A Magia do Submundo

5 O Aprendizado de Um Aprendiz


Notas iniciais
Hello! Novamente o capítulo ficou um pouco longo, espero que não se importem. Provavelmente essa será a média normalmente, de 4k a 8k. Estamos, eu espero, quase acabando o prelúdio (ou já acabamos, não sei ainda). Kkkkkk Boa leitura ^^

Jason estava com um misto de preocupação e animação. De um lado, voltar para a escola e rever Robb e Bia depois de mais de um dia era uma ideia boa para ele. Eram amigos havia anos, junto de Owen, que falecera havia muito tempo. Do outro lado, pensar que teria que pensar nas matérias que perdeu, atividades para repôr, dentre outras coisas… aquela ideia era horrível.
Mesmo assim, Jason já estava pronto para partir. Selena acordara cedo naquele dia, e ela mesma levaria o filho para o colégio. Agora que Jason pensava, fazia algum tempo que Selena não o levava. Quando questionou sua mãe a respeito disso, ela apenas disse que queria se certificar que não havia nenhum demônio por perto.
Quando finalmente chegaram, Selena se despediu. Disse para Jason se comportar — como se ele nunca se comportasse —, e também para se controlar. “Agora que sua Herança surgiu, ficar muito triste ou irritado pode te levar a usar magia sem querer”, avisara-o, “então garanta de manter o controle.”
Seu filho garantiu que nunca se irritava muito — exceto quando furavam a fila do lanche uma vez antes da dele —, então Selena apenas riu e se despediu.
E foi matar o demônio que estava por perto.
Assim que Jason tocou o pé no solo do colégio, sentiu algo estranho. Era como a sensação que sentira quando o tal Príncipe lhe rastreara, mas sem nem um décimo do incômodo provocado por ela. Talvez fosse apenas impressão... ou não. Perguntaria para sua mãe depois.
Como sempre, passou por todos sem chamar elevada atenção. Uma ou outra pessoa o encarava por um ou dois segundos antes de voltar a ignorá-lo. Deste jeito, não tardou muito a encontrar Robert e Bianca conversando como sempre. Torcia para que o amigo não estivesse fazendo alguma piada bárbara e ruim.
Por sorte, Robert falava sobre o sorvete dele que derreteu sem que ele percebesse, fazendo-o gastar dinheiro. Quando viu Jason, sorriu de canto.

— Veja só, não está super ocupado hoje? — zombou ele. — Vai ter que copiar coisa pra caralho.

— Pare de encher o saco, Robb — disse Bianca. — Jay, não se preocupe, eu te empresto meu caderno.

— Obrigado, Bia. Sorte que posso contar com, pelo menos, um de vocês.

— Assim fico ofendido, Jay — reclamou Robert, dramaticamente.

— Que seja. Algo muito difícil?

— Depende de para quem você perguntar — respondeu Bianca. — Mas, no geral, não.

— E que anel é esse? — indagou Robert.

— Este? — Jason levantou a mão e encarou o anel que sua mãe lhe deu como “supressor”. — É uma herança de família. Mas, de verdade, eu só achei estiloso.

— Claro. — Robert então semicerrou os olhos para o amigo. — Onde você estava ontem?

— Hã… Err… — Jason esquecera-se de arrumar uma desculpa. Como esqueceu algo tão básico? — Eu… fiquei na casa de um amigo do meu tio. — Não era mentira.

Robert e Bianca olharam-no, desconfiados pela hesitação. Logo o sinal bateu e eles foram para a sala. Assim que Jason entrou, vendo as cinco fileiras de mesas e cadeiras perfeitamente organizadas, questionou-se se seus colegas subitamente se tornaram animais civilizados.
Essas ideias foram perdidas quando as pessoas começaram a entrar, e logo as coisas voltaram ao normal. Claro, era razoavelmente organizado, mas nunca ficaria na perfeição de uma sala vazia.
O professor entrou logo em seguida. Harry sempre fora alguém capaz de deixar a turma em silêncio. Era, de longe, o professor favorito de Jason — e de uma boa parte das pessoas.
Assim que Harry parou em frente ao quadro, ele não se sentou, como normalmente fazia. Ao invés disso, permaneceu em pé, aguardando o silêncio.

