A Luz dos Teus Olhos
6 Capítulo 6 - Wicked...
Notas iniciais
Para Quinn, as aulas retornavam apenas na terça-feira, dia em que iria para o Teatro Gershwin assistir Rachel protagonizar Wicked.
Ela tinha aproveitado o momento vago da segunda para organizar a sua agenda de provas e entrega de trabalhos, mas também trocou diversas mensagens com Rachel pelo celular. Isso vinha acontecendo desde o domingo de manhã. O leque de assuntos se estendeu e se recriou tantas vezes que Quinn mal conseguia se lembrar quando acabou dormindo nos dois últimos dias. Acordar com o celular descansando sobre o seu peito estava se tornando um hábito.
Mas, apesar de estar cada vez mais próxima de Rachel, ainda se sentia nervosa só por pensar em vê-la pessoalmente à noite. Contar para os amigos sobre ir prestigiá-la no teatro ajudou um pouco na tarefa de se tranquilizar, mas continuava evitando ficar a sós com Santana.
No entanto, depois de dirigir até o Bronx para deixar Brittany na Mercy, Quinn caiu em um silêncio perturbador ao lado dela. Normalmente, ela falava sem parar sobre alguma coisa. Qualquer coisa, pensava. Criticar e alfinetar os seus professores mais inflexíveis era o que mais gostava de fazer. Mas, ela não disse nada durante todo o caminho até o centro de Manhattan. Quinn sentia que era observada corriqueiramente, mas também ficou calada. Não queria cutucar aquele vespeiro prestes a explodir às sete da manhã.
Ela estacionou e puxou a própria bolsa transversal antes de sair do carro. Santana a seguiu, mas, assim como Quinn, também franziu o cenho quando viu algumas pessoas falando e as seguindo com o olhar.
Antes que pudessem perguntar o que estava acontecendo, Connor se aproximou com um sorriso no rosto.
— Bom dia.
— Por que algumas pessoas estão nos olhando assim? — Santana foi direta.
— Eu achei que sabiam. Principalmente a Quinn.
— Do que você está falando? — Quinn perguntou.
— Vocês não acessam nenhum site? People, Entertainment Weekly? ET? — Elas não responderam, e Connor continuou. — Quem acessa, viu as fotos da corrida que a Quinn e a Rachel fizeram em Greenwich Village. Há algumas fotos de todos nós no Central Park também.
— Isso é ridículo. — Quinn tentava ignorar os olhares que recebia enquanto caminhava. — Eu sou a melhor amiga do Adam, e todos sabem que ele é filho da Rachel. Nunca me olharam dessa maneira.
— Mas nunca viram você com ela. Agora as coisas mudaram um pouco.
— Como assim? Todos sempre vão me olhar como se eu fosse um quadro em uma exposição?
— Quinn, isso é passageiro. Estão olhando e falando, mas vai passar. Não é como se fosse ser sempre uma novidade. Além disso, você não convive com a Rachel o tempo inteiro. Daqui a alguns dias, vão apenas associá-la como uma conhecida.
— É, Quinn. Uma conhecida. — Santana foi mordaz.
Quinn fez uma careta, claramente desconfortável com a atenção que estava recebendo e com o comentário de Santana, mas apenas a encarou.
— Eu tenho que ir agora. Nos vemos mais tarde.
Na sala de aula, as coisas pareciam mais fáceis. Os colegas com quem normalmente conversava não insistiram em perguntas, mas era nítido que estavam curiosos. Quinn os conhecia um pouco para saber que gostavam de Rachel. Ela se concentrou nos assuntos finais de citogenética, voltando para a área externa quando a aula acabou.
Não havia mais tantas pessoas quanto no início da manhã. A maioria se dispersava nos laboratórios. Quinn suspirou aliviada e se sentou um pouco afastada do centro do campus depois de comprar um copo de café. Sabia que precisava se acostumar com tudo isso se quisesse continuar na vida de Rachel assiduamente, mas era um pouco difícil, principalmente porque sempre detestou se destacar tanto assim.
Ela bebeu um pouco do café e esperou ele acalmá-la internamente. A primavera estava acabando, e o calor do verão prestes a alcançá-los, o que significava que Columbia se preparava para as férias nas próximas semanas. Precisava, mais do que nunca, revisar todo o conteúdo do seu seminário. A nota dele fecharia a matéria. Contudo, após puxar da sua bolsa alguns livros e o laptop, alguém se sentou ao seu lado.
