Foram três dias seguidos no mesmo ritmo, até ser possível ver o grande deserto no horizonte magenta. O calor, no entanto, já estava em cima deles.

Os quatro descansaram ao leito de um riacho minúsculo, com uma “cachoeira” tão pequena que mal batia na cintura de Yan. Ainda assim, ninguém reclamou. Era a única fonte de água que encontravam desde que saíram do vale cicatrizado.

No entanto, mal chegaram, logo seguiram viagem.

A partir dali, cortaram para norte através das terras áridas, com o deserto assassino de Si Wong sempre à direita, assombrando-os. O sol escaldante os perseguia, queimando cada pedaço de pele que escapasse da cobertura dos mantos improvisados. Yan engolia um palavrão toda vez que o sol pegava uma parte previamente já queimada pelo Pequeno Deserto.

Mas o Gigante sofria mais. Nem mesmo a sua pele já naturalmente cobreada suportava a constante exposição acarretada pela falta de um manto que desse conta de seu colossal tamanho.

A proximidade do deserto não trazia apenas o sol escaldante; junto no pacote, vinha também as noites terrivelmente frias. Kuzou não permitia fogueiras, por motivos óbvios, e com o agravante de se encontrarem no meio de terras terrivelmente planas, sem coberturas ou abrigos; seria possível ver a luz do fogo contra a escuridão da noite desde a Cidade da República. Portanto, todos se encolhiam em seus mantos e ficavam próximos um dos outros para dormir.

Após mais quatro dias de sofrida viagem, eles finalmente chegaram na Grande Divisão.

— Eu... estou... morto...

Yan se deixou cair contra o duro solo cheio de rachaduras, como se deitasse no colchão de penas mais fofo do mundo. Nem reclamou do joelho que ralou com essa queda irresponsável. Todos os outros se permitiram descansar, mas de modo menos dolorido.

— Vamos acampar aqui por hoje — esbaforiu Kuzou. Dito isso, não demorou a pegar o cantil.

— Meu Gyatso! Podemos?! — exclamou o nômade, ainda no chão.

Não lhes fora permitido acampar em lugar nenhum desde que viraram fugitivos. Sempre que repousavam em algum lugar, não mais de uma hora depois já estavam novamente adicionando novos calos aos pés. Dormir tinha sido uma tarefa quase impossível. Todos entendiam os motivos disso tudo, mas entender não tornava as coisas menos árduas.

Por duas horas, eles ficaram imóveis; uns, descansando, alguns, cochilando.

Yan acordou sozinho no final dessas duas horas. Ainda com sono, percebeu que suas costas doíam muito, e que sua pele parecia grudada no chão.

“Parabéns, seu ser brilhante. Novamente não pensou no que fazia e no final deu merda. Retardado”, xingou-se.

Quando sua visão se focalizou, ele percebeu que de uma das rachaduras próximas a seu rosto saía um lacraia-dragão enorme. Num único reflexo de nojo e susto, ele ficou em pé em segundos, desequilibrou-se e caiu para trás. Então, uma risada ressoou pelo “acampamento”.

— Viu um espírito, camarada? Relaxa que a maioria deles não são hostis — brincou Kuzou, ali perto, encostado em uma rocha. — Pelo menos não eram.

O nômade se levantou, e as dores voltaram com tudo. Mancando, dirigiu-se para o forasteiro. Esse botou alguns papéis e pergaminhos de lado ao vê-lo se aproximando.

— Creio que você não descansou, não é? — disse o nômade, sentando-se de frente para ele.

— Estou sentado. Estou descansando — soltou, voltando o olhar para os papéis.

— Descansar não quer dizer apenas a parte física. O que diabos você tanto faz?

— O básico. Vendo alguns mapas, fazendo listas.

— Listas de quê? Compras? — caçoou Yan.

— Pode-se dizer que sim. Nossos mantimentos estão por um fio, estamos razoavelmente feridos e sem medicamentos... e seria muito bom ter um acampamento de fato — ironizou ele, apontando ao redor.