— Bom dia, seu bando de pessoas incríveis e claramente responsáveis — disse ele, fazendo todos se entreolharem. — Eu gostaria de apresentar uma nova aluna para nossa escola. Deem as boas vindas a Luna Silverstone.

E, realmente, lá estava ela. Ao contrário da noite passada, em que Jason achou ela um pouco mais simpática do que antes, naquele momento ela parecia ao ponto de chutar quem a irritasse.
Obviamente, os murmúrios e cochichos começaram. Luna apenas olhou desinteressada para Harry.

— Eu tenho que fazer alguma apresentação e contar a história da minha vida? — perguntou ela.

— Se quiser…

— Não quero. Mas tudo bem. Sou Luna Silverstone, tenho dezesseis anos, como a maioria de vocês (ou não). Vivo aqui em Fairyshall faz um tempo, e não frequentei muitas escolas. Acho que é isso. O que eu gosto não interessa a ninguém, e eu não gosto de intrometidos, ignorantes ou que venham encher meu saco.

Jason cruzou os dedos. “Por favor, não me veja. Por favor… Ah, ela deve estar aqui justamente por minha causa. Ou não. É, talvez não…”

— Hã… Bem, pode se sentar — sugeriu Harry, meio desconcertado. — Quem sabe logo ali, atrás da…

— Ou quem sabe logo ali — interveio Luna, apontando para o lugar atrás de Jason.

O rapaz imaginou que ela tivesse usado alguma habilidade demoníaca, pois o professor Harry aceitou a sugestão na mesma hora. Ao se aproximar de Jason, ela apenas sorriu de canto e se sentou, não falando com ele por todo o restante da aula. A presença da meio-demônio desconcentrou Jason um pouco mais do que ele gostaria.
As próximas aulas vieram e foram — embora fossem duas aulas seguidas com Harry, elas pareceram durar a metade do tempo da terceira aula —, e finalmente o tão aguardado (para a maioria) intervalo.
Como sempre, Jason aguardou o tumulto passar. Robert e Bianca foram na frente, e o garoto logo os seguiu, sem se dar conta que Luna estava o acompanhando.
Quando alcançou Robert e Bianca, fez uma saudação.

— Robb, Bia — chamou. Assim que ambos se viraram para olhá-lo, Luna riu atrás dele.

— Vai me chamar do quê? Lulu?

Ao ouvir a voz dela, Jason fingiu ignorar. Robert, no entanto, abrira a boca (como sempre).

— Já tá com a garota nova, Jay? Esse daí não perde tempo hein…

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Jason, ignorando o amigo.

— Sei lá. Meu pai me disse que seria uma ótima ideia eu “passar mais tempo com outras pessoas”.

— Suponho que ele sabia que eu estudo aqui — imaginou Jason, suspirando.

— Falando assim nem parece que estás agraciado com minha ilustre presença, Do Que Quiser.

— Sério, eu tô meio perdido aqui — intrometeu-se Robert, e Bianca concordou. — Conhece ela, Jay? De onde?

— Eu…

— Nos conhecemos ontem — interrompeu Jason. — Ela é filha do amigo do meu tio que eu mencionei hoje. Robb, Bia, essa é a Luna. Luna, estes são Robert e Bianca.

— Hum… É um prazer? — cumprimentou Bianca, meio incerta.

— Deve ser mesmo — murmurou Luna, e recebeu um olhar feio de Jason. — Tá, tá. É um prazer conhecê-los também. Eu não podia estar mais feliz.

— Deveria se sentir grata mesmo — ralhou Jason. — Teria que vagar sozinha pela escola.

— Não seria tão ruim. Fiz isso por mais de dez anos, por que me incomodaria agora? — Algo no tom que Luna disse isso fez Jason sentir um pouco de pena.

— Comemore então — exclamou Robert. — Foi seu último ano sozinha. Normalmente não aceitamos um novo membro sem a decisão do Conselho, mas estamos dispostos a abrir uma exceção. Afinal, você e o Jay já se conhecem.

