A Jornada do Rei

5 Um Plano Quase Perfeito


Levantei de onde estava e me debrucei sobre as grades esperando a continuação de Jack. Como ficou calado, tive que lhe indagar.

— Vamos, qual é o plano ?

— Lhe contarei Tiw, só...estou calculando algumas coisas, estou a tempos planejando isso.

— Com 6 meses no cárcere o mínimo que eu teria era um bom plano.

— Hoje você está...um tanto quanto ácido Jovem!

— Desculpe amigo.... é o sentimento quando se tem um enforcamento marcado para amanhã. — Respondi com pesar por ter sido rude com ele.

— Bom, vamos ao meu plano. E pra isso você precisa vir até minha cela Tiw!

— Se não houvessem essas grades no caminho, com toda certeza eu... já... — Vi então o Jack me jogar um molho de chaves.

— Testa pra ver qual é a da sua cela!

Olhei para ele com descrença, ele tinha em mãos as chaves de todas as celas.

— Meu amigo, como conseguiu isso ? Isso vale mais que todo ouro desse reino! — Lhe perguntei enquanto procurava qual chave abria a minha cela. Tentava conter, mas não conseguia, e um sorriso bobo cruzava meu rosto.

— Sabe...esses soldados daqui duvidam com a própria vida que alguém tentará fugir um dia. Toda essa prepotência e superioridade faz eles serem desatentos. Um dia um deles veio aqui e consegui pegar uma das chaves. Como todas as vezes mudam o molho sem conferir, a cada vez que vinha um novo guarda, eu pegava uma nova chave. Assim consegui todas as chaves sem que eles descobrissem. Aprendi que se alguém duvidar da sua capacidade, deve ficar quieto e lhe mostrar do que é capaz, e é isso que faremos. O desprezo deles por nós será a ruína deles!

Consegui abrir minha cela e sair pra fora dela, pisei no corredor sem estar com dois guardas ao meu lado pela primeira vez. Me senti mais livre, mais leve e até o ar que respirei foi um pouco melhor. Andei até a cela de Jack e o olhei dizendo:

— Bom, agora vamos tentar descobrir...bom pelo seu olhar não vamos precisar descobrir qual chave abra sua cela não é querido amigo? — lhe disse impaciente, enquanto o mesmo abria a sua cela, que nunca esteve trancada todo esse tempo. — pelos Deuses! Por que não me disse que podia sair esse tempo todo ? — Perguntei-lhe, entrando em sua cela e cruzando meus braços como se estivesse irritado.

— Controle-se Tiw, ou os guardas nos ouvirão! Bom, eu consegui a minha chave logo nos primeiros dias, e de que adiantaria tentar fugir pela porta de entrada ? Tem 12 guardas lá fora, e eu seria facilmente capturado... então, fiz o projeto de um plano, pensei, refiz, recalculei tudo nesses 6 meses. Usei meus conhecimentos, meus anos de estudo, minha estadia no palácio...— Interrompi dizendo que voz de deboche:

— Aguardando o momento em que para de se gabar e me diz o bendito do plano!!

— Está bem, vamos lá. Se sente aqui. Preciso pegar algumas coisas para lhe explicar perfeitamente!

Ele se levantou e tirou de um buraco na parede alguns papéis, tirou também uma baqueta de madeira e dois amuletos, que continham um pequeno Rubi no centro. Lhe indaguei impaciente:

— Então vai tentar comprar os guardas com os amuletos e usar o mapa pra fugir do palácio ?

— Da pra me deixar organizar as coisas por 2 minutos ? Só por dois minutos ? Juro que se não fosse meu único amigo lhe tacaria uma pedra. — Respondeu um pouco bravo, e assumo que fiz por merecer.

— Me perdoe se novo. Sei que se dedicou muito nisso!

Fiquei calado pelos próximos minutos, o vendo preparar uma infusão com algumas ervas, posicionar o papel que continha uma planta do palácio. Me deu um dos amuletos e refletiu um pouco fitando o mapa a sua frente, então finalmente se sentou ao meu lado e começou a falar.

— Está vendo esse ponto ? Bom, é bem onde estamos agora. Fica na ala Sul do palácio, do lado oposto a saída convencional, que fica na ala Norte! Mas não vamos sair pela saída convencional, ou seremos pegos e mortos, nós vamos pelos dutos de refrigeração, inclusive tem um bem nessa masmorra, mas poucas pessoas sabem disso, garanto que só eu e mais umas 3 pessoas tem conhecimento disso — Interrompi perguntando:

— Dutos de refrigeração!? Isso é uma tecnologia muito avançada, como geraram essas máquinas que produzem frio?

