A Luz dos Teus Olhos
2 Capítulo 2 - Convite aceito...
Notas iniciais
Eles permaneceram mais alguns segundos no abraço, e foi Rachel quem o quebrou.
— Eu vou deixar vocês aqui e ir conversar com o meu genro. — Ela deu meia-volta e andou até Connor, que estava parado perto de Santana e Quinn.
Santana soltou uma risada.
— Boa sorte com a família do seu namorado. — Ela o empurrou sutilmente, que cambaleou para frente e caiu nos braços de Rachel.
O resto da comemoração seguiu normalmente. Todos se espalharam de novo e começaram a conversar entre si. Rachel permaneceu ao lado de Connor. Eles comentavam energicamente sobre filmes antigos, canções marcantes e musicais. Ele prometeu ir vê-la em Wicked em breve.
Mesmo sem intenção, Quinn continuava fitando-a de longe. O modo como ela falava sem parar e gesticulava na mesma proporção era adorável. Era exatamente como a descreviam e como a via na TV. Gentil, elegante e acolhedora. Era impossível não ouvir ou ver algo sobre Rachel Berry. As redes sociais eram um prato cheio de fotos, vídeos e notícias sobre ela. Quinn sempre a achou bonita, mas pessoalmente tudo parecia ter uma proporção imensuravelmente maior. Os traços do rosto, o balançar dos quadris imponente e quase sublime, os cabelos escuros caídos sobre os ombros. Ela parecia brilhar mais do que a lua acima dela.
— Alguém nunca falou para você que é feio cobiçar uma mulher casada? — Santana sussurrou no seu ouvido, o que a causou um sobressalto involuntário.
— Que merda, Santana! — Quinn bronqueou, sentindo o coração bater descompassado. — Eu não estou cobiçando ninguém.
— Você ainda está olhando a Sra. Berry sem parar, Q. — Brittany comentou.
— Eu só estou tentando me lembrar dela. Meus pais falam bastante sobre a época em que foram amigos.
— E você estava analisando cada detalhe dela para guardar na sua cabeça? — Santana foi sardônica.
— Vai para o inferno. — Quinn se afastou, mas conseguiu ouvi-las gargalhando.
Ela percorreu parte do jardim da mansão. A casa dos seus pais sempre foi grande, mas nem se comparava com essa. Rachel e Finn realmente construíram uma fortuna invejável juntos. Por fim, procurou um lugar mais isolado e se sentou em um dos bancos de madeira. Santana e Brittany estavam dançando juntas, assim como outros casais. Na verdade, todos pareciam acompanhados naquela festa, com exceção dela mesma. Precisava parar de passar a noite dos finais de semana concentrada nos livros da faculdade e tentar se divertir um pouco mais. Seu último relacionamento tinha sido há mais ou menos oito meses e não se envolvera com mais ninguém desde então.
Ela suspirou e bebeu mais um pouco da cerveja que já esfriava. Estava tão distraída nos próprios pensamentos que não percebeu alguém se aproximar sutilmente.
— O que está fazendo aqui sozinha?
Quinn olhou para o lado. Rachel sorria na sua direção. A curiosidade saltava dos olhos castanhos.
— Eu não queria ficar entre Santana e Brittany, então as deixei aproveitarem a festa e vim para cá.
— Por que não dança com uma das amigas do Adam? Eu as vi encarando você.
— A senhora viu? — Quinn se surpreendeu. Ela não esperava que Rachel tivesse reparado em algo desse tipo, principalmente com a quantidade de pessoas que ocupava a sua atenção constantemente.
— Eu... não foi proposital. — Rachel se apressou em responder, levemente constrangida. — Connor comentou inocentemente, então eu acabei observando. E por favor, não me chame de senhora.
Quinn sorriu, e as suas bochechas ganharam uma coloração avermelhada.
— Está tudo bem. Mas, de qualquer forma, eu não sou uma boa dançarina.
Rachel soltou uma risada.
— Você está corada?
— Eu? Claro que não! Eu acho que é o efeito de beber álcool depois de muito tempo. — Quinn mentiu, embora estivesse evidentemente nervosa.
Rachel não respondeu. Ela encarou Quinn por alguns segundos, notando como os olhos dela pareciam mudar parcialmente de cor. Na área mais iluminada da festa, estavam mais dourados. Agora, eram verdes como os arbustos que adornavam o jardim. No entanto, foi a sua vez de ficar embaraçada por estar olhando-a demais, então desviou a atenção para as pessoas mais distantes, e um silêncio confortável sobressaiu entre elas.
