A Kill For A Kill
7 O Destino Final
Os dois continuaram a caminhar por aquela terra que, para Marshal, era familiar, mas que, por mais irônico que isso fosse, estava bem diferente de tudo aquilo com o qual ele estava acostumado. Ele sabia caminhar pelas ruas de seu bairro, os pontos de referência que conhecia ainda continuavam em suas devidas posições, mas a sensação de que aquele era o lugar onde ficava seu lar não se fazia mais presente. Era como se Marshal estivesse desbravando um novo mundo do qual ele nunca ouvira falar, nem mesmo em suas aulas sempre úteis de geografia.
Já Mila parecia estar acostumada àquela atmosfera como se já vivesse ali há muito tempo. Sua linguagem corporal, com uma postura imponente, a cabeça erguida, o rosto determinado, fazia parecer que nada mais era capaz de surpreendê-la naquele lugar nebuloso. Marshal, por sua vez, caminhava como alguém cauteloso, envergado, as mãos sempre próximas ao rosto, ao peito – onde o ferimento ainda continuava aberto -, como se para se proteger caso a necessidade viesse a aparecer. Ele havia conhecido Mila há pouco tempo, mas sentia que podia confiar nela – ou melhor, sentia como se devesse confiar nela, uma vez que não havia mais ninguém ao redor para que essa confiança fosse depositada. Além do mais, se ela conhecia tão bem assim aquele ambiente, ele estaria fazendo um bom negócio ao acompanhá-la.
É claro que Marshal estava ignorando o fato de que Mila havia dito que aquele não era mais o bairro que ele conhecia, e sim um lugar completamente novo chamado Silent Hill. Ele ouviu o que ela disse, percebeu que havia alguma preocupação na voz da garota quando pronunciou as palavras, mas, como nada daquilo fazia sentido, ele simplesmente ignorou. Para ele, ele continuava em seu bairro, mas algum tipo de transformação tinha acontecido nele. Silent Hill era um nome com o qual ele não estava familiarizado, portanto, não significava nada.
E depois de duas horas caminhando com a garota sem mencionar nenhuma palavra sequer, porque, muito provavelmente, os dois tinham muito no que pensar, Marshal se deu conta de que havia caminhado bastante, mas que não tinha chegado a lugar nenhum. Quer dizer, passaram por diversas ruas, umas até que ele não se lembrava de existir, porque jamais tivera interesse em desbravar tão bem assim o seu bairro, mas não fizeram nenhuma parada, como se estivessem sem rumo. Isso já era perturbador por si só, mas então ele percebeu que, mesmo depois de toda essa caminhada e tanto território coberto, ele não havia visto mais nada ou ninguém ao redor. Marshal ficou feliz porque não encontrou nenhum novo monstro ou nada do tipo, mas, ainda assim, a perspectiva de que não havia mais nenhuma pessoa por ali o preocupou um pouco. Afinal, o que tinha acontecido com a normalidade da região? O que havia acontecido a todo mundo?
Será que morreram?
Foi nesse instante que ele se sentiu na obrigação de perguntar:
- Você falou que estamos em Silent Hill – começou a dizer. – E que lugar é esse, então?
- Não sei explicar – Mila respondeu prontamente, como se apenas esperasse que a pergunta surgisse. – É um lugar como qualquer outro, talvez.
- Não, esse não é um lugar como qualquer outro. Esse aqui é o bairro onde eu moro, nada além disso. Mas ele está modificado.
- Por isso que digo que é um lugar como qualquer outro.
- Isso não faz sentido, Mila. – Marshal levou uma mão à testa e limpou o suor. Não estava muito calor, mas a intensa caminhada o estava fazendo ficar mais fatigado do que outrora. – E para onde foi todo mundo?
- Eles estão onde sempre estiveram.
- Hum. – Marshal deu de ombros. Começava a imaginar que nem Mila sabia dizer o que havia acontecido àquele lugar e que só o estava enganando com todas aquelas palavras sem embasamento nenhum. Decidiu mudar o rumo da conversa. – Eu sei que já perguntei isso antes, mas não consigo me lembrar do que você respondeu. Para onde estamos indo?
- Há um lugar para onde vamos ao anoitecer, que nos abriga.
- É mesmo? Mas todas essas casas ao redor me parecem bons abrigos. Porque simplesmente não arrombamos alguma dessas portas e entramos como se a casa nos pertencesse? Parece tudo tão abandonado. Tenho certeza de que não estaríamos cometendo crime nenhum em circunstâncias como essas.
- Não é uma boa ideia, Marshal.
Marshal procurou o olhar de Mila, em busca de uma resposta, e ela o concedeu, as sobrancelhas franzidas, tensas.
- Você viu o que aconteceu na sua casa – ela respondeu. – Essas casas... Bem, acho melhor a gente ir para onde tenho passado a noite nos últimos dias.