— Conselho? — indagou Luna, levemente interessada.

— Eu, o Jay e a Bia — especificou Robert, para decepção de Luna.

— E se fôssemos fazer uma votação?

— Eu voto contra — comentou Jason, mas um olhar fulminante de Luna fez ele mudar de opinião.

— Bem, você disse que não interessava do que você gostava — comentou Bianca, enquanto o, agora, quarteto ia para o refeitório. — Mas, isso é sério? Não vai dizer nada?

— Gosto de bater em sujeitos anônimos — comentou ela, e Jason sentiu um súbito arrepio. “Não olhe”, pensou ele.

Após os três pegarem a comida — Luna recusou, criando a indagação “o que meios-demônios comem?” na mente de Jason —, Robert perguntou:

— E vocês dois se conheceram quando o Jay foi visitar seu pai, ou algo assim?

Luna e Jason trocaram olhares — que eles pensaram ser super discretos —, e Jason concordou.

— O pai da Luna, Senhor Niel, conhecia meu pai também — disse Jason.

— Ah — disse Robert, desconfortável. Não sabia exatamente o que dizer quando Jason falava do falecido pai.

— E você gosta de outras coisas? — perguntou Bianca para Luna.

— Hum… — A garota estava realmente pensativa. — Acho que nada em especial. Gosto de coisas sobrenaturais, embora ache alguns filmes e séries sobre esse assunto completamente diferentes da realidade.

— Er… São assuntos sobrenaturais — comentou Jason —, óbvio que talvez não sejam muito iguais à realidade.

Luna olhou para ele e sorriu de canto. A ideia de ter que fingir ser uma pessoa comum era meio sem graça para ela, mas tinha que lembrar de manter o papel.

— Tem razão. Mas algumas coisas são um pouco… Heh, não importa.

— Jay, você vai jogar hoje? — perguntou Robert.

— Não sei se terei tempo, talvez eu vá na casa da Luna hoje — comentou ele, sem dar importância. Quando encontrou o olhar malicioso de Robert, revirou os olhos. — Você tá parecendo meu tio.

— Eu não disse nada — defendeu-se Robert.

Luna, alheia à conversa dos dois, discutia com Bia sobre quem vencia, um vampiro ou um lobisomem.

— O lobisomem transformado é muito mais forte — argumentou Bia —, e em algumas histórias a mordida deles é fatal para vampiros.

— Pode ser — concordou Luna —, mas vampiros podem se transformar em névoa, morcegos, também são super fortes e, principalmente, rápidos. Além disso, hipnotizar os outros é muito útil.

— Ter que beber sangue humano sempre parece desconfortável — disse Bianca. — E queimar no sol também.

— Sim, mas pelo menos, com a alimentação certa, ele poderá estar sempre no controle de suas ações.

— Eu — intrometeu-se Jason, fugindo da conversa com Robert — prefiro ser um híbrido. Ter as habilidades e forças de ambos.

— Tsc. Se quiser ser um mestiço, pode ser. As pessoas não gostam deles. Seria odiado por vampiros e lobisomens — resmungou Luna. Jason, sabendo do que sabia, apenas ficou em silêncio. Robb e Bia ficaram confusos com o clima sombrio que subitamente levantou-se.

O intervalo acabou com a discussão entre “magos vs guerreiros”. Luna admitiu que poderia ser discutível em jogos, mas ela não via como uma espada podia parar uma bola de fogo.
O resto do dia progrediu da maneira mais normal possível. Luna, que nunca esteve em uma escola de verdade antes, estudando em sua própria casa, ficava interessada por muitos assuntos, enquanto ficava decepcionada por já ter visto outros.
Quando saíram, Jason era aquele com a maior quantidade de trabalhos. O que perdera no dia anterior era mais do que gostaria.
Os quatro estavam do lado de fora quando Jason sentiu um formigamento incômodo. Quando olhou para Luna, ela o encarou, e o bruxo percebeu que ela sentiu a mesma coisa.

— Hoje imagino que você não vá jogar conosco — comentou Bianca.

