A Luz dos Teus Olhos
21 Capítulo 21 - Transições...
Notas iniciais
Rachel acordou sentindo um aroma familiar e braços a envolvendo carinhosamente. Ela abriu um sorriso amoroso e se virou, encarando o rosto preocupado e expressivo de Adam.
— Eu senti sua falta. — Ele a beijou na bochecha.
— Eu também senti, meu amor. — Rachel se aconchegou mais ao corpo dele. — Quando você cresceu tanto?
Adam soltou uma risada.
— Você sempre pergunta isso, mãe.
— Talvez porque eu ainda fique surpresa. Você é quase da altura do seu pai.
— Falando no papai... — O sorriso de Adam desapareceu. — Ele está arrasado.
— Você foi vê-lo?
— Não. Ele está trancado no quarto de vocês. Quer dizer, o antigo quarto de vocês. O vovô Hiram disse que o viu entrando lá com lágrimas nos olhos.
Rachel suspirou e se arrastou sobre a cama até se recostar contra a cabeceira.
— Era inevitável que isso fosse acontecer. Eu também estou triste, mas não há nada que eu possa fazer.
— Você não parece abalada. Cansada sim, mas abalada não. — Adam pontuou. — O papai me avisou que estava indo para Lima bastante animado. Disse que era uma surpresa. Eu sabia que vocês precisavam de uma folga de Nova York e achei que voltariam felizes, mas então fui atingido com aquela foto e logo depois com o anúncio do divórcio. Eu soube disso através da mídia. Não de você, mãe.
— Eu sei e me sinto péssima por isso. — Rachel passou as mãos no rosto. Ela queria ter conversado com o filho antes de tudo, mas foi praticamente impossível. — Foi uma enxurrada de acontecimentos. Eu mal consegui respirar. Ellie não parou de falar desde que eu cheguei. Fizemos reuniões remotamente com a minha equipe. Eu me sinto uma mãe terrível por não ter conversado com você. Me desculpe.
— Você não é uma mãe terrível. Não diga uma coisa dessas. — Adam se sentou de frente para ela. — Eu só queria ter sabido disso antes de tudo explodir. Você não traiu o papai em um impulso. Poderia ter conversado comigo. Eu posso ser o seu amigo também.
— Eu sei que pode, meu bem, mas eu não planejava nada disso. Não foi premeditado. Tudo o que eu queria ao ir para Lima era apenas descansar da vida movimentada em Manhattan, mas então eu me envolvi com essa pessoa e tudo saiu do controle. Eu nunca achei que poderia me apaixonar novamente depois de anos. Foi como um choque de realidade. Além disso, eu também pude perceber que já não amava o seu pai como antes. Eu iria pedir o divórcio de uma forma ou de outra e iria conversar com você, mas aquela foto vazada atrapalhou tudo.
— Eu sei que você já não amava o papai. Acredite ou não, é mais fácil perceber as entrelinhas estando fora da situação, e eu percebia. Eu via há muito tempo o quanto você parecia exausta perto dele, forçando sorrisos e ficando cada vez mais distante. Você segurava tudo sozinha. Tentou até aquela terapia de casal, mas o papai nunca enxergou nada disso. Sempre esteve em negação sobre vocês. Eu desabafava com o Connor e estava bem quanto ao fato de você encontrar alguém que a fizesse se sentir viva de novo, porque eu vi a minha mãe, a pessoa mais iluminada e feliz que eu conheço, sendo apagada gradativamente. Eu só... não achei que esse alguém fosse a minha melhor amiga. — Adam abriu um meio-sorriso.
— O que... — Rachel abriu a boca, mas não conseguiu falar algo coerente. Ele sabia. Normalmente, ela se agitaria diante dessa informação parecendo tão trivial soando dele. Contudo, não sabia o que responder. Talvez houvesse imaginado uma reação mais enérgica. Não um ar melancólico.