— Quem falou em Máquinas ? As vezes você me parede tolo e esqueço que veio do campo. Magos Tiwry, magos que tem afinidade com o elemento gelo. Cerca de 15, fechados em uma sala, transmitido frio para dutos por todo o palácio, entendeu ?

Fiquei abismado com a informação, sabia que existiam magos, mas eram boatos, e era raro se ver um pelas ruas, aliás, era mais provável que fosse alguém fantasiado. Aquilo era novo pra mim, só estava acostumado com alfaces, cenouras, e essas coisas.

— Como você acha que aquela lamparina fica acesa o tempo todo sem combustível dentro dela ? É magia das chamas garoto, magos com afinidade com esse elemento as acenderam. — Me disse Jack, olhando para meu olhar encantado.

— É... incrível — Respondi friamente.

— Enfim, esses magos ficam nesses dutos por todo tempo, e são muito bem recompensados por isso. Ganham uma fortuna. Porém, na madrugada há uma troca de turno, e por 30 segundo deixa de sair o ar gelado em todo palácio. Essa vai ser nossa janela de abertura. Teremos que ser rápidos. Vamos entrar pelo duto em algum lugar dessa masmorra, engatinhar até a sala dos magos e lá esperar até o momento da madrugada. Então, quando ocorrer a troca nós saímos e buscamos algum lugar pra se esconder na sala deles, e depois de nos acalmarmos saímos de lá. Vamos dar de cada nesse corredor. Guardas fazem patrulhas matinais então teremos de ter cuidado ao caminhar. Vamos ter que pegar esse caminho, e sairemos nos jardins laterais do palácio. Escalamos um ou dois muros, e então cairemos direto na rua. Tudo entendido ?

Refleti alguns segundos o plano, pensei realmente ser a melhor possibilidade de fugir. Assenti com a cabeça e ele me explicou mais alguns detalhes do plano.

— Hey Jack, e pra que serve os amuletos!?

— Se precisar, esmague eles com os pés. Consegui com amigos antes de entrar aqui e se esmagados conseguem deixar o portador invisível por 1 minuto mais ou menos! Só use em casos extremos.

— Tá bom! interpretarei "Casos extremos" como: "Quando você usar eu uso" assim não teremos conflito, certo?

— Feito Tiw! Agora volte para sua cela amigo, a noite começa nosso plano. Reflita ele e não deixe de ficar focado. Vamos fugir desse lugar!

As horas foram se passando e eu não tirava o plano da minha mente. O plano, A minha mãe, o Governador Ben. Os 3 não deixavam minha mente, pensei tanto neles que assim que o Sol se pôs eu tomei a tirar um cochilo involuntário. Acordei com Jack me dando suaves chutes e sussurrando meu nome. Levantei assustado, pensando ser um soldado mas logo me acalmei. Perguntei a ele por alto que horas eram aquelas. Me respondeu que não passava das 1 da madrugada, e que pelos cálculos dele, entre as 2 e as 3 acontecia a troca de turno. Saímos da cela e então fomos procurar por onde os dutos jogavam o ar gelado para a masmorra. Procuramos por algum tempo até que senti uma pedra bamba no pé, tentei levantar ela e com alguma dificuldade tirei ela. Um ar frio subiu em minha cara e avisei prontamente ao Jack. Ele pulou no buraco primeiro, e disse que não era muito fundo, tinha cerca de 2 metros e meio de altura. Pulei arrastando minhas mãos na parede e cai sem danos no chão do duto. Era um corredor pequeno para não ficarmos em pé, porém grande o suficiente para que a gente conseguisse engatinhar. E assim fomos, seguindo a planta do palácio, que já estava na mente de Jack. Em pouco tempo chegamos em algum lugar, era possível escutar vozes. Então o corredor se alargou, e podemos engatinhar lado a lado.

— Jack! Jack! — Sussurrei baixinho em seu ouvido esquerdo.

— Hun! — Ele murmurou para que eu falasse.

— agora é só esperar, você tinha razão.

— Sempre tenho, agora se concentre!