— É — concordou Jason. — Tenho muito o que fazer.

Luna pegou o celular e balançou a cabeça. Então, segurou o braço de Jason e sorriu gentilmente.

— Meu pai disse para irmos pra casa agora. Ele quer te mostrar uma coisa importante.

— Sei… — murmurou Robert, mas Bianca deu uma cotovelada leve nele.

— Tem certeza? A minha mãe…

— … já foi avisada — completou Luna para Jason.


— Bem… Ah, certo — concordou o garoto, suspirando.

Os dois despediram-se de Robb e Bia e começaram a andar, mas Jason não deixou de notar que estavam indo pelo caminho oposto à casa de Niel.
Quando já haviam se distanciado uma quadra da escola, Luna disse:

— Eu menti. Não estamos indo para minha casa.

— O quê?! — exclamou Jason. — E-então estamos indo pra onde?

— Sentiu também, não? — Luna não esperou a resposta. — Significa que um demônio está por perto. Pela sensação, não é nada além de um demônio da sexta classe. Mesmo assim, é uma boa oportunidade de te colocar em um combate.

— Não sei se lembra, mas duas noites atrás eu não sabia nem levitar uma pena.

— Acha que eu te colocaria em perigo? — Vendo o olhar dele, Luna corou e exclamou rapidamente: — NÃO RESPONDA!

Jason não pôde segurar, e deu risada. Balançando a cabeça, perguntou:

— Minha mãe sabe?

— Nop. Mas — acrescentou ela rapidamente, prevendo as dúvidas do bruxo — ela te colocaria em uma situação dessas de qualquer forma. Não se preocupe, ok? Não quero me gabar, mas não são muitos que poderiam me enfrentar.

— Tem certeza…?

— Veja, se deixarmos eles por aí, eles podem acabar matando alguém. Isso se já não mataram.

— As bruxas não servem para evitar isso?!

— Ninguém é onipresente. Quer dizer, se contarmos Projeção Astral… Não. Ninguém é onipresente. — Luna se irritou. — Vamos logo! Antes que eles resolvam que o “Robb” e a “Bia” são os próximos.

O bruxo apenas suspirou e concordou. No caminho, pegou uma pedra que ele achava ser grande o suficiente para machucar algum demônio.
Quando enfim chegaram, já haviam caminhado por dez minutos.

— Ele não saiu do lugar — comentou Luna. — Deve estar comendo.

Jason ficou um pouco chateado ao ouvir isso. Imaginava saber o que demônios comiam. Infelizmente, não imaginou errado, pois logo que chegaram, deram de cara com três cães infernais brigando pelos restos de uma pessoa. O cadáver já era irreconhecível.

— Bem, não é um demônio de sexta classe — disse Luna. — Isso é até melhor. Bem, atacar, meu fiel escudeiro!

Jason deu uma risada — embora não achar graça de nada naquele momento — e começou a andar na direção dos demônios. No caminho, eles levantaram a cabeça e olharam para ele.
Assim que o viram, os três cães rosnaram. Mesmo assim, não atacaram precipitadamente. Pelo fato da passagem que Luna e Jason entraram ser estreita, os três cães cadavéricos com olhos vermelhos não puderam cercar Jason.
O bruxo começou a levitar a pedra. “Concentre-se”, pensou ele. Quando o primeiro cão avançou, Jason disparou a pedra nele com força, fazendo o cão cambalear para trás. Os outros dois hesitaram, e isso foi suficiente para Jason trazer a pedra novamente para si.
Mesmo assim, nenhum deles estava derrotado, e os três logo voltaram a rosnar. O bruxo deu um passo para trás — e este sinal foi visto como fraqueza. Os três cães avançaram juntos.
Jason disparou a perna em um enquanto rolava — de forma bem mais proficiente do que no primeiro ataque de cães infernais — para eacapar do outro. O terceiro virou-se para abocanhá-lo, mas Jason deu um pontapé no demônio.

— Nunca pensei que passaria o dia chutando demônios — comentou ele.

— Não se distraia — ralhou Luna.