- E que lugar é esse? Que tipo de abrigo?
Mila vacilou, como se não quisesse responder. Marshal não fez a pergunta novamente, preferindo esperar que ela respondesse quando tivesse vontade.
- É como uma igreja – ela disse, por fim. – Podemos passar a noite por lá. É onde a maioria das pessoas fica.
- Uma igreja? – Marshal repetiu, surpreso. – Uau. Por essa eu não esperava.
- Você tem alguma religião, Marshal?
Marshal pensou um pouco no assunto.
- Digamos que faz um bom tempo que não vou à igreja, mas eu costumava ser católico. – Fez uma nova pausa. Aquele era um tópico no qual ele não ele não dedicara muita atenção durante sua vida. – Sabe, Mila, as experiências que tive na minha vida me levaram a imaginar que não há um Deus realmente com o qual podemos confiar. Mas entendo que as pessoas precisem acreditar nesse tipo de coisa, e respeito completamente.
- Não faz mais que uma obrigação.
Marshal franziu o cenho, novamente surpreso.
- Nós vamos rezar nessa igreja?
- Sim. É o que nos mantem vivos e seguros.
- Mila, acho que não é uma boa ideia eu ir com você...
- Marshal, acho que você só não acredita nesse Deus que você diz porque não viu nenhuma prova de que ele pode existir de fato. Imagino que, em algum momento, você deve ter orado com muita fé, aguardando com as maiores expectativas que seus pedidos fossem realizados, mas não obteve nenhuma resposta. Não obteve nenhum milagre. Mas é porque esse Deus concede uma proteção diferente da que buscamos por aqui.
- O que você quer dizer com isso? Vamos rezar para quem?
- Rezamos para que nossos pedidos de proteção sejam atendidos, mas rezamos para quem desejamos rezar. Não há regras quando o que importa é apenas ter fé.
Marshal tornou a franzir o cenho. Não conseguia entender qual a finalidade daquela conversa.
- Certo – disse, por fim. – E estamos chegando a essa igreja?
- Sim. Estamos bem próximos.
E de fato estavam. Seguiram por mais aquela rua, caminhando na mesma velocidade, até que fizeram a curva à esquerda, onde a rua se alargava num imenso pátio. Mais à frente, ficava a igreja.
E ela era monumental demais para que Marshal não conseguisse se lembrar caso já a tivesse visto antes. Construída com uma arquitetura antiga, cheia de colunas e com três torres, gárgulas de monstros estranhos por todo o lugar, a igreja ficava no fim de uma imensa escada. Antes dessas escadas, havia um caminho de tijolos ladeado por um jardim onde havia alguns ornamentos de pedra, além de novas gárgulas. Marshal concedeu um olhar mais atento a eles e percebeu que eram lápides. Até onde sabia, aquele tipo de organização de uma igreja não era tão comum.
A princípio, achou aquele lugar muito horripilante para parecer seguro, mas como não o conhecia, preferiu, mais uma vez, confiar em Mila, que já estava pra lá de familiarizada com tudo aquilo. Se ela dizia que aquele era um bom lugar, era bem provável que fosse mesmo.
Depois daquela parada, que permitiu que Marshal esquadrinhasse todo o ambiente por completo, Mila indicou com o olhar que eles deviam seguir adiante, e assim eles fizeram. Nem mesmo quinze passos depois, algo estranho aconteceu.
Uma sirene forte e alta o bastante para ecoar por toda a parte ressonou. Marshal assustou-se imediatamente e novamente procurou o olhar de Mila, em busca de uma explicação. Ela engoliu em seco e apenas correu em direção à escadaria. Aquilo era um pedido para que ele fizesse mesmo, mas o garoto manteve-se pregado ao chão, tenso.
E foi então que centenas de outras pessoas surgiram por todos os lados, correndo como se um chamado tivesse sido omitido. Homens e mulheres velhos passaram pelos portões da igreja e avançavam a passos rápidos em direção à entrada do lugar sagrado. De tão afoitas, algumas pessoas tropeçavam nos próprios pés e gritavam de frustração.
Enquanto isso, a noite caía tão notavelmente que era possível perceber a diferença de claridade que começou a se fazer naquele momento. Num segundo, o dia estava cinzento, nebuloso, no outro, não havia qualquer outra luz, além das que vinham de tochas acesas ao redor da igreja.
- MARSHAL! – o garoto ouviu alguém gritar. Voltou seu olhar para o topo da escadaria e encontrou Mila, que sacudia as mãos no ar, chamando-o para entrar também. – SUBA, RÁPIDO!
Não foi preciso pedir novamente. Contaminado pela urgência que havia ao redor, o garoto também correu para a escadaria. Parecia o melhor a se fazer, já que ele não estava disposto a descobrir o que estava acontecendo realmente.
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