A Magia do Submundo
4 Feitiçaria e Demonologia
Notas iniciais
Já era quase dez horas da manhã quando Jason finalmente estava pronto para iniciar o teste com sua mãe. Selena ficara em casa naquela manhã, no intuito de introduzir seu filho aos ensinamentos das bruxas.
Jason teve dificuldade para dormir naquela noite. Tudo o que havia ocorrido ocupavam seus pensamentos. Enquanto o tempo passava, mais nervoso — e também animado — Jason ficava. Seria sua primeira “aula de magia mágica”, como ele mesmo apelidara.
Entretanto, antes que sua mãe lhe chamasse, seu celular vibrou. Jason olhou e percebeu mensagens no seu grupo — A União dos Retardotários. Quando abriu a mensagem, percebera que era de Robert.
“Robb: Por que faltou hoje, vadia? '^' Só avisando que vai ter prova de matemática na semana que vem”
“Jay: Tive alguns problemas e não pude ir. Prova de matemática? Que notícia fantástica ¬¬”
“Bia: Podemos ir na sua casa hoje?”
“Jay: Não vou estar em casa hoje. Fica para a próxima.”
“Robb: Olha, eu sou o Jason, eu sou super ocupado, eu coloco ponto final nos textos”
“Bia: Ocupado não. Alfabetizado.”
Jason deu uma leve risada e guardou o celular. Depois de alguns minutos, Selena chamou-o. Jason foi até o extenso porão da casa. No porão, havia apenas uma única mesa retangular no centro do espaço. Sobre a mesa, um livro grosso aberto no início, bem como algumas penas de diversas cores e um anel estranho. Era nessa mesa que estava Selena. Sua mãe, no entanto, não vestia os trajes habituais. Vestia uma túnica de um roxo desbotado, com faixas douradas nas mangas. A gola alta da túnica parecia as vestes de uma feiticeira de ficção.
Assim que Jason a viu, apenas uma pergunta veio à sua mente.
— Quando vou ganhar uma dessas?
— Rá! São as vestes das bruxas do alto escalão. Daqui duas décadas, se você for excepcionalmente talentoso, vai conseguir subir para o posto das Cinco Torres.
— Cinco Torres?
— Entre nós, bruxas — explicou Selena —, existem aquelas com muito talento, e também aquelas com pouco talento. Porém, existem bruxas com um poder que supera qualquer outra. A elas, é dado o título de “Torre”. As Cinco Torres são as cinco bruxas mais poderosas de cada continente. No total, então, são vinte e cinco Torres espalhadas pelo mundo.
Selena esperou que Jason estivesse em frente a ela para que voltasse a falar.
— Como fiz com meus alunos, vou primeiro te explicar quem são as bruxas e para que nós existimos — disse Selena. Ao se certificar de que Jason estava prestando atenção, ela prosseguiu: — As bruxas são pessoas, geralmente mulheres, que nascem conectadas com a própria Natureza. Para se nascer bruxo, pelo menos um de seus pais tem que possuir o dom. No seu caso, eu e seu pai pertencíamos ao mundo sobrenatural.
“As bruxas têm como função primordial impedir a invasão de demônios, uma vez que a barreira entre os mundos anda oscilando nos últimos milênios. Nós somos capazes de parar a maioria deles, mas nem todos.
“Pensando nisso, as bruxas se uniram e realizaram um complicado ritual para enfraquecer qualquer demônio poderoso que acessasse o mundo humano, já que nem mesmo a mais poderosa bruxa pode desejar fazer frente a um Príncipe Demoníaco.
“As bruxas, no entanto, são raras, e os demônios, numerosos. Por isso não conseguimos impedir que eles invadam. Nisso, as bruxas foram divididas em dois grupos: as Pacificadoras e as Guardiãs.
“As Pacificadoras são as mais comuns, elas são as bruxas que utilizam seu poder para eliminar os demônios que atravessaram a barreira dimensional. As Guardiãs são bruxas mais velhas e experientes, com poder suficiente para influenciar diretamente na barreira dos mundos. A elas é dada a função de fortalecer a Muralha.”
— Entendeu tudo até agora?
— As bruxas são raras pessoas que vêm de uma longa linhagem antiga de usuários de magia, e elas impedem os demônios de virem para o nosso mundo, ou caçam aqueles que conseguem entrar (que são muitos).
— Ótimo. Agora que você entendeu quem são as bruxas e qual a sua função no mundo sobrenatural, vamos passar para a próxima parte — anunciou Selena. — Esta que é a mais importante para um bruxo recém-descoberto como você: o que é a magia, bruxaria ou feitiçaria.