O que ele havia escapado rolando saltou em sua direção, e Jason estendeu o braço para ele, paralisando a criatura no ar. Até a meio-demônio franziu o cenho quando viu isso, mas então pôde ver Jason começar a sangrar pelo nariz.
“Isso não é bom”, pensou ela indo na direção dele. Quando os outros dois demônios viraram-se para atacá-la, um par de lanças — uma abaixo de cada demônio — empalou-os. Aos poucos, eles se desfaziam em pó.
Quando enfim estava ao lado do bruxo, ele ainda erguida o paralisado demônio no ar.

— Largue-o — pediu Luna. — Usar telecinese em corpos vivos ainda é um pouco demais para bruxos que não possuem magia nem há uma semana.

Jason assentiu, ainda sangrando. Suas pernas começaram a tremer, e ele jogou o braço para o lado com força, arremessando o cão infernal na direção da parede e rachando-a com o impacto. O cão começou a se desfazer.
Luna deu de ombros.

— Para um primeiro teste, não foi tão ruim… Mesmo assim, tome cuidado ao experimentar coisas novas sem supervisão. A magia pode ser um pouco imprevisível. Eu obviamente não sou a melhor pessoa para falar do assunto, mas é melhor continuar levitando pedras e livros… por enquanto.

O bruxo concordou, limpando o sangue. Nunca imaginara que ia se sentir tão fraco por parar uma criatura tão pequena como um cão infernal. E pensar que, algum dia, poderia fazer isso em humanos…
Mas este dia talvez não estivesse tão perto assim. Jason experimentou em primeira mão como era exceder os próprios limites. “Por sorte, não fiz nada demais. Não quero nem imaginar o que aconteceria se eu tentasse em uma pessoa”, concluiu ele.
Luna pôs ambas as mãos na cintura.

— Já acabou? Ainda precisamos esperar a bruxa — avisou ela.

— Se minha mãe perguntar, eu matei os três em uma performance perfeita.

— E eu sou a Morte, Jason — zombou Luna, dando risada. — Anda logo. Como eu já disse, a tarefa de ficar se justificando tem que cair em você, não em mim.

— Talvez seja tarde demais — anunciou uma voz atrás deles. Quando olharam, lá estava Selena, com a túnica de bruxa do alto escalão. Ela encarou Jason. — Espere lá trás.

— Mas… — tentou argumentar.

— Agora — cortou Selena, friamente.

Jason estava determinado a não ir, mas Luna deu um tapa em sua nuca. “Anda logo”, disse, “eu me viro aqui. O máximo que sua mãe pode fazer é me dar uma bronca feia, não é? Pois já passei por coisa pior.”
Jason assentiu, passou por Luna e Selena e foi esperar na entrada do beco. As duas afastaram-se mais dele antes de tornarem a falar.

— Luna Silverstone, suponho… O que você pensa que está fazendo? — sibilou Selena, friamente. Luna apenas sorriu de canto.

— Pareço estar fazendo algo de errado? — perguntou ela, desafiadora. — Não, não estou. Apenas levei o Sujeito Anônimo para fazer algo que ele obviamente faria cedo ou tarde, e com uma ótima supervisão.

— Imagino que não seja seu dever decidir quando ele deve lutar com um demônio. Ele não despertou sua Herança nem há três dias!

— Eu não esperava que ele fosse vencer — admitiu Luna. — Foi apenas para colocá-lo novamente em uma situação sobrenatural. Embora a minha presença talvez seja mais reconfortante do que eu imaginei. Hum…

— Eu senti a alma distorcida de duas dessas criaturas sumirem simultaneamente — disse Selena. — Foi você?

— Sim. Não é como se o seu bruxo pudesse fazer algo assim, não é?

“Se Deus quiser, você está certa”, pensou Selena. Em vez disso, disse:

— Me avise da próxima vez que resolver colocar meu filho em risco.

— Eu faria isso. Não achei necessário avisar porque ele não estava em risco.

— Você é petulante, garota — sussurrou Selena, semicerrando os olhos. — Os jovens têm a mania de crer que são invencíveis, mas não são.

