Achar a caverna que Manu mencionara não fora uma tarefa difícil, fora fácil demais na verdade. Arthur estava inspecionando os arredores da caverna, procurando alguma outra entrada ou qualquer coisa que pudesse ajuda-los.

Ao terminar o que fazia o garoto voltou para junto dos amigos, sua roupa repleta de suor. Em breve o sol iria se pôr.

— Gostaria que elas estivessem com a gente – comentou.

Emanuele, Rafaela, Amanda e Larissa foram deixadas na cabana.

Cecilia lhe lançou um olhar com o canto do olho.

— Emanuele não conseguiria lutar, não naquele estado, Rafaela está exausta depois de usar magia para curar ela e Matheus, e deixa-las sem proteção é muito perigoso. Temos que revolver isso, apenas nós seis – declarou a loira, apoiando-se em uma árvore com sua armadura vermelha.

Todos se calaram diante das palavras de Cecilia, ela estava certa e eles sabiam disso, porém derrotar Satanás e o resto dos guardas demoníacos iria ser difícil, principalmente agora que estavam em número reduzido.

— Alguma outra entrada? – indagou Victor a Arthur para evitar o silêncio, recebendo um aceno negativo do outro.

— Então vamos, quanto mais rápido acabarmos com isso, mais rápido podemos voltar – falou César.

Uma enorme bolha amarela caía em direção a onde os garotos estavam escondidos, Gabriela a notou e usou o vento para jogar os amigos para frente que caíram no chão surpresos pelo ato da fada que, em seguida, se atirou caindo ao lado deles.

A bolha caiu onde encontravam-se segundos atrás derretendo o que tocava e, se não fosse pela garota, não havia como prever o que teria acontecido ao pequeno grupo.

— O que foi isso? – perguntou César.

— Esqueçam o ataque surpresa, eles nos acharam. Esse ataque só pode ter sido Titânia, a Corrosão Ácida – respondeu Matheus.

Uma garota de aparentemente 17 anos saiu de dentro da caverna junto de Abel e Isahia, ela usava uma saia amarelo-clara e uma manga curta branca, seus cabelos eram castanhos claros e seus olhos cor de mel.

— Nunca achei que iriam chegar até aqui – declarou Titânia.

O grupo se postou em modo de combate, prontos para lutar contra o trio de demônios à sua frente.

O primeiro a atacar foi Arthur que, em apenas um segundo, encontrava-se atrás do trio. Desferiu um soco em Titânia que a jogou contra uma árvore.

Gabriela voou para cima, começando a acumular uma quantidade considerável de ar. Isahia agarrou Arthur pelo pescoço e o atirou contra a esfera de vento da garota causando uma pequena explosão que levou ambos ao chão.

Titânia, que já havia se recuperado do ataque, lançou diversas bolhas de ácido amarelado que foram interceptadas por César antes que pudessem causar algum mal.

— Victor! César! – chamou Matheus em um sussurro, quando ambos se aproximaram ele continuou – Eu tenho um plano, mas é arriscado, e temos que executá-lo rapidamente, pois teremos apenas uma chance.

Matheus relatou seu plano rapidamente, enquanto Gabriela, Arthur e Cecilia cuidavam da luta. Ao terminar recebeu uma leve confirmação dos garotos.

Victor voou em direção a Titânia com Arthur logo atrás de si. A garota o socou atirando-o para longe. Arthur se preparava para atacar, mas recebeu um chute que o jogou para trás.

César começou a flutuar até alcançar voo, ficando na altura das árvores, solidificou a luz formando um chicote amarelo brilhante e amarrou Abel, Gabriela o atacava por todas as direções usando o vento, mas o demônio desviava de todos. Com um salto, Abel chutou o garoto ainda no ar fazendo-o cair em cima da amiga brutalmente, que atingiram o chão com força causando uma rachadura. O chicote que prendia Abel desapareceu.

