A Kill For A Kill

4 A Volta Para a Casa


Mas Marshal era jovem e, por isso, bastante curioso.

Sempre pensou que pudesse simplesmente seguir seu caminho e ignorar aquela nova presença, procurando um lugar seguro para ficar até tudo voltar ao normal – quando a neblina se dissipasse –, ou até mesmo encontrar sua casa, que não ficava muito longe. A julgar pela temperatura e pela pouca claridade, podia-se dizer que aquele dia estava apenas começando, e que muito provavelmente seus pais deviam estar em casa se perguntando por onde andava o filho. Mas Marshal ignorou todos esses pensamentos e decidiu que não havia problema nenhum em saber o que era aquilo que vinha em sua direção.

Por isso, ao invés de seguir adiante pela rua que havia escolhido, ele foi em direção à silhueta.

Estava a uns cinquenta metros quando dela ele começou a caminhar. Apesar da visão turva, ele ainda conseguia enxergar a movimentação do responsável por ela. De longe, teve a impressão de que se tratava de uma pessoa que estava passando mal, o que seria mais um motivo para ele ir adiante, já que poderia oferecer ajuda, se fosse esse mesmo o caso. Ela se sacudia de um lado para o outro, em pé, e, como Marshal não conseguia ver seus braços, ele supôs que ela segurava a barriga, onde devia estar sentindo uma dor muito forte. A maneira como suas pernas estava flexionadas também davam a impressão de que a pessoa estava fraca.

Em nenhuma dessas reflexões Marshal acertara o que era aquilo de fato.

A dez metros da criatura, distância em que a neblina não era mais um obstáculo, ele percebeu que aquilo não era uma pessoa. Primeiro porque, fosse o que fosse, tinha a pele cinzenta e desenhada por veias que pareciam muito expostas em sua pele. Além disso, também não tinha rosto. Entre os ombros, apenas uma corcova, como a de um camelo, sem nenhuma feição ou nada parecido. Era uma criatura magra, isso para não dizer esquelética, e era possível ver os contornos de suas costelas na região de seu peito. Era uma criatura que não tinha braços. As pernas flexionadas pareciam doentes. Se já não bastassem tantos detalhes bizarros, havia mais um: uma boca em lugar errado, posicionada na altura de onde devia ser seu coração, negra e que se mexia como se fosse uma micose com vida.

Marshal franziu o cenho e sentiu o estômago embrulhar. Encarou a monstruosidade à sua frente por apenas alguns segundos, tempo suficiente para tirar todas as conclusões que precisava e provocar a fúria da criatura. Ele já estava dando uns passos para trás quando, por aquela boca nojenta e negra, foi expelido um líquido em sua direção, como um projétil que quisesse acertá-lo. Marshal instintivamente virou-se de costas e ainda assim recebeu o ataque. Percebeu que aquele não era um líquido comum quando sentiu as costas arderem como se tivessem sido cobertas com taturanas.

E então ele correu.

A criatura protestou, voltando a fazer aquele barulho irritante que Marshal nunca ouvira na vida, mas o garoto não estava pensando em parar tão cedo. Em pouco tempo, já avançara por distância suficiente para dobrar uma esquina e se sentir seguro de que não seria mais perturbado pelo que quer que fosse aquilo.

- Mas o que foi aquilo? – ele sussurrou enquanto corria.

Longe do olhar do monstro, se é que aquilo tinha algum olho, Marshal decidiu caminhar. Com tanta neblina à frente, ele não conseguia prever os obstáculos que poderiam surgir, como postes, outras pessoas ou até carros. Em seu interior, ele sabia que estava abandonado naquele lugar e que não havia mais ninguém que conhecesse que pudesse ajudá-lo ou até mesmo trombar com ele no caminho, mas como aquela região parecia guardar muitas surpresas para quem estivesse nela, então ele sentia como se não devesse deixar de considerar certas hipóteses.

- Eu conheço esse lugar – ele falou ao dobrar uma nova esquina, agora há alguns minutos já de sua casa. – Oras, esse aqui é o meu bairro, o lugar que eu frequento todo dia! Mas por que está tão diferente? E por que está tão vazio?