Realmente, o “acampamento” deles não era mais do que o lugar que eles decidiram parar. Não possuíam tendas, nem sacos de dormir, nem nada que pudesse fazer a estadia deles mais confortável. A pedra em que Kuzou se recostava era o mais próximo de conforto que existia por ali.

— A tribo Zhang é a nossa melhor oportunidade para nos abastecer. Por ser uma tribo isolada e selvagem, as notícias não costumam chegar lá com menos de 3 meses de atraso. Basta pagarmos a oferenda de boas graças e seremos tratados como qualquer viajante — continuou ele.

O nômade estava cansado demais para compreender tudo o que o outro dissera, então balançou a cabeça como resposta.

— Algum lugar legal no mapa digno de uma visita? — puxou assunto.

— A tribo Zhang a alguns quilômetros a noroeste, a Grande Divisão a quatrocentos metros atrás de você, algumas árvores a quinhentos metros a oeste...

“Árvores...”

— ... passamos também pela Baía da Lua Cheia a sudeste... É, nada de interessante para uma visita — terminou o forasteiro.

Yan olhou para o céu azul, cobrindo os olhos contra a forte luz do sol.

“...”

Olhou em volta, e tudo que via era terra árida em todas as direções. A Grande Divisão ocupava todo o horizonte leste, um gigante buraco cheio de protuberâncias e animais selvagens.

“Árvores...”

— Você mencionou algo sobre árvores? — perguntou o nômade, perdendo a sonolência aos poucos.

— Sim. Uma pequena floresta. Era onde antes viviam as tribos Zhang e Gan Jin...

— Sim, eu sei. A Floresta Dividida. Agora é apenas um território Zhang depois que a outra tribo partiu para a civilização, e blá, blá, blá. Mas, se a floresta está tão perto, por que acampamos aqui, sob esse sol escaldante? — exasperou-se.

— E vocês aguentariam andar mais quinhentos metros? — inquiriu Kuzou, com um sorriso no rosto.

“Filho da...”

— Ganhamos uma grande vantagem nesses dias de viagem. Podemos nos dar ao luxo de uma folga. E todos merecemos.

— Não diria todos... — cuspiu Yan. — Até agora, não sabemos nada sobre aquela peste ali. — Apontou para Ember, que se encontrava longe o bastante deles para que ele achasse seguro comentar sobre a garota. — Ela só mentiu até...

— Se fosse nesses termos, ninguém aqui teria o direito de descansar — cortou o dobrador de terra.

Aquilo pegou o nômade de surpresa.

— Não exagere, o Gigante...

— A história dele tinha furos.

— Mas... ele até tinha a pedra como prova... — gaguejou.

— A pedra foi justamente o que o denunciou.

O dobrador de ar não sabia o que dizer. O seu cérebro não conseguia ainda processar em cem por cento da capacidade, e tudo que saiu depois de muito esforço foi: “Hã?”.

— Pense, Yan. Se eu batesse uma rocha contra elos de ferro, repetidamente, até quebrar, o que aconteceria com a pedra? — questionou Kuzou.

— A pedra... quebraria?

— Sim, seria um esforço inútil. No entanto, com a força da dobra é possível quebrar elos de metal. Mas, ainda assim, não sobraria nada da pedra a não ser detritos. — As coisas começavam a se encaixar na cabeça dele. — A pedra que ele mostrou estava intacta, com direito a uma ponta deformada afiadíssima.

De repente, Yan se sentia incrivelmente desconfortável. Um pequeno calafrio correu espinha abaixo.

“Merda, merda,merda,m....”

Um leve bocejo se fez ouvir atrás deles, e o embaraço de mantos que era Ember se mexeu.

— Perdi alguma coisa? — falou, quando os dois se focalizaram em sua visão.

— Sim, o nosso caro nômade berrando como uma menininha ao ver um inseto — gozou o forasteiro.

A indignação dele foi cortada pela sonora risada da garota. E toda aquela comoção despertou Rohan de seu sono.

— Bom dia, senhores e senhora — cumprimentou, espreguiçando-se.

— Bem, como todos estão revigorados, vamos seguir viagem — brincou o forasteiro.