Quinn não precisou erguer a cabeça para saber quem era.
— Eu estou ocupada agora.
— Não interessa. Você me evitou desde que chegamos no apartamento do Adam depois do Central Park.
— Eu não evitei. Eu só precisei estudar, como preciso agora. Tenho um seminário daqui a alguns dias, esqueceu?
Quinn não tirou os olhos do laptop e ouviu Santana respirar fundo. Sabia que ela estava se esforçando para não a insultar.
— Eu quero saber o que está acontecendo entre você e Rachel Berry.
—Não há nada acontecendo entre a Rachel e eu.
— Quer mesmo que eu acredite nisso?
— Ela é minha amiga, pelo amor de Deus! — Quinn a fitou. — E é por isso que eu tentei me esquivar durante esses dias. Você sempre confunde as coisas.
— Viu? Você acabou de confessar que me evitou. — Santana apontou o dedo no rosto de Quinn. — E não, eu não confundo nada. Você me evitou porque sabe que está sentindo algo que não deveria estar sentindo, então fica constrangida quando percebe que eu estou entendendo tudo.
— Você está criando teorias malucas, Santana. Rachel era a minha antiga vizinha e agora é a minha amiga. Eu me sinto bem conversando com ela. Apenas isso. Agora chega dessa conversa idiota.
— Vamos lá, Quinn. Nos conhecemos há dez anos. Eu conheço cada mínimo detalhe do seu rosto. Cada vez que você tentava esconder qualquer emoção eu estava lá, especialmente quando você começa a gostar de alguém, sabe por quê? Porque você não consegue mentir.
Foi a vez de Quinn inalar profundamente. Ela deixou o laptop ao seu lado e se virou para ficar de frente para Santana.
— Eu estou encantada por ela. Pela forma como ela pensa e como encara o mundo. Temos assuntos em comum, então tudo se tornou confortável. Eu quero estar perto dela e nunca me senti tão conectada assim a alguém, mas isso passa. Eu só estou animada por sermos amigas. Fim da história.
— Eu espero que seja só isso, Q. Eu não sou contra um relacionamento com uma diferença de idade de vinte anos, mas seria uma caminhada difícil se vocês... sabe... ficassem juntas. Tem todo o fato de que ela é uma das mulheres mais conhecidas do país e casada. E Adam ainda faz parte dessa história.
— Santana, não vamos ter um relacionamento! Eu nem sequer penso nela dessa forma! Somos amigas! — Quinn se irritou.
— Tudo bem. — Santana levantou as mãos em um gesto de rendição. — Eu só estou dizendo que se acontecer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, Britt e eu sempre estaremos prontas para apoiá-la. Não quero que você pense que eu estou aqui só para fazer comentários irônicos. É que o jeito que você olha para a Rachel desde o aniversário do Adam é o jeito como eu olhava para a Britt antes de pedi-la em namoro. Seus olhos brilham como dois faróis, e os dela também. É por isso que estou preocupada. Agora eu preciso ir. Me ligue se precisar de alguma coisa.
Santana se levantou sem uma esperar uma resposta, deixando Quinn frustrada e pensativa. Ela conseguiu fazer toda a sua concentração evaporar, levando também a calma que estava tentando manter. Desde quando os seus olhos brilhavam perto de Rachel? Era um disparate. Isso não podia acontecer, muito menos ser tão óbvio.
Ela se deitou sobre a grama aparada, fitando o céu azul com algumas nuvens. Elas pareciam formar desenhos, como se fossem feitas de algodão doce. Quinn costumava olhá-las no jardim da casa dos seus pais quando estava com os pensamentos conturbados e sempre se achou especial por conseguir identificar os formatos, mas não tinha nada de especial nisso. Era apenas pareidolia, um fenômeno psicológico, e não havia nada de interessante em pareidolia.
Ela sentiu o celular vibrar e o pegou, aceitando a chamada ainda com o olhar fixo nas nuvens.
— Está tudo pronto para hoje à noite? Eu estou no teatro ensaiando. Fizemos uma pausa. — A voz inconfundivelmente eufônica fez com que Quinn retornasse para a conversa que tivera com Santana, mas conseguiu responder.
