A Luz dos Teus Olhos

3 Capítulo 3 - Punchdrunk Lovesick Singalong...


Notas iniciais
Oi, como estão? Obrigada pela recepção calorosa com essa fanfic. Eu não esperava tantos comentários positivos sobre o enredo e fico feliz lendo cada review. Tudo isso é muito importante para mim. Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Rachel acordou cedo no sábado.

Embora precisasse estar no Central Park apenas no fim da tarde, ela não conseguiu ficar na cama por mais tempo. Odiava acordar tão tarde. Depois de fazer todo o seu ritual matinal diário, ela vestiu roupas esportivas e desceu para a sala de jantar.

Durante a semana, Finn pediu continuamente para que retornasse ao quarto que dividiam, enviou flores para o seu trabalho e ligou todos os dias. Rachel esperava tudo isso. Era o que ele sempre fazia quando qualquer discussão evoluía para uma briga maior. Ela esperava os olhos tristes, os ombros caídos e a expressão abatida, mas, pela primeira vez, aquele conjunto não funcionou como o esperado, principalmente por Rachel estar tão cansada. Ver um aspecto diferente de Finn sempre que brigavam era como ver uma peça de teatro se desenvolver diante dos seus olhos. Tão irônico quanto esse fato poderia ser, também era exaustivo. Ele mudava de acordo com as suas reações. O arrependimento parecia ser real, mas por quanto tempo seria? Até perdoá-lo e tudo voltar ao normal? E o que seria normal para ele? Continuar indiferente a maior parte do tempo e, outra vez, mudar quando era conveniente? Tudo isso parecia um vinil quebrado rodando sem parar. Não havia som. Somente um ciclo silencioso e a lembrança de uma canção outrora estimada.

Rachel sabia que precisavam conversar. Não era como se pudesse ignorá-lo para sempre, mas não quisera se desgastar enquanto trabalhava. E agora, tudo o que queria era praticar o yoga e alguns exercícios físicos.

Ela estendeu o tapete na grama em frente à piscina e agradeceu por conseguir executar todos os movimentos sem ser interrompida. No entanto, quando passou pela quadra de tênis e abriu a porta de vidro corrediça da academia, Finn a acompanhou.

Ele a observou caminhar até a esteira.

— Nós podemos conversar?

— Eu acho melhor não.

— Rachel, por favor. — Finn insistiu. — Nós vamos ficar assim por quanto tempo? Eu amo você e...

— Me amar não tem absolutamente nada a ver com isso, Finn. — Ela deu meia-volta, fitando-o com olhos raivosos. — Você sempre diz isso. É sempre a sua escapatória para os nossos problemas, mas dessa vez isso não resolve nada.

— Eu posso mudar. — Ele estava angustiado e desesperado. — Eu sei que sou realmente um idiota às vezes, mas posso mudar. Eu só preciso que você espere esse campeonato passar. Depois disso, vou tirar férias. Poderemos viajar para qualquer lugar.

Rachel suspirou pesadamente. Finn já havia prometido tudo aquilo no campeonato passado, mas era sempre a mesma coisa. Ele nunca cumpria, então ela parou de esperar. Não ficava mais decepcionava quando tudo era jogado ao vento.

— Eu preciso praticar os meus exercícios, Finn. — Foi tudo o que ela disse. — Podemos conversar depois.

Finn apenas assentiu, parecendo derrotado, e se retirou. Rachel até tentou, mas não conseguiu correr mais do que cinco minutos. Não estava mais concentrada o suficiente, então parou de se esforçar e voltou para o quarto de hóspedes. Não estava animada, tampouco confortável com a situação atual. Nunca gostara de brigar. Queria poder ceder e acreditar em Finn, mas não podia mais tratar aquele assunto como algo irrelevante. Voltar para o seu quarto não faria toda a conjuntura do seu casamento mudar. O problema era maior do que isso. Muito maior. Ignorar os problemas só adiava uma tragédia iminente. Rachel não sabia se Finn entendia isso ou se fingia não entender para não entrarem em um assunto mais delicado.