— Merda, sabia que devia ter virado pro lado e voltado a dormir... — reclamou a menina.

A conversa de antes parecia nunca ter existido, pelo jeito mais amigável que todos se comportaram a partir dali, até a partida, na noite do dia seguinte. Eles tiveram uma boa noite de sono.

A duas horas da alvorada, partiram.

Na primeira hora do dia, eles já conseguiam ver a tribo no horizonte.

Apesar do prematuro horário, a tribo se encontrava cheia de vida. Várias tendas preenchiam uma enorme clareira com seus tons de vinho e seus cheiros exóticos.

Desde tempos esquecidos por todos, menos Yan, os Zhangs trocavam todo tipo de mercadoria com viajantes que consideravam dignos, e o costume se seguiu até florescer e transformar a tribo em um polo mercantil. Tanto que o lugar só perdia para a Baía Mercante, o maior mercado do planeta. Em questão de mercado negro, no entanto, a tribo havia superado a baía havia alguns anos, devido a sua localização reclusa e aos métodos hostis dos membros. Então era possível ver todo tipo de coisa, desde coisas comuns e costumeiras, como padeiros e costureiros; até coisas desagradáveis e horríveis, como venda de escravos e de órgãos humanos.

Graças aos espíritos, eles se encontravam longe desse tipo de coisa. Quando Kuzou lhes contou esse tipo de coisa, todos ficaram com o pé atrás de continuar.

“Esse lugar realmente pode ser desagradável, mas é proibido qualquer tipo de armas ou dobras violentas dentro do mercado. Quando pagarmos a oferenda de boas graças, estaremos nos submetendo a essa regra, ao mesmo tempo que estaremos protegidos por ela.”

Aquilo não os acalmou como esperado, mas eles seguiram mesmo assim.

Acabou que a oferenda consistia de algum item útil de um viajante, ou um bem de importância sentimental.

Kuzou deu uma bússola que mantinha no bolso. “Ela já está velha mesmo. Arranjo uma melhor aqui mesmo”, riu-se ele depois.

Rohan entregou suas antigas algemas de platina que havia arrancado dos pulsos quatro dias atrás. Os Zhangs ficaram tão chocados e histéricos com aquilo que lhes deram um cupom de desconto para o mercado inteiro.

Ember não parecia querer ceder nada, mas um olhar do Gigante a fez mudar de ideia. Ela ofereceu um brinco que estava escondido em seus bolsos. Aquilo pegou todos de surpresa. Ela não fazia o tipo de garota que se enfeitava. A garota ignorou toda a atenção, mas era perceptível a pequena vermelhidão em seu rosto quando virou para eles.

Yan não pensou duas vezes antes de tirar o vaso falso da mochila e o entregar.

“Eles provavelmente vão vender como se fosse um vaso de uma era importante, como foi feito comigo. Uma pena. Esse vaso ia ficar tão lindo na garganta de alguém...”

E então eles entraram na confusão que era o mercado.

Vendedores berrando suas mercadorias, outros vendedores gritando contraofertas, compradores berrando para serem ouvidos. As tendas vinho em contraste com as lanternas e frutas coloridas por toda parte deixava a clareira tão colorida quanto a Cidade da República à noite, sendo um chamariz para todos os viajantes perdidos.

A primeira coisa que Kuzou fez foi comprar mantimentos e remédios. E os comprou em quilos. Foi então que o nômade percebeu que o forasteiro tinha seu próprio dinheiro. E bastante. Tantos palavrões voaram pela cabeça dele, e com tanta velocidade, que seria impossível proferi-los. O outro, por sua vez, apenas riu quando viu a cara de perplexidade do dobrador de ar.

A garota parecia encantada com algumas coisas que via, e enojada por outras. Em um momento ela estava boquiaberta e histérica, em outro estava xingando um vendedor aleatório. Assistir a bipolaridade dela era até divertido. Já o Gigante olhava tudo com sua calma e distância normais. Mas era possível identificar também outra expressão: desconfiança.