Matheus usava as sombras para tentar encurralar Isahia enquanto Cecilia o atacava com sua espada. A combinação em si não era ruim, mas seu oponente desviava de todos os ataques pulando, abaixando, esquivando, da forma que podia, mas seu esforço era notável. Cecilia em um movimento rápido estava prestes a perfurar a testa dele, mas antes que qualquer gota de sangue fosse derramada Isahia pegou a espada com as mãos, evitando as partes afiadas e contendo o movimento da garota. Matheus usou novamente uma sombra para ataca-lo, instintivamente ele girou a cintura desequilibrando a loira que acabou recebendo o ataque do parceiro. Isahia aproveitou a distração do garoto e o socou, atirando-o contra uma árvore.

Os três guardas demoníacos se juntaram novamente e agora caminhavam em direção ao grupo que estava caído ou atordoado. Matheus apenas sorriu e olhou para o amigo.

— César, agora! – gritou.

Sem perder tempo o garoto estendeu a mão em direção aos oponentes e logo uma luz forte começou a irradiar dela, como 100 lâmpadas, fazendo com que os presentes fechassem os olhos devido a intensidade da mesma.

A sombra projetada pela luz era enorme, chegando até a caverna. No segundo seguinte Matheus saía de dentro da sombra de um dos guardas. Quando Abel o notou já era tarde demais. Uma sombra, controlada pelo garoto, atravessava seu corpo, realizando um corte em diagonal, começando em seu ombro e terminando em sua cintura, passando pelo coração.

Quando a luz de César cessou, Isahia e Titânia apenas olhavam para o corpo do irmão caído no chão.

Victor aproveitou o momento e suas asas começaram a bater levando-o rapidamente para frente em linha reta e, sem que a garota percebesse, usou suas unhas, que eram afiadas como lâminas, para cortar-lhe o pescoço e a cabeça. Estava prestes a atacar Isahia, mas ele o pegou e o atirou em cima de Matheus, fazendo ambos baterem nas pedras ao lado da entrada da caverna.

César solidificou e comprimiu a luz em uma pequena esfera que usou para atacar Isahia, mas um pequeno portal se abriu em sua frente engolindo o ataque. Um ruído de algo estourando foi ouvido seguido por um grito de Gabriela. Um portal idêntico ao que engoliu o ataque de César estava aberto atrás da garota, ficando claro para todos que o que a atingiu foi a esfera de luz, lançando a garota para frente, Isahia a chutou em pleno ar atirando-a na direção contrária com força, fazendo-a atravessar três árvores finalmente caindo no chão, inconsciente.

Cecilia guardou a espada e juntou as mãos, uma pequena esfera branca que emitia uma luz preta surgiu e ela a lançou para cima. O estranhos objeto começou a atrair coisas pequenas em sua direção. A garota aproveitou a distração do guarda demoníaco e o chutou, fazendo-o ir ao encontro a esfera lançada no céu.

Isahia abriu um pequeno portal e o lançou na esfera de Cecilia, engolindo-a. E logo a força gravitacional do objeto que o puxava desapareceu e ele aterrissou, sem levar danos.

Cecilia havia pulado e retirado a espada da bainha, quando Isahia a notou avançando em sua direção de cima, se preparou para receber o golpe. Porém o ataque surgiu do lugar mais inesperado: suas costas. Victor havia atravessado seu coração, exatamente como Matheus fizera com Katára na luta anterior, quando ele cuspiu sangue, o garoto recuou, instantes antes de Cecilia atravessar a cabeça de Isahia com a espada.

— Parece que seu plano funcionou – comentou César para Matheus, recebendo um aceno positivo de cabeça.

— Não se distraia! – ordenou. – Ainda não acabou! – completou com um olhar sério e concentrado, mas seu olhar não era para o garoto, ele estava olhando para a caverna, onde dois vultos começaram a se aproximar.