— Eu não sou bobo. — Adam continuou. — Eu vi você se tornar a mesma Rachel Berry de antes depois de conhecer a Quinn. Você parecia uma garotinha encantada. Segurava o celular o tempo todo como se esperasse alguma coisa. O seu sorriso era... incandescente. Connor tentou me convencer de que era apenas uma amizade, mas eu nunca acreditei nisso. Nem por um segundo. Eu não conseguiria frear vocês nem se eu quisesse. E eu acho que nunca quis. Mas é um pouco difícil de encarar.
— Oh, meu Deus. — Rachel afundou o rosto nas mãos. Se sentia constrangida, embora não soubesse o porquê. Nunca achou que estaria confessando os seus sentimentos por outra pessoa que não fosse Finn na frente do seu próprio filho. — Eu não queria que você descobrisse tudo dessa maneira.
— Você iria me contar?
— Claro que sim. Só... não agora. Nós mal estamos juntas. Não fisicamente.
— Você a deixou em Lima enquanto tenta acalmar toda a situação aqui. — Adam recebeu um aceno positivo como resposta. — Você é mesmo uma pessoa incrível.
— Eu achei que você ficaria...
— Revoltado? Zangado? Eu não tenho mais 13 anos, e você não é uma adolescente, mãe. Você sempre foi a pessoa mais sensata e bondosa do mundo e merece ser feliz mais do que qualquer outra pessoa. Eu nem sei dizer quantas reuniões importantes na Broadway você perdeu para ir aos meus concertos bobos de piano.
— Não eram bobos.
— Eu era péssimo. Acho que contrariando todos os estudantes de NYADA, eu ainda prefiro tocar bateria.
— Como o seu pai.
— É, como o papai. Eu sou um conjunto estranho de vocês dois e sei que ele deve ter agido mal quando soube de tudo.
— Ele não parece aberto para aceitar. Nem para tentar entender. — Rachel fez uma pausa. — E você?
— Eu... eu estou devastado por ter perdido a minha melhor amiga.
— Você não a perdeu. A Quinn ama você como um irmão.
— Mas eu não consigo nem imaginar nós dois agindo como amigos depois disso.
— Adam, você não pode simplesmente acabar com essa amizade.
— Não é tão fácil quanto eu gostaria, mãe. Se o tio Kurt se apaixonasse por um dos meus avôs, como você ficaria?
— Eu tentaria entender. Eu sei que pode ser difícil, mas eu entenderia. Se um dos meus pais fosse um completo idiota que não se importasse com o próprio casamento, eu entenderia que um deles simplesmente se apaixonou por outra pessoa. Ninguém escolhe por quem ou quando se apaixonar. Eu poderia ter me apaixonado pelo seu tio Sam, pela Amy, pelo Jesse, mas eu me apaixonei pela Quinn.
— E você conseguiria ser a melhor amiga do tio Kurt? Você conseguiria manter toda a intimidade que desenvolveram? Você conseguiria passar horas conversando e rindo ao lado dele sabendo que ele estaria praticamente namorando o vovô? Não parece estranho?
Rachel não foi capaz de responder de imediato. Ela tinha certeza de que entenderia um envolvimento hipotético entre Kurt e um dos seus pais, mas não se conseguiria permanecer sendo a melhor amiga de Kurt. Era desconfortável imaginá-lo com Hiram ou Leroy. Não pela idade, mas porque era o seu melhor amigo e o seu pai. No fim, ela conseguiu entender o que Adam estava sentindo. Ele se incomodava com o sentimento destrutivo que a sua relação com a melhor amiga dele causava.
— Os pais do Connor têm uma diferença de idade grande, mas eu não tenho nada contra isso, mãe. O problema é que a Quinn era a pessoa para quem eu corria quando as coisas ficavam difíceis e com quem eu dividia tudo. Ela não era só a minha amiga. Ela era... ela. Costumávamos falar que éramos almas gêmeas. Eu faria qualquer coisa por ela. E agora... agora eu sinto como se ela fosse apenas a futura namorada da minha mãe. É tão...
— Desconfortável. — Rachel tinha lágrimas nos olhos. Estava se sentindo culpada e triste. — É desconfortável para você.
Adam assentiu e deitou a cabeça sobre as coxas de Rachel, sentindo uma carícia suave nos seus cabelos.