Pelo menos umas três vezes, vendedores pularam na frente deles com algum tipo de mercadoria na mão, ou pendurada nele, oferecendo altas quedas de preço. Perseguiam-nos até perceber que antes apanhariam do que venderiam algo, e então mudavam o alvo para outro transeunte qualquer.

Eles fizeram pleno uso do desconto de Rohan, e economizaram um bocado. No entanto, os vendedores, que eram sempre sorrisos e alegria para chamá-los, murchavam quando viam o cupom. A boa vontade ia embora, e uma carranca se instalava em seus rostos. Era preciso uma bela dose de persuasão (geralmente por parte dos truques do forasteiro, ou pelos músculos do Gigante) para que lhes fosse oferecido todos os serviços disponíveis. E era sempre necessário contar o desconto feito. Nove em cada dez vezes o cálculo do vendedor estava “equivocado”.

Quando acabaram as compras, estavam todos bem abastecidos. E mais pobres também. Todos tinham sua própria mochila, com mantimentos básicos, caso se separassem. Possuíam agora duas tendas para acampar, junto com bussolas, cantis, diversos mantos para diversas funções, roupas novas, e o que mais lhes fosse útil na viagem. Até o Gigante achara coisas para o seu tamanho. Nem sequer pareciam os mesmos esfarrapados que chegaram no mercado.

Após uma pequena refeição em uma tenda aconchegante no centro da clareira, eles voltaram ao plano.

Atravessaram a multidão, dobrando uma esquina aqui, outra acolá, até chegarem no círculo mais externo de tendas, as mais afastadas e menos cotadas. Uma delas, grande, mas bem malcuidada, chamou atenção. E foi para lá que foram.

No balcão, encontravam-se adereços dos mais simples e vulgares, e outras coisas artesanais. Um cliente se encontrava vendo algumas peças.

— Bela peça, não? Eu mesmo que fiz... — gabou-se o vendedor para o estranho.

— É horrível. Um bebê faria melhor — cuspiu o freguês.

— Ah... é... é porque essa peça é para os inimigos! — gaguejou em resposta. — Acredite, dê isso para um desafeto e coisas terríveis cairão sobre ele!

— Sei... — desacreditou o cliente, e foi embora.

O vendedor cuspiu na direção dele, antes de ver Yan chegando no balcão.

— Um cretino aquele ali, queria me roubar. Em que lhe posso ser útil, caro freguês?

Então ele viu Kuzou. O rosto do homem rapidamente ficou branco, e os modos dele mudaram. Os dedos do vendedor começaram a ficar agitados em cima do balcão, e, apesar de ele abrir a boca, nenhuma palavra parecia querer sair.

— Olá, Norkka. Como vai a extorsão? — sibilou o dobrador de terra.

— O que você quer? — replicou Norkka.

— O que você faz de melhor.

— Eu sou bom em muitas coisas.

— Vamos entrar — cortou Kuzou, e sem delongas, contornou o balcão.

O nômade o seguiu, entrando na tenda.

Yan esperava algo mais sinistro, como uma base secreta cheia de coisas ilegais. Porém, tudo que viu foi um estoque bagunçado dos itens horrorosos da entrada. O forasteiro sentou-se em uma das caixas, à espera do vendedor, que os seguia tenda adentro.

Antes que Norkka reclamasse, foi cortado:

— Queremos desaparecer. Completamente. Por motivos que acredito que você já sabe.

— Claro que sei. Que merda de informante eu seria se não soubesse? — queixou-se o vendedor. — Se bem que, pelo menos nesse caso, o Dai Li nunca teria vindo até mim, e eu nunca teria o descaso de te conhecer.

Yan apenas observava a discussão com curiosidade.

— Nesse caso, o Dai Li ainda teria vindo até você, mas com outras intenções.

O informante engoliu a seco.

— De qualquer forma... você não tem mais como me pagar. Você não é mais do Dai Li faz tempo, e duvido que você esteja cagando Yuans...

“Você tinha de ver ele gastando hoje...”, pensou o dobrador de ar.

