A Luz dos Teus Olhos
10 Capítulo 10 - Única...
Notas iniciais
Rachel acordou sorrindo preguiçosamente enquanto sentia beijos suaves no topo da sua cabeça. Depois de se acostumar com a luz que escapava da cortina na janela, ela fitou Hiram e Leroy sentados na ponta da sua cama e arrastou o corpo para se recostar na cabeceira.
— Bom dia, Rach. Dormiu bem? — Hiram pegou a bandeja com pés e a colocou sobre o colo dela.
— Dormi maravilhosamente bem, papai. — Ela quase salivou quando sentiu o aroma do café, dos biscoitos e dos pães veganos que Leroy sempre fazia. Tudo aquilo cheirava a lembranças da sua infância. Era uma nostalgia revigorante.
— Seu pai e eu ainda não acreditamos que você está mesmo aqui. Já estávamos sentindo sua falta.
— Eu precisava vir. Precisava do conforto e dos conselhos que vocês sempre me dão.
— Nós sabemos. Sentimos que havia algo de errado desde a nossa última ida para Nova York. — Hiram disse. — Pode nos encontrar na sala de estar quando terminar de comer e se arrumar. Esperaremos para conversarmos sobre o que você quiser, tudo bem?
Rachel assentiu, e eles se retiraram após beijá-la na testa.
Ela suspirou. Sempre que estava na casa dos pais sentia como se o tempo fosse congelado temporariamente. Seu quarto continuava do jeito que o deixara quando se mudou para Nova York há dezoito anos. A prateleira repleta de troféus de canto, dança e competições de literatura. Os pôsteres de filmes e peças que admirava. A vitrola ao lado dos vinis. O aparelho de DVD ultrapassado. As fotos no mural em uma das paredes amarelas. Nada havia mudado. Às vezes, queria voltar para a época em que a sua única preocupação era não se atrasar para a aula. Para a época em que não tinha fama, mas se sentia inteiramente feliz. Agora, sentia que faltava alguma coisa.
Ela encontrou os pais sentados no sofá da sala de estar bebendo chá e ouvindo Tina Turner cerca de uma hora depois. Hiram se adiantou em pausar a música, observando-a se acomodar entre eles.
— Você quer um pouco de chá, meu bem?
— Não, papai. Obrigada. — Rachel juntou as mãos sobre o colo. Seu olhar se perdeu por um instante no papel de parede floral. Não sabia por onde começar, mas precisava tentar. — Finn e eu não estamos em uma fase muito boa ultimamente. Wicked estreou há algumas semanas, e o campeonato está agitado, então não nos sobra muito tempo juntos, mas eu acho que não é isso. Não mais. Eu já estreei outras peças, e ele já passou por outros campeonatos. O problema é que não conseguimos conviver como antes. É como se houvesse uma montanha nos separando. Eu tento conciliar tudo, mas Finn se distanciou cada vez mais. — Rachel fez uma pausa, umedecendo os lábios com a ponta da língua. — E então ele propôs um segundo filho semana passada. Eu quis ser mãe novamente e já tínhamos conversado sobre isso, mas ele recusou. Eu enterrei essa ideia e esse desejo. Não sei se estou pronta para isso agora, mas se eu demorar muito, posso não conseguir. Eu me lembro dos planos que fiz com o Finn quando éramos adolescentes. Queríamos ter vários filhos. Mas esses planos foram colocados embaixo do tapete. Adam já tem 21 anos, e nós não tivemos outro filho. Eu sinto que deixei muita coisa passar, e agora pode ser tarde para trazê-las de volta. Eu estou envelhecendo.
— Você quer a minha opinião como terapeuta ou como pai? — Leroy perguntou.
— Como os dois. — Rachel afundou o corpo no sofá.
— O meu lado terapeuta diz que o seu casamento está por um fio e que o pedido de Finn de terem um segundo filho é o desespero falando mais alto, fazendo-o querer isso sem pensar nos prós e contras. Um filho não vai consertar essa relação. Há coisas muito delicadas acontecendo, mas ele quer usar isso como um passatempo para você nublar a sua cabeça sobre a situação em que estão. E o meu lado paterno confirma tudo isso, incluindo o fato de que ele está sendo um idiota propondo algo tão grande apenas para não a perder. É um completo egoísmo.