— Eu estou aqui para você, mãe, e uma parte de mim está feliz por vê-la feliz, mas a outra parte faz com que eu me sinta péssimo.
Rachel secou o rosto.
— Eu não queria deixá-lo péssimo, meu amor.
— Eu sei, mas você não vai abrir mão da Quinn, não é?
— Não, eu não vou. Eu... eu sinto que a amo. Eu não sei se vamos ficar juntas por um ou dez anos, mas eu preciso tentar. Quando eu estou com ela, é como se eu pudesse tocar o céu e as estrelas depois de tanto tempo sem conseguir olhar para cima. Eu não posso desperdiçar esse tipo de sentimento.
Adam não retrucou. Não quando via o quanto o tom de Rachel era verdadeiro e carregado. Não havia como cogitar contestar o que ela dissera. Adam jamais conseguia rebatê-la. Ser sincera com os próprios sentimentos era o que Rachel sabia fazer de melhor. Ele podia sentir que ela estava arrasada por achar estar arruinando a sua amizade com Quinn, mas não havia nada que pudesse falar para tranquilizá-la. O tempo inevitavelmente consertaria as coisas. Para todos. Ele era grato por ela ser tão honesta, mesmo que ainda estivesse triste.
Quinn foi a primeira pessoa para quem contou sobre Connor e mais do que isso, ela foi a pessoa que esteve ao seu lado em todas as confusões internas que tivera desde que se reencontraram. Eles dançaram em máquinas antigas, dirigiram de madrugada na Quinta Avenida, pediram pratos opostos em restaurantes propositalmente para roubarem porções um do outro e escolheram onde morariam quando se casassem. Adam amava o sorriso de canto que ela abria para garantir que as coisas ficariam bem, o olhar caído quando estava constrangida, os braços longos ao redor do seu torso, a gargalhada exagerada que soltava quando estavam sozinhos. Sobretudo, Adam a amava. Não deveria estar se sentindo tão amargurado, mas esperava que ela tivesse, pelo menos, falado com ele sobre isso. Era árduo processar a notícia de que ela dormiu com a sua mãe e ainda pior não conseguir ir até ela para apoiá-la. Estava confuso. Sabia que quando elas decidissem levar o relacionamento adiante, Quinn precisaria de suporte. Adam temia não estar tão prestativo quanto gostaria. Se sentia um péssimo amigo. Quinn não o tinha realmente magoado, mas era complicado demais ser assertivo agora.
— Eu te amo, mãe. — Foi a única coisa que ele disse.
— Eu amo você muito mais, meu garoto. — Rachel se inclinou e deixou um beijo na têmpora dele.
— Eu não sou mais um garoto. — Adam tentou censurá-la, mas acabou sorrindo.
— Para mim você é e sempre vai ser. Meu garotinho doce. — Ela o puxou para o próprio peito e fechou os olhos enquanto o abraçava. Precisava disso. Não ter a rejeição de Adam contribuía para ficar um pouco mais tranquila.
Por mais que houvesse um punhado de palavras não ditas, eles mudaram de assunto e conversaram até Lucien bater na porta e anunciar o almoço. Adam desceu primeiro. Rachel se trocou, mas demorou para ir até a sala de jantar. Não conseguia parar de pensar em Quinn. A saudade que sentia dela era maior do que qualquer outra coisa. A preocupação ainda a castigava. Apesar de ter sido a melhor opção, tê-la deixado sozinha em Lima poderia ser ruim, principalmente com os comentários que Judy e Russel poderiam fazer.
Ela caminhou até as malas que havia levado na viagem. Continuavam no lugar em que as deixara quando voltou. A camiseta de Quinn ainda estava dentro de uma delas e ainda tinha o cheiro dela. Rachel não sabia o que era pior. Não poder tocá-la ou nem sequer vê-la. Ela deixou a camiseta sobre o travesseiro e saiu do quarto, parando ao ver Lucien se aproximar.
— O telefone não para de tocar, Rachel, então eu o desativei.
— Obrigada. Você fez bem. Se for algo importante, Ellie vai repassar para mim.
Lucien assentiu.
— As roupas que você levou para Ohio vão ser lavadas. Você vai permanecer no quarto de hóspedes?