— Realmente, não tenho o suficiente para o que você cobrava, mas tenho uma boa quantia aqui. É mais do que você vai ganhar em anos com esses lixos — depreciou o forasteiro, apontando em volta.

— Eu ganho muito mais com outras coisas, e você sabe... — começou o vendedor.

— Você está muito longe para isso. Ba Sing Se enfrenta uma guerra civil no momento, deixando o Dai Li muito ocupado para lidar com você. E como você disse, ambos sabemos que eles eram seus maiores financiadores...

— Você não sabe de nada! Não preciso dessa sua miséria — disparou Norkka, e começou a se retirar.

Então, Ember entrou.

— Mas o que... — assustou-se ele.

E depois Rohan.

— Puta que.... — tremeu.

O Gigante o olhou de cima, com olhos desconfiados.

— É claro que a outra parte da barganha é mais atrativa. É ter seu corpo intacto. —Kuzou levantou-se, indo até ele. — Fiquei sabendo que temos um amigo em comum, Norkka.

— O-Olá, R-R-Rohan — balbuciou o comerciante.

— Por que a surpresa? Se você sabe da minha situação, deveria saber quem me acompanhava — prosseguiu o forasteiro, ácido.

— Fiquei sabendo de um homem gigante... mas podia ser qualquer um...

— Ora, e você já viu alguém maior que nosso amigo aqui?

— Não, mas... as pessoas costumam exagerar... — tentou justificar-se.

— Temos um acordo, Norkka?

O vendedor olhava de um para o outro. Parecia processar os prós e os contras da situação. Não parecia haver muita escolha.

Meneou a cabeça devagar, afirmativamente.

— Ótimo. Não temos tempo a perder. Vamos começar — ordenou Kuzou, relaxando a pressão sobre ele.

Norkka descongelou, e foi em direção aos fundos da tenda.

Eles ficaram algumas horas lá dentro, enquanto o informante arrumava os detalhes.

Era meio dia quando ele finalizou.

— Pronto, aqui estão suas identidades falsas. Vai passar aonde for: Baía da Lua Cheia, Ba Sing Se, Capital da Nação do Fogo... qualquer lugar.

Yan olhou para a sua foto no documento. Era exatamente igual, apenas mais embaçada. Seu novo nome era Yin Da Ka.

“Que criativo...”

— E o resto? — inquiriu o forasteiro.

— Como você pode ver, eu não tenho tudo aqui. Ou você acha que eu ia colocar todas aquelas coisas ilegais num lugar só, dentro de uma frágil tenda de trapos, no segundo maior mercado do mundo? — retorquiu o vendedor. — Os disfarces e afins se encontram em outro posto meu, por segurança. Eu vou lá pegar as coisas, e volto em dois ou três dias.

Começou então a sair.

— Você acha mesmo que vamos deixar você ir sozinho, sabe-se lá pra onde? — indagou Kuzou. — Vamos com você.

— Não, é perigos...

— Sem desculpas, Norkka! Você não vai a lugar nenhum sozinho — exaltou-se Rohan, levantando.

O comerciante pareceu murchar. Sem disfarçar a relutância, concordou.

Então todos se levantaram, e se prepararam para sair.

O sol escaldante os escoltou através das tendas, e da multidão que os cercava. Andavam todos em fila indiana de dois, com exceção de Norkka, que ia na frente, mas seguido bem de perto pelo Gigante e pelo forasteiro.

Ou seja, logo atrás, iam Yan e Ember.

Ambos evitavam se olhar no começo, carrancudos. No entanto, quando voltaram a atravessar o grande mercado, a bipolaridade da garota voltou a atacar. Num momento de alegria, ela, como uma criança, perguntou:

— Meu nome falso é Minna. Legal, né? Qual o seu?

— Yin — respondeu, azedo.

A garota riu.

— Que falta de criatividade! Ele pelo menos te deu um sobrenome decente? — troçou a menina.

— Não. Yin Da Ka. Nome de merda.

Ember então parou de rir. Começou a olhar para o seu documento repetidas vezes. Curioso, Yan inclinou a cabeça para ler o nome dela.