— Roy...
— O quê? Eu nunca gostei tanto do Finn. Sempre o achei irresponsável, e então você engravidou. O seu casamento foi feito às pressas. Vocês eram duas crianças. Eu fico surpreso por ter durado tanto tempo.
— Nós nos amávamos.
— E ainda se amam? Você acha que um filho é a melhor opção agora? É como tentar reparar um fio desencapado com fita isolante. Eventualmente, alguém vai se machucar com ele. A proteção não vai durar muito tempo.
— Mas todo amor enfraquece quando o casamento atinge certo tempo, não é? Estamos casados há mais de vinte anos. É normal todo aquele sentimento avassalador diminuir. Eu estou errada? — Rachel quase suplicou por uma resposta concreta. Queria algo que a confortasse acerca das suas dúvidas.
— Cada casal é diferente do outro, meu amor. — Hiram disse. Rachel virou o rosto para fitá-lo. — Seu pai e eu estamos casados há quase cinquenta anos, e confesso que já pensamos várias vezes em divórcio, mas nunca levamos adiante, porque o nosso amor continuava evidente. Se o seu amor não está voltando, talvez você precise deixá-lo ir e conversar com o Finn para procurarem uma solução que não envolva uma pessoa inocente. Um filho que pode sofrer com o casamento frustrado dos pais. Ignorar algo quebrado pode feri-los mais do que imaginam.
— E seu pai e eu nunca traímos um ao outro.
— Roy! — Hiram elevou o tom de voz. — Seja imparcial.
— Não há como ser imparcial depois daquele ato covarde, Hiram. Rach estava vivendo a sua ascensão na Broadway enquanto se dedicava ao Adam e recebeu aquele golpe nas costas. E se vocês tiverem outro filho? Finn vai estar sempre ao seu lado? Ele pode trair você novamente.
— Eu acredito em segundas chances, tudo bem? Você não perdoaria o papai se ele o traísse?
— Eu perdoaria, mas não porque acredito em segundas chances e sim porque valeria a pena reconstruir algo com Hiram. Eu não vejo a minha vida sem ele. Mas valeu a pena tentar reconstruir tudo com Finn? Ele nem sequer faz o mínimo de esforço para acompanhá-la no que é importante para você. No fim, ele é a companhia que você mais quer? Você continua pensando nele quando se imagina ao lado de alguém?
Rachel não conseguiu responder aquilo. Valeu a pena perdoar Finn? Ele foi incrivelmente amoroso nos meses que sucederam a traição, mas tudo voltou ao que era antes quando as coisas se tornaram estáveis. Ela esteve tão imersa na vida profissional que não fez questão de batalhar a atenção dele, mas agora batalhava, embora soubesse o quão errado isso era. Não sabia se batalhava por amor ou por medo de descobrir que jogou uma grande parte da sua vida fora insistindo em uma relação que sempre se partia. Era vergonhoso demais pensar que estava mais confortável longe de Finn. Ele foi o seu amigo por muitos anos, mas havia sempre um grão de dúvida do que aconteceria se não tivesse engravidado cedo demais. A convivência com Finn acabou sendo mais um compromisso do que um desejo, e então ela se acostumou. Ela se acostumou com coisas demais.
— Então eu devo pedir o divórcio?
— Não podemos dizer o que você deve fazer, Rach. Você é uma mulher independente e forte. Não vamos influenciá-la a tomar uma decisão tão importante e que causará uma mudança significativa na sua vida. Se você quiser ser mãe novamente, estaremos contentes em ter outro neto para cercar de amor, mas não deixe Finn controlá-la. Não o deixe usar a criança para prendê-la no casamento. Vemos isso constantemente nas consultas de casais. Muitas mulheres se prendem em uma relação infeliz por causa dos filhos. Você é a grande estrela da Broadway e tem um império invejável. Pode fazer o que quiser. Não desista da sua própria felicidade. Ela é o mais importante.
Rachel aquiesceu, sentindo os olhos marejarem, e o abraçou com força. Hiram deixou que ela ficasse ali pelo tempo que quisesse, vendo Leroy passar a mão nas costas dela em um afeto reconfortante.