Siegar com seus trajes vermelhos e ao seu lado estava um garoto que aparentava ter a mesma idade, alto, magro e de longos cabelos negros e olhos da mesma cor, usava roupas pretas.

— Nunca pensei que iriam nos encurralar desse jeito – declarou Siegar.

— Tomem cuidado! – falou Matheus para os amigos. – Dos dez guardas demoníacos, eles são os mais fortes. Não se descuidem!

Uma forma negra começou a se formar ao redor do punho do demônio de cabelos escuros, atraindo alguns olhares para ele.

— Aquilo são sombras? – indagou Arthur.

— Não! – respondeu Matheus. – É algo mais forte, mais sombrio. É escuridão, engole tanto a sombra quanto a luz. Ele é conhecido com Ruliel, o Herdeiro das Trevas. Conquistadora Galática, tire a Gabi daqui! – ordenou ainda mantendo sua atenção na dupla à sua frente.

Cecilia, atendendo ao pedido do amigo, pegou o corpo inconsciente da fada e o levou consigo para fora do perigo.

Arthur correu em direção ao ruivo com sua enorme velocidade, alcançando-o em menos de dois segundos. Antes que pudesse ataca-lo, Siegar o estapeou com as costas das mãos o jogando para o lado com força, o garoto foi atirado a uma distância de 100 metros quebrando algumas árvores no caminho.

Ruliel atirou a escuridão que havia em suas mãos, que não acertou o trio inimigo, pois se esquivaram dela, a tempo de ver as árvores que tocava desaparecendo.

Ao mesmo tempo, Victor, Matheus e Siegar foram em direção ao céu, parando a aproximadamente 200 metros do chão.

Siegar atacou os garotos com um fogo roxo, Victor abriu a boca cuspindo fogo de cor azulada, Matheus não ficou de fora e logo usou suas chamas negras para auxiliar o amigo. As três chamas começaram uma batalha em meio ao céu, umas buscando sobressair a outra.

César atirou em Ruliel com luz, mas o oponente usou uma das mãos para destruí-la. Um chicote, também feito de luz, o enrolou em uma tentativa de parar seus movimentos. Demorou apenas um segundo para esse ser destruído também. Ruliel apareceu atrás de César em apenas meio segundo, surpreendendo-o. Um soco nas costas do garoto o fez ir de encontro ao chão, formando uma cratera pela força do impacto.

Ruliel começava a flutuar para ajudar o irmão, mas parou ao sentir que César segurava sua perna, determinado a segurá-lo para dar mais tempo aos amigos. O demônio o ergueu pelo pescoço e o jogou contra a parede da caverna, o impacto causou uma pequena rachadura e algumas pedras de tamanho médio caíram em cima do garoto, impedindo que se movesse, não que fosse necessário, pois já estava inconsciente também.

Ruliel partiu para ajudar Siegar, chutando Matheus fazendo-o cair em alta velocidade, ao atingir o chão uma cratera, três vezes maior que a de César, foi aberta ao seu redor.

Sem o auxílio do fogo negro de Matheus, Siegar logo assumiu a vantagem. Em questão de segundos a chama azul de Victor foi subjugada pela roxa, que o atingiu com força o causando dor intensa. Siegar e Ruliel o atacaram juntos. Quando o garoto atingiu o chão a cratera aberta por ele era duas vezes maior que a de Matheus.

A dupla de demônios chegou ao chão lentamente, caminhando em direção a Matheus que se levantava.

— Por que está se levantando? – perguntou Siegar. – Você não vai conseguir nos derrotar sozinho.

Matheus sabia que ele tinha razão, não conseguiria derrotá-los. Rafaela, Emanuele, Larissa e Amanda ficaram na cabana, Gabriela fora derrotada e Cecilia a levara para um lugar seguro, a pedido seu, e agora César, Arthur e Victor estavam inconscientes. Sem mencionar, é claro, que ele mal conseguia se mantar em pé. Mas ainda assim se recusava a desistir.