— Depende. Você ainda quer que eu vá? — Ela tentou soar divertida.
— Depende. Você quer que eu queira que você venha? — Rachel respondeu no mesmo tom.
As duas riram, e Quinn fechou os olhos.
— Eu estarei aí na hora certa.
— Ótimo. Você vai ser levada até a sua poltrona. Eu escolhi a melhor fila.
— Não precisava de tudo isso. Eu já estava pensando em ir ver Wicked.
— É claro que precisava. É a sua primeira vez na Broadway, e eu quero que seja especial.
— Já vai ser especial, porque não é qualquer pessoa que pode ver Rachel Berry ao vivo.
Alguns segundos de silêncio foram precisos para Quinn constatar que Rachel talvez estivesse sem jeito, e o seu rosto queimou levemente com a possibilidade.
— Você é sempre gentil dessa forma com todo mundo?
— Eu não sei. Talvez eu só tente dar o meu melhor para quem merece.
— Eu espero receber sempre o seu melhor, Quinn.
— Você sempre o terá, Rachel.
Quinn ouviu alguém falar no fundo da ligação. O intervalo havia acabado. Elas se despediram, ansiando em conjunto que a noite pudesse chegar logo.
•••
Rachel respirou fundo e conferiu mais uma vez a própria maquiagem. Suas mãos frias passaram rapidamente pelos cabelos compridos e levemente ondulados. Não sabia o motivo de estar tão nervosa. Tinha uma carreira firme e ilustre na Broadway há mais de quinze anos. Cantou e atuou na frente de outras celebridades, críticos, jornalistas e multidões em dezenas de eventos difundidos pela mídia, além das aparições na TV desde que as telas ainda tinham bordas extremamente notáveis. Era uma veterana. Mas, sentia como se pudesse vomitar a qualquer momento. O jogo dos Giants passava na televisão do camarim. Finn corria de um lado para o outro sobre o gramado. Rachel olhou rapidamente o placar quando o contrarregra entrou no seu camarim para sinalizar a sua entrada.
Ela o seguiu até as coxias do teatro e caminhou até o palco no instante em que o flashback sobre a vida de Elphaba na Universidade de Shiz começara.
Tudo transcorreu bem, apesar de ainda se sentir estranhamente inquieta. Rachel conseguiu manter a firmeza em todas as suas falas, mas se forçou a ser ainda melhor do que costumava ser, se é que era possível, ao lado de Jesse e Amy, intérpretes de Fiyero e Glinda.
Quinn achou que o primeiro ato acabou rápido demais. Ela se esforçou para não se distrair observando como Rachel andava, sorria, mexia as mãos e se expressava. Se arrependia por não ter ido ver Wicked antes. A história era boa, e o Gershwin era encantador. Ou talvez Rachel deixasse tudo mais bonito. Quinn não sabia. Seu coração estava batendo rápido demais ao ouvi-la cantar e falar para ter certeza de alguma coisa. Quando as cortinas se fecharam, algumas pessoas começaram a conversar. Ela aproveitou o intervalo de vinte minutos para trocar algumas mensagens com Adam antes das cortinas se abrirem outra vez para o segundo ato.
Os oitenta minutos restantes pareceram curtos demais. Quinn abria um sorriso cintilante sempre que Rachel surgia. Ela se destacava mais do que todos ali. Não importava com quem dividisse a cena. Glinda, Fiyero, Nessarose e até o próprio Mágico de Oz. Rachel parecia atrair todo o brilho do palco para ela. Quinn não conseguia parar de olhá-la nem por um segundo, como se estivesse enfeitiçada pela Bruxa Malvada do Oeste.
No final, depois da última música, o teatro explodiu em aplausos. Quinn se levantou, batendo palmas freneticamente. O elenco se reuniu no palco e fez uma reverência. Jesse abraçava Rachel pelos ombros, mas ela não prestou muita atenção ao que ele disse no seu ouvido. Durante os minutos de ovação, seus olhos encontraram os de Quinn na primeira fila, e elas sorriram uma para a outra. Seu nervosismo trocando de lugar com a alegria em vê-la, mesmo que a iluminação da plateia não fosse tão alta. Seu coração tentava escapar violentamente do seu peito, e só conseguiu respirar normalmente quando as cortinas se fecharam uma última vez naquele dia.
