A Lenda Sem o Avatar. (Livro 1 Agua)
1 I - Partida.
Notas iniciais
O sol eterno radiava fraco refletido por entre as longas e infinitas dunas de neve, enquanto a jovem devaneava tristemente, contemplando o temeroso horizonte que havia levado sua família. Primeiro sua mãe, depois seu pai e agora, seu irmão.
Ela odiava as terras além de sua ilha, mas sabia que o único modo de obter a paz era o enfrentando. Aquele mundo hostil, de onde vieram inúmeros demônios trajados de chamas e portando ferro e aço. Um horizonte perigoso que trazia consigo apenas dor e sofrimento.
O local onde estava sua família.
Voltou seu olhar para o iglu que agora parecia espaçoso sem seu irmão. Passou o dedo por seu colar ao se lembrar de seus pais e a saudade parecia mais cortante que o gelo sob seus pés.
Rumou vagarosamente ao seu lar com o desejo de que o aconchego de sua cama se assemelhasse ao abraço acolhedor de sua família.
Pela manhã, um vento gélido vem se despedir enquanto a jovem parte escondida de sua afável avó – que descansava docemente. Sonhava com o regresso de seu genro e neto que estavam distantes, lutando pela vida e liberdade que ela própria usufruía.
A neve sob seus pés a engole como um caloroso abraço de mãe, quase como se tentasse impedi-la de partir. Lançou um último olhar em seu pequeno vilarejo de gelo e amor – que atualmente era composto apenas de crianças, mulheres, e alguns idosos.
Ela põe tudo o que podia dentro de uma pequenina canoa feita a mão, e parte. Trazia apenas uma trouxa de roupas para se trocar, um saco de dormir, um pouco de alimento, a foto de sua família... E muita esperança.
Por dias, horas e semanas ela rema sem saber se estava seguindo em frente ou flutuando em círculos. O cortante vento ártico a castiga como se a obrigasse a regressar a seu lar, como se a empurrasse de volta, tornando sua luta ainda mais desgastante.
Suas mãos, cobertas por pura pele de urso-leão marinho costuradas em luvas, congelavam, porém ela não se importava. Estava focada em seu objetivo. Vencer aquelas águas, vencer seus medos e vencer a guerra.
Ela devaneia, voltando à época em que o mundo se tratava apenas de seu pequeno paraíso congelado, quando brincava com seu irmão, ligeiramente mais velho, enquanto sua mãe os observava orgulhosa; seu pai caçava junto dos outros homens de sua tribo e tudo à sua volta parecia cintilar.
Uma forte rajada a traz de volta de seus pensamentos, jogando-a contra a dura realidade em que se encontrava. Não tinha como lutar. O vento era forte e ela, fraca. Sua pequenina canoa é jogada de um lado a outro sem que ela pudesse se defender. Agarrando-se à vida e às suas poucas coisas, ela se abaixa, rendendo-se a força da correnteza.
O mundo para de girar.
Ela se levanta, sentindo o calor por baixo das grossas roupas de pele de animal tingidas de azul. Ao retirar suas luvas, percebe-as suadas, e o mesmo também escorre por sua testa, entrando sob sua roupa. Estava muito quente e ela se via no meio do oceano. Límpido e vazio.
Retirando o grosso e pesado capuz seus longos e ondulados cabelos se veem livres pra dançar conforme o vento. Duas pequenas tranças eram amarradas em sua nuca e ela logo trata de prender o restante do cabelo em uma trança grossa.
A forte tempestade havia a arremessado mais longe do que imaginava. Não fazia a menor ideia de onde estava, muito menos onde iria. O sol radiava forte e não podia se localizar pelas estrelas. Não havia aonde se cobrir ou como se proteger de um sol que nunca havia enfrentado na vida.
Ela retira seu manto grosso, cobrindo-se com ele e o fazendo de cabana. Teria tudo aquilo sido um grande erro? Será que sua mal iniciada aventura acabaria ali? Seus remos haviam desaparecido, levados pela mesma fúria que a havia arrastado até aquele local desabitado.
E ela está só.
Havia crescido cercada por água, água amiga. Era salgada, mas com esforço, ao dobrar um pouco da mesma conseguia retirar quase todo o sal. Porém esta era estranha. Muito salgada. Que tipo de água tem tanto sal? Não conseguia separá-la do sal com sua dobra, pois era tão demasiado salgada que se tornava pesada. Era impossível de beber.
