Marshal deu um passo à frente no corredor e logo a casa começou a se transformar. Ele não percebeu de imediato, e só perceberia assim que a mudança ficasse na altura de seus olhos.

O que aconteceu foi que o chão começou a se descascar, assim como a parede, como se passasse por um processo de envelhecimento acelerado jamais visto em circunstâncias normais. Isso já era bem assustador, mas então essas lascas de piso e papel de parede se desprenderam de suas respectivas posições e flutuaram como se o lugar não tivesse mais gravidade nenhuma, e foi uma dessas lascas que chamou a atenção do garoto para o que estava acontecendo.

Marshal olhou ao redor e viu quadros caindo, móveis se desfazendo, como se bastante velhos, vasos se espatifando no assoalho que, agora ele podia enxergar, estava descascando. Era uma imagem horrível de se assistir, ver tudo aquilo se envelhecer de forma tão rápida. Perturbado, Marshal começou a tocar a própria pele para se certificar de que aquilo não estava acontecendo também a ele, e não estava. Mas nem por isso se sentiu melhor ou mais confortável com a situação.

Se antes ele queira correr para alcançar o invasor de sua casa, agora ele corria para salvar a própria vida do que quer que estivesse acontecendo no momento. Pensou em voltar no corredor e partir pela mesma porta pela qual entrara, mas então percebeu que ela não era mais a mesma. A porta, que antes era de madeira clara, desenhada com quadrados e com maçaneta que simulava ser de ouro, agora era um terrível portão de ferro enferrujado, prendido com correntes que já tinham sofrido bastante com o tempo. As janelas já não existiam mais. Tudo o que havia eram paredes degradadas e cobertas com o que parecia ser uma camada grossa de cera derretida, o que dava uma tonalidade avermelhada, quase alaranjada, ao ambiente todo – coisa que só pôde ser vista e observada por uma pequena fração de segundo, porque então o saguão de entrada da casa, ou o que foi ele algum dia, mergulhou em escuridão.

E foi nesse momento que Marshal partiu pelo corredor.

A essa altura, as mudanças já estavam quase que totalmente feitas. Paredes que antes eram cobertas em lindos papéis de paredes floridos agora eram paredes comuns de alvenaria, cobertas com aquela cera que parecia vazar do teto. Era tudo tão mórbido, vermelho, que parecia sangue. Aliás, Marshal imaginava que estivesse sentindo cheiro de sangue, mas então se lembrou de que, qualquer que fosse aquele novo lugar, ele também estava coberto de ferrugem, que também tinha um cheiro bem forte.

Correndo, o garoto chegou aonde devia ser sua cozinha. É claro que ela não estava mais como antes. Mesas e balcões cheios de ornamentos foram substituídos por mesas de metal – macas? – e balcões cheios de objetos médicos envelhecidos e potes com partes de corpos. Pelo menos foi o que Marshal imaginou que fossem, já que não concedeu um olhar muito atento àquelas coisas.

Sem perceber, desceu por uma escada de ferro que se projetava para o interior do chão e que nunca fez parte de sua casa. Agarrou-se ao corrimão, percebeu que o ferro estava quente e logo desistiu da ideia. Desceu com pressa e chegou ao fim da escadaria com poucos segundos. Deparou-se com uma comprida, mas estreita, ponte de ferro que levava a uma porta muito pequena à distância. Ao redor, tudo parecia como estivesse dentro de uma caverna, mas não uma qualquer, e sim uma de vulcão. Marshal, olhando com cautela para baixo, percebeu que havia algo queimando lá embaixo, de onde vinha todo o calor e a claridade que havia por ali. Percebeu que uma queda não era o que ele procurava no momento, pelo menos não se não quisesse perder a vida de forma lenta e dolorosa. Encarou a porta no fim da perigosa ponte e constatou que devia seguir até ela.

Suas pernas vacilaram e tremularam só com a ideia de ter que percorrer aquele caminho.

- Preciso fazer isso – Marshal disse, como forma de autoconvencimento. – Não posso ficar aqui, vou acabar morrendo, essa casa está se desfazendo!...

Um chiado percorreu seus ouvidos, impedindo que continuasse com seus pensamentos. Marshal fechou os olhos até ele terminar e, então, voltou o olhar para cima, de onde ele parecia vir. Com desgosto, percebeu um monstro exatamente igual ao que acabara de enfrentar descendo a escada com tanta dificuldade que aquele simples ato lhe parecia um desafio. Talvez por estar irritada, a criatura não parava de expelir ácido por aquela sua boca pútrida. Uma das gotas do líquido quase puderam tocar Marshal.