— Nós amamos você e sempre estaremos aqui por você. — Hiram enxugou as poucas lágrimas que escaparam. Rachel ficou em silêncio por mais alguns minutos. Não tinha sanado os seus questionamentos, mas se sentia melhor por ter começado a se abrir com os pais.
— Quer continuar conversando sobre isso? — Leroy perguntou.
— Agora não. — Ela respondeu. — Eu preciso ir até a casa dos Fabray. Quinn está lá sozinha, então eu pensei em convidá-la para tomar café da manhã aqui. Eu tenho quase certeza de que ela ainda não comeu. — Se levantou.
— Judy é um pouco preocupada com a alimentação dela. Traga-a até aqui. Nós vamos preparar mais um pouco de café. E desde quando vocês são amigas? Nós vimos as fotos que saíram na internet. — Hiram estava nitidamente interessado.
— Nos reencontramos no aniversário do Adam. Ela me chamou para ir até o Central Park. Depois, eu a chamei para ver Wicked. Nossa amizade evoluiu aos poucos. Quando dei por mim, estávamos saindo quase todos os dias. Ela é uma pessoa maravilhosa. — Rachel sorriu. — Eu já volto.
Ela saiu da casa dos pais e atravessou o jardim para bater na porta dos Fabray, mas franziu o cenho quando não foi atendida. Quinn ainda estava dormindo? Ela cogitou ligar para o celular dela, mas ouviu um barulho ecoar da área dos fundos, o que a fez contornar a casa somente para vê-la pegar o regador de metal que tinha caído no chão.
Rachel sorriu, percebendo que não havia sido notada. Quinn se agachou para regar algumas plantas enquanto cantarolava a música que cantaram juntas na mansão. Seus cabelos estavam amarrados. O sol forte deixando-os mais claros. Ela sentiu o próprio coração errar algumas batidas por se lembrar dos momentos que trocaram na piscina da mansão e no jardim do apartamento dela em SoHo.
— Parece que alguém acordou empenhada em cuidar das flores.
Quinn quase pulou, se virando para encará-la.
— Rachel, que susto. — Ela se levantou.
— Bom dia para você também. — Rachel se aproximou, passando os braços ao redor da cintura dela e beijando-a na bochecha.
Quinn sorriu.
— Bom dia. Quer me ajudar?
— Claro, mas primeiro quero saber se já tomou café da manhã.
— Mais ou menos. Depois eu como qualquer coisa.
— Qualquer coisa não vai fazer bem para a sua saúde como um café da manhã completo. — Rachel subiu as mãos para segurá-la pelo rosto. — Você pode comer na casa dos meus pais.
— Não é necessário, Rach.
— É mais do que necessário. Vamos, Quinn.
— Você não vai parar, não é?
— Não, não vou. Nós vamos e depois voltamos.
Quinn concordou resignada e retirou as luvas, deixando-as ao lado do regador e da tesoura, acompanhando Rachel até a casa dos Berry.
Ela quase gemeu em satisfação quando comeu os ovos mexidos e o bacon preparados por Hiram, mesmo sob os protestos de Rachel, que tentava impedir Leroy de contar as histórias mais vergonhosas da sua infância. Gradativamente, o peso da conversa que trocaram no sofá há alguns minutos foi substituído por risadas.
Ambas voltaram para o quintal da casa dos Fabray após Quinn terminar de ajudá-los a lavar as louças. Rachel ouviu atentamente sobre as histórias de algumas flores e comentou sobre outros assuntos até o nome do The Lima Bean ser mencionado.
Elas foram até lá acompanhadas dos guarda-costas de Rachel. O percurso de duas quadras fez algumas pessoas pararem para fotografar a cena atípica do dia a dia pacato de Lima. Quinn conhecia a maioria. Outras, no entanto, seguiram Rachel até a cafeteria.
Durante a espera dos pedidos, Quinn se manteve um pouco afastada, vendo a euforia dos adolescentes que cercavam Rachel e falavam ao mesmo tempo. Ela tentou dar atenção para todos, autografando e sorrindo para as fotografias.
— Esse era um dos meus sonhos. — Rachel comentou depois de tomar um gole do macchiato com leite vegetal. Estavam sentadas em um dos bancos do parque próximo à cafeteria. — Caminhar em Lima e ser reconhecida pelo meu talento e não por ter me casado grávida. Eu me sinto satisfeita quando viajo para Ohio.