A fome começava a apertar. Seu alimento era farto, porém ela sabia que não duraria muito. Desesperada e farta de ser sempre fraca ela põe suas mãos sobre a água novamente, como se estivesse tentando acariciá-la; ela ora e pede, tenta fazer força. Nada acontece. Tenta de novo. Agora com mais raiva e fúria. Parece funcionar, a água se move e ela se anima.
Iria sobreviver mais um dia.
Com cuidado e muita concentração ela vai puxando sua pequena canoa surrada em uma direção aleatória, porém era só a maré soprar que a levava a outra direção. Insistente, ela não desiste. Insiste e luta... E assim o dia passa, e chega a noite.
Em sua terra, a noite durava dias e os dias também tardavam a desaparecer, sendo como épocas do ano, porém, neste novo mundo o dia e a noite dançavam bem mais rápido, deixando-a um pouco confusa. Ela já havia ouvido falar que o mundo fora de sua terra congelada era muito diferente, mas não esperava que o dia e a noite também fossem.
Aproveitando que o sol impiedoso havia lhe dado uma trégua, ela tenta se localizar pelas estrela. Em vão. Até suas estrelas haviam sido levadas. Nada era conhecido. Em que mundo hostil e cruel ela estava?
Começava então a se questionar. Talvez tenha mesmo sido uma péssima ideia. Talvez devesse ter ficado em casa. Talvez esta seja a punição por não ouvir sua família, que sempre a protegeu de todos, e do mundo.
Volta a se lembrar de sua carinhosa mãe, seu sorriso tenro que a transporta de volta ao lar. Sua avó, que deveria estar a frangalhos atrás de si, seu pai que nem em seus sonhos devia imaginar que ela poderia estar naquela situação. E seu irmão. Seu teimoso irmão que, assim como ela, havia saído em busca de acabar com tudo aquilo alguns anos antes…
Ela desperta assustada. De novo o sol a castigava, cegando-a.
A boca seca, nada para beber. Como ela iria imaginar que alguém havia salgado ainda mais água? Só poderia ser culpa dos cruéis seres de fogo. O fogo deles deve ter feito a água evaporar até só sobrar todo esse sal.
O dia passa e ela continua sua luta contra os ventos e correntezas. O sol cruel faz sua pele arder e doer cada vez mais. O mundo começa a ficar embaçado. E de repente, tudo desaparece…
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Ela desperta com uma rajada de água fria sobre si. Estava acorrentada a uma parede de aço frio, e um demônio trajado de pele humana a encarava por baixo de suas vestes de aço e fogo. Ela treme e teme. O homem sorri, e sai da sala, trancando-a.
O imenso navio balança, fazendo-a se sentir cada vez pior. Aonde estavam suas coisas? Aonde ela estava? Demora algum tempo até que ela perceba que não estava sozinha.
Um velho magro a olhava entristecido, amarrado ao chão, abraçava uma pequena criança, que se escondia entre seu finos e fracos braços. Suja e ferida, a pequena parecia temer a tudo, não querendo ver nada, enquanto o velho observava tristonho o local à sua volta.
E, naquele momento, sem dizer uma única palavra, ele parece afirmar algo à pobre jovem de cabelos e pele morena. Algo que ela não demorou a compreender.
Nós vamos morrer aqui.
O tempo passa, mas o sol não desiste de castigar a pobre jovem, transformando a cela em um forno que balançava. Devaneios de sua pobre família já não a confortavam, pois ela nunca mais os veria.
Logo um braço forte a ergue do chão, forçando-a a caminhar para fora, enquanto os gritos da pobre criança estremecem seu corpo.
O miúdo era arrancado dos braços do ancião que, apesar do esforço, não pôde lutar contra a força dos homens. O senhor fica para traz e não demora até que um curto grito seja silenciado. Isso faz com que criança se desespera ainda mais, esmurrando os homens e chorando, inutilmente.
Já a morena, tinha seus pés tropeçando entre si e mal conseguia andar, sendo levada junto de outras jovens que, assustadas, engolem seco ao ver a antiga residente da Tribo da água do Sul ser atirada ao meio delas.
Fraca, ela não pode se reerguer, mas lutando por mais alguns segundos de consciência, consegue distinguir em que tipo de lugar está. Um cais; lotado de embarcações dos demônios, e de comerciantes acostumados com o terror e humilhação.
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