Esse fato foi suficiente para motivar de vez o garoto a seguir em frente.

Marshal correu sem cautela alguma. Avançou pela ponte como se corresse em uma via comum para pedestres, sem nenhum obstáculo. Claro que, se não fosse o monstro às suas costas, ele não agiria assim, como um completo tolo, mas a situação era desesperadora, portanto, pedia medidas desesperadas. Seus pés batiam nas grades fazendo um estrondo perturbador, porque a todo momento se tinha a impressão de que a ponte ia ceder e cair, não conseguindo suportar o peso do garoto.

O que ele não sabia é que a ponte iria cair, mas não porque não conseguia sustentar o seu peso.

O monstro, quase rolando pelo restante dos degraus, expeliu uma quantidade considerável de ácido quando Marshal já estava a cinco passos de alcançar a porta. Gotas desse ácido acertaram como uma fileira as grades da ponte, que, com apenas uma pisada de Marshal, permitiu que fosse feito um rompimento em sua extensão, justamente na parte em que havia sido corroída. A grade, que agora só estava presa pelo outro lado, onde estava a porta, caiu, descrevendo um arco para baixo. Em consequência, Marshal também caiu.

Mas agarrou-se à grade a tempo de evitar que seu corpo fosse inteiramente carbonizado em quantidades infindáveis de lava.

A ponte colidiu com a parede de pedra e lá permaneceu. Marshal gritou um palavrão e suspirou, de certa forma aliviado. No final, não morrera, mas ainda estava bem próximo disso. Suas mãos seguravam as grades com força, mas suavam, tamanho o nervosismo do garoto. Seus pés, também afetados pelo mesmo sentimento, pareciam não obedecê-lo muito bem e não queriam se manter firmes às grades. Marshal olhou para cima e constatou que faltava pouco para chegar à porta. Ele só precisava escalar.

Mas isso parece tão difícil, pensou, engolindo em seco.

Conseguiu subir um pouco, mas seus braços estavam fraquejando com mais rapidez do que ele jamais imaginara que algum dia seria possível. Sempre pensou que tivesse resistência suficiente para enfrentar desafios como aqueles sem se preocupar. Agora percebia que não era bem assim.

Tudo bem que a resistência ele tinha, mas o medo da morte fazia com que ela não significasse nada em momentos como aqueles.

Marshal subiu mais um pouco, agora já bem próximo da porta. Sentia que poderia conseguir, mas, ainda assim, precisava de uma ajuda. Por que não havia ninguém ali por perto para ajudá-lo? Será que ninguém naquela vizinhança medíocre percebia que ele estava passando por maus bocados?

Foi então que aporta se abriu, revelando não só um feixe de luz, mas um braço, que se estendeu na direção de Marshal com urgência. Nenhuma voz fez qualquer pedido, mas o garoto era suficientemente inteligente para entender que a ajuda que ele andara pedindo estava ali, insistindo para que ele a acatasse.

Sem pensar duas vezes, Marshal soltou uma mão e agarrou o braço, que também agarrou o seu, com firmeza. Então, o garoto soltou a outra mão e seu corpo balançou como um pêndulo para o lado. Depois de um longo suspiro de pavor – a perspectiva de poder cair a qualquer momento naquele mar de fogo era ainda pior do que em seus pesadelos -, ele levou a outra mão ao braço.

E só então ele foi puxado e erguido.

E se deparou com o rosto de uma menina rodeado de luz. Ela disse algo, mas ele não ouviu. Depois disso, terminou de puxá-lo. Marshal rolou para o lado, respirou fundo e estava pronto para passar o restante de sua vida daquele jeito, deitado, mas então a garota voltou a agarrá-lo e erguê-lo num único puxão.

- Não volte a entrar nessa casa – ela disse. – Ela não te aceita.

- Como é que é?

- Agora vamos. Não é bom andar sozinho por aqui.

A garota voltou a puxá-lo pela mão e correu. Marshal não teve outra opção senão acompanhá-la.

Notas finais
Desculpem a mega demora! Tive problemas para resolver esses dias e quase nenhum tempo para escrever, mas aqui está o capítulo novo, e espero que ele esteja bom :)