Olhei entre as grades do duto e vi uma enorme sala, 6 magos com capaz branco gelo, estavam em círculos e com as mãos estendidas. Todos com os olhos fechados e incrivelmente concentrados. Falavam palavras em uma língua que não compreendia. Aquilo era magia pura. Olhei ao meu lado e Jack desparafusava a grade que fechava o duto com uma das chaves do seu molho. Com cuidado, retirou e a colocou dentro do duto sem fazer barulho. A sala era completamente isolada, de maneira que nenhum som entrava e também saía. Estávamos em um canto, nas costas de um desses magos. Então, uma luz atravessou pela porta, era mais algum tipo de magia, e de novo fiquei encantado com aquilo. Parece que eles entenderam pois logo, balançaram a cabeça um com os outros, mesmo de olhos fechados. Então um abriu e disse em nossa língua que era hora da troca. A porta de abriu e 6 magos estavam lá fora. Os magos de dentro então saíram de suas posições e caminharam, pararam um pouco na porta e cumprimentaram quem vinha tomar seus lugares. Foi o momento perfeito em que eu e Jack pulamos do duto e nos arrastamos pelo chão até ficar atrás de um banco confortável que havia lá dentro. O chão estava tão gelado que quase ficamos grudados nele.

— A primeira parte foi Tiw, agora vem a complicada. — Jack disse me olhando.

Então rapidamente, agachou-se e andou por um ponto cego da sala. Conseguimos chegar na porta antes de terminar os cumprimentos. Os 6 magos novos entraram sem nos ver e assumiram seus postos com as mãos estiradas, fecharam os olhos enquanto a porta se fechava. Saímos rápido e os dois pularam no gelo. Jack passou facilmente pela porta que já se fechava, já eu, grudei no gelo e se não fosse puxado por ele, seria esmagado pela porta, que fechou em um som calmo. Senti o frio cessar em minhas costas e o meu coração voltar a bater depois dessa emoção. Jack sacudiu o gelo de minha roupa e ficamos atrás de um vaso no corredor. Decidimos que era melhor esperar um guarda passar para que tivéssemos noção de tempo. Não demorou muito até um preguiçoso passar e dobrar a direita. Estava um breu danado e fomos seguindo pelo canto do corredor. Mas naquela noite, um novo duto tinha sido feito justamente onde estávamos passando. Jack não previu isso. A grade do duto se rompeu, e como era mais apertado que o túnel onde passamos, sua perna direita entrou totalmente nele, quebrando seu tornozelo e deixando sua Tíbia fraturada. Olhei para ele agarrando em sua camisa para que não caísse mais e pensando em quanto tempo aguentaria a dor.

—...aaaaaaaaaaah!!!!! Aaaaaaaaaaaaaaah Maldiçãooooooo! — E seus gritos de dor ecoaram por todo palácio. Vi luzes se ascendendo, e apesar de não ter chegado em muitos locais, alguns guardas já vinham ao nosso encontro.

Tampo a boca dele com um pedaço que rasguei de minha camisa e também o tirei rapidamente do buraco. Na queda, deixou seu amuleto cair, e pensei que aquilo seria um momento de emergência. Pisei em meu amuleto o esmagando e ele no dele, mas foi tarde.

— Guardas Jack...o que faremos amigo? — Sussurrei em seus ouvidos. Mas olhei para ele e ele tentou sorrir pra mim com muita dor. Fez movimentos de cabeça pedindo para que eu corresse com ele.

— Eles não estão nos vendo...

Sai com ele pendurado em meus braços, os guardas estavam averiguando os dutos quando dobrei uma das curvas do corredor, não tinha a planta do palácio em mente, e Jack o deixara cair junto aos amuletos perto do buraco. Então, olhei pra trás e me deparei com um rastro de sangue, e não demoraria para que o seguissem. Levei Jack pra uma direção de, e o rastro de sangue foi feito até um muro. Também peguei um pouco e manchei a parede. Aquilo os atrasaria. Segui para a outra direção limpando os rastros. Avistei uma das poucas salas com as luzes desligadas, pela janela do alto, conseguia ver uma enorme estante de livros e intuí que seria uma biblioteca. O tempo da invisibilidade estava passando, então subi em um banco, coloquei Jack em meus ombros e o empurrei. Sua perna estava destroçada mas seus braços ainda eram fortes o bastante. Se segurou na janela e pulou para dentro, caindo no chão. Logo depois pulei, mas o efeito da invisibilidade tinha passado e um guarda viu minha perna. Cai quase que em cima de Jack e ouvi os guardas cercarem a sala.

— SAIAM AGORA, OU VAMOS INVADIR! — Gritaram com toda força.

— Jack, isso parece estar muito feio, se não nos entregarmos você vai morrer amigo! — Falei, tirando a mordaça que coloquei na boca dele para que não gritasse.

— Mas você vai morrer hoje, não podemos desistir de nossa fuga! — Ele disse me olhando nos olhos enquanto chorava.

Não contive a emoção e o abracei forte. Os guardas estavam quase derrubando a porta até que escutei uma voz familiar ao fundo que perguntava.

— Pelos deuses, o que você faz aqui Jovem Tiw !