Ela abraçou Jesse, Amy e os outros colegas de peça e foi para o camarim. Estava começando a ficar cansada.
Era uma cena comum ver os buquês de flores decorando a extensa penteadeira, o sofá e as poltronas, assim como alguns presentes de patrocinadores. Mas, havia um buquê lilás no meio das rosas brancas e vermelhas, e Rachel sorriu antes de pegar o cartão preso a ele.
Letras finas e cursivas formavam somente uma sentença e mais do que isso, uma certeza crucial.
Espero que essas flores representem o tamanho do seu talento, embora eu saiba que não.
Quinn Fabray.
Rachel mal teve tempo de pensar em algo quando batidas na porta chamaram a sua atenção. O assistente do teatro entrou depois de receber permissão e anunciou a entrada de Quinn.
Rachel se apressou em abraçá-la, aproveitando o momento longe da agitação do palco para observá-la melhor. Ela usava um vestido âmbar sem mangas com alças grossas que ia até as panturrilhas e marcava apenas o torso. Nos pés, sapatos com saltos médios. Os cabelos estavam meticulosamente penteados. A franja formando uma cachoeira dourada cobrindo parcialmente o rosto coberto por uma maquiagem leve. Destoava completamente da bagunça agradável que tinha no dia a dia, mas Deus, estava deslumbrante.
Rachel perdeu um pouco de tempo a olhando. As palavras morrendo na sua garganta. Ela nem mesmo se lembrava que ainda estava coberta de maquiagem verde e usando os trajes da peça.
— Você é fantástica, Rachel. Eu já sabia disso, mas ali... tudo é mágico. Você é mágica e nasceu para a Broadway. Eu tinha razão. Nada vai conseguir representar o tamanho do seu talento. — Quinn sorria. Suas mãos ainda estavam tocando as laterais da cintura de Rachel, que a segurava pelos antebraços.
Rachel balançou a cabeça automaticamente. Na posição em que estavam, o perfume de Quinn invadia os seus sentidos com mais ardor.
— Você gostou? — Ela perguntou depois de alguns segundos.
— Se eu gostei? Eu poderia vir aqui todos os dias! Foi maravilhoso!
— Você pode vir. Seu nome vai estar sempre na lista. Seria um prazer. — Rachel lamentou ter de se afastar, mas precisava tomar banho, ou então o seu rosto começaria a coçar por causa da pele sensível.
Ela pegou o sobretudo que descansava no braço de Quinn e o colocou sobre o sofá.
— Eu queria agradecer por isso. Obrigada por ter tornado a minha primeira vez na Broadway especial.
— Você merecia, e eu queria proporcionar isso a você. — Rachel retirou o chapéu. — E eu devo agradecer pelas flores também. São lindas.
— Isso não é nada perto da honra que eu senti em vê-la atuando.
Rachel não teve resposta para aquilo. Ela sempre se sentia incapaz de formular qualquer frase minimamente aceitável quando Quinn a elogiava com tanto ímpeto. Já tinha perdido a conta de quantas vezes isso tinha acontecido no período em que trocaram mensagens e telefonemas.
— Você pode esperar enquanto eu tomo banho? Preciso tirar esse excesso de maquiagem. — Ela mudou de assunto.
— Se quiser, eu posso esperar lá fora.
— Não precisa, Quinn. Pode ficar aqui, e fique à vontade. — Rachel sorriu e entrou no banheiro.
Quinn se sentou no sofá e apoiou as mãos sobre o colo. Ela observou o espaço grande e ostensivo. Pôsteres emoldurados das peças protagonizadas por Rachel decoravam uma das paredes. Em outra, havia uma prateleira com pilhas de revistas e algumas fotos de Adam e Finn.
Rachel saiu do banheiro quase uma hora depois. Quinn parou de trocar mensagens com Adam para olhá-la. Um vestido parcialmente curto a adornava. A cor escura combinava com os sapatos de salto alto. Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, e a maquiagem verde foi substituída por um contorno sutil nos olhos e um tom discreto na boca.
— Eu pensei em irmos jantar. Estou morrendo de fome. — Rachel sugeriu enquanto terminava de colocar os brincos.