“As bruxas possuem algumas habilidades que pessoas comuns obviamente não possuem. Uma de suas habilidades é poder ver os demônios normalmente, algo que humanos comuns não conseguem; as bruxas também possuem a capacidade de realizar habilidades relacionadas à telecinese e, para as mais poderosas, telepatia. A telepatia é muito útil, principalmente porque apenas a pessoa específica a qual ela é destinada pode ouvir. Outra utilidade é que ela é imperceptível para aqueles que não a conhecem. É por isso que estou falando telepaticamente com você faz um tempo.”
Quando Selena disse isso, Jason arregalou os olhos.
— C-como fez isso?! Eu nem percebi quando sua boca parou de se mexer!
— É um truque básico. Com o tempo, você consegue implantar ideias falsas na mente das pessoas e faz elas enxergarem algo irreal. Mesmo as mais poderosas bruxas não conseguem alterar muito da percepção humana. Telepatia é reservado para bruxas poderosas, e alterar os sentidos para bruxas mais poderosas ainda — comentou Selena, se gabando.
“As bruxas que se conectam muito com a sua Herança — em um nível que mesmo algumas Torres têm dificuldade de chegar — também conseguem criar barreiras feitas de energia pura. Elas conseguem trazer sua Herança na forma de um escudo ‘sólido’, por assim dizer. Este poder é inacessível até para mim, e dizem que apenas a líder da Irmandade pode usar esse poder.
“Mas, sem dúvida, a principal habilidade das bruxas — ou bruxo, no seu caso — é a capacidade de se conectar com um elemento da natureza. Alguns se ligam à água, outros ao fogo, outros à terra e outros ao ar. Assim como há habilidades mais avançadas no campo ‘mágico’, também há no elemental. Bruxas especialmente poderosas podem manipular elementos derivados de um elemento primordial.”
— Conseguiu entender tudo até agora?
— Existem uma porrada de poderes sobrenaturais de bruxas, mas eu só vou ter telecinese e algum elemento primordial.
— Exatamente! — concordou Selena, animada. — O que significa que, agora que sabe que sou uma bruxa, se fizer merda, vou te chicotear usando espinhos venenosos.
— Parece… venenoso.
— Que comediante — resmungou a poderosa bruxa.
— Mais alguma coisa que devo saber sobre bruxas?
— Acho que não faz sentido ocupar mais de seu tempo com um relato de toda a trajetória das bruxas e outras coisas — ponderou Selena. — Isso podemos conversar outra hora. Também não há motivo para falar de habilidades que estão além da capacidade da maioria das bruxas na história, então vamos logo partir para o início do seu treinamento.
— E eu vou começar como? — perguntou Jason, animado. Conforme as lembranças do ataque dos cães iam ficando mais distantes, a ideia de ser um bruxo se tornava ainda mais fascinante.
— Por tradição, costuma-se iniciar os estudos de magia com a telecinese, isso por ela ser mais fácil de utilizar do que o controle de elementos da natureza — explicou a bruxa. — Porém, antes de começarmos com a telecinese, vamos descobrir que tipo de poder elemental você tem, para que eu possa planejar melhor os assuntos posteriores.
Selena então apontou para as penas sobre a mesa. Uma vermelha, uma azul, uma branca e uma marrom.
— Normalmente, deve-se passar muito tempo perto de uma fonte de seu elemento para manipulá-lo efetivamente (e eu até te recomendo fazer isso), mas por enquanto, basta tocar em cada uma das penas e esperar pela reação de alguma.
Jason assentiu. Ele então encarou cada uma das penas e escolheu tocá-las pela ordem de disposição. Iniciou, portanto, com a pena vermelha. Quando tocou-a, percebeu que era surpreendentemente quente. Mesmo assim, nada ocorreu.
Percebendo que nada ocorrera, Jason passou para a próxima pena. A pena azul, ao contrário da vermelha, era fria. Mesmo assim, quanto mais Jason esperava, menos lhe parecia que algo fosse ocorrer.
Então tocou na pena branca, que era ainda mais leve que uma pena comum — tanto que apenas a movimentação de Jason fora o suficiente para afastá-la. De início, nada ocorreu. Jason estava prestes a desistir quando a pena começou a brilhar, flutuar e girar diante de Jason.
— Alguma coisa tá acontecendo!
— Oh, meu Deus, jura?! — exclamou Selena, sarcástica. — Se você não dissesse eu jamais teria percebido!
Uma fina aura esbranquiçada começou a emanar da pena branca. A aura, então, fez uma corda que se ligou a Jason. Após dez segundos, a pena caiu lentamente na mesa novamente.
Jason olhou para Selena.
— Acabou? O que isso significa?
— Sim, acabou. Você está ligado ao elemento ar, o que é bem irônico.
— Por quê? — indagou o bruxo, confuso.
— Porque é o exato oposto do meu elemento.
