A Kill For A Kill

6 Placa de Boas Vindas


A garota à frente de Marshal parecia ser de poucas palavras. Ou era isso, ou simplesmente não arranjara o que dizer ainda. Desde que retirara o garoto da armadilha na qual ele havia se metido, não tinha dito muita coisa. Na verdade, assim que suas mãos se soltaram, ela virou-se e começou a caminhar. Fora uma iniciativa de Marshal acompanhá-la.

Fosse quem fosse, não parecia muito comum. Era bonita, muito embora tivesse um rosto comum, mas os cabelos louros e ondulados que desciam ao redor de sua cabeça lhe concediam um ar gracioso, tornando-a interessante de se ver. Usava roupas que, na opinião de Marshal, eram muito antiquadas, e isso porque ele não entendia muito de moda e vestimenta. Era um casaco que não chegava nem à altura do umbigo, com um vestido curto, que revelaria grande parte de suas pernas se elas não estivessem cobertas com um jeans estranho, de caimento esquisito, do tipo que Marshal só vira em fotos antigas de família, com sua mãe.

A garota caminhava com determinação, porque muito provavelmente já conhecia o lugar. O problema era que Marshal, que morava na vizinhança há tempo suficiente para dizer que a conhecia tão bem quanto a palma de sua mão, não se lembrava de algum dia tê-la visto andando por ali. Não que fosse um garoto muito atencioso para prestar atenção em quem circulava por aquelas ruas, mas ele sentia que certamente a acharia familiar se ela fosse mesmo das redondezas, até porque a garota não parecia pertencer àquele tipo de lugar.

- Para onde estamos indo? – Marshal perguntou de repente, incomodado com todo aquele silêncio.

- O que foi que disse? – ela perguntou, mas nem mesmo se deu o trabalho de se virar para encarar o garoto.

Marshal sacudiu a cabeça, decepcionado. Acabou mudando o questionamento quando disse:

- Onde é que estamos?

- Você não sabe? – ela indagou e só então parou no lugar. Marshal se lembrava daquela rua em que se encontravam, mesmo que a neblina tornasse difícil enxergar muita coisa ao redor. Um amigo seu morava por perto. – E como é que veio parar aqui se não sabe onde está?

- Digamos que eu não estava procurando esse lugar quando...

- Quando...?

Marshal não queria mencionar o túnel pelo qual entrara no aeroporto por medo de parecer um louco sustentando uma hipótese como aquela. Contudo, ao olhar novamente para o rosto da menina, que estava virado para o seu, percebeu que esse tipo de julgamento não lhe seria atribuído, já que ela parecia tão louca quanto ele temia parecer.

- Sei que pode parecer loucura – ele começou a dizer e foi ele quem voltou a andar, obrigando a garota a segui-lo -, mas eu entrei num túnel e vim parar aqui.

- Um túnel? – ela repetiu não como se duvidasse do que ouvia, mas porque queria confirmar a informação.

- Exatamente. Eu estava no aeroporto, onde eu pegaria um avião para fazer a viagem da minha vida para o Havaí, mas então aconteceu um tiroteio, eu fui alvejado no peito – ele mostrou o ferimento, que a garota encarou com certa repulsa — , dirigi-me ao banheiro para colocar a cabeça no lugar, ou para fugir, nunca vou saber, e de repente havia um buraco enorme lá, por onde eu entrei. – Marshal fez uma pausa, como se procurasse algum detalhe que estivesse faltando. – Eu mencionei que, de um segundo para o outro, não havia mais ninguém no aeroporto além de mim?

- Não, não mencionou.

- Fui abandonado com um tiro no peito. Devo estar precisando de tratamentos específicos com urgência, mas não tenho ninguém para cuidar de mim. Quer dizer, tenho você, mas não sei se você quer gastar seu tempo comigo... – Uma nova pausa. – O que houve? Aconteceu um apocalipse zumbi enquanto eu me escondia no banheiro?

- Apocalipse zumbi? – ela disse, esboçando um sorriso pela primeira vez. — Definitivamente não.

- Eu moro há muito tempo nessa rua e sei dizer que ela não é mais a mesma. Há criaturas que eu nunca vi antes caminhando pelo bairro como se tivessem sido soltas de um zoológico de aberrações. Além do mais, e essa neblina? Quando foi que a temperatura ficou tão ruim a ponto de deixar a neblina na altura dos olhos?