— Sim, eu vou. Não leve a camiseta que está sobre a cama para lavar, tudo bem?
— Claro. Como você quiser.
— Finn está lá embaixo?
— Sim, ele está. Eu o vi entrando no escritório.
— Tudo bem. Eu acho que vou aproveitar e levar alguns pertences do nosso antigo quarto para o quarto de hóspedes.
— Você não vai almoçar? Adam está esperando.
— Eu vou falar com ele, mas como alguma coisa depois.
— Eu vou pedir para Edith preparar um lanche rápido e levo para você no quarto de hóspedes. Está tendo uma má alimentação ultimamente.
— Obrigada. — Rachel sorriu e seguiu até a sala de jantar. Adam mexia distraidamente no celular.
— Você demorou. Eu estava quase voltando no seu quarto.
— Não precisava ter me esperado. Eu vou mudar algumas coisas para o quarto de hóspedes.
— Agora? Quer ajuda?
— Não precisa. Se precisar de mim, eu vou estar lá em cima.
Adam aquiesceu, e Rachel voltou para o andar superior. Ela entrou no quarto principal silenciosamente. Se não fosse a cama desarrumada, poderia afirmar que ninguém tinha dormido ali recentemente. Tudo estava no mesmo lugar. Ela acendeu a luz do closet e deslizou a porta corrediça espelhada. Mais da metade do espaço era ocupado pelas suas coisas. Vestidos, saias, calças, shorts, camisetas, camisas, sapatos, bolsas, casacos, cachecóis. Agora que precisava tirar tudo dali aos poucos, ela observava a quantidade interminável de objetos. Enquanto pegava algumas malas e as enchia com as roupas que mais precisaria, ela se embalou pela realização das etapas transicionais da própria vida. A transição de ter passado de um apartamento de dois quartos no Bronx para uma das maiores mansões de Nova York foi assustadora. Rachel precisou de meses para se adaptar, especialmente após as reformas que fizera. Constantemente se perdia entre os corredores. Às vezes, corria e contava quanto tempo levaria da quadra de tênis até a biblioteca. Mas definitivamente ostentar aquele closet foi um dos seus maiores prazeres materiais. Seria hipocrisia falar que nunca gostou de itens caros. Mais hipocrisia ainda falar que não adorou comprar ou ganhar cada um deles. Por meses, sua casa foi a pauta de várias matérias. Por meses, Rachel passou pela transição de recém-milionária para um exemplo de estilo de vida sofisticado. E depois de anos, Rachel passava pela mudança de tirar as suas coisas dali. Com cuidado, ela dobrou cada peça até encher seis malas grandes. Lucien as levou até o quarto de hóspedes. Rachel o agradeceu e tirou algumas caixas de veludo do cofre atrás do fundo falso do closet, mas quase foi ao chão ao sair e esbarrar em outra pessoa.
Finn não tirou as mãos da cintura dela.
— Obrigada, mas agora pode me soltar, Finn. — Rachel tentou se afastar.
— Eu sei que tudo está complicado agora, mas você sempre gostou de ser tocada por mim, Rach.
Rachel sentiu os lábios dele no seu pescoço. O aroma do perfume masculino se misturando ao de conhaque. Seu corpo não reagiu nem mesmo quando ele deslizou as mãos pelo seu quadril. Antes que pudessem descer para a sua bunda, Rachel o empurrou. Ironicamente, se deixasse que Finn a tocasse, seria como trair Quinn. Aquilo sim a faria se arrepender amargamente.
— Eu não sinto mais nada, Finn. Eu lamento por isso. — Ela fez esforço para ser gentil.
— Eu não acredito nisso, Rachel. Nós ainda transávamos há semanas. Como as coisas puderam mudar tanto? Você sentia desejo.
— Havia desejo porque o meu corpo era estimulado, Finn. Não tinha paixão e nem fervor. Não da minha parte. Eu me acostumei. Me acostumei a sentir sentimentos partidos até senti-los inteiramente depois de muito tempo. E agora eu não vou pará-los. Eu quero viver todos eles.
— Com uma garota. — Finn apertou a mandíbula.