Jason assentiu, compreendendo. Selena folheou o livro, e Jason pôde ver muitas ilustrações — porém muito mais desenhos à mão — que iam de confusas e interessantes a sombrias e assustadoras. Por fim, parou na página 45, balançou a cabeça em aprovação e retrocedeu novamente o livro para o início. No topo da página, em destaque, Jason pôde ler “Basic Servitus Veneficia”.
Selena pegou o anel e deu para Jason.
— Coloque, rápido. Vai ocultar sua presença dos demônios que te encontraram ontem. — Jason então colocou o anel no dedo. Era prateado, com vários símbolos pequeninos e uma minúscula joia azul incrustada nele.
— Bem, vamos começar, então, com a telecinese. Com ela, você pode mover objetos com a mente, mas imagino que até você já deve saber disso — começou Selena. — Mover objetos usando unicamente sua mente é bem difícil no começo, mas com o tempo se torna tão fácil quanto falar ou andar. — A bruxa tirou uma pedra da mão e posicionou sobre a mesa. — Tente.
— Mas como? — Não sabia o que fazer.
— Estique a mão para a pedra. Imagine como se sua mão estivesse indo até a pedra e levantando-a, mas não a toque. Imaginar o que você quer que aconteça é uma das mais comuns formas de realizar feitiçaria. Mesmo assim, os iniciantes precisam mover o corpo também.
Jason encarou a pedra, e a pedra encarou ele. Esticou o braço na direção da pedra, e mentalizou o objeto erguendo-se acima da mesa. Qual não fora a surpresa de ambos os bruxos quando a pedra começou a se erguer até estar a trinta centímetros acima da mesa.
— Ha! — exclamou Selena. — Incrível! Não pensei que você conseguiria na primeira tentativa. A única outra pessoa que eu vi fazendo isso foi um dos meus antigos alunos… Embora a pedra dele fosse ligeiramente maior.
Ligeiramente maior significava um pedregulho maior que uma mesa.
Selena sorria radiante.
— Coincidência, ou talvez eu seja uma professora perfeita?
— A primeira opção, sem sombra de dúvidas — comentou Jason, recebendo um olhar indignado de sua mãe.
— Que seja, ingrato — resmungou ela, fazendo drama. — Bem, quero que você continue praticando a telecinese movimentando o corpo. Quando conseguir erguer até uma pessoa movimentando o corpo, vamos passar para a telecinese usando apenas a mente e, depois, para a telecinese não-visual.
— Não-visual?
Selena virou-se de costas. Em seguida, o livro de bruxaria que estava sobre a mesa começou a levitar e fazer círculos ao redor de Jason. Então, voltou ao local anterior. Selena voltou-se para Jason novamente.
— Esse é o estágio final da telecinese, mover objetos sem sequer precisar olhar para eles.
Jason passou boa parte da tarde levantando objetos aleatórios pela casa. Uma bola furada, uma calça, um sapato, até um copo de vidro — este que ele derrubou, e sua mãe reconstruiu com simples feitiços, impressionando Jason.
Outra parte da tarde ele passou folheando o livro de bruxaria de Selena, notando várias habilidades interessantes — a maioria reservada para bruxas excepcionalmente habilidosas, como as Torres.
Quando as 18:00 chegaram, Jason lembrou que deveria ir até a casa de Niel e Luna naquela noite. Tomou banho, comeu e então sua mãe o levou até a casa de Niel.
— Não faça nenhuma besteira e tenha cuidado — avisou Selena.
— Você acha que eles vão tentar me comer ou algo assim? — zombou Jason.
— São demônios.
— Eles me salvaram. E o tio Duncan confia neles.
— Não deveria estimar tanto a opinião dele.
— Até agora ela se provou correta. Mãe, não se preocupe.
— Mantenha o celular ligado.
— Até porque, se forem me matar, a primeira coisa que farei é pegar meu celular, obviamente.
Jason saiu do carro mas, antes de continuar, parou e perguntou:
— Não podíamos só nos teleportar para cá com magia?
— Você deve ser um Pacificador ou Guardião para ter essa permissão.
— Ah.
Jason então foi até a porta, e Selena ficou esperando. Antes que o garoto sequer batesse na porta, esta se abriu e Luna apareceu.
— Finalmente você chegou. Vamos logo, entra.
Quando Jason entrou e a porta se fechou, Selena ficou encarando a porta por um tempo antes de finalmente ir embora.
Dentro da casa, Luna levava Jason até a sala. Havia uma mesa com quatro lugares no centro.
— Senta aí. Meu pai tá arrumando alguma coisa no Salão de Baixo.
Jason se sentou, e Luna fez o mesmo na cadeira oposta. O garoto ficou em silêncio nos primeiros segundos, sem fazer nada, então apontou para um livro posicionado acima da geladeira e começou a guiá-lo até suas mãos, sob o olhar de Luna.