— E você conquistou o seu sonho. Todos admiram você aqui, Rach. — Quinn sorriu. — Lima é conhecida por ser a cidade da Rachel Berry. Eu já vi trabalhos sobre você na escola. Na semana de personalidades, alguns alunos sempre falavam da sua carreira.
Rachel também sorriu.
— Esse é o ponto positivo de morar em Lima. Andamos alguns passos e estamos no The Lima Bean, depois andamos mais alguns e estamos em um parque. Em Nova York, isso levaria horas.
— Eu acho que vou comprar uma casa aqui. Nova York é maravilhosa, mas Lima é como um refúgio, não é? Eu não quero ficar tão longe dos meus pais, e poderia usar a casa como um lugar para as férias. Quem sabe passar meses aqui com a minha esposa e com os meus filhos. — Quinn divagou.
— Então você planeja se casar e ter filhos logo?
— Não tão rápido. Pelo menos a parte dos filhos. Mas... eu espero encontrar o amor da minha vida, como Santana e Brittany. Elas se amam desde os 15 anos. — Quinn bebeu um pouco de café gelado.
Rachel fingiu um sorriso, sentindo um estranho incômodo surgir no seu estômago e subir até o seu tórax ao imaginar o casamento de Quinn com alguma mulher jovem e bonita. Com certeza ela estaria estonteante, feliz e apaixonada. O mal-estar aumentou um pouco, e ela respirou profundamente.
— Rach, você está bem?
— Estou. É apenas o calor. — Ela mentiu.
— Vamos sair um pouco do parque.
Rachel concordou, e ambas retornaram até a casa dos Fabray. Rachel estava quieta e pensativa, mas tentou mudar de assunto.
— Eu vou entrar e tomar outro banho, então podemos andar pela cidade, o que acha?
— Eu acho uma ótima ideia.
Elas se despediram. Rachel caminhou em passos largos para a casa dos pais, praticamente correndo até o banheiro do seu quarto e se livrando das roupas. Ela apreciou a água fria quase beliscando as suas costas, tentando se livrar incessantemente do desconforto que ainda sentia com a menção do casamento. Sabia o que era, mas não queria verbalizar. O problema de admitir algo é que você não pode mais se enganar com desculpas. Rachel não estava pronta para reconhecer, principalmente porque não sabia onde aquilo a levaria.
Ela terminou o banho quando os dedos começaram a enrugar e trocou o short e a camiseta que usava por um vestido longo sem mangas.
— Vai sair, meu bem? — Hiram perguntou ao vê-la descer a escada.
— Vou caminhar um pouco com a Quinn. Visitar algumas lojas. Richard e Brandon irão conosco. Querem nos acompanhar?
— Nós adoraríamos, mas recebemos a ligação de um paciente. Vamos remarcar as consultas da semana e podemos sair amanhã.
Rachel assentiu e os beijou na bochecha antes de sair e encontrar Quinn sentada nos degraus da varanda da casa dos pais. Ela se levantou assim que a avistou.
— Vamos? — Rachel recebeu um aceno afirmativo como resposta.
— Você está linda.
— Você também está. — Rachel enlaçou o braço no dela.
Não havia muitos lugares para visitar em Lima, mas estavam na companhia uma da outra, e Quinn esporadicamente fazia Rachel rir até perder o fôlego. Os fãs também fizeram a caminhada durar mais, porque apareciam a cada quarteirão.
Elas pararam para comer em alguns lugares. Rachel contava como os restaurantes costumavam ser há alguns anos. Quinn comentava como eles eram atualmente. O sol já estava deixando o céu púrpura e laranja quando decidiram voltar. Rachel dispensou os guarda-costas, e Quinn pareceu se lembrar de algo ao pararem na frente da casa dos Fabray.
— Eu encontrei algo ontem à noite. Você precisa ver. — Ela segurou a mão de Rachel sem aviso prévio e a guiou até o próprio quarto.
Rachel a observou caminhar até a escrivaninha e analisou o cômodo minuciosamente. As paredes tinham pôsteres de filmes antigos colados sobre o papel de parede lilás, e os diplomas nas prateleiras eram incontáveis. Feira de ciências, campeonato de soletração, redação e leitura. Todos estavam perfilados perfeitamente, assim como os livros, que pareciam rodear todo o cômodo. O telescópio perto da janela apontava para cima, e o closet estava aberto. Não havia muitas roupas ali, somente as que estavam saindo da mala deixada lá dentro.
