decidir uma escolha óbvia.
— Tenho, sim.
*
Estavam indo ao local onde o bruxo, pouco tempo atrás, ergueu a grande pedra em uma das últimas fases do treinamento de telecinese. No caminho para lá, Lily comentou que iriam, além de iniciar o treinamento elemental, terminar o ramo da telecinese — pelo menos, fazer Jason chegar ao nível que era possível, pois ele ainda não tinha uma Herança poderosa o suficiente para chegar ao estágio final da telecinese.
Adentraram a floresta, tão próxima da casa de Jason, e chegaram ao local indicado pelo garoto. O lago continuava belo como sempre, e a areia estava quente devido ao sol que ia de encontro ao solo. Quando olhou ao redor, Lily pareceu satisfeita.
— Boa escolha, garoto. Agora, eu não sou do tipo que ficará esperando — alertou Liliane. — Meu tempo é precioso. Portanto, vamos começar.
Lily sentou-se de joelhos na areia, e Jason entendeu que deveria fazer o mesmo. A bruxa olhou em seus olhos. Os olhos da mulher eram mais claros que os de Luna.
— A magia está em todos os lugares. É uma força que existe em uma realidade paralela à nossa, que apenas um grupo seleto de pessoas que possuem ascendência dos usuários originais deste poder pode sentir e manipular. Nós todos possuímos descendência, em grau maior ou menor, da família de bruxas e bruxos originais. — Lily fechou os olhos, e Jason acompanhou-a. — Para dominar a magia, é preciso senti-la. Conectar-se com seu elemento, senti-lo na pele. Deve sentir o ar ao seu redor, senti-lo adentrar seu corpo. Conectar-se com a sua Herança. Você é especial, Jason Godren, além de ser talentoso e também filho de uma Torre. A sua Herança é poderosa, e você aprende surpreendentemente rápido, já que evoluiu muito a telecinese antes mesmo da Irmandade te encontrar. Agora, você deverá mostrar que possui realmente potencial para ajudar sua mãe.
Jason assentiu, determinado. Ainda tinha um longo caminho pela frente, sabia ele. Telecinese avançada, magia elemental e também a derivação de seu elemento, telepatia, ilusão leve, e Jason almejava ainda mais além. Almejava as Barreiras de Herança e a Projeção Astral, feitiços que apenas a Grande Anciã da Irmandade da Bruxaria sabia atualmente.
Por enquanto, precisava focar no poder elemental. Precisava sentir aquilo no âmago de seu ser. Na sua essência. Precisava provar para todos que tinha sim o direito de ajudar. Que poderia ser útil.
— Meu Deus — murmurou Lily.
Quando Jason abriu os olhos, viu a bruxa a dez metros de distância dele. Tudo em um raio de um metro de Jason continuava comum, mas no restante, ventos furiosos levantavam areia e rachavam o solo. A água também agitava-se. Uma parede de vento dificultava a visão do rapaz, e só naquele momento ele sentia os cabelos balançarem.
Jason retomou o controle, assustado. Quando conseguiu, ficou olhando ao redor. Lily suspirou, ainda distante do garoto.
— É. Sua Herança talvez seja maior do que eu esperava.
“Mas ele está com o Selo de Kurokuma. Não deveria estar tão instável”, pensou Lily, analiticamente.
— Godren, acho que isso talvez demore mais do que eu gostaria.
Jason assentiu, ainda em choque. Tinha certeza que aquilo não deveria ter acontecido.
O período de treinamento de Jason iria iniciar de verdade, e ele sabia que muito seria necessário para que ele conseguisse evoluir em ritmo acelerado o suficiente para ajudar Selena. Mesmo assim, o garoto estava decidido a ajudar, e faria isso de um jeito ou de outro.
O primeiro passo seria dominar a magia elemental.
*
Era noite. Em um local próximo à sede dos demônios, esta que agora fora comprometida, uma sombra parecia diferente das demais. Era mais escura que o normal, e parecia movimentar-se. A sombra foi crescendo e se contorcendo até finalmente uma silhueta sair dela.
Luna sacudiu-se, irritada. Odiava aquela sensação que tinha quando viajava pelas sombras. Mas o que ela gostava era irrelevante. O que importava era o que era necessário fazer.
A meio-demônio olhou ao redor e, ao certificar-se que ninguém havia visto-a (talvez porque aquele bairro era pouquíssimo movimentado, e era difícil encontrar alguém andando por ele durante a noite), ela começou a caminhar em direção à sede dos demônios. Podia ir procurar pela aura residual do assassino em um prédio próximo daquele prédio em construção, mas não sabia exatamente em qual prédio ele estivera e esquecera-se de perguntar isso a Niel.
Quando entrou no sobrado branco e com pouca mobília, percebera que o local parecia mais sombrio que o normal. Claro, a polícia não iria investigar aquela casa. Não sabiam da morte que ocorreu. Como poderiam?
Luna foi até a parede vazia, anunciou a frase chave e entrou no túnel. Aquele local era tão escuro e o ar tinha um cheiro tão ruim que por um momento Luna ponderou ir procurar prédio por prédio atrás da aura do demônio que matou Pietro.
Sabendo que isso seria um desperdício de tempo, a mestiça continuou seguindo o caminho pelo túnel. Ao chegar na bifurcação, atrasou o passo momentaneamente, mas logo foi pelo caminho correto.
Chegou no “consultório” do Dr. Pietro. Ao investigar melhor, pode sentir e decorar a presença do demônio. Agora que pensava… Sim. Já havia visto aquela aura. Era a presença do homem baixo que ela viu quando fora buscar comida, pouco tempo antes. Então Pietro havia morrido recentemente.
“Tenho a aura e a aparência física dele”, pensou Luna. “Mas… tem algo de familiar nele… O cheiro dele…”
Então, Luna juntou as peças.
— O cheiro dele estava no Corruptor. Ele próprio estava vendo o Corruptor lutar contra o Jay… Ele faz parte do Culto.
Luna, satisfeita por possuir esta informação (ou, pelo menos, ela torcia por isso), pegou o celular e ficou encarando a tela desligada por um momento. Então, após decidir-se, a garota mandou uma mensagem para Jason.
— “Sujeito Anônimo, eu estou indo dar um jeito em um de nossos problemas. Tenho um plano para descobrir onde está o Culto de Mamon, ou pelo menos um membro dele. É pouco provável que eu esteja em casa nos próximos dias, mas nada é impossível. Avise para sua mãe, eu avisarei meu pai. Após ler esta mensagem, apague-a. E não se preocupe comigo. Sei me virar.”
Após mandar a mensagem, Luna guardou o celular no bolso, abriu a jaqueta de couro e suspirou.
— Agora, vamos atrás de um demônio.
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