Quando o garoto pegou o livro, ela assentiu em aprovação.
— Admito que não esperava que alguém como você progredisse tanto em apenas algumas horas.
— “Alguém como eu”? — repetiu Jason, arqueando a sobrancelha.
— Alguém que viveu os últimos anos ao lado de uma das mais poderosas bruxas do continente e mesmo assim não sabia nada sobre bruxas e demônios.
— Não é minha culpa — murmurou ele. Irritava-se com o fato daquela garota o fazer se sentir um tolo ignorante.
— Tanto faz. Talvez você possa compensar isso de alguma forma…
Nesse momento, o velho Niel surgiu. Usava a mesma roupa do dia anterior, com aquele terno que o fazia parecer pronto para ir a um evento importante.
Jason olhou diretamente para ele.
— Senhor… eu gostaria de te perguntar uma coisa — pediu Jason. Niel entendeu.
— Luna, pode ir para o Salão de Baixo.
— Você realmente vai me deixar esse trabalho?
— Vou sair hoje — disse Niel, simplesmente. — Tenho que resolver algumas coisas possivelmente importantes.
Luna deu de ombros, desistindo, e foi até o Salão de Baixo. Niel sentou-se onde antes estava sua filha e sorriu gentilmente para Jason.
— Diga.
— O senhor realmente conheceu meu pai?
— Sim. O Connor foi um dos humanos mais incríveis que já conheci. Ele era um dos três homens desse continente que despertou magia. Infelizmente, dois desses três estão mortos, e um está para morrer.
— Por quê?
— Porque é isso que acontece quando alguém vive 112 anos.
— Ah, faz sentido. E… como meu pai era?
— Imagino que sua mãe já tenha lhe dito isso. Era uma boa pessoa, que resolveu dar a vida para proteger quem amava. Ele buscou a paz entre o mundo humano e o inferno, mas acabou vítima dos Príncipes Demoníacos e sua sede por matança.
Jason cerrou os punhos.
— Como ele morreu, de verdade?
— Um dos Príncipes Demoníacos, Asmodeus, encontrou um meio de atravessar para o mundo humano. Obviamente, não conseguiu reunir todo o seu poder, nem trazer seu exército consigo. — Niel deu uma breve pausa, e então continuou. — Mesmo assim, tinha poder suficiente para matar poderosos bruxos. Depois da rebelião, ele se tornou ainda mais poderoso do que já era, e aumentou muito a sua influência.
— Minha mãe disse que as Guardiãs protegem este mundo e a Muralha entre as dimensões. Se esse tal Asmodeus passou, ele poderia repetir isso?
— Ainda é tema de debate entre a Irmandade. A maioria acredita que Asmodeus é o único demônio que encontrou uma ponte constante entre o inferno e a Terra, e a Irmandade está procurando essa ponte incessantemente há mais de uma década. Normalmente, demônios que atravessam a Muralha ficam presos no mundo humano, e apenas os mais poderosos conseguem manter contato com o submundo.
“Além disso, quanto mais poderoso o demônio, menos chances ele tem de atravessar a barreira. Outro motivo para crer que Asmodeus talvez ainda esteja aqui na Terra.”
Jason assentiu, pensativo. Mesmo assim, agora que sabia quem matara seu pai, não podia simplesmente declarar que queria vingança. Selena disse que nem as mais poderosas bruxas podiam lutar contra os Príncipes Demoníacos sozinhas.
Niel olhou para o relógio em seu pulso.
— Perdoe-me, Jason, mas receio que esteja atrasado. Provavelmente não voltarei antes de você ir embora, então boa noite, e boa sorte.
Niel Silverstone então saiu de sua casa, deixando um Jason confuso para trás.
— Como assim… boa sorte?
Dando de ombros, o bruxo caminhou até o buraco na parede que havia atrás da geladeira. Ao passar pelo buraco, arrastou a geladeira novamente para o lugar. Então, fechou o buraco por dentro.
O garoto desceu o lance de escadas e finalmente estava no Salão de Baixo. E era literalmente isso, um grande salão abaixo da casa de Niel. Dentro do salão, havia muitas coisas que Jason jamais vira.
Margeando o salão, havia poções e ingredientes estranhos, dignos das bruxas da fantasia, com suas poções macabras. No centro do salão, havia uma pequena — mas aceitavelmente espaçosa — arena. Na verdade, não passava de uma elevação do chão de pedra do salão.
Sentada em uma cadeira, perto de um caldeirão enorme, estava Luna. Quando viu o garoto, levantou-se saltando da cadeira e balançou os braços para frente e para trás.
— Sujeito Anônimo, apresento-lhe o Salão de Baixo. É um salão, e fica aqui em baixo.