- Não sei te responder.

- Acho que ninguém sabe.

Continuaram a caminhar por mais algum tempo, mas em silêncio. A garota parecia acanhada demais para dizer qualquer coisa.

- Eu não agradeci pelo que você fez – Marshal disse, quebrando o gelo. – Muito obrigado.

- De nada.

- Mas como é que você sabia que eu estava lá?

- Você deve ter percebido que não há muitas outras fontes de som por aqui, então qualquer estilhaço que acontecesse dentro da sua casa eu ouviria, principalmente porque eu estava por perto. Até porque eu já passei por algo parecido...

- Eu nunca te vi por aqui.

- Eu não me surpreenderia...

- Faz muito tempo que você mora pra esses lados?

- Bastante.

- Engraçado como a gente acha que conhece todo mundo, mas não está nem próximo disso. – Marshal respirou fundo, sentindo-se pela primeira vez fatigado. – É muito fácil se surpreender nessa vida.

Não houve qualquer resposta. Enquanto isso, o ambiente continuava tão silencioso quanto antes e tão inóspito quanto parecia estar. Marshal já começava a se acostumar com aquilo.

- Como disse que se chama? – ele perguntou e direcionou um olhar à menina.

- Eu não disse.

- Meu nome é Marshal – ele disse e ofereceu o rosto para beijar a garota. A princípio, ela pareceu hesitar sobre o contato, mas então recebeu o beijo. – E o seu?

- Mila.

- Mila. Interessante.

- Obrigada.

- Para onde estamos indo?

- Não tenho um lugar específico em mente.

- O que quer dizer com isso?

- Estamos numa terra que não pertence a ninguém, então qualquer lugar é um lugar para o qual a gente pode ir.

- A gente podia ir para a sua casa. – Marshal estava recheado de segundas intenções.

- Não! — Mila respondeu com urgência.

- Ok, se não quiser ir para a sua casa, então não vamos. Mas por quê?

- É complicado dizer.

- Eu ofereceria a minha pra a gente ir, mas parece que não estou sendo muito bem recebido por lá. Como eu queria saber o que está acontecendo com ela...

Mila deu de ombros.

- Por que será que atiraram em mim? – Marshal tornou a perguntar.

- Como é que é?

- Por que será que aqueles canalhas quiseram atirar em mim? Eu não fiz nada de errado para eles. – Marshal procurou o olhar de Mila. A garota parecia estar um pouco tensa a respeito da afirmação do rapaz. – Eu fiz?

- Como é que vou saber? Talvez tenha feito.

- Eu não os conhecia, como é que poderia fazer alguma coisa com eles se não sabia nem quem estava por trás daquelas máscaras? É uma afirmação um tanto quanto tola.

- Não há consequência que não tenha a sua causa. Se você levou esse tiro, é porque fez alguma coisa. Talvez você só não saiba disso ainda.

- Nunca fiz nada a ninguém. Você deve estar enganada.

- Talvez eu esteja. Mas se você está aqui, algum motivo tem.

Marshal ouviu a frase e franziu o cenho. Não entendeu o que Mila quis dizer e não quis entender. Continuou a caminhar como se nada tivesse acontecido.

- Estou passando por mais coisas aqui do que já passei em toda a minha vida. Monstros, casas que se desfazem, como se quisessem me punir. Sofri mais medo do que qualquer criança é capaz de sofrer numa única noite. Isso me parece estranho.

Mila não disse qualquer palavra.

- Que lugar é esse, Mila? Que tipo de inferno é esse em que eu e você estamos presos?

- Não é um inferno propriamente dito, mas está bem próximo disso. Ah, e fique tranquilo, não somos os únicos aqui. As outras pessoa só estão escondi...

- Que lugar é esse, Mila? – Marshal parou no lugar e agarrou a garota pelo braço, obrigando-a a parar também. Ela estremeceu, assustada, e concedeu um olhar assustado ao garoto. Quando decidiu abrir a boca para falar, o que disse foi:

- Você não viu a placa de Boas Vindas quando chegou?

Marshal balançou a cabeça negativamente.

- Estamos em Silent Hill, Marshal.

Aquele nome não significava nada para o garoto, mas a tristeza com que Mila pronunciou as palavras deu a entender que ele devia se preocupar com isso. Ele não estava em casa, afinal de contas.