A Luz dos Teus Olhos
12 Capítulo 12 - Sobre não se importar...
Notas iniciais
Quinn tentou não fazer barulho enquanto entrava no seu quarto segurando uma bandeja com muffins, waffles, café e smoothie.
Rachel ainda dormia. Estava de bruços, coberta parcialmente pelo lençol sobre metade das costas, e abraçava o travesseiro confortavelmente, espalhando os cabelos no colchão. Quinn a observava minuciosamente. Queria acordá-la com beijos. Suas mãos formigando para tocá-la. Ela era tão linda dormindo quanto era acordada. Mas, não sabia se seria uma boa ideia. Mesmo depois da noite que tiveram, ainda existia uma avalanche de questões não resolvidas. Não tinha certeza se teriam outro momento como esse. Ao deixar a bandeja sobre a mesa de cabeceira, seus olhos caíram na aliança fina e no anel de diamante. Eles pareciam brilhar ainda mais naquela manhã, quase reverberando o que fizeram há algumas horas. Quinn suspirou. Rachel ainda era uma Berry-Hudson. Talvez nunca deixasse de ser. Terem feito sexo não anulava o fato de ela ter uma vida em Nova York e não garantia que também não enxergava isso somente como um ato restrito de sentimentos. Sua cabeça repassou a conversa que tivera com Santana. No final, ela estava certa. Certa sobre tudo. Seus olhos brilhavam perto de Rachel. Seu coração se agitava. Seu corpo reagia a cada vez que ela encostava nele. Sabia o que tudo aquilo era. Já havia sentido antes, embora em uma intensidade mais moderada e não em tão pouco tempo. Isso a apavorava. A realidade escorrendo sem controle nas suas mãos. Era mais fácil quando tentava nublar a própria visão. Agora, podia estar imaginando algo completamente fictício. Rachel tinha uma carreira perfeita, com uma casa perfeita e um casamento de duas décadas. Ela não trocaria nada disso por uma universitária de 20 anos.
Quinn se sentou na beira da cama e deslizou os dedos suavemente nas costas dela. A pele estava quente, quase pedindo para que a abraçasse e voltasse a dormir para se esquecer das perguntas sem respostas martelando os seus pensamentos, mas ela continuou acariciando-a sutilmente até fazê-la se mexer.
Rachel piscou algumas vezes, apertando os olhos para se adaptar à claridade que passava pela janela, e sorriu preguiçosamente. Se sentia disposta. Seus músculos estavam relaxados.
Quinn recuou a mão instintivamente, vendo-a se virar e se encostar na cabeceira da cama.
— Bom dia. — Rachel continuou sorrindo, e Quinn a espelhou.
— Bom dia.
Rachel levantou os braços para prender os cabelos, mas percebeu o instante em que Quinn desviou a atenção para qualquer lugar que não fosse os seus seios descobertos quando o lençol caiu no seu colo. Ela se aproximou e a segurou pelo queixo, fazendo com que voltasse a olhá-la.
— Você está com vergonha?
— Um pouco. — Quinn sentiu as bochechas esquentarem. — Eu não sei direito como agir.
— Você pode agir como quiser. — Rachel a deu um selinho e desceu os lábios devagar.
Quinn suspirou quando ela começou a sugar o ponto sensível abaixo da sua orelha. Seu estômago se revirando pela corrente de sensações, especialmente quando a beijou e a puxou para o seu colo, agarrando firmemente o quadril dela. Ter Rachel nua em cima do tecido fino do seu short estava acordando o seu pênis mais rápido do que estava acostumada.
Elas gemeram entre o beijo. O clitóris de Rachel pressionava contra o volume que crescia entre as suas pernas. Ela tentou tirar a camiseta de Quinn, mas o toque estridente do seu celular a fez se afastar um pouco.
Ela esticou o braço para pegá-lo, rejeitando a ligação. Era Hiram. Ele deixou uma mensagem de texto, e Rachel comprimiu os lábios.
— O que foi?