Marshal sabia as respostas para essas perguntas, mas preferia ignorá-las até o momento em que as ouvisse da boca de outro alguém.

- Olá! – ele gritou, fechando uma concha com as mãos em torno da boca. Tinha intenções de fazer o som ir mais longe com isso, mas tudo o que conseguiu foi o mesmo que conseguiria se só tivesse falado ao invés de gritado. – Olá! Tem alguém nessa droga de lugar?!

Nenhuma resposta.

Marshal sentia que começava a ficar desesperado, e levou uma mão ao peito, como se isso fosse fazer seu coração desacelerar um pouco. Foi então que reparou novamente no ferimento que andara carregando por ali: o tiro.

- Isso só pode ser um sonho – ele sibilou ao encarar seus dedos ensanguentados, sujos porque tocaram o pequeno buraco que a bala fizera em seu peito. – Como é que posso estar vivo e bem se estou com um tiro cravado no peito? Só pode ser um sonho, e um dos piores. – Marshal engoliu em seco, limpando o sangue dos dedos no jeans. – Um pesadelo.

Com o coração batendo mais forte, o sangue escorria com mais rapidez. Marshal tinha conhecimento suficiente para deduzir que, se andasse perdendo tanto sangue nos próximos minutos, morreria de tão fraco que ficaria. Só não se preocupou mais com isso, porque já estava bem próximo de sua casa, onde ele poderia encontrar todos os itens necessários para cuidar do ferimento e evitar que sua morte chegasse antes do desejado.

Dobrou a esquina mais uma vez e estava diante de sua rua. Mais calmo, caminhou determinado, avançando pela neblina em direção à sua casa, que era a quarta na calçada da direita. Encontrou-a sem dificuldade, muito embora a rua vazia o estranhasse um pouco, já que, em dias normais, ela sempre estava cheia de crianças brincando e correndo para todos os lados. Não sabia porque, mas imaginou que fosse encontrar o portão principal, enorme e de madeira, num enorme muro de paredes amarelas, trancado, mas ele não estava. Na verdade, com um empurrão ele conseguiu abri-lo. Isso o deixou muito estupefato porque aquele era um vacilo que gente como seus pais não costumavam cometer enquanto ainda estivessem com a sanidade nos conformes.

Entrou sem pedir licença e tratou de trancar a entrada assim que passou por ela.

Subiu o minúsculo jardim que servia de garagem para o Hilux do pai com uma porção de passos e alcançou a porta da frente da casa, que estava fechada e parecia incólume. Sem pensar duas vezes, agarrou a maçaneta e forçou-a para dentro, conseguindo abri-la. O cheiro sem igual que havia no saguão de entrada, perfumado pelos incensos caros que sua mão comprava, não estava ali. Os móveis eram iguais, tudo era igual, mas era como se aquela não fosse sua casa. Parecia estranha, como se tivesse sido habitada por outras pessoas.

- Olá! — ele chamou. – Tem alguém em casa?

Não obteve resposta. Acho que já estou me acostumando com isso.

Fechou a porta às suas costas e retirou o casaco que vestia, jogando-o na poltrona que sempre esteve ali, perto da porta.

Começou a andar mais para o interior da casa, atingindo o primeiro corredor. Olhou de um lado para o outro sem qualquer dificuldade. Pelo que parecia, a neblina não podia entrar na casa, portanto, quando Marshal viu um vulto se mover no fim do corredor à esquerda, ele teve certeza de que não estava vendo coisas e que havia, sim, mais alguém dentro da casa. Essa pessoa só não queria se manifestar, mas devia, já que estava dentro de uma casa que não a pertencia.

- Olá? – Marshal tornou a chamar. – Eu vi você aí, não adianta se esconder! – Nenhuma resposta. – Eu vou chamar a polícia e denunciá-lo se não disser agora quem você é!

Mais silêncio.

Marshal tinha medo, mas, mesmo assim, não deixou de seguir em frente no corredor para descobrir a quem pertencia aquele vulto. Mais uma vez, a curiosidade falava mais alto.