— Já pensou em virar comediante?
— Estamos aqui para começar sua primeira aula sobre demonologia — informou ela, com voz séria.
— Demonologia?
— Você é um bruxo e, se meu pai está correto, alvo de algum dos Príncipes Demoníacos — explicou ela. — Se quer sobreviver, o mais importante é conhecer seus inimigos. É para isso que meu pai me deixou aqui, para te contar mais sobre os demônios.
— Que ótimo. Faltei aula para receber aulas de feitiçaria e demonologia. Não posso dizer que não gostei — riu Jason.
— Tsc. Sorte à sua. De toda forma, vamos começar a minha fantástica aula. Agradeça por ter uma professora tão linda, inteligente e incrível como eu, Sujeito Anônimo.
— Claro, professora Luna. Ou prefere senhorita Luna? Ou talvez Vossa Alteza, a mui distinta Luna Silverstone.
— Os três servem, mas o último chega mais perto da minha grandiosidade — disse ela, sarcástica. — Certo. Primeiro, o melhor é que você saiba o que são os demônios. Eles são monstros de natureza cruel, maligna e/ou agressiva que são criados à partir de cada ato maligno cometido pelos seres humanos. Atos menos ruins, como furto, roubo ou ofensas criam demônios de sétima classe, ou cães infernais. Atos como assassinatos, tortura e outras crueldades próprias dos seres humanos criam demônios ainda piores. É através apenas de atos cruéis em uma escala monstruosa, como genocídio, que criam demônios de quarta classe.
“Ou seja, é pouco provável que que os demônios deixem de existir.”
— Isso não me parece uma informação agradável — comentou Jason.
— E não é — concordou Luna —, já que a maioria deles são uns tremendos filhos da puta. Bem, isso não importa. Ficar falando de coisas inalcançáveis não é a minha praia. Continuando, e não me interrompa mais, Sujeito Anônimo.
— Eu já te disse meu nome — resmungou o garoto.
— Eu sei, Sujeito Anônimo — disse ela com ênfase na zombaria, provocando-o.
— Tá, tá. Me chame do que quiser.
— Entendido, Do Que Quiser.
— Admita que gosta de encher meu saco! — rosnou Jason.
— É minha única diversão nesse momento tedioso de dar aulas para um desinformado — concordou Luna. — Bem, Do Que Quiser, os demônios vivem no Inferno e, de vez em sempre, atravessam a Muralha (imagino que sua mãe tenha lhe explicado o que é a Muralha). Eles são divididos em sete classes, e quanto maior a classe, mais poderoso. Da mesma forma, quanto maior a classe, mais dificuldade há em atravessar a Muralha.
“A sétima classe, a mais baixa, é constituída por apenas dois tipos de demônio, os cães infernais e os gatos das sombras. Os gatos das sombras são totalmente inofensivos e só servem como guias ou como mensageiros, visto que podem viajar nas sombras. Já os cães infernais são os demônios que existem em maior quantidade. Dizem que seus números superam o número de habitantes da Terra, afinal, todos os humanos já mentiram pelo menos uma vez. Eles são rápidos, mas fracos e frágeis, tanto que até humanos comuns sem treinamento podem matar um ou dois antes de morrerem. Eles só apresentam duas ameaças: sua quantidade irritantemente grande e o fato de sua mordida causar tontura e desmaios.”
— Sei bem dessa última parte. Obrigado de novo.
— B-bem, pare de agradecer! Se ficar fazendo isso eu vou pensar que fiz alguma coisa importante — murmurou ela.
— Se não fosse por você, eu não estaria aqui hoje, não é? — Luna corou levemente, balançou a cabeça e retomou a face séria.
— Certo, Sujeito Anônimo. Vamos continuar — disse a meio-demônio. — A sexta classe é composta pela maior variedade de demônios que você pode imaginar. Altos e baixos, gordos e magros, mas todos excessivamente deformados pelo pecado. Eles são um pouco mais perigosos, principalmente para bruxos iniciantes como você. Mesmo assim, bruxas “de verdade” são muito mais fortes que essas coisas.
“A quinta classe constitui demônios um pouco diferentes, isso porque eles são filhos bastardos dos Príncipes, ou descendentes de filhos bastardos dos Príncipes. Enquanto eu sou naturalmente melhor que uma pessoa comum e posso acessar um tipo de ‘forma mestiça’, esses demônios da quinta classe podem alternar entre uma forma 100% humana e uma 100% demônios. Eles são os que costumam conseguir matar bruxas mais poderosas. Mesmo assim, eles não são tão comuns quanto as outras duas classes.
“A quarta classe possui os chamados ‘titãs’, demônios enormes e poderosos, talvez no nível das tais Torres. Entretanto, esses gigantes possuem uma inteligência abaixo da média dos demônios — que já é abaixo da média humana.”