— Papai quer que eu o acompanhe ao mercado. Meu pai Leroy não vai poder ir, e ele odeia dirigir. Ele também sabe que eu estou aqui. Provavelmente nós vamos sair hoje. Todos nós.
— Todos nós?
— Sim, eles adoram você.
Quinn não disse nada. Não sabia como encararia Hiram e Leroy depois de ter dormido com a filha deles, embora não precisassem saber disso. Rachel era uma mulher adulta. No entanto, imaginar a reação dos dois era algo particularmente desconfortável. Eles ficariam bravos? Defenderiam Finn? A acusariam de estar usando Rachel?
Ela saiu do torpor quando Rachel deixou o celular no mesmo lugar.
— Você quer comer antes?
— Eu queria fazer mais do que comer. — Rachel a circulou com os braços e colou as testas.
Quinn sorriu.
— Nós podemos fazer isso depois.
Aquilo foi mais do que uma sugestão. Inconscientemente, Quinn desejava que Rachel confirmasse que haveria um depois.
Rachel a beijou antes de responder.
— Eu vou cobrar.
Ela saiu do colo de Quinn. A frustração por não poder ficar mais tempo ali sendo dissipada ao notar a bandeja recheada pela primeira vez. Enquanto pegava uma das camisetas que Quinn jogou sobre a poltrona e vestia a sua calcinha, Rachel a viu colocá-la sobre a cama.
— Eu... preparei isso para você. Na verdade, só preparei os waffles. O resto eu comprei, mas garanti que fossem veganos. Não se preocupe.
Rachel sorriu e chegou perto dela. Ela espantou qualquer pensamento sexual quando o seu coração se aqueceu e descompassou. Tudo o que estava arriscando com Quinn valia a pena só por se sentir tão acolhida.
— Não precisava fazer isso, Q. — Rachel a beijou nas bochechas e na boca. — Você é maravilhosa.
— É claro que precisava. Vem, vamos comer.
Elas dividiram porções de waffles, mordidas nos muffins e beberam todo o café. Em alguns momentos, Rachel aproveitava para limpar a boca de Quinn com beijos rápidos e fortuitos. Pareciam um casal. Agiam como um casal. Quinn não sabia o que viria adiante, mas aproveitaria o máximo que pudesse.
— Eu acho que tenho de ir agora. Papai não gosta de esperar. — Rachel se levantou depois de terem terminado de comer.
— Você não quer tomar banho primeiro? — Quinn ofereceu.
— Eu adoraria, mas eu iria querer que você me acompanhasse, e então nós faríamos o que não fizemos quando o meu celular começou a tocar. — Rachel afagou o rosto de Quinn. — E eu adoraria, mas não posso demorar.
Quinn se arrepiou. Rachel era sincera demais. Com a intimidade que adquiriram, isso parecia ter aumentado. Ela concordou e saiu para deixar a bandeja na cozinha. No tempo em que ficou lá, Rachel se vestiu com as roupas que usava no dia anterior e parou perto da mesa de cabeceira para pegar a aliança e o anel.
Ela respirou fundo, passando-os pelo dedo anelar, mas os tirou rapidamente logo depois. Sentia-os queimando como uma dor sentimental. Longe da névoa que entrava quando Quinn estava por perto, sua cabeça martelou com a racionalidade de que tinha traído Finn. Que deu voz ao que vinha sentindo por Quinn e que continuava tocando-a sem nenhum ressentimento. Ela se perguntou qual o tamanho da culpa que assolou Finn após ele traí-la. Se tudo pareceu esmagá-lo dolorosamente. Sobretudo, ela se perguntou o motivo de não estar se culpando, chorando pelo corte pujante que acabara de abrir no seu casamento. Se sentiria assim o tempo todo? Havia um desconforto por sentir o erro nas suas ações, mas nada que a fizesse se martirizar como esperava. Aquele era o rumo que queria seguir?