— Ainda não é tarde, se desejar pode se unir a nós novamente – a oferta viera de Ruliel, deixando o garoto sem reação. – Quando o julgarem desnecessário, irão abandoná-lo. Sempre foi assim e você sabe muito bem disso. Foi assim até mesmo com... – Matheus o interrompeu.

— Não fale dele! – ordenou com um grito. – Isso foi há muito tempo!

— Então é assim – suspirou. – Se essa é sua escolha, então irei mata-lo. Você já nos causou problemas demais.

Ruliel começou a andar lentamente.

— Nunca pensei que um dia eu faria isso – comentou Matheus para si mesmo com um sorriso no rosto.

Essa era a segunda vez que faria isso, porém dessa vez seria por vontade própria. Seu olhos mudaram de cor para um lilás vivo, as pupilas assumiram uma posição vertical, seu cabelo começou a escurecer e seus dentes e unhas começaram a crescer e a ficar mais afiados. Sua aparência estava mudando, uma consequência de liberar o poder que selara a tantos séculos.

Siegar aparecera instantaneamente ao seu lado, mas antes que fizesse algo Matheus o socou jogando-o para cima. Em seguida pegou Ruliel pelo pescoço e o puxou consigo para o céu, finalmente soltando-o.

O ruivo investiu novamente, porém Matheus foi mais rápido e desviou do ataque, rapidamente o jogando contra Ruliel, atirando-os a 500 metros de distância, fazendo-os colidir com o chão.

— Depois que eu matar vocês, será a vez de Satanás – falou Matheus rindo histericamente.

Siegar se aproximou dele cautelosamente.

— Ele não está mais na caverna, partiu para outro lugar antes de vocês chegarem. E ainda que nos derrotasse, não iria derrotar nosso pai – declarou com um sorriso.

Ruliei também se aproximou de Matheus pelo céu, encurralando o garoto no meio deles.

O ruivo atacou com suas chamas rochas enquanto o de cabelos negros usou escuridão. Matheus pegou o ataque de Ruliel com as mãos nuas, o destruindo, mas foi atingido pelo fogo. Um sorriso se formou no rosto de Siegar ao perceber que seu ataque o havia acertado, mas sumiu quando notou que o outro não sentia dor alguma.

Matheus usou uma esfera de sombras para atacar Siegar, porém ela parou no ar um pouco antes de atingi-lo, e vários tentáculos, também feitos de sombras, saíram dela segurando os movimentos do demônio enquanto outro o cortava ao meio. As sombras se desfizeram e o corpo de Siegar caiu no meio das árvores.

Ruliel se preparava para atacar, porém Matheus apareceu ao seu lado subitamente o mandando para o chão novamente, dessa vez indo até ele. Quando conseguiu se levantar, algumas sombras prenderam seus braços e pernas. O garoto se aproximou e uma pequena parte das sombras no chão foram para sua mão formando uma faca negra.

Matheus sorria de maneira insana enquanto perfurava lentamente o peito de Ruliel com a faca. Quando ela entrou por completo, ele repousou a mão sobre o rosto do garoto.

— Volte ao normal!

O som da voz de Ruliel foi como um raio que percorreu o corpo do garoto que começava a assumir novamente a aparência de sempre.

— Satanás lhe enviou uma mensagem: “Me encontre em dois dias. Quero lutar com você quando estiver com força total, caso contrário será uma luta sem propósito”.

Um minuto de silêncio se fez entre eles.

— Sabe que eles irão deixa-lo. Não dará certo, você é muito diferente deles. Seu lugar não é com eles – sussurrou Ruliel.

No instante seguinte a faca desapareceu e Ruliel caiu no chão, seu sangue se espalhando pelo chão.

— Eu sei. Mas mesmo que eu me arrependa disso depois... é com eles que quero estar – murmurou Matheus para si mesmo com um sorriso triste no rosto e uma lágrima solitária cruzando sua face, pouco antes de desabar no chão.