Vendo que Luna havia se calado, Jason esperou. Quando ela não disse nada, ele perguntou:
— Hã… e quanto ao resto?
— Imaginei que fosse perguntar — disse Luna, convencida. Jason pensou em retrucar, mas decidiu ficar quieto. — Veja bem, Do Que Quiser, as outras três classes na verdade nem podem ser consideradas como as outras quatro. Elas são mais um grupo de indivíduos.
“A terceira classe de demônios são os chamados ‘Vassalos Obscuros’, um grupo de demônios subordinados diretamente a um Príncipe Demoníaco. Eles são tão poderosos quanto as Torres e os Titãs, mas os Vassalos Obscuros possuem um nível de consciência no mínimo no nível de um humano. Isso faz deles muito mais perigosos que os Titãs.”
“A segunda classe de demônios são os tais Príncipes Demoníacos. Cada um deles, mesmo o mais fraco, é muito mais poderoso que qualquer bruxa viva. Eles possuem duas formas (assim como seus bastardos), uma humana e uma demoníaca. A forma humana deles é um pouco superior às Torres, enquanto a forma demoníaca é uma existência no mínimo exagerada, alguns dignos de vilões de animes.”
— Você… Você realmente fez essa comparação?
— Cale-se! — rugiu Luna. — Uma pessoa que não sabe me dizer a última classe restante não pode me criticar!
— Se os Príncipes não são os primeiros, então… o Rei?
Luna encarou-o em silêncio por alguns segundos. Então, deu uma leve risada.
— O desgraçado é um gênio. Correto, sempre existe apenas um demônio de primeira classe, e esse é o Rei do Inferno. Em toda a história, houve apenas dois deles… pelo menos legitimamente.
“O primeiro Rei do Inferno foi o próprio Satã, mas ele foi derrotado por Lúcifer, que o sucedeu como demônio de primeira classe. Após o golpe, Asmodeus declarou-se Rei do Inferno, e a maioria o aceitou. Mesmo assim, ele não chega aos pés dos dois reis anteriores no quesito poder.”
— Entendi.
“Que ótimo”, reclamou Jason mentalmente. “Agora esse demônio me parece um alvo ainda mais distante…”
— Com isso, encerramos a aula de hoje com a mui distinta Luna Silverstone — anunciou Luna. — Eu te aviso se você for voltar amanhã.
— Como?
— Vou te mandar uma mensagem. Não marque compromissos para as sete da noite em diante.
— Mas você não tem meu número!
— Existe uma pessoa chamada Duncan Livesking, se você conhece — comentou Luna zombeteiramente.
Jason apenas disse “ah”, e ficou em silêncio. Logo em seguida, Luna subiu até a arena no centro do Salão de Baixo e chamou Jason com um movimento da mão. Quando o garoto subiu à arena com ela, Luna tirou a jaqueta e jogou-a para o lado.
— Além de te ensinar sobre a minha raça… ou meia raça, meu pai pediu para te ensinar outra coisa.
— Que seria…? — Jason estava ficando um pouco irritado com isso. Não era a meio-demônio que não gostava de ficar enrolando?
— A maioria das bruxas e bruxos se dedica tanto ao estudo da feitiçaria que não conseguem praticar mais nada — começou Luna. — Pelo que eu vi, você, pelo menos, é bom em magia. Ouvi dizer que a maioria das bruxas demora cerca de uma semana para aprender a levitar as coisas. Então, talvez isso que faremos não prejudique tanto seu aprendizado de magia.
— Eu ainda preciso de tempo para estudar coisas comuns — comentou o bruxo.
— A sua vida é prioridade — argumentou ela. — Quando não estiver mais tão vulnerável, pode começar a pensar na escola, não é?
— Certo, agora fale logo o que você quer me ensinar.
— Quero te ensinar a lutar — disse Luna calmamente. — A maioria das bruxas, independentemente do poder, não luta em um combate físico contra os demônios. Porém nem todas as bruxas recém-descobertas pode se gabar de ser alvo de um Príncipe. E nem sempre atirar pedras ou levitar livros pode te salvar de demônios.
“Mesmo assim, saber lutar também vai te ensinar a como esquivar, e como se defender. Isso é muito útil, principalmente contra alguns tipos de demônios da sexta classe. Mas eu também tenho meu principal motivo para aceitar te treinar: meu pai me confinou aqui nos últimos meses, e faz tempo que não bato em alguns demônios.”
— Mas e aqueles cães infernais?! — lembrou Jason, indignado.
— Do Que Quiser, demônios da sétima classe não são suficiente para mim. Sequer preciso me transformar para matá-los. Agora, vamos começar.