Quinn abriu a boca, mas demorou para falar. Estava ocupada demais olhando a silhueta de Rachel no vestido justo.
— Eu... eu acho uma ótima ideia. — Ela não queria dizer, mas sentia a barriga se revirar com a menção do jantar. Havia passado o dia à mercê de barras energéticas e café.
Ela se levantou e abriu a porta para Rachel, que agradeceu com um sorriso, seguindo-a para fora do camarim.
— Ei, Rach. — Jesse as chamou. Amy estava ao lado dele. — Vamos comemorar mais uma apresentação? Eu pago dessa vez.
— Hoje não. Nós vamos jantar. Estou louca para ficar em um local calmo.
— Não vai apresentar a sua amiga? — Rose, a atriz que fazia Nessarose, também se aproximou, fitando Quinn dos pés à cabeça e fazendo-a corar.
— Essa é Quinn Fabray. Quinn, esses são Jesse St. James, Amy Gelier e Rose Martin.
Rachel franziu as sobrancelhas quando Rose puxou Quinn para um abraço depois de cumprimentá-la com beijos no rosto.
— Se mudar de ideia, estaremos no bar que costumamos ir após as apresentações. E leve a Quinn. Ela é mais do que bem-vinda. — Rose piscou o olho para Quinn antes de se afastar. Jesse e Amy se despediram e a acompanharam.
Rachel revirou os olhos.
— Você viu isso?
— O quê?
— A Rose tentando flertar com você.
— Eu... eu não sei. Ela parecia um pouco animada.
— Quinn, ela quase devorou você com os olhos. — Rachel estava visivelmente irritada. — E seu rosto está sujo de batom.
Quinn se retesou, sentindo Rachel limpar o seu rosto delicadamente em um carinho suave. Quando terminou, ela enlaçou o braço ao seu.
— Vamos?
— Vamos.
Elas caminharam até a saída do teatro, mas Quinn estancou, observando a quantidade de fotógrafos e fãs do outro lado da porta.
— Eu acho melhor você ir. Eu saio pelos fundos.
— Mas o carro está logo ali. É rápido. Eu prometo. — Rachel insistiu.
Quinn suspirou. Como negar aquele pedido? Ela não ousaria.
— Tudo bem.
Ela puxou um pouco de ar quando os seguranças do teatro abriram as portas duplas. Os flashes das câmeras atingiram o seu rosto, e os seus ouvidos foram inundados por um acúmulo excessivo de pessoas falando ao mesmo tempo e chamando Rachel histericamente. Alguns gritavam elogios. Outros pediam autógrafos. Os guarda-costas de Rachel formavam uma barreira ao redor. Rachel sorria e acenava, mas não largou o braço de Quinn.
As duas entraram no carro. Quinn tentou camuflar a própria expressão, mas sozinha com Rachel no banco de trás, ela a fitou assustada.
— Isso é um pouco perturbador.
— Foi tão ruim assim?
— Eu não sei dizer. É algo que vai muito além da minha realidade. Adam falou sobre isso, mas é diferente ver com os próprios olhos.
— Eu sempre sonhei com isso, sabia? Desde pequena. Acho que meu ego sempre foi muito grande. Mas enfrentar isso todos os dias também me cansa.
— Bom, algumas pessoas ali não pareciam cansadas. Você viu como eles gritavam?
Rachel soltou uma risada e pediu para o motorista seguir até o restaurante. Elas conversaram sobre a apresentação em todo o trajeto. Rachel ainda segurava cautelosamente o braço de Quinn. Suas unhas raspando no tecido do sobretudo dela.
Elas chegaram ao Asiate pouco tempo depois. O trânsito não estava tão ruim. Quinn se preparou para outra chuva de câmeras quando viu os fotógrafos na entrada do local, mas agradeceu por não serem tantos quanto na saída do Gershwin.
A hostess as recepcionou. Ela já havia acompanhado Rachel para tantos jantares que sabia qual mesa ela mais gostava. Quinn entregou o seu casaco para ela e a seguiu até a mesa mais reservada e próxima das enormes janelas de vidro do restaurante.
— Gostaria do vinho de sempre, Sra. Berry?
Rachel olhou para Quinn.
— Você prefere outra bebida, Quinn?