Quinn o quebrou.
— Você quer se sentar um pouco?
— É claro.
Rachel se acomodou no banco e cruzou as pernas. Quinn observou como a postura dela era impecavelmente ereta. Provavelmente por passar anos em objetos midiáticos, pensou.
— Você ainda me lembra aquela garotinha que eu via correr pela casa dos Fabray usando fralda. Judy entrou em pânico quando você caiu e machucou o queixo.
— O meu pai tirou uma foto disso. — Quinn riu. — Eu estou surpresa por você se lembrar.
— Como eu poderia esquecer? Não estou tão velha assim, estou?
— Claro que não. Você está linda. — Quinn respondeu rapidamente, mas se arrependeu logo depois. Seu rosto queimou pela vergonha. — Quer dizer... você está ótima. Eu só não esperava que você se lembrasse de uma criança que conheceu há quinze anos.
Rachel sorriu, sentindo o próprio ego elevar.
— Obrigada, Quinn. Você é muito gentil. E eu quase fui a sua madrinha, mas nunca oficializamos isso de fato. Eu me arrependo de não ter insistido na amizade que tinha com a sua mãe, mas nos afastamos naturalmente.
— Ela ainda guarda todas as lembranças. Mesmo não sendo mais a sua amiga próxima, ela tem um carinho enorme por você.
— E eu por ela. E como Frannie está? Ela já é uma mulher.
— Ela é corretora e está prestes a se casar com uma antiga colega da faculdade. O nome dela é Cassandra.
— Que notícia maravilhosa! Seus pais reagiram bem a tudo isso? Eles nunca foram preconceituosos com os meus pais ou com Kurt, mas tudo pode mudar quando se trata dos filhos.
— Eles estão animados. Foram surpreendidos quando Frannie se assumiu lésbica, mas não se opuseram.
Rachel aquiesceu.
— Bom, dê os parabéns a Frannie por mim. Eu vou fazer questão de enviar um presente de casamento.
— Rachel, isso não é necessário.
— Eu a vi crescer, Quinn. Por pouco tempo, mas vi.
— Tudo bem. — Quinn concordou resignada.
— Você se parece com o seu pai. Russel sempre foi um pouco introspectivo.
— E você percebeu isso em menos de vinte minutos? — Quinn sorriu.
— Você poderia estar conversando com qualquer pessoa daqui, mas se afastou para ficar sozinha.
Quinn demorou um pouco para responder. Ela suspirou e olhou brevemente para a grama bem aparada abaixo dos seus pés.
— Isso pode até ser um defeito. Acho que eu deveria ser mais enérgica.
— Eu não acho. Só acho que você precisa passar essa fase da sua vida com sabedoria, mas não evite se divertir. Eu nunca pude sair muito porque me desdobrava para cuidar de Adam, e por mais que isso não fosse algo ruim, eu sinto falta de aproveitar momentos como esse.
— Você ainda pode aproveitar. Você é jovem, Rachel. Você tem toda essa fortuna e uma carreira renomada na Broadway. Adam já é um adulto. Você pode fazer o que sempre quis.
Rachel sabia disso. Com o seu patrimônio, poderia viajar para qualquer lugar a qualquer hora e pagar qualquer despesa, mas não queria fazer isso sozinha. Finn estava em pleno campeonato e, no fundo, ela não tinha certeza se passar algum tempo somente na companhia dele em ambientes menores arruinaria ou consertaria de vez o seu casamento. Poderia tentar mais um pouco.
— Acho que não vou ao Central Park há quase um ano. — Ela comentou.
Quinn abriu a boca, surpresa.
— Eu não acredito nisso! Você mora a trinta minutos do Central Park.
— Mas eu nunca tenho companhia para ir, tudo bem? — Rachel se defendeu. — Kurt e Blaine estão sempre ocupados com os filhos pequenos, e meu marido prefere os campos de futebol.
— Então você está convidada para ir conosco. Adam, Connor, Sant, Britt e eu sempre vamos passar o sábado lá e fazemos um piquenique.
— Eu não sei, Quinn. — Rachel ficou receosa. — Talvez Adam não goste. E eu não sei se vocês ficariam confortáveis com a quantidade de pessoas que talvez a minha presença acabe atraindo.
— O Adam vai adorar. Ele vive falando que sente falta de estar com você. E nós não nos importamos com alguns fãs e talvez algumas fotos. Confie em mim.
Rachel ia contestar, mas Kurt a chamou, acenando para Quinn educadamente.
— Não precisa me responder agora. Se quiser, posso passar o meu número para você.