Quando era mais nova, sonhava em se casar e viver com o seu primeiro e único amor pelo resto da sua vida. Apesar de ter se casado cedo demais, foi fácil se acostumar com Finn. Os problemas que ainda pairavam na sua relação com ele agora eram grãos de areia perto do tornado que tinha de enfrentar desde que beijou Quinn. Não podia afirmar para si mesma que não se repetiria. Não conseguia. Não tinha forças. Não quando ela a encarava com aquele jardim esverdeado refletindo nos olhos. Não quando sabia que havia mais do que desejo nos seus sentimentos por ela. O perfume dela marcado inerentemente nas suas memórias. Ainda era confuso assimilar tudo. Havia um turbilhão de obstáculos. A idade talvez fosse um dos maiores. Quando tivesse 60 anos, Quinn teria apenas 40. Era uma diferença assombrosa. Uma diferença que estava custando a se adaptar, assim como era difícil se adaptar a aceitar o fato de que Finn não era mais a pessoa com quem queria envelhecer. Estava em uma estrada repleta de curvas. Cada uma a levava para um destino diferente.
Ela recolocou o anel e a aliança depois de alguns minutos, quase correndo até Quinn quando a ouviu fechar a porta do quarto. Seus braços apertaram a cintura dela, sentindo-a rodear os seus ombros. Queria sanar todas as suas indecisões. Além disso, queria que tudo pudesse ter sido diferente. Mas era impossível. A vida nunca é tão simples.
Rachel sempre achou que o universo havia sido bondoso com ela mesmo com as dificuldades que enfrentou com a gravidez de Adam e os anos tardios em NYADA. Ela conseguiu uma carreira assustadoramente abundante. Foi recompensada com o passar dos anos. Depois de aprender a lidar com a mídia, não havia mais preocupações. Todos a adoravam. A sua vida era regida por aceitar quaisquer contratos que achasse pertinente. Ellie cuidava de tudo há muito tempo. Adam não se sentia negligenciado. Sua rotina era bem administrada. O comodismo e a indiferença do seu casamento era tudo o que estava tentando resolver, então Quinn Fabray surgiu e derrubou tudo o que empilhou perfeitamente. E mais do que isso, fez com que vivesse sentimentos que achava ver somente em filmes e livros. Rachel sabia, mais do que qualquer outra coisa, que se não evitasse, acabaria se apaixonando.
Mas não sabia se evitaria.
— Rach? Está tudo bem? — Quinn ainda a abraçava.
— Está. Eu só precisava disso. — Rachel a fitou, se perdendo momentaneamente nos olhos mais amarronzados pela iluminação forte do quarto.
— Eu estive pensando... — Quinn se afastou um pouco e passou as mãos no rosto. Estava nervosa.
— O quê?
— Você gostaria de jantar comigo hoje?
— Como um encontro? — Rachel se surpreendeu.
— Se você não quiser...
— Eu quero. — Ela se apressou em responder. — Às oito?
— Às oito. — Quinn sorriu aliviada.
Rachel a puxou para um beijo.
— Eu preciso ir agora. Não se atrase, Fabray. — Ela brincou e saiu do quarto sem esperar uma resposta.
Quinn ficou parada por alguns segundos. Tudo ainda estava acontecendo rápido demais, como um sonho. Ela afirmava internamente que era real. Que Rachel não a repeliu e que retribuiu os afetos que recebeu. Teriam um encontro no final do dia.
Quinn comemorou internamente. Aparentemente, os seus sentimentos não eram unilaterais.
•••
Rachel subiu a escada às pressas e entrou no próprio quarto, fechando a porta enquanto sorria. No caminho até a casa dos pais, ela decidiu abandonar temporariamente todas as dúvidas que tinha. Durante a sua estadia em Lima, Nova York não existiria. Tentaria guardar tudo em uma gaveta. Pelo menos o quanto pudesse.
Ela tomou banho e desceu para a cozinha quase uma hora depois. Leroy ainda estava em casa e soltou uma risada quando ela guiou Hiram em uma dança ao redor do balcão. Ao finalizarem, ele os aplaudiu. Rachel estava inesperadamente feliz.
— Bom dia! Hoje o céu está lindo, vocês não acham?
— Bom dia, meu bem. Algum motivo para essa animação? — Hiram sorriu.