— Com uma pessoa, independentemente de idade dela. — Rachel o corrigiu.
— Isso está errado, Rachel. Você não percebe isso? Esse maldito erro?
Finn se afastou aturdido e fechou as mãos em punhos. Ele nunca foi uma pessoa violenta quando bebia, mas o desalento e a raiva não eram uma boa combinação para o álcool. Rachel arregalou os olhos e recuou alguns passos instintivamente quando ele desferiu um soco na parede, marcando a tinta e a própria mão, que ficou vermelha rapidamente.
— Meu Deus, Finn! Você ficou louco?! — Rachel quase gritou. — Por que fez isso? Você está bem?
— Isso é culpa sua. — Ele mal sentia a dor nos seus ossos. Estava encolerizado e frustrado como nunca estivera antes.
— Minha culpa? — Rachel se irritou. — Não coloque a responsabilidade das suas atitudes em mim.
— A sua teimosia me deixa assim, Rachel.
— Não é teimosia, Finn. É uma decisão. Estamos nos divorciando. Com ou sem o seu consentimento. — Rachel foi para o quarto de hóspedes, mas Finn a seguiu. Ela o fitou parado na porta do cômodo. — Vá embora.
— Suas... suas coisas...
— Eu estou começando a trazê-las para cá. — Ela deixou as caixas que ainda segurava em cima da cama.
— Não, Rachel. — Finn começou a chorar e caiu de joelhos na frente dela. — Não faça isso. Eu estou implorando.
Era uma cena quebradiça. Rachel se sentiu mal, se esquecendo momentaneamente das discussões que tiveram e se ajoelhando na frente dele. Acima de tudo, Finn sempre seria a primeira pessoa por quem se apaixonou e com quem passou mais da metade da sua vida. Ele era o pai do seu filho. Quem sabe um dia pudessem voltar a ser amigos, mas sabia que era pedir demais por enquanto. No entanto, vê-lo tão desnorteado, machucado e passando por um turbilhão de sentimentos que o fazia ir de uma raiva excessiva para uma tristeza excruciante era angustiante.
— Olhe para mim. — Rachel pediu, e ele a obedeceu. — Eu gostaria de passar o resto da minha vida com você se eu ainda o amasse profundamente, mas isso não é possível para mim. Não mais. Se você me ama, tente pensar na minha felicidade, Finn, assim como eu estou pensando na sua. Insistir nesse casamento nos destruiria, porque não era mais o amor que nos unia e sim o comodismo. Poderíamos nos odiar se continuássemos nesse ciclo. Agora temos a oportunidade de explorar novos ares.
— Eu não quero explorar novos ares, Rach. Eu quero permanecer aqui, com você. Por favor... — Ele segurou a mão dela.
— Eu sinto muito, Finn. Eu realmente sinto, mas o nosso casamento acabou para mim. — Ela o viu curvar a cabeça para fitar as mãos unidas. — Eu jamais vou esquecer tudo o que passamos e espero que um dia possamos ser amigos.
Finn passou longos segundos em silêncio. Por fim, quando ergueu a cabeça, Rachel se surpreendeu por ver os olhos antes temerosos e infelizes tão duros e frios.
— Não.
— Como disse?
— Eu disse que não. Eu não vou ser o seu amigo, Rachel. Eu nunca vou sorrir ao vê-la com aquela garota. Eu nunca vou me sentar para tomar o chá da tarde com vocês duas. Eu amo você, mas vou transformar esse amor em ódio, e você não vai querer me ver com ódio. Eu estou dando a última chance de você acabar com essa humilhação, ou então vou me comunicar oficialmente e apontar Quinn Fabray como a sua amante.
Eles ficaram de pé. Rachel retribuía o olhar áspero que recebia.
— O que... você... você não vai fazer isso. Vai ser mais humilhante para você.
— Eu vou fazer e posso ser um ator melhor do que a grande estrela da Broadway. — Ele foi sarcástico. — A não ser que você acabe com esse relacionamento ou o que quer que isso seja.