— Achei. — Quinn se sentou na ponta da cama. — Vem aqui.
Rachel se acomodou ao lado dela, e Quinn abriu um álbum de fotos, folheando até achar uma página específica.
Rachel sorriu. Era ela, sentada no carpete entre uma Quinn de 4 anos e um Adam de 5. Vestia um dos suéteres que Kurt sempre odiou, e era possível ver Judy e Russel no fundo.
— Meu Deus, eu me lembro desse dia como se fosse ontem! Você estava correndo o tempo todo, e Judy estava enlouquecendo. Eu passei o dia tentando fazê-la parar um pouco.
Quinn soltou uma risada e continuou folheando as páginas. Havia fotos de aniversários e eventos do bairro. Rachel sempre estava ao lado de Finn. Os dois novos demais, mas ainda pareciam os mesmos, exceto pelos sentimentos que os rodeavam.
— Eu estava tão feliz. — Ela suspirou quando as fotos acabaram.
— Você não se sente mais assim? — Quinn deixou o álbum sobre a escrivaninha.
— Eu me sinto feliz, mas também sinto que algo se perdeu no tempo.
— E você não pode trazer de volta?
— Eu queria dizer que sim, mas a cada dia acho que não vou conseguir. — Rachel abaixou a cabeça.
Quinn pensou por alguns segundos e desligou a luz. Depois, ligou o projetor. Em segundos o quarto escuro foi inundado pela imagem dinâmica das constelações de um céu azulado. Ela se agachou ao lado de Rachel e a segurou pelas mãos.
— Está vendo essas estrelas? Eu as adorava, porque sempre achei que conseguiria tocar o céu quando era mais nova, mas eu não preciso disso. Eu não preciso tocar o céu quando olho para você, porque você é a maior estrela que eu já conheci. Você ilumina tudo, Rachel, e não pode se permitir cair, porque estrelas não podem cair. Eu nunca vou deixar você cair. Você é o céu inteiro.
Rachel não disse nada. Seus olhos inquietos fitaram cada traço do rosto de Quinn. O quarto estava tão silencioso que era possível ouvir a respiração delas engatarem à medida em que Rachel enlaçava o pescoço dela com os braços e deslizava para grudar os corpos. Os narizes se raspando de leve.
— Você me faz sentir única. — Ela sussurrou.
— Você é única. — Quinn respondeu no mesmo tom.
Ela não sabia de onde havia tirado aquela coragem. Talvez o filme de todos os momentos em que estiveram juntas passando na sua cabeça a deixasse mais firme de que, diferente do estúdio e do avião, não havia como serem interrompidas ali. Estavam isoladas do mundo externo. Não havia como saber. Tudo o que sabia era que precisava se jogar daquele penhasco. Por isso, dessa vez, ela tomou o próximo passo e grudou a sua boca na de Rachel. Seu coração martelando a ponto de causar um zunido impaciente nos seus ouvidos, e seu estômago borbulhou quando a sentiu corresponder em um beijo urgente.
Rachel quase caiu. Suas pernas enfraqueceram consideravelmente. Se Quinn não estivesse com os braços aferroados à sua cintura, ela tinha certeza de que tombaria para frente. Suas mãos a seguravam firmemente. As unhas raspando na pele do pescoço abaixo da orelha na tentativa de extravasar um pouco a pressão que surgiu na sua barriga durante o tempo em que a sua língua encontrou a dela, e os seus lábios chuparam os dela devagar. Seu corpo estava morno. O corpo de Quinn estava morno. Era possível senti-la esquentar durante o tempo em que tudo se precipitava para levá-las até um caminho irreversível. Naquele momento, Rachel não se lembrou do seu casamento ou da Broadway. Naquele momento, ela era somente uma mulher desejando outra como nunca desejou ninguém em toda a sua vida.
Não havia mais lacunas para fechar na sua vida. Todas as peças pareciam encaixadas e tudo parecia certo. Enquanto Rachel puxava Quinn para subir na cama, tudo o que queria era sentir mais da boca e das mãos dela.
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