Jason olhou apreensivo para Luna.
— Agora? Se quer saber, faz muito tempo que não me envolvo em uma briga. Além disso — acrescentou ele, corando —, não consigo lembrar de ter vencido uma.
— Sujeito Anônimo, é justamente por isso que eu estou aqui. Minha função é transformar o inútil finalmente em útil.
— Não precisava ofender, sabe?
— Eu sei — disse Luna, posicionando-se. — Faça igual a mim. Uma perna na frente da outra, com as mãos na altura do rosto. Suas mãos são seu escudo, e serão inúteis se deixar elas baixas.
Quando Jason entrou em posição, Luna avançou. O garoto não teve tempo sequer de pensar quando Luna o alcançou, segurou um de seus braços e, com uma força surpreendente, ergueu o garoto pelo braço e derrubou-o no chão.
Jason ficou resmungando e Luna deu risada.
— Admito, talvez eu tenha sido um pouco injusta — comentou ela, parecendo mais bem humorada que o normal. — Tenho que lembrar que você é um bruxinho frágil como papel.
Ao ouvir isso, Jason sorriu de canto, procurou pelo salão e escolheu um dos livros. Quando começou a mover o livro na direção de Luna, começou a falar, para distraí-la. Enquanto falava, fez questão de gesticular, para mover o livro.
— Exatamente. Você tem que me ensinar com mais calma. Tipo, que tal apenas eu te atacar?
— Hã? — Luna fez um bico. — Daí não tem graça.
Jason franziu o cenho, e Luna revirou os olhos.
— Certo, certo, só você ataca.
Quando ela disse isso, Jason puxou a mão com força, e o livro voou com mais velocidade na direção de Luna. Para a surpresa do bruxo, a meio-demônio simplesmente desviou, e o livro atingiu Jason no rosto, fazendo-o cambalear.
Quando Jason olhou para Luna, segurando o nariz, viu a garota dando uma risada tão alta que até Jason ficou com vontade de sorrir também.
— Eu… Eu não acredito que você fez isso — disse ela, com dificuldade. — O livro voou na sua cara.
— Reparou nisso também? Que observadora.
Luna, mesmo assim, balançou a cabeça em aprovação.
— É justamente isso que quero. Terá que aprender a lutar, e depois a lutar enquanto move objetos. Isso será uma boa vantagem contra os demônios.
E ficaram repetindo esse processo por mais uma hora. Jason atacava, e Luna apenas defendia — mas as defesas de Luna machucavam mais Jason do que os ataques dele machucavam ela —, e o bruxo começou a melhorar. Mesmo assim, Luna achava que ele não poderia vencer uma briga nem contra uma pessoa comum, muito menos demônios da sexta classe ou mais. Uma vez ou outra, Selena mandava uma mensagem para Jason, perguntando se tudo estava bem.
Em certo momento, Luna segurou o punho fechado de Jason e suspirou.
— Certo, chega por hoje.
— Já? Mas mal começamos!
— Obedeça sua sensei, meu fiel escudeiro.
— Para te merecer, eu devo ter sido uma pessoa horrível na minha vida passada — comentou Jason.
— Nossa, assim vai me deixar magoada. — Ela não parecia magoada. — De toda forma, talvez seja bom você vir aqui amanhã também.
Os dois saíram da arena, Luna pegou sua jaqueta e ambos saíram do Salão de Baixo. Quando chegaram na casa novamente, passaram pela geladeira e fecharam tudo, Luna se largou em uma das cadeiras.
— Talvez isso não seja tão ruim — murmurou Luna para si mesma.
— O quê?
— N-nada! Sujeito Anônimo, não se intrometa!
— Como quiser.
Jason mandou uma mensagem para sua mãe, avisando que haviam terminado. Então, sentou-se ao lado de Luna.
— Você ficou falando de transformação… como ela é? — indagou ele, curioso.
— B-bem, não é nada de mais.
— Você pode me mostrar?
Luna ficou em silêncio, pensativa. Então, ainda um pouco hesitante, assentiu. A garota fechou os olhos. Logo em seguida, sua pele pareceu empalidecer, um par de pequenos chifres surgiu no topo de sua cabeça, projetando-se diagonalmente para trás e suas unhas transformaram-se em garras negras.
Jason ficou olhando, impressionado, para Luna. Quando ela abriu os olhos, estes, antes verdes, se tornaram vermelho-sangue. Quando ela falou, suas presas estavam sobressalentes.
— É-é isso — murmurou ela.
O bruxo, moveu a mão na direção do chifre de Luna, mas a meio-demônio afastou-se na hora. Ambos coraram.
— D-desculpe — disse Jason, sem graça.
Luna, em segundos, voltou ao normal. Quando ela se sentou novamente, parecia um pouco desconfortável. Jason esperou que ela falasse, e assim ela fez.