— Haha! Tem razão — concordou a meio-demônio. Logo em seguida, sua voz perdeu qualquer emoção. — Não se esqueça que não sou uma humana ou uma bruxa. Sou um demônio. Você não sabe quem eu sou e nem do que eu sou capaz, então tome cuidado ao tentar impôr limites para o que eu posso ou não fazer.
“O Jason é seu filho, e você pode dizer se ele pode ou não fazer algo. Mas, se permitir que ele venha treinar comigo, deve entender que eu mesma decidirei os limites.”

— E eu devo simplesmente confiar às cegas no seu tão correto julgamento? — disse Selena, sarcástica.

— Não se preocupe. Digamos que seria um pouco chato se eu matasse meu fiel escudeiro — comentou, sorrindo. — Eu tenho que parar de decidir por você, concordo. Já você, tem que entender que seu filho é um bruxo, e tenho certeza que enfrentará, sozinho, coisas piores do que cães infernais.

Selena cerrou os punhos, mas sabia que a garota estava certa. Uma hora, coisas piores do que meros cães estariam entre a vida e seu filho. Nessas horas, ela preferia que ele tivesse um pouco mais de experiência. “E talvez não seja tão ruim ele ter alguma companhia que conheça este mundo”, ponderou ela, relutantemente. “Talvez…”
Então a bruxa bufou.

— Que seja — rendeu-se ela. — Mas se ele se machucar…

— O meu pai me mata — completou Luna, dando uma leve risada.

Selena também sorriu.
As duas voltaram para a entrada do beco e, para alívio de Jason, não ocorrera nada de mais. O pior cenário seria se uma atacasse a outra, mas ele não chegou a realmente pensar que isso ocorreria.
Selena perguntou se Luna iria para casa, e ela apenas respondeu que seu pai estava fora — “ele parece estar mais ocupado do que antigamente”, comentou. Nisso, Selena perguntou se ela gostaria de ficar na casa deles.
Luna corou.

— O-o quê? Eu não… Nunca… — gaguejou, procurando as palavras certas. No fim, murmurou: — Eu nunca saí do lado do meu pai exceto para caçar demônios. Quer dizer, não existe exatamente uma escola para mestiços. Além disso, eu não podia ficar com outras crianças…

— Mas o que isso importa? — indagou Jason, confuso.

— Sou um demônio — relembrou-lhes Luna. — Vocês são bruxos…

— Digamos que já me envolvi de maneira melhor com demônios do que a maioria das bruxas — comentou Selena. — Não se preocupe com isso. Além do mais, você ainda é apenas uma criança. Deveria ter amigos, não é? Mesmo sendo um demônio, não fará bem para você se ficar se isolando.

— Acredite, esse isolamento não foi autoimposto — resmungou ela, amargamente. — Eu sempre fui… um pouco mais instável que os outros mestiços. Por isso, tive que me manter afastada dos outros, principalmente humanos, por motivos óbvios.

— Mas agora não precisa mais, né? — disse Jason, sorrindo para ela. Luna corou levemente.

— Talvez não… Meu pai acha que não, mas eu mesma não sei…

— Tanto faz — disse o jovem bruxo. — Se precisar de ajuda, é só falar.

— Obrigada…

Selena arqueou a sobrancelha, fazendo Luna corar e desviar os olhos. Fazia tempo que não conversava com ninguém além de seu pai, agora que parou para pensar.
Assim, o trio foi para a casa de Selena. No caminho, conforme as conversas surgiam, Luna costumava ficar em silêncio, apenas ouvindo. Ainda não conseguia ser completamente solta com aquelas pessoas. Uma coisa era caçar demônios — ou ensinar sobre eles —, mas aquilo era diferente.
Jason treinou um pouco de magia por cerca de duas horas, então ele e Luna fizeram as lições que possuíam e logo haviam terminado. Naquele momento, Luna decidiu ir para casa.

— Mas minha mãe saiu — comentou ele, só agora se dando conta de que estavam sozinhos.

— Não se preocupe, posso chegar em casa sozinha. Eu não gosto muito de viajar assim. É desconfortável, frio e meio estranho, mas é funcional.