Rachel concordou e entregou o próprio celular para que Quinn salvasse o contato. Após a rápida despedida, ela se foi com Kurt, ainda carregando um sorriso no rosto.
— Você pegou o número dela? — Kurt estava curioso.
— Ela me convidou para ir ao Central Park com Adam e os amigos quando eu disse que não ia lá há muito tempo.
— Você deveria ir. Está sempre vivendo para a Broadway e para o Finn. Isso não é bom. — Ele entrelaçou o próprio braço no dela. — Quer me dizer agora se gostou de conversar com a Quinn?
— Ela é um doce. Talvez nos tornemos amigas.
Kurt reprimiu um comentário, ou então Rachel se zangaria. Ele não queria incitá-la a tentar alguma coisa, mas tinha visto o modo como Quinn a encarava. A adoração que carregava era quase palpável. Também não queria provocar uma traição por parte de Rachel, mas depois que ela perdoou um caso extraconjugal de Finn há alguns anos, Kurt sentia que ele havia adquirido uma confiança preguiçosa de que não importasse o que fizesse, Rachel ficaria naquele casamento, sempre repetindo que a amava. Era como se ele tivesse um passe para ser propositalmente desleixado na própria relação, jogando migalhas de afeto quando ela parecia chegar ao limite. Era um ciclo nada saudável, especialmente para Rachel. Talvez conhecer outra pessoa a ajudasse na tarefa de enxergar que Finn não era o seu destino pelo resto da vida.
A comemoração durou mais algumas horas. Quinn voltou para perto dos amigos e foi convencida por Brittany a dançar algumas músicas. Ela não admitiu, mas se divertiu sendo conduzida no ritmo acelerado da batida. Depois, beberam mais um pouco. Perto do fim, ambas guiaram uma Santana evidentemente bêbada para o táxi que as esperava fora da mansão. Quinn lamentou internamente não ter visto Rachel uma última vez antes de ir embora.
Quando a mansão se tornou tácita, Rachel se despediu da maioria dos convidados e observou os pais subirem a escada do hall que os levava até um dos corredores.
— Todos já foram? — Ela perguntou ao ver Adam e Connor se aproximarem. — Eu não vi as amigas de vocês. Queria ter me despedido.
— Elas foram embora um pouco antes da festa acabar. Temos aula amanhã cedo, mãe.
— Então é melhor vocês irem dormir.
— Nós vamos, e a Quinn comentou sobre o convite feito. Nós concordamos completamente. Você precisa se distrair.
— Vocês não se importam?
— Claro que não. Vai ser divertido.
— Queríamos fazer o convite, mas achamos que você não iria aceitar. — Connor disse.
— Tudo bem, então eu acho que vou aceitar. — Rachel sorriu. — Talvez eu precise mesmo de uma distração.
— Isso vai ser incrível! — Adam comemorou. — Eu tenho a mãe mais legal do mundo e sinto falta de vê-la se divertindo.
Rachel o segurou pelo rosto quando ele a abraçou e o beijou nas bochechas.
— Eu amo você. Durmam bem.
— Boa noite, mãe. Eu também amo você.
Connor também trocou um abraço rápido com Rachel e seguiu Adam para o andar de cima.
Ela caminhou até a área dos fundos e falou brevemente com o mordomo. No dia seguinte, as equipes de limpeza e decoração chegariam cedo para organizar todo o jardim. Por último, subiu para o próprio quarto e encontrou Finn deitado e concentrado no laptop em seu colo, então não disse nada e caminhou para o banheiro. Esperava vê-lo dormindo ao sair. A sua higiene noturna era extensa e prolongada. Contudo, ele continuava entretido no aparelho eletrônico.
— O que acha de irmos ao Central Park no sábado? Eu recebi o convite da Quinn, amiga do Adam. Poderíamos caminhar um pouco juntos. Quem sabe fazer um piquenique.
— Eu adoraria, meu bem, mas estou ocupado demais com o campeonato. — Ele não tirou os olhos do laptop. — Mas você deveria ir.
— Eu queria ir com você, Finn. Você é o meu marido, e já faz muito tempo desde a última vez em que saímos para um lugar informal.
— Rachel, eu não posso. Você sabe como os meus horários funcionam, então não pode ficar com raiva de mim por isso. — Ele finalmente a encarou.
— Eu não estou com raiva de você por isso. Estou com raiva porque ultimamente você parece estar se tornando um maldito submisso para aquele time. Eu tento sair com você há meses. Será que eu preciso marcar um horário na sua agenda? — Ela foi sarcástica.