Quando o conheceu, ele era um garoto alegre, que a transbordava e a contagiava, mas com o tempo, parecia ter se transformado abruptamente. Era decepcionante vê-lo rir com os amigos do trabalho e não na sua companhia. Era decepcionante pensar que Adam tinha 17 anos na última vez em que passaram um dia inteiro juntos sem qualquer desavença. E, sobretudo, era humilhante sentir falta de afeto. Rachel se recusou por muito tempo a admitir que tinha se tornado uma pessoa famosa com um casamento perfeito de fachada, mas estava começando a deixar aquela ficha cair na sua cabeça como uma bigorna.

Algumas lágrimas escorreram dos seus olhos sem permissão quando se sentou na cama e abriu uma das suas redes sociais. Nas fotos marcadas, havia milhares de imagens suas como Elphaba em Wicked, mas também havia as fotos com Finn na estreia da peça. O sorriso trocado entre os dois parecia caloroso. Rachel se perguntou se deveria estar pensando que o amava na hora em que sorriu para ele. Mas, ao contrário disso, sua cabeça abstraiu qualquer sentimento. O sorriso parecia automático. O dele, no entanto, ainda aparentava ser o mesmo sorriso pueril da adolescência. As mesmas covinhas que Adam herdara. Quando é possível saber o instante em que o casamento acaba definitivamente? Quando estender a bandeira do término? Rachel sempre foi uma pessoa difícil para encerrar laços tão longos. No final, ainda sentia algo por Finn. Só não conseguia discernir se isso era somente o resquício da memória do que o seu casamento foi um dia. Usar sentimentos de lembranças era como viver no passado para sempre.

Ela se assustou quando o celular começou a vibrar na sua mão, e o nome de Quinn piscou na tela. Não havia falado com ela desde o aniversário de Adam e, além do dilema do seu casamento, também havia se questionado se deveria entrar em contato ou não. Queria conversar com ela. Quinn parecia ser uma pessoa extremamente amistosa, mas sabia o quanto ela deveria estar ocupada estudando.

Rachel fungou para se recompor e secou o rosto antes de atender.

— Bom dia, Rachel. Eu acordei você?

— Bom dia, Quinn. Eu estou acordada há algum tempo. Na verdade, já até pratiquei um pouco de yoga.

— Oh, Adam mencionou que você é um pouco obcecada nisso.

— Eu não sou obcecada, só gosto de me exercitar. — Rachel se defendeu e ouviu buzinas do outro lado da linha. — Você está falando comigo enquanto caminha pela rua? Quinn, isso pode ser perigoso, principalmente em Nova York.

Quinn soltou uma risada, e Rachel sorriu institivamente.

— Eu acordei cedo porque, assim como você, também gosto de me exercitar, mas decidi ligar para saber se está tudo certo para o Central Park. Eu atrapalhei os seus exercícios?

— Está sim. Não se preocupe. — Rachel se levantou. — Você não atrapalhou. Eu ia correr um pouco na esteira, mas desisti. Agora, estou pensando se você não quer me acompanhar em uma corrida em um parque aqui perto. Não é tão grande quanto o Central Park, mas é mais reservado. Dificilmente seremos interrompidas por alguém.

Rachel quase se arrependeu do convite feito quando Quinn demorou um pouco para responder. Seu estômago se contraiu involuntariamente pelo nervosismo. Não deveria estar tão aflita, sobretudo por nem saber o motivo, mas se sentia como uma adolescente insegura.

— Claro... claro que eu quero, Rachel. Eu sei onde esse parque fica. Nos vemos lá, então.

— Até já, Quinn.

Rachel desligou e respirou em alívio, indo até o hall em seguida. Ela encontrou Finn falando no celular, mas desligou assim que a viu.

— Aonde você vai?

— Correr um pouco. — Ela colocou os óculos de sol e caminhou até a porta.

— Mas você odeia correr fora daqui.

— Eu sei, mas convidei uma amiga para ir comigo.

— Amiga? Quem?

— Você sabe quem é. A Quinn.

— Tudo bem. — Finn afundou as mãos nos bolsos da calça. — Eu sei que você vai ao Central Park hoje. Eu posso ir com você?

— Eu acho que vai ser melhor eu ir sozinha, Finn. Se resolvermos isso, podemos ir outro dia. Eu não quero estragar o dia de outras pessoas.