Ela então fechou os olhos, concentrando-se. Aos poucos, sua própria sombra expadiu de tamanho e tomou o formato de uma porta no chão.

— Tchau, Sujeito Anônimo.

E jogou-se no portal de sombras, indo para casa e deixando um Jason curioso para trás.

*

O mês passou mais rápido do que qualquer um poderia ter esperado. Mesmo assim, representou uma ótima evolução para o bruxo.
Em relação aos treinos com Luna, eles ficavam cada vez mais difíceis. Mesmo assim, a presença da garota já era algo quase natural para Jason — talvez porque ele passava boa parte do dia com ela.
Jason estava ficando melhor e, para alguém que não costumava treinar, possuía um vigor, força e agilidade surpreendentemente elevados. Obviamente, não chegava no nível de Luna, mas ele era misteriosamente bom. Agora ele conseguia atacar muito bem, embora Luna quebrasse sua defesa sempre que resolvia atacar.
Nas aulas com Luna, o garoto também aprendeu outra coisa. Fora na última semana do mês, quando Luna o guiou até um baú no fundo do Salão de Baixo. Quando a meio-demônio abriu o baú, Jason arregalou os olhos com a quantidade de armas que havia no baú.
Espadas, maças, machados, alabardas, lanças, adagas e foices eram as mais “comuns”, mas havia também uma besta, um kopesh e até um tridente.

— São muitas armas — Jason comentara, impressionado.

— Escolha uma e vamos treinar.

Jason lembrava-se de ter treinado com a espada, a maça e o kopesh quando sentiu que nenhuma das armas era o ideial.

— Só não sei o que falta nelas — havia dito.

Procurando mais a fundo no baú, Jason encontrou um formato estranho.
Era um cilindro que se encaixava perfeitamente em sua mão. Possuía uma tonalidade negra e cinzenta, com cerca de trinta centímetros de comprimento.
Quando Luna viu aquela forma, não reconheceu.

— Nunca tinha visto essa daí — disse ela, com um olhar estranho.

Quando Jason estava pensando em como saber o que era aquilo, as duas extremidades do cilindro cresceram, criando um bastão negro de cerca de dois metros. Em cada uma das extremidades do bastão, havia uma ponta afiada.

— Uau! — exclamou Luna, subitamente animada. — Eu nunca tinha visto algo assim!

— Vamos testar!

Os dois jovens subiram na arena e prepararam-se. Jason estava duplamente concentrado, enquanto Luna apenas sorria para ele.

— Vai atacar ou eu terei que ir aí?

Jason atacou. Ele iniciou dando uma estocada com o bastão/lança, mas foi facilmente defendido por Luna. A meio-demônio foi na direção de Jason, e ele começou a golpear com o bastão.
Luna desviava agilmente, mas surpreendeu-se na hora em que, quando a ponta afiada do bastão aproximou-se dela, a ponta retrocedeu até virar a extremidade comum de um bastão. Isso fez ela franzir o cenho. “Ele não quer me machucar”, entendeu ela, “mas pelo jeito ele nem percebeu que o bastão está evitando me acertar.”
Quando enfim o bastão atingiu-a — um golpe lateral que ela defendeu com o antebraço —, Luna sentiu toda a dor e o peso do golpe e, inconscientemente, transformou-se.
Ao ver os chifres, garras e os olhos vermelhos de Luna, Jason assustou-se e parou de atacar.

— Luna, algum problema? O que aconteceu?!

Ao perceber o que fez, ela balançou a cabeça e voltou ao normal. Ao perceber a preocupação do garoto, Luna deu uma risada sem graça, envergonhada com sua reação.

— Não é nada. É só esse bastão estranho. Ele é bem mais forte do que eu pensava. Além disso — acrescentou ela, séria —, ele parece estar se moldando aos seus desejos.

— Como assim? Isso é meio bizarro…

— Em algo concordamos, Do Que Quiser — disse ela, sorrindo. — Aparentemente, quando você ia me acertar com essa merda de ponta, a tal ponta sumiu.

Jason olhou a ponta. Realmente, agora era apenas a de um bastão comum, sem uma lâmina.