— Eu estou feliz.
— Dormir na casa dos Fabray a deixou feliz?
— Eu acho que dormir com Quinn Fabray a deixou feliz. — Leroy pontuou.
O sorriso de Rachel desapareceu.
— O que...
— Nós não somos bobos, meu amor. Você está sem aliança e não me atendeu quando estava na casa dela.
— Eu estava ocupada.
— Mas respondeu a minha mensagem instantaneamente.
— Eu não podia falar naquela hora.
— Não precisa esconder nada de nós, Rach. Somos seus pais. Você saiu com ela ontem e voltou completamente radiante quinze horas depois.
Rachel fitou o piso de madeira. Havia um vazio estranho no seu dedo pela falta da aliança, mas não sentia falta dela. Talvez por isso, depois de vinte e dois anos, esqueceu de colocá-la.
— Eu só não quero que me julguem.
— Não vamos julgá-la. Jamais faríamos isso. — Hiram disse. — Se aconteceu algo, pode dizer. Você sabe que nós sempre fomos os seus maiores confidentes.
— Nós... nós transamos. — Rachel sentiu o rosto corar. Foi impossível não se constranger. Ainda era a sua vida sexual, e eles ainda eram os seus pais.
— Oh... — A boca de Hiram se abriu em compreensão. Esperava que houvessem trocado algum afeto mais profundo, mas não isso. — Vamos nos sentar, tudo bem?
Rachel aquiesceu e o seguiu após guardarem as sobras do café da manhã. Novamente, ela se viu entre os dois no sofá da sala de estar.
— Ela estava ali, me dizendo coisas lindas e fazendo com que eu me sentisse especial. — Ela explicou. — Eu quis e sei que foi errado, mas não consigo me arrepender. Finn também me traiu e se arrependeu. Por que eu não consigo sentir o mesmo?
— Talvez porque ele fez aquilo só pelo prazer. Há uma enorme diferença entre sexo com e sem sentimentos. Mesmo que você não saiba decifrá-los, eu sei que há algo maior nisso tudo. — Hiram respondeu.
— Há a possibilidade de tudo isso ser apenas um capricho seu para se sentir valorizada por uma mulher mais nova? — Leroy foi mais incisivo.
— Não. — Rachel negou com a cabeça. — Eu quis a Quinn como minha amiga desde que a reencontrei. Não sei ao certo como as coisas evoluíram tanto, mas eu gostava da atenção que recebia. Gostava de ver como ela me olhava e me valorizava. Eu nunca precisei pedir nada. Ela sempre estava ali. Então tudo aumentou de uma hora para outra. O meu coração começou a acelerar o tempo inteiro, e a minha respiração aumentava perto dela. Quando eu a olho, é como se tudo desaparecesse ao redor. Eu quero estar por perto, sabendo o que ela está pensando, ouvindo todas as histórias de ficção gótica que ela ama ler e vendo todos os filmes independentes que ela adora. Eu sei que a idade...
— A idade vai tentar atrapalhar vocês. — Hiram a interrompeu. — Se você decidir ficar com ela, todos vão falar. Nós sabemos como o preconceito é doloroso, mas você é uma das mulheres mais conhecidas desse país, então precisa estar preparada. Quinn precisa estar preparada.
— Vocês acham que eu conseguiria ficar com ela?
— Tudo o que você acabou de falar já é quase uma resposta sua para você mesma. Não há apenas uma simples atração entre vocês. Isso pode aumentar muito. Você precisa pensar sobre o que quer, porque alguém pode sair extremamente ferido dessa história. Precisa se perguntar o que quer. Se quer ficar com ela. Se quer apagar isso e focar no seu casamento.
Rachel não respondeu. Pensar em esquecer tudo o que viveu com Quinn era impossível. Era impossível esquecê-la. Era impossível cogitar esquecê-la. Ela era grata por aquela conversa com os pais. Não havia diminuído as suas preocupações, mas serviu para ter certeza de que o melhor para o seu coração naquele instante era Quinn e o encontro que teriam.
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