Rachel teve de afirmar para si mesma que aquela conversa estava mesmo acontecendo. Finn agia como um lunático. Primeiro querendo continuar em um casamento por pena e agora por ameaça. Quanto mais conseguiria derrubar qualquer afeição que poderia ter por ele? Rachel não queria descobrir. Aquela decisão era incabível demais para acreditar que estava vindo da pessoa que achou conhecer.
Eles travavam um duelo pelo olhar. Rachel seria capaz de avançar sofre Finn e estapeá-lo se não fosse o toque estridente do seu celular. A foto de Quinn apareceu no visor. Ela tinha fotografando-a durante o passeio que fizeram ao Museu Allen County sem que soubesse. Rachel se arrependeu por não terem tirado nenhuma foto juntas, mas esperava recompensar aquilo em breve. Seu coração acelerou. Se Quinn soubesse que Finn queria expor tudo de uma vez, continuaria ao seu lado? A insegurança que evitou ter a derrubou com um único golpe.
Finn também olhou para o celular.
— É ela. Por que não atende, Rachel? É prudente comunicá-la sobre a exposição que vai sofrer na mídia. Quer que eu faça isso por você?
Finn pegou o celular. Rachel segurou o braço dele. Suas unhas cravadas no antebraço descoberto pelas mangas dobradas da camisa.
— Se você abrir a boca para falar qualquer mentira sobre a Quinn, eu vou processá-lo por calúnia e difamação. Vou contratar os melhores advogados. Eu acabo com a sua vida, Finn.
— Eu não preciso inventar nada, Rachel. Basta divulgar o nome dela. Vai ser como uma faísca se transformando em um incêndio. Nós sabemos disso.
— E o que você ganha com isso? No final, eu ainda serei dela. O meu corpo ainda será dela e o meu coração ainda será dela. Você não vai ter nada. Nem o meu respeito. Adam vai odiá-lo também. — Ela continuou segurando-o. As mãos cerradas e a pose impassível, como uma muralha inabalável. Não queria provocá-lo desse jeito, tampouco usar o próprio corpo como uma espécie de recompensa, mas aquela parecia ser a única linguagem que Finn entendia.
O celular parou de tocar. Finn se livrou do aperto de Rachel e o jogou com força sobre o carpete abaixo dos seus pés, respirando audivelmente. Rachel sabia que ele tinha se afetado dolorosamente. O ego dele sempre foi facilmente inflamável.
— Eu vou ver o sofrimento de vocês. — Ele foi lacônico.
— Será que nós vamos sofrer? O mundo pode cair sobre nós, mas ainda teremos uma à outra, e eu tenho certeza de que não serei colocada em segundo plano.
A cabeça de Finn girava sem parar. Todas as voltas acabavam no pensamento de Rachel com Quinn, e isso o queimava. Em um momento de lucidez, ele admirou a força que ela tivera quando foi traída. Ele nem mesmo conseguia suportar a ideia de imaginá-las transando. De imaginar Rachel chamando pelo nome de outra pessoa e deixando que outra pessoa a tocasse e a tivesse de uma maneira tão pessoal.
Rachel continuou:
— Você não era nada antes de me trair, mas após isso explodiu nas notícias como o jogador revelação de um time pequeno. Não demorou para que alcançasse os Giants. Eu desconfiei, mas esqueci. Mas agora isso me deixou curiosa novamente, então pode ter certeza de que se você fizer algo contra a Quinn, eu vou até o inferno para expor você. Eu tenho certeza de que há algo para alimentar a mídia.
Uma sombra de receio atravessou os olhos castanhos de Finn, mas ele a ofuscou.
— Vá em frente. — Ele desafiou. — Mas fale com a sua namoradinha antes disso. Ela precisa saber que será conhecida, exceto se vocês colocarem um fim nisso. Você tem uma semana para desfazer esse espetáculo.
Finn deixou o quarto, e Rachel se sentou na cama. Seu corpo tremia. Suas pernas estavam fracas. O tremor dos acontecimentos não parava de atingi-la. Estava cansada. Finn piorava tudo sempre que resolvia tentar uma reconciliação. Nunca se imaginou tendo um embate tão furioso com ele. De todas as coisas que precisava fazer, falar com Quinn era a primeira delas.
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