— Eu acho — declarou Luna, acusadoramente — que o senhor não está lutando para me machucar.

— B-bem, não é como se eu realmente quisesse te machucar, é? — reclamou ele, coçando a nuca.

— Aparentemente esse bastão não vai te deixar bancar o cavalheiro. Então, quando estiver enfrentando uma inimiga linda como eu, veja se não resolve bancar o sujeito certinho — disse ela, zombeteira.

Jason corou.

— É, talvez eu deva realmente largar essa mania e começar a te atacar com tudo. Claro, o resultado não seria lá muito diferente.

Jason e Luna se enfrentaram por mais vinte minutos e, mesmo com os avisos de Luna — e com as tentativas de Jason —, o bastão agora era apenas um bastão. No fim, Luna morreu seis vezes (um recorde de derrotas até o momento), e Jason, dezoito. Quando voltou para casa, o bruxo não falou nada sobre o bastão que agora estava logo na sua mochila.
Já nas aulas de feitiçaria, Jason estava nos estágios finais do treino com a telecinese e, admitia, estava ansioso para iniciar o estudo elemental. Mesmo assim, não poderia fazê-lo até concluir a telecinese — e, mesmo após concluída, sua mãe alertou-lhe que ainda havia formas mais poderosas de telecinese, e que ele ainda não estava nem na metade do caminho de saber tudo sobre esse poder.
Jason agora estava com sua mãe, em um dos raros dias de folga da bruxa — “folga”, entre aspas, pois não se estendia por todo o dia e era necessário chamar outra bruxa para manter a área; por sorte, Selena tinha uma amiga na cidade que resolvia isso para ela.
Neste momento, ambos estavam perto de um lago no meio da floresta que fazia fronteira com a cidade — chamada por todos de Floresta da Música Cinzenta, devido a acontecimentos da história da cidade. A água cristalina refletia o sol, e no centro do lago era possível ver uma pequena ilha com a superfície refleta de árvores.
Porém o que realmente importava era que já fazia um mês que Jason praticava aquilo — e ele era surpreendentemente bom —, então Selena resolvera aplicar um último teste.

— Eu gosto de chamá-lo de Esmagador de Novatos — comentara ela. — Vamos começar! Você só precisa levantar essa pedra.

— E quanto ela pesa?

— Digamos que mais do que o Duncan.

Jason apenas deu de ombros e concentrou-se. A ideia de utilizar telecinese tornara-se fácil para ele, mas nunca tentara em algo tão pesado. Aquele pedregulho era mais alto que ele, e três vezes mais largo.
Mesmo assim, ele precisava conseguir. Se sua mãe o trouxera ali, significava que ela achava que ele já estava pronto — ou talvez não.
O garoto estava tentando com toda a sua força (mental), e logo os grãos de areia ao redor da pedra trazida por Selena começaram a se movimentar e formar um círculo lento ao redor do garoto, enquanto ele próprio começava a suar e erguer os braços, e finalmente a pedra começou a se mover.
Selena arregalou os olhos. “Não era para ele ter conseguido isso na primeira tentativa.”
Mesmo assim, após erguê-la cinco centímetros, a pedra tombou no chão e não tornou a se levantar. Por mais que Jason tentasse, não conseguiu mais levantá-la.
Selena ficava extremamente temerosa quando Jason demonstrava capacidades elevadas. Por sorte, pelo menos até agora, fora apenas talento e dedicação… Ela esperava que continuasse assim.

— Vamos para casa. Mais sorte da próxima.

Jason só pôde aceitar, e então os dois estavam indo para casa enquanto conversavam sobre uma série que vinham assistindo.
Longe do conhecimento deles, o mascarado de manto negro apenas sorria de canto enquanto observava o treino do garoto.

— Talvez você não seja tão deplorável, afinal… — Ele levantou e deu as costas à família. — Ainda não é hora de lutar. Você é fraco demais.

E sumiu novamente. Sem que ninguém soubesse, outro mal se aproximava, vindo de outra cidade.

Notas finais
Luna na escola, bastão doido e novamente o tal mascarado aparecendo. Aaah, quero logo escrever uma luta ;-;