— Nós, mestiços, não somos bem vistos por nenhuma das raças. Anjos, demônios, bruxas, até mesmo humanos que sabem deste mundo, nos veem de maneira negativa. Por isso, eu não costumo… mostrar isso. Só quando não sobrarão testemunhas para comentar.
— Devo ficar preocupado? — perguntou ele, brincando, e Luna sorriu minimamente.
— Eu dormiria com um olho aberto se fosse você.
— Isso eu tô fazendo desde que fui mordido por um cachorro magrelo assassino de bruxos.
Os dois mantiveram-se em silêncio novamente, até Jason quebrá-lo.
— Por que, então… Por que me mostrou?
— Você, como eu sempre digo, não sabe nada sobre o nosso mundo. Acho que, se eu te mostrar agora, seria melhor do que se eu não mostrasse. Do Que Quiser, você não me vê da forma negativa que os outros estranhos me veem, nem me julgou quando eu disse que era um demônio. Eu acho que eu apenas achei que você não me condenaria.
— Bateu uma súbita vontade de te condenar, sabe?
— Cale-se!
Jason riu, e em menos de cinco minutos ouviram uma buzina. O bruxo olhou pela janela e viu o carro de sua mãe.
— Bem, tchau, Luna.
— Até amanhã, Sujeito Anônimo.
O garoto sorriu de canto e saiu da casa. Quando entrou no carro, Selena estava com sua roupa de bruxa e um pequeno corte abaixo do olho.
— Onde fez isso?
— Um demônio qualquer — disse ela, sem dar importância. — E então, o que você fez?
— Bem, a Luna me ensinou sobre demônios.
— E esse seu olho? — reparou a bruxa semicerrando os olhos.
— Ela também está me ensinando a lutar. Eu melhorei muito!
— E como pretende ir pra escola com esse olho?
— A Luna já passou em mim uma tal erva de amadina.
Pelo menos dessa vez, a bruxa balançou a cabeça em aprovação.
— Pelo menos ela sabe o que faz — comentara.
E assim, eles foram para casa.
*
Em um grande parque vazio, no meio da noite, Niel Silverstone caminhava calmamente. Não havia nada no mundo que o assustasse — pelo menos, era o que diziam. Se havia algo que o velho demônio gostava, esse algo era caminhar ao ar livre. Em especial naquele parque, que tinha uma atmosfera tão pura, completamente distinta do Inferno.
Niel também gostava de observar as estrelas. Era uma das belezas do mundo humano. A Estrela da Manhã, era como seu rei já fora chamado. Agora, ele estava morto, e um traidor estava (possivelmente) sentado no Trono Abissal.
Niel finalmente achou o homem baixo e gordo, de cabelos escuros, barba cheia e olhos azuis.
— Duncan Livesking.
— Niel Silverstone.
Os dois antigos companheiros apertaram as mãos. Niel, no entanto, abandonou o sorriso gentil habitual, assumindo uma face séria.
— Por que me chamou aqui?
— Só queria te avisar que havia um rastro de magia estranha próximo ao lugar em que eu lutei com aquela matilha de cães infernais.
— O que isso significa?
— Eu não sei, mas era uma magia estranha, bem potente e poderosa, mas por algum motivo ela parecia distorcida, diferente do normal entre as bruxas. Além disso — acrescentou Duncan —, senti uma intenção assassina ontem. Niel, sinto que algo está acontecendo. Temo por Jason. E por Luna também.
— … Por que Luna precisaria de sua preocupação?
— Por você ser quem é. Sei que ela é poderosa, e você também. Apenas… tome cuidado.
— Eu irei. Era apenas isso?
— Mais uma coisa: o Culto Carmesim vem se tornando mais ativo, e parece estar se aproximando daqui, da cidade de Fairyshall.
— … Você acha que eles podem estar procurando a falha na Muralha?
— Os boatos de que Asmodeus entrou no mundo humano por uma ponte constante se espalharam. É de se imaginar que os cultos a outros Príncipes Demoníacos venham atrás dela.
— E você conseguiu alguma confirmação?
— De que Asmodeus está aqui na cidade? Não — admitiu Duncan. — Na verdade, faz muito tempo que não ouço falar de uma aparição real dele. Estou tentado a acreditar que isso não passa de um engano. Acho que ele ainda está no Palácio da Meia Noite.
— Muito bem. De qualquer forma, mantenha-me informado. Se ele estiver aqui, eu quero saber.
Os dois concordaram. Ambos também compartilhavam pensamentos. Se o Culto Carmesim estava chegando na cidade, as coisas poderiam ficar ruins.
O que eles não sabiam, é que o Culto não era a única ameaça mais próxima do que eles imaginavam.
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