Rachel não esperou uma resposta e saiu, mas sabia que Finn tinha ficado triste. Ela não gostava de tratá-lo assim, mas ainda estava frustrada e zangada com ele. Era impossível não estar, e afastá-lo seria melhor do que acabar sendo compreensível.

Ela recusou a companhia dos guarda-costas e dirigiu até o parque próximo à sua casa. Ele era menor do que a área da frente da mansão, mas tinha pistas de corrida e alguns bancos perto de árvores. O calor fraco da manhã estava agradável.

Quinn estava sentada em um dos bancos e observava o movimento calmo do lugar, mas seguiu com os olhos as poucas pessoas apontando discretamente para a figura conhecida que caminhava na sua direção.

Por um momento, Rachel se esqueceu de cumprimentá-la, olhando atentamente o brilho forte que o sol causava nos fios loiros presos em um curto rabo de cavalo. Ela também constatou os olhos mais dourados do que verdes por causa da luz. Quinn sorria. Os lábios finos perfeitamente retos. Estava despretensiosamente relaxada e bonita, exatamente como a viu há menos de uma semana.

— Você veio rápido. — Quinn se levantou.

— Eu... sim. — Rachel acordou do leve torpor. — Você já estava perto da minha casa. Por que não foi até lá?

— Eu não achei que fosse prudente. — Quinn comprimiu os lábios. — Nos conhecemos...

— Reencontramos. — Rachel a corrigiu.

— Tudo bem. Nos reencontramos há pouco tempo e não temos intimidade. Acho que nem somos amigas.

— É claro que somos. Você não é mais uma criança, e eu sou ótima para fazer amigos, então... — Rachel sorriu.

— Você não se importa em ser minha amiga?

— Por que eu me importaria? Eu é quem deveria fazer essa pergunta. Não me acha velha demais para ser sua amiga?

— Velha? Com a beleza e o corpo que você tem? Ninguém diria uma coisa dessas.

O comentário aparentemente banal atingiu Rachel de surpresa, mas fez Quinn se arrepender do que dissera. Ela não queria deixar tão explícito o fato de ter olhado mais do que deveria o abdômen descoberto ou as pernas expostas de Rachel e lamentou parecer tão invasiva novamente.

— Me desculpe. Eu não queria soar desrespeitosa.

— Está tudo bem, Quinn. — Rachel sorriu. Ela não tinha realmente se incomodado com o elogio. Pelo contrário. Era a segunda vez que Quinn a deixava com o ego inflado. — Você também é muito bonita. Eu não consegui reparar nas tatuagens com o vestido que você usou no aniversário do Adam, mas vi agora que você tem algumas.

Com a roupa que vestia, era possível ver parcialmente uma frase na parte interna do tríceps e outra ao redor do abdômen. O traço fino nas letras serifadas marcava o instante em que o Thom Yorke subia a nota no refrão de Punchdrunk Lovesick Singalong. Mas Rachel notou mais do que isso. Ela deslizou os olhos sutilmente pelo corpo de Quinn até parar nas coxas grossas à mostra pelo short. Por fim, limpou a garganta, mirando-a no rosto.

— Eu fiz as tatuagens há dois anos quando fui aceita em Columbia. Santana, Brittany e eu saímos para comemorar no dia seguinte.

— É a música do Radiohead, não é?

— Você escuta Radiohead? — Quinn se surpreendeu.

— Hoje, não muito. Mas eu tive uma fase alternativa aos 16 anos.

Quinn sorriu, imaginando uma Rachel adolescente ouvindo bandas alternativas e usando camisetas desgastadas. Era uma imagem ilusória.

— Então uma bela garota pode transformar o seu mundo em poeira? — Ela continuou, tentando não se constranger por analisá-la daquela maneira.

Quinn soltou uma risada.

— Talvez. Eu acho que sim. — Ela amarrou o casaco ao redor da cintura. — Vamos?

Rachel concordou e colocou os óculos escuros de novo, se sentindo relaxada pela primeira vez desde a briga que tivera com Finn. Convidar Quinn tinha sido uma boa ideia.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Boa quinta-feira para vocês. =D twitter.com/yasagron