— Eu fui à estreia de Wicked semana passada. Eu levei flores e depois a acompanhei na comemoração com os seus amigos. O que mais você quer de mim?
— Você fala como se fosse um enorme ato romântico, além de usar isso como justificativa para qualquer coisa que fizer depois. — Ela se irritou.
— Eu não entendo porque, de repente, você parece querer que eu aja como um adolescente apaixonado. Somos casados há mais de vinte anos, Rachel. — Finn largou o laptop em cima da cama.
— Existe uma diferença entre ser um adolescente apaixonado e alguém que se esforça para amar outra pessoa. Você não é nenhum dos dois. Eu não estou pedindo para que aja como um namorado explodindo de paixão, mas você nem sequer age como se fizesse diferença estar aqui, Finn. Eu não o convidei para um jantar romântico, somente para um dia em que eu não precise ser mostrada como um troféu para os patrocinadores do seu time.
— O que você quer dizer com isso? Eu não a trato como um troféu!
— Não? Porque é assim que eu me sinto. Sabe há quanto tempo não saímos para jantar? Dois anos. Em dois anos, fomos em restaurantes para tratar dos seus negócios. Eu me sentei e o ouvi falar sobre futebol por horas enquanto recebia elogios sobre a minha aparência. Eu não preciso fazer isso, Finn. Eu tenho uma carreira indiscutivelmente sólida e renomada. Mas eu faço isso tudo por você. Eu me empenho em ser somente a esposa bonita e sorridente para meia dúzia de pessoas que me olham como se eu fosse um objeto.
— E o que você quer que eu faça, Rachel? Que eu a agradeça após cada jantar? Eu achei que nos apoiássemos igualmente. Eu vou com você em quase todas as festas dos seus produtores e diretores.
— E há quanto tempo não somos só Rachel e Finn? Sem os nossos trabalhos como justificativa para que fiquemos no mesmo lugar? Há quanto tempo não saímos para dançar, beber ou apenas nos divertir? Eu nem sei se ainda somos amigos.
— Claro que somos. Eu só preciso do tempo desse campeonato.
— Você disse isso no ano passado.
— E depois eu foquei em nós dois.
— Por seis semanas! E nós discutimos quase a metade disso.
— Nós fomos na terapia de casal que você sugeriu.
— E você implicou com tudo até me fazer desistir.
— Porque não era necessário, Rachel. Ir para uma terapia de casal é quase um atestado de divórcio.
— Não seja ignorante. Ela poderia ter nos ajudado. Pelo menos me ajudado. Eu sempre preciso esperar feriados e aniversários para vê-lo como um marido de verdade.
— E o que você quer? Um novo marido? — Finn se zangou.
— Talvez. — Rachel não recuou. — Você é mesmo um idiota.
— Mas foi com esse idiota que você se casou!
— Talvez porque eu não tivesse escolha!
O quarto caiu em um silêncio profundo e espesso. Finn não rebateu o que tinha acabado de ouvir, e Rachel nem esperou uma resposta. Ela saiu, batendo a porta com força, e foi para um dos quartos de hóspedes, agradecendo por Finn não ter ido atrás. Precisava ficar sozinha. A discussão recente era só uma ponta do iceberg de evidências de que aquele casamento estava se consumindo aos poucos. Rachel podia sentir as paredes se rachando gradativamente. Tinha se apaixonado por Finn, mas não gostava do homem que ele se tornara com a chegada do sucesso profissional e da vida abastada.
Ela se jogou na cama e retirou o celular do bolso do robe que vestia após normalizar a respiração, procurando o contato adicionado há algumas horas.
Quinn atendeu no segundo toque.
— Alô? — A voz dela estava baixa e rouca. Provavelmente estava dormindo. Rachel se bateu mentalmente por tê-la acordado.
— Quinn? Eu acordei você?
— Rachel, oi! Eu só... cochilei por alguns minutos. Não se preocupe.
— Eu sei que você estava dormindo. Amanhã cedo você tem aula. Me desculpe por isso. Eu só queria dizer que vou estar no Central Park sábado.
— Sério? Isso é demais! Então eu vejo você lá. Quer dizer... todos nós vamos nos ver lá. — Quinn tropeçou nas palavras.
Rachel riu.
— Nos vemos lá, Quinn. Até breve.
— Até, Rachel.
Elas desligaram, e Rachel deixou o celular em cima da cama. Por uma fração de segundos, ela se esqueceu da briga que tivera com Finn. Agora que tinha aceitado o convite, estava começando a ficar ansiosa, embora não soubesse o porquê.
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