“Minna Da Ka”

De repente, o nômade também olhava para a sua identidade, à procura de uma explicação. Achou-a na parte de trás. Não gostou nem um pouco do que leu.

“Cônjuge: Minna Da Ka”

A dobradora de fogo também achara essa informação no documento dela. Ambos se olharam, com repugnância e indignação. Então avançaram contra o informante.

— Que porra é essa?! — berraram os dois, ao alcançarem-no.

O vendedor não entendeu qual era o problema, e simplesmente disse que era aleatório. Os outros, no entanto, entenderam de imediato e começaram a rir.

O resto do caminho até a saída do mercado foi o “casal” discutindo. Atraíram uma bela atenção, mas inofensiva. Só pareceram se cansar quando a cobertura das árvores acabou e eles chegaram na área seca que circundava a Grande Divisão.

— Onde fica seu outro posto? — interrogou Kuzou, quando chegaram perto do Canyon.

— O mais próximo fica na enseada de um rio ao sul. Logo estaremos lá — disse Norkka, coçando o nariz.

— Ótimo, então vamos nos apressar. Estamos todos nos arriscando no momento.

— Culpa de quem... — começou o comerciante.

Rohan pareceu se irritar, mas nada fez. Sua atenção foi fisgada por uma figura no horizonte. O calor fazia a silhueta parecer estar tremendo, dobrando-se em ondas.

O forasteiro também percebeu.

E cobriu todos dentro de uma cúpula de terra antes das chamas os alcançarem.

— Mas que p... — soltou Yan.

Sem hesitar, Kuzou desfez metade da cúpula e lançou o resto na direção do atacante. A figura simplesmente saltou por sobre o pedaço de terra, e começou a fazer chover bolas de fogo sobre eles. Uma parede ascendeu e os protegeu, enquanto Rohan jogava um enorme pedregulho contra o inimigo. Usando a dobra de fogo nos pés para propulsão, ele novamente desviou, e se dirigiu contra eles.

Ele então se tornou visível. Era um homem robusto, de ombros largos. Usava mantos variados enrolados no corpo, todos de uma coloração desértica. Os braços nus demonstravam o quão hirsuto era, junto com sua barba desleixada e seus cabelos negros cheios e mal cuidados. Era possível ver algumas cicatrizes no rosto e nos braços.

Com uma velocidade assustadora, dos seus dedos saíram relâmpagos. Antes que Rohan pudesse fazer algo, os raios atingiram-no. O Gigante foi jogado para dentro do Canyon.

Sem que fosse necessário pedir, Ember foi atrás dele.

Kuzou conseguiu proteger a si mesmo e aos outros do raio seguinte movimentado a parede de terra já existente.

— Mas quem diabos é esse cara?! — berrou Yan, exacerbado.

— Um mercenário! — respondeu o forasteiro, criando outra parede para aumentar a defesa. Bem a tempo: outro raio voou contra o espaço antes vazio.

O nômade se assustou com aquela informação. Mas não tanto quanto Norkka.

— Ele está atrás de vocês! Me deixa fora disso! — E começou a fugir.

O dobrador de terra o pegou pelo cangote antes que fosse capaz de realizar tal ato.

— Agora é! Te pagamos, então você vai levar o trabalho até o fim!

Naquele momento, a parede foi demolida pela força do próximo ataque, jogando os três no chão, entre os cascalhos.

O comerciante se levantou e olhou para o mercenário. Depois para Kuzou, que também levantava.

— Me encontrem em Gaoling! — comentou então, apenas para o ex-agente ouvir, e fugiu.

O mercenário aterrissou entre eles, com olhos apenas para o prêmio, ignorando o ser qualquer que corria para longe, em direção às árvores salvadoras.

O forasteiro pensou rápido. Com um movimento, uma onda de terra foi em direção ao caçador de recompensas, ao mesmo tempo em que o afastava do mesmo.

A cortina de fogo então desceu sobre eles. Entretanto, já estavam caindo para dentro da Grande Divisão, longe do raio de alcance do ataque, muito antes de esse ser uma ameaça.