— Não, vinho está ótimo.
A hostess sorriu e se retirou depois de entregá-las o cardápio.
— Eu achei que ela fosse pedir a minha identidade.
— Ela não pediu porque você está comigo, mas acho que não deveria deixar você beber.
— Eu tenho quase 21 anos. Além do mais, estava bebendo no aniversário do Adam.
Rachel sabia que ela estava certa. Não podia tratá-la como se fosse sua filha.
— Eu já estive aqui uma vez. — Quinn comentou. — Quando Frannie pediu Cassandra em casamento. Acho que ela economizou alguns salários de corretora para pagar a conta do jantar. — Brincou.
— Quando elas vão se casar?
— Daqui a alguns meses. Frannie está uma pilha de nervos. Cassandra quer que tudo esteja perfeitamente preparado.
Rachel sorriu.
— Casamentos são especiais. Eu não vou em um há muito tempo.
— Você poderia me acompanhar. Frannie vai convidar os seus pais e o Adam, e você é da família também.
— Eu não quero chegar de penetra, Quinn.
— Você não vai ser penetra, Rachel. Vai ser a minha acompanhante, e Frannie tem um apreço por você.
— Isso é mesmo um convite?
— Talvez. Eu sei que não é um evento imenso.
— Você sabe que eu não me importo com o tamanho dos eventos.
— Então você vai?
— Eu acho que vou.
— Achar não é uma resposta concreta. — Quinn arqueou a sobrancelha.
— Você gosta de respostas concretas?
— Sim, eu gosto.
— Então sim, eu vou.
Quinn se limitou em sorrir, comemorando internamente, e logo fizeram os pedidos.
O jantar seguiu calmo. O restaurante era aconchegante, e as pessoas não pareciam cercar Rachel com os olhos. Elas terminaram a garrafa de vinho em meio a risadas. Rachel não estava mais cansada, e Quinn poderia olhá-la a noite inteira.
Elas discutiram brevemente sobre quem pagaria a conta. Quinn queria dividir. Rachel não. Quinn acabou cedendo. Ela estava se acostumando a deixar Rachel ganhar qualquer embate que pudessem ter.
Os fotógrafos continuavam do lado de fora do restaurante. Quinn estava mais relaxada quando entrou no carro. Talvez por consequência do vinho. Ela apoiou a cabeça no assento, sentindo Rachel apoiar a dela no seu ombro.
— Está pensando em alguma coisa?
— Estou.
— No quê? — Rachel ergueu a cabeça para fitá-la.
— No quanto eu estou grata. Grata por ter sito aceita em Columbia e por ter me mudado para Nova York. Isso me fez conhecer você, e estou grata principalmente por termos virado amigas.
Rachel sorriu e se aproximou para beijar a bochecha de Quinn. Seus lábios formigaram quando encostaram no rosto dela, e elas se encararam. Rachel se perguntou se a boca de Quinn também tinha gosto de vinho francês no exato momento em que o carro parou no acostamento do prédio em SoHo.
— Eu preciso falar com você. — Ela tentou dispersar aquele pensamento abrupto. — O Gershwin vai entrar em uma pequena reforma, e o seu semestre vai acabar. O que acha de irmos para Lima esse final de semana?
— Então você estava falando sério sobre irmos juntas?
— Você achou que eu estava brincando?
— Um pouco.
— Eu não estava e espero que você aceite ir para Lima comigo. Seus pais vão adorar essa surpresa. É a oportunidade perfeita.
— É claro que eu aceito. Eu jamais recusaria.
Rachel sorriu, e Quinn soltou o cinto de segurança.
— Boa noite, Quinn.
— Boa noite, Rachel.
Elas se abraçaram. Quinn não queria pensar muito em como se sentiu quando Rachel beijou o seu rosto, ou poderia falar algo do qual se arrependeria posteriormente, mas aspirou o cheiro adocicado dos cabelos dela, prologando o contato o máximo que conseguia.
— Eu vou esperar a sua mensagem de bom dia. — Rachel disse depois de se separarem.
— Eu nunca me esqueceria disso.
Quinn saiu do carro e o observou acelerar novamente, sumindo ao dobrar a esquina.
Ela continuou sorrindo.
Mal podia